Bíblia, farol aceso para a Comissão Pastoral da Terra

(Publicado no JORNAL PELEJANDO, nov/2000, sessão: Bíblia e vida, p. 06)

“Então os olhos deles se abriram...e voltaram para Jerusalém.”
-----------De 12 a 15 de outubro DE 2000, aconteceu em Divinópolis, no CEFESP (Centro Ecumênico de formação e Espiritualidade), a quinta e última etapa do curso de formação bíblica promovido pela CPT/MG. Com o objetivo de reforçar o trabalho de base e a mística da Comissão Pastoral da Terra, mais de 40 agentes de pastoral e líderes de CEBs fizeram o curso que tinha como tema geral: TERRA NA BÍBLIA e BÍBLIA NA TERRA. O curso compreendeu cinco etapas de 3,5 dias cada uma, desenvolvido ao longo de dois anos. Na 1ª etapa foi feita uma introdução ao tema da TERRA DE ISRAEL/PALESTINA E DO BRASIL. Vimos que a Palestina, embora seja uma pequena faixa de terra, somente com cerca de 180 Kms de norte a sul e uns 80 Kms de leste a oeste, foi e continua sendo uma região estratégica, pois a mesma se encontra na encruzilhada entre três continentes: África, Europa e Ásia. Na época bíblica as grandes rotas comerciais passavam pela Palestina. Ainda hoje podemos ver em curso na terra da promessa a luta entre “o pequeno Davi e o grande Golias”, pois hoje temos lá, de um lado os palestinos jogando pedras (à mão ou com estilingues) contra o exército de Israel. Este com suas armas sofisticadas e blindados tanques de guerra mantém a ocupação (ou invasão) da chamada “Terra Santa”. E o Brasil, com três vezes mais terras férteis do que a China, não consegue alimentar o seu povo, porque a terra do Brasil também está seqüestrada em poucas mãos gananciosas. Na 2ª etapa o assunto foi TERRA NO PRIMEIRO TESTAMENTO, com enfoque sobre LUTA PELA TERRA NOS MOVIMENTOS MESSIÂNICOS NO BRASIL E NO MUNDO BÍBLICO. Aqui foi dado um destaque para Lampião e os cangaceiros, Contestado, Antônio Conselheiro e Canudos. Na 3ª etapa continuou-se no PRIMEIRO TESTAMENTO com MITOS, TERRA E ORGANIZAÇÃO NAS CULTURAS AFRO-DESCENDENTES, INDÍGENAS E BÍBLICA. Na 4ª etapa foi trabalhado sobre luta pela terra no período INTER-TESTAMENTÁRIO E NAS EPÍSTOLAS PAULINAS. Na 5a e última etapa refletimos sobre os MOVIMENTOS CONTEMPORÂNEOS DE LUTA PELA TERRA NO BRASIL e levantamos a pergunta “E NA BÍBLIA, JOSÉ?”
-----------Queremos partilhar com você(s) um pouco do muito refletido e vivenciado nesta última etapa.
-----------Depois de uma retrospectiva sobre a luta pela terra no Brasil de 1964 para cá e de uma apresentação com debate sobre a luta pela Reforma Agrária liderada pelo Movimento dos Sem Terra, pelos sindicatos de trabalhadores rurais e FETAEMG com o apoio do partido dos Trabalhadores, nós, parodiando Carlos Drumond de Andrade perguntamos “E na Bíblia, José?” Em outros termos, o que a Bíblia tem a nos dizer sobre a nossa luta atual por uma autêntica Reforma Agrária com seus desafios, dificuldades, táticas e estratégias? Tentamos iluminar a nossa discussão a partir do profeta Miquéias, da luta “revolucionária” dos Macabeus e da resistência das CEBs do Apocalipse.
-----------Evocando Ecl 3,1-8 nos perguntamos “Que hora é agora?” Vimos que é hora de alimentar a MÍSTICA que sustenta a luta, que dá coesão, que dá unidade na diversidade, que respeita o diferente, que encoraja a co-inspiração; enfim, é hora de reconstruir e cultivar a esperança dos deserdados da terra.
-----------O profeta Miquéias, os Macabeus e Apocalipse nos dizem que o Deus misericordioso e libertador continua sussurrando e cochichando em nossos ouvidos. Precisamos ser sensíveis para ouvirmos os apelos e os clamores dos deserdados da mãe Terra. Perguntamos Quais os faróis acesos e quais as forças (energias) que nos encorajam para a luta pela/na Terra nos Movimentos contemporâneos no Brasil? Constamos que podemos encontrar Luzes e Forças na Bíblia, na História, com seus fatos marcantes e históricos, no cotidiano da Vida, no miúdo do dia-a-dia, nos mártires de ontem e de hoje, na natureza, no planeta Terra e no Universo, na arte, nas Utopias e nos sonhos sonhados em conjunto, em livros, nas celebrações, nas músicas, nos/nas companheiros/as, em Hebreus 12,1-4, quando nos exorta: “Corram com perseverança...! Fixem os olhos em Jesus Cristo...! Não percam o ânimo...!” Enfim, tem faíscas de entusiasmo, de luzes e de resistência em muitos “lugares”.
-----------Foi bom recordar Miquéias (725 a 696 a.C.), um profeta contra o latifúndio. Miquéias denunciava os abusos sociais sobretudo contra os camponeses (Mq 2,1-5) do sul. Miquéias condenou os chefes exploradores “que comem a carne do povo, arrancam-lhe a pele...” (Mq 3,1-3). Miquéias é mencionado em Jr 26,17-19. Aqui Jeremias anuncia, em 609 a.C., que o Templo e a cidade de Jerusalém serão destruídos (Jr 26,6). Jeremias é processado. “Os anciãos da terra” defendem Jeremias invocando Miquéias. “Os anciãos da Terra” são agricultores do interior e seguidores de Miquéias. A utopia de uma sociedade transfigurada é anunciada por Miquéias quando ele afirma: “De suas espadas vão fazer enxadas, e de suas lanças farão foices.” (Mg 4,3). E em Mq 5,2 anuncia que o novo rei salvador não virá de Jerusalém, onde residem os reis atuais. “Virá de Belém, tão pequena...”.
-----------Foi animador estudar a REVOLTA DOS MACABEUS (de 167 a.C. até 63 a.C.), onde constamos tratar-se de uma resistência “nacionalista” por soberania em nome da Fé no Deus da Vida e da Libertação. O ponto central dessa resistência é a preservação da identidade religiosa e cultural do povo judaico. O objetivo inicial era a libertação religiosa, mas aos poucos se transformou em busca de independência política. Embora com as hostilidades dos judeus, o rei greco-helenista Antíoco Epífanes IV enviou, em 167 a.C., tropas para “capturar” Jerusalém (cf. 1Mac 1,29-32; 2Mac 5,23-26). Antíoco IV impôs uma guarnição grega para vigiar a cidade que permanecia turbulenta. Em 167 a.C., ele mandou erguer sobre o altar dos holocaustos outro altar destinado a receber sacrifícios pagãos. Assim instituía-se o culto idolátrico no coração do judaísmo, pois o templo era para os judeus o lugar sagrado por excelência. Era demais! Era mais forte do que um pastor da Igreja Universal chutar a imagem de N. Sra. Aparecida. Era chutar o próprio Deus libertador do povo. Isto era a ofensa das ofensas, a blasfêmia das blasfêmias. Os judeus eram também obrigados a não mais observar o sábado, a comer refeições proibidas pela Torá e a não mais circuncidar seus filhos (1Mac 1,44-59). Era um desrespeito total à religião e à cultura judaicas. Segundo 2Mac, Antíoco IV mandara erguer no templo uma estátua de Zeus Olímpico; Este era o deus eminente dos gregos, deus do sol, soberano, senhor das tempestades e da fecundidade. O rei Antíoco Epífanes IV ordenara a realização de sacrifícios pagãos e autorizara a prostituição sagrada; a celebração das festas judaicas fora suprimida e substituída por celebrações mensais em honra do deus Dionísio; igualmente as prescrições referentes à pureza alimentar e à circuncisão ficavam proscritas (2Mac 6,2-10; cf. Dn 11,31.36-39).
-----------Neste contexto a revolta dos Macabeus com defesa armada começou com um pequeno grupo reunido por Matatias e seus filhos. Matatias, intimado a fazer sacrifícios segundo o rito grego, matou o emissário do rei e fugiu com seus filhos e alguns partidários (cf. 1Mac 2,1-4.15-28). Aliou-se aos assideus e começou a empreender expedições punitivas contra os judeus helenistas (1Mac 2,42-48). Matatias foi morto, após alguns meses, em 166 a.C., deixando o comando ao seu filho Judas Macabeu (1Mac 3,1). Muitas operações foram realizadas até que em 164 Judas e seus seguidores conseguiram reconquistar o Templo, realizar a sua purificação e mandar restabelecer o culto javista na sua integridade. 2Mac 7 conta a tortura e o assassinato com requintes de crueldade de uma mãe com seus sete filhos. Motivo: Se negavam a “comer produtos importados pelo Império invasor.” (2Mac 7,1) Queriam ser fiéis ao Espírito original da Aliança com Javé, o que implicava valorizar as próprias raízes culturais e religiosas. Temos que nos “envenenar” tomando “Coca-cola” invés de leite ou suco de frutas?
-----------A literatura bíblica apocalíptica nos ajuda a reconstruir (e cultivar) a Esperança e resistir em tempos de repreensão, opressão e repressão imperial. As CEBs do Apocalipse vivem em tempos de caos e de exclusão, perdidas no meio de um imenso Império, onde não conseguem mais identificar o inimigo; este se torna invisível. Os cristãos descobrem que em tempos de ditadura política e/ou econômica quem levanta a voz para denunciar as opressões deve esconder a cabeça para que não seja “degolado”. Por isso o Ap tem linguagem simbólica como meio de denunciar tentando preservar a vida dos denunciantes.
-----------Em Dn 2,31-45 fala-se de um sonho do rei Nabucodonosor no qual ele viu uma grande estátua cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, os pés em parte de ferro, em parte de argila; uma pedra, que se destacou “sem intervenção” de mão alguma, pulverizou esta estátua, da qual nada restou; a pedra transformou-se em grande montanha que recobriu toda a terra. Segundo Daniel, cada um dos metais representa um império: a cabeça é o próprio Nabucodonosor e o reino de ferro esmagará tudo, mas a mistura de ferro e argila representa sua fragilidade; O que vai subsistir é o Reino de Deus, efetivado a partir da argila (Gn 1-2), da fragilidade, da força e da lógica do amor. O império é um gigante, mas com pés de barro. Devemos identificar e atacar o tendão de Aquiles, “os pés de barro” (as fragilidades) do Império.
-----------O Ap revela o “céu”: torna visível a dimensão oculta, transcendente e profunda da história. O Ap é “algo mais” em relação à Bíblia (Torá, Profetas e Sapienciais).
-----------Situando-se na caminhada as CEBs os cristãos descobrem que o plano está conforme a vontade de Deus. E dizem: “É Deus que nos conduz. Deus está no volante da História. Vamos continuar a resistência.”
-----------Veja se você consegue identificar a História na seguinte leitura apocalíptica atualizada:
-----------“Tive uma visão. Após um período de seis anos de guerras e matanças, de fome e destruição, a paz se estabeleceu no mundo inteiro. Mas foi por pouco tempo. Terminou a guerra quente, começou a guerra fria. Um anjo gritou: “Os que querem a guerra e a morte estão avançando. Eles agem com muita raiva, pois o tempo deles está limitado!”
-----------Então, foi aberto o Primeiro Selo: E aquele que detinha o poder, chamado por todos ‘Pai dos Pobres’, foi destituído e se matou para poder viver no coração do povo!
-----------Então, foi aberto o Segundo Selo: E os que foram instituídos para defender o povo e manter a ordem e a segurança enganaram o povo e estabeleceram a desordem por três vezes sete anos.
-----------Então, foi aberto o Terceiro Selo: E aquele que era visto como o salvador da pátria, na hora da posse, foi derrubado e pela doença e o país ficou à deriva sem rumo, por cinco vezes doze meses.
-----------Então, foi aberto o Quarto Selo: E aquele que tinha sido indicado pelos pobres para reconduzir o povo para a paz foi derrubado nas urnas pela mentira collorida, e o país caiu nas trevas.
-----------Então foi aberto o Quinto Selo, e ouvi a voz do povo, prisioneiro do salário mínimo, sacrificado no altar da Pátria Real, gritando em alta voz: ‘Até quando, Senhor?’ E foi lhes dito; ‘Agüentem mais um pouco de tempo só, pois logo virá o fim e a paz ser restabelecida para sempre!”
-----------Então foi aberto o Sexto Selo. Um tumulto se fez no céu. O sol escureceu, a lua sangrou, a terra tremeu, o mar transbordou, as estrelas caíram. Dos quatro cantos do universo avançavam os anjos gritando: ‘Enfim será restabelecida a Ordem que Deus quis quando criou o mundo!” Os grande do mundo tremeram em seus palácios. Uma voz gritou: ‘É o começo do fim!”
-----------Quando abriram o Sétimo Selo, um silêncio percorreu a terra. O universo inteiro cantava um canto novo: “Amém! Aleluia! Nós te damos graças, Senhor, porque assumiste teu grande poder e passaste a reinar. Enfim, a injustiça foi eliminada e destruída. A reforma agrária foi feita. Agora todos têm o seu lote, sua casa, seu quintal. Acabou-se a violência. Todos vivem com segurança, sem medo. O céu baixou entre nós! A paz chegou e o povo é feliz para sempre! Amém! Aleluia!”
-----------Em Ap 12,1-17 temos o conflito entre uma mulher e um dragão. A mulher aparece como sinal de vida: está grávida e a ponto de dar a luz a um filho homem. O dragão é sinal de morte: está lá para matar o filho da mulher; além disso, com seu rabo, arrasta uma terça parte das estrelas. O confronto é entre a vida e a morte. A vida aparece formosa, porém débil e frágil; a morte aparece como uma força horrorosa e poderosa. A mulher dá à luz não em “Belém”, mas no “Gólgota”. Refere-se às dores e ao tormento do nascimento do Messias na cruz; é o nascimento do Homem Novo na cruz. A mulher do Apocalipse foge para o deserto, mas não foge do mundo; foge do centro do poder. Ap 12,1-6: Deus toma posição a favor da vida ameaçada de morte.
-----------Em Ap 13,1-14,5 fala-se de duas bestas. Ap 13,1-10: A visão da primeira besta, que vem do mar: caos, fonte do mal e é do Mar Ocidental que onde vem os romanos. Em 17,9 explica-se que as sete cabeças são sete colinas e sete imperadores, e em 17,12 diz que os dez chifres são dez reis. Ap 13,11-18: A visão da segunda besta (é o falso profeta: 16,13; 19,20; 20,10). Por trás do Império está Satanás. At 13,3: “ferida de morte e foi curada” pode referir-se ao mito de Nero ressuscitado (Nero redivivus: Nero teria escapado milagrosamente da morte no ano 68 e, depois de raptado, teria voltado à terra para vingar-se de seus inimigos). Mas a ênfase está no “ferido de morte”, significando que o Império já perdeu a luta no céu e vai ser derrotado. Não tem como escapar. A primeira besta representa o poder político supremo (muito semelhante ao do império helenístico de Antíoco Epífanes, em Dn 7). A segunda besta representa o poder ideológico responsável pela propaganda do Império; é o mensageiro da idolatria do sistema, lançando mão da divinização do Imperador (13,14).
-----------Vendo as coisas a partir de baixo, Ap 13.17 e 18 descrevem as estruturas imperiais como uma grande Besta, a quem o Dragão, a velha serpente, entregou o domínio sobre o Mundo (Ap 13,3). Uma segunda Besta, “falso profeta”, tenta levar a terra inteira a adorar a primeira besta. Cf. o poderio de Roma: Ap 17,4.15.18. Mas o poderio vai cair (8,2.21) e vai ser muito lamento dos embriagados pela riqueza. Os primeiros a lamentar serão os reis da terra (18,9-10). Com Jesus podemos descobrir como era a estrutura de poder do Império romano: Jesus é julgado pelo Sinédrio, presidido pelo sumo sacerdote que era nomeado pelo procurador Pôncio Pilatos. Este, por sua vez era nomeado pelo imperador. Enfim, a palavra do Imperador era lei para todos. Os segundos que lamentam são os mercadores (Ap 18,11), pois as mercadorias sãos um luxo só (a8,12-13). Também o comércio por via marítima era muito forte (18,17). O transporte via mar era mais barato, mas muito perigoso. Um dos maiores castigos que um condenado poderia receber era servir de remador em um barco.
-----------O futuro que surge no fim da caminhada vem como dom de Deus e como fruto da luta do povo que procurou ser fiel. O véu é tirado totalmente. O futuro que Deus oferece está em gestação no escondido da história. “João” tira um slide dos momentos mais bonitos, vividos com Deus no passado e no presente, coloca a lâmpada da fé atrás e projeta tudo na tela do futuro. (cf. Ap 21,1.4.525; 22,5). O futuro que Deus oferece é: a) uma Nova Criação; b) um novo Paraíso Terrestre; c) Uma Nova Aliança (21,3.7), onde ninguém se perde no anonimato da massa, nem no individualismo de uma fé que só pensa em si; d) Uma nova organização das “doze” tribos (o número 12 está em tudo: 21,12-21; 22,2); e) Uma nova Cidade Santa, Jerusalém (21,14-19.21.26-27); f) Um povo renovado, bonito como uma noiva (21,2); g) Ele mesmo, Deus tudo em todos (21,2.3.4.6.7). No futuro que Deus oferece, não haverá mais necessidade do sol, nem de lua, nem de Lâmpada (Ap 21,23; 22,5). Como a luz do sol que ilumina tudo, assim será a presença amiga de Deus! A sua glória iluminará tudo, assim será a presença amiga de Deus! Tudo será luz!
-----------Alguém teve o seguinte sonho: O Cristo ressuscitado convidou alguém para passear pelo jardim. O convidado perguntou: “Senhor, quando tu andavas pela palestina, tu nos disseste: Eu voltarei. Quando o Senhor voltará?” Cristo ressuscitado respondeu: “Quando você tiver uma consciência tão profunda que você nem mais pensa nela, quando você viver em comunhão com tudo, eu terei vindo.”

Frei Gilvander Luís Moreira,
E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br