As CEBs são filhas dos/as Helenistas

(Publicado nos sites: www.cebs11.org.br, www.cebsuai.org.br, www.igrejadocarmo.com.br e outros mais.)

-------------A partir de Atos dos Apóstolos, podemos dizer que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) têm como pais e mães o grupo dos Helenistas. Estes eram judeus cristãos de língua e cultura grega, residentes em Jerusalém (provavelmente originários da diáspora), grupo profético, crítico em relação à Lei e ao Templo; são também os perseguidos e dispersados no dia da grande perseguição contra a igreja de Jerusalém, depois do martírio de Estevão (8,2), é um grupo missionário cheio do Espírito Santo, que "leva" o Evangelho aos samaritanos e aos gentios, construindo modelos diferente de ser Igreja . Depois da morte de Estevão, eles se dispersaram, mas os apóstolos ficam (At 8,1). Nesta dispersão eles cumprem a ordem de Jesus em 1,8 (o que os apóstolos não fizeram): disseminar o evangelho por toda parte até os confins do mundo. Eles anunciam a palavra por toda à parte: Filipe, aos samaritanos e ao eunuco etíope (At 8,5-40); outros do mesmo grupo, aos gregos (At 11,19-21).
-------------No livro de Atos dos Apóstolos uma grande seção é dedicada aos Helenistas - At 6,1ss até 15,35 -, com os relatos intercalados dos atos de Paulo (At 9,1-31) e os de Pedro (At 9,32-11,18), tem sabor de novidade original. Os atos dos Helenistas compreendem inclusive o Concílio ecumênico de Jerusalém, pois este acontece em função dos clamores da igreja de Antioquia, uma igreja da periferia, do meio dos excluídos, fundada pelos Helenistas.
-------------A igreja de Antioquia é filha, em parte, da perseguição desencadeada com o martírio de Estêvão (At 8,1b). A perseguição gerou dispersão. Os primeiros cristãos Helenistas tiveram que fugir para não serem eliminados também. Assim chegaram na Samaria, em Antioquia e até os confins da terra, Roma.
-------------É importante observar que existe uma unidade em Atos no relato da missão de Jerusalém a Antioquia (At 6,1-15,35). Nestes nove capítulos temos uma unidade com identidade própria, dedicada à escolha, missão e legitimação dos Helenistas. Não se trata de uma unidade puramente intermediária ou de transição. A coerência literária e teológica de At 6,1-15,35 começa com uma assembléia geral em Jerusalém, onde o grupo dos sete Helenistas é constituído (At 6,1-7), e termina com outra assembléia geral, o "concílio ecumênico de Jerusalém", onde é confirmada a posição teológica da Igreja de Antioquia (At 15,1-35).
-------------Usamos a palavra Helenistas com a letra maiúscula para referir-nos ao grupo especifico iniciado com os sete Helenistas do qual se fala em At 6,1-7. Lucas apresenta também este grupo como o dos discípulos mais fiéis ao Jesus histórico. A palavra helenistas com letra minúscula designa unicamente uma característica cultural: língua (e cultura?) grega.
-------------O clamor das viúvas helenistas (At 6,1) chegou aos corações de membros da comunidade cristã de Jerusalém e suscitou uma re-organização com a implementação de novos ministérios, dando cidadania aos Helenistas, antes marginalizados pelo grupo dos apóstolos. O Espírito de Deus soprou quando o poder foi partilhado e democratizado. A chave que destrancou as portas para a missão entre os gentios foi a criação de novos ministérios, os Sete Helenistas.
-------------"Aqueles que haviam sido dispersos desde a tribulação que sobreviera por causa de Estêvão, espalharam-se até ... Antioquia" (At 11,19). Este versículo faz a conexão com 8,1.4: a perseguição que gera a dispersão dos Helenistas. O cristianismo foi levado a Antioquia pelos Helenistas expulsos de Jerusalém. Assim o Movimento de Jesus se enraiza em lugares antes excluídos. Aqui aparece uma novidade: em Antioquia os missionários pregavam aos gregos com muitas conversões. A notícia de que pregaram somente para os judeus (At 11,19) é desmentida por At 11,20.
-------------Quem anuncia o evangelho em Antioquia? Alguns cipriotas e cirineus, cativados certamente pelos Helenistas. Chegando a notícia à Igreja de Jerusalém, enviaram Barnabé para confirmar a fé da comunidade. Em seguida, Barnabé vai a Tarso buscar Saulo. Assim uma igreja iniciada por Helenistas vai pouco-a-pouco incomodando a igreja de Jerusalém e muitos membros desta vão passando por um processo de conversão, Pedro, por exemplo.
-------------O êxito em Antioquia foi grande, com o apoio de Barnabé e Saulo. Foi lá que, "pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos" (At 11,26). Os primeiros seguidores de Cristo eram tão parecidos com Cristo que o povo começou a exclamar espontaneamente: "É a cara dele!" São semelhantes a Cristo, são "outros Cristos". Por isso são Cristãos. Esse "pela primeira vez... chamado de cristãos" revela um salto de qualidade e uma perspectiva muito nova na igreja de Antioquia, algo inexistente até então.
-------------Através do Rosto da Igreja de Antioquia (At 13,1-3; 14,26-28) podemos vislumbrar a fisionomia das Igrejas lideradas pelos Helenistas.
Rastreando as entrelinhas de At 13-14 percebemos os seguintes traços no rosto da igreja de Antioquia, que são características das igrejas dos Helenistas:
-------------a) Fundada por Helenistas, seguidores do protomártir Estêvão.
-------------b) Dirigida por cinco profetas e mestres (Barnabé, Simeão, chamado o Negro, Lúcio, da cidade de Cirene, Manaém, companheiro de infância do governador Herodes, e Saulo - 13,1). Em Antioquia estava uma igreja de profetas e mestres; não se fala da existência de "presbíteros" em Antioquia (como na Igreja de Jerusalém - At 15,2).
-------------c) Uma igreja orante, não-preconceituosa e comunitária, onde os conflitos eram discutidos e de forma democrática se deliberava sobre as atitudes a serem tomadas.
-------------d) Essencialmente missionária e itinerante; Incrível como seus missionários viajavam! Se formos enumerar os lugares por onde os missionários Helenistas estiveram evangelizando dá uma grande lista. Por exemplo, Antioquia, Chipre, Salamina, Pafos, Lida, Icônio, Listra, Derbe, etc. Lucas faz questão de mostrar os/as protagonistas das primeiras comunidades cristãs sempre em movimento, indo para onde o Espírito sopra e agindo conforme o Espírito inspira agir.
-------------e) Corajosa que não se deixava intimidar pelas perseguições.
-------------f) Direção multicultural e diversificada. Temos a presença de negros (Simeão, por exemplo, possui um nome aramaico, com o apelido latino de Níger que o identifica como negro); cipriotas (Barnabé é um levita originário de Chipre (At 4,36); Lúcio, nome latino, é procedente do norte da África (Cirenaica); gente que conviveu com Herodes durante a infância (Manaém, por exemplo - cf. At 13,1); e Saulo, um fariseu convertido de Tarso.
-------------g) Libertadora com opção pelos marginalizados e excluídos. Por isso Estevão, Paulo e Barnabé são expulsos pela elite... (cf. At 13,50).
-------------h) Rompe definitivamente com a Sinagoga (e o Templo, antes de 70 d.C.) e vai aos gentios com liberdade total.
-------------i) Liderança e Protagonismo das mulheres. Maria, Lídia, Priscila, Dâmaris, quatro virgens profetisas, filhas de Filipe e tantas anônimas e muitas silenciadas. A missão dos Sete Helenistas abre mais espaço para a liderança e o protagonismo das mulheres. Claro que a instituição dos presbíteros e da primazia dos Apóstolos tendia a marginalizar as mulheres, concentrando a liderança das comunidades nas mãos de homens. As mulheres puderam continuar tendo importância e voz ativa somente nas comunidades cristãs onde continuou o profetismo.
-------------j) Projeto organizado e vivido a partir da "casa". O espaço da casa era o espaço da comunidade cristã distinto do espaço do Templo. Quem presidia era o chefe local, cabeça da comunidade eclesial, que se reunia em sua casa. Os Atos começam em uma casa (At 1,13; 2,1) e terminam em uma casa (At 28,31). Atos vai de uma casa em Jerusalém a uma casa em Roma.
-------------Filhas dos Helenistas e das Helenistas, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) vão resgatando o novo escondido nas origens, rompendo barreiras, insistindo em re-inventar o jeito de ser Igreja, sem medo. Assim as CEBs vão celebrando as lutas, toda vida do povo. As mulheres não arredam o pé da luta, insistem em lutar por cidadania dentro da Igreja e vão presidindo celebrações, liderando a partilha da Palavra na hora da homilia (palavra grega que significa diálogo, conversa), abençoando, batizando, presidindo casamentos e criando novos ministérios que respondem ás necessidades novas do povo de Deus. Honrando nossos pais e mães Helenistas, as CEBs continuam gritando: "Desistir da luta, jamais!" "Nós somos povo de Deus, igreja viva!"

Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm
Email: gilvander@igrejadocarmo.com.br