A Esperança está vencendo o medo. É Natal!

(Publicado no JORMAL O TEMPO, 08/12/2002, sessão: Opinião, p. 9.
no JORNAL DE OPINIÃO, 23 à 29/2002, sessão: cidadania, p. 13,
e na FOLHA DA BOA NOVA, nov/2002, p.18.)

O Natal, apesar de tão violentado pela idolatria do mercado, vem aí reacendendo em nós os melhores sonhos e desejos. Com o nascimento de Jesus acontece a humanidade e a jovialidade de Deus. Deus se faz frágil e cheio de ternura. Assume a condição humana e arma sua tenda no nosso meio, entrando pela porta dos porões da humanidade. A força inspiradora do Natal é mais forte do que todas as tramas para amordaçar o Deus que se faz menino pobre. Natal é para recriar a atmosfera sagrada de nossas origens e abrir o coração para abraçar causas libertárias. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, o dom mais sagrado.
Provavelmente o dia 27 de outubro de 2002 entrará para a história como o dia do NATAL do povo brasileiro, dia em que o povo resolveu dar à luz os sonhos bons de libertação, dizendo ADEUS AOS SISTEMAS DE OPRESSÃO E AOS OPRESSORES. Um legítimo filho do povo foi eleito para presidente. Respira-se no ar o sentimento de que um outro Brasil está nascendo, mais justo e mais solidário.
A esperança começou a vencer o medo. Com os pés no chão, uma explosão de alegria toma conta da maior parte do povo brasileiro. Os ventos começaram a soprar na direção de mudanças importantes que resultarão em mais vida para o povo. Estamos movidos pela esperança e pela confiança de que é possível um outro Brasil, onde mulheres, homens, crianças, jovens e idosos tenham todos uma vida digna e feliz. A auto-estima do povo está sendo resgatada.
Os Pára-lamas do Sucesso cantam: “a esperança não vem do ar nem das antenas de TV, a arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê...” Aqui transparece uma crítica sutil a muitas esperanças “fogo de palha” que são cultivadas no seio da sociedade brasileira. Agora, a Esperança que pulsa nos corações do povo tem raízes profundas, tronco firme e copa frondosa. Milhares de pessoas deram a vida para que hoje pudéssemos cantar que a aurora insiste em nascer. É Natal com razões da nossa esperança (I Pd 3,15)! De onde vem nossa Esperança?
- Vem da sociedade civil organizada, que se expressa num grande movimento popular que permeia todo o Brasil, constituindo uma Rede de Solidariedade e de luta por Justiça que está presente em todas as cidades e na maioria das pessoas. É Natal!
- Vem de 502 anos de noite escura para os povos indígenas, resultando num massacre de mais de cinco milhões de indígenas. Mas a estrela de Natal começa a brilhar para e a partir dos povos indígenas. Não foi em vão o sangue deles derramado. Prova disso é que o povo indígena Tapirapé está renascendo no Mato Grosso. Os Tapirapé estavam em extinção. Dos 1500 de antigamente foram reduzidos a 47 por causa das incursões dos Kayapó, das enfermidades dos brancos e da falta de mulheres. O cacique Marcos lamentava: "Os Tapirapé vão desaparecer. Os brancos vão acabar conosco. Terra vale, caça vale, peixe vale. Só índio não vale nada". Mas as Irmãzinhas de Jesus, há 50 anos, começaram viver com os indígenas Tapirapé o evangelho da fraternidade na roça, na luta pela mandioca de cada dia, no aprendizado da língua e no incentivo a tudo o que era deles, inclusive a religião, num percurso solidário e sem retorno. A auto-estima deles voltou. Graças à mediação delas, conseguiram que mulheres Karajá se casassem com homens Tapirapé e assim garantissem a multiplicação do povo. De 47 passaram hoje a 520. As irmãzinhas se tornaram parteiras de um povo. É Natal!
- Vem de Zumbi dos Palmares, dos quilombos e do crescente movimento negro que vem colocando na ordem do dia o combate ao racismo mascarado existente na nossa sociedade. Vem da cultura negra que nos ensina, entre tantas sabedorias, que a terra (e a mulher) é viva, tem axé, é fonte de vida. É Natal!
- Vem da grande rede de solidariedade existente pelo Brasil afora, tal como o Sítio Santa Clara , no Rio de Janeiro, onde o casal Eliete (uma funcionária pública) e Cícero (um economista) se tornaram os pais de setenta e duas crianças filhas do descaso, da pobreza e da injustiça social. Lá acontece a uma aula prática de amor, de cidadania, de solidariedade e respeito. Eliete e Cícero vivem para e com os meninos que eram abandonados. Todas as crianças estão na escola, tem atendimento médico e psicológico através de voluntários. A glória de Deus brilha no sítio Santa Clara e nos diz que nossa esperança não nos enganará. É Natal!
Enfim, a esperança vem de milhões de estrelas humanas, num feixe de relações humanizadoras, sustentadas por uma mística libertadora que inspira e motiva a luta para a superação das gritantes desigualdades entre nós.
Num grito silencioso, os pobres clamam: “Presidente, os ricos têm recursos, tudo podem fazer; nós só temos você, não deixe nossos corações pararem de sorrir.” Esperamos que dia 01 de janeiro de 2003 seja o Natal verdadeiro do povo pobre brasileiro. Rico em esperança!

Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm
Email: gilvander@igrejadocarmo.com.br