Carta de
Dandara ao apóstolo Paulo
Superar o senso
comum e o preconceito
Professora Delze dos Santos[1] e frei Gilvander Moreira[2]
Belo Horizonte, 20 de julho de 2009.
Estimado apóstolo Paulo, a paz e a justiça estejam com você.
Passados tantos anos, os seus ensinamentos e testemunhos registrados no Novo Testamento da Bíblia, nas suas Cartas aos cristãos das periferias de grandes cidades, tais como, Tessalônica, Corinto, Filipos, Roma, região da Galácia etc, ainda iluminam cristãos e humanistas mundo afora. Nem eu nem você estamos fisicamente neste mundo terrestre, mas se olharmos bem estamos presentes aqui na terra como inspiradores de vida e como construtores da verdadeira justiça.
Eu, Dandara, fui companheira de Zumbi dos Palmares. Assim como Onésimo, da sua Carta a Filemon[3], fomos escravos. Mas não nos resignamos diante do sistema opressor-escravocrata. Fugimos das senzalas e construímos quilombos, territórios de liberdade e de vida para todos. Preferimos a morte à escravidão. Como você, combatemos o bom combate, perseveramos numa fé libertadora, na certeza de que o Deus da vida não discrimina ninguém e de que o Espírito Santo permeia e perpassa todas as pessoas e culturas.
Nas Minas Gerais de tantas escravidões, terra da escrava Anastácia e de Chico Rei, ressurgimos no céu azul de um belo horizonte. Ressurgimos dando o nome Dandara a uma Comunidade que sonha resgatar a dignidade humana de milhares de famílias sem-casa e sem-terra. Famílias que descobriram na luta a forma de conquistar direitos para não viver mais na exclusão. Famílias que têm mostrado que dignidade não é esperar por moradia numa fila oficial da prefeitura de Belo Horizonte, pois a fila não anda ou quando anda é devagar demais.[4]
No bairro Céu Azul, como já bastante divulgado, desde o dia 09 de abril de 2009, estão acampadas mais de mil famílias sem-teto e sem-terra que estão contribuindo na construção de uma nova política urbanística e revelando, a partir da luta por moradia em Belo Horizonte, as grandes contradições e equívocos na política social e agrária em nosso país. Revelam também como as crises econômica e financeira atingem em primeiro lugar os pobres.
Não bastasse a resistência institucional do Prefeito que não dialoga, da Polícia que age para defender os interesses da Construtora Modelo Ltda, há poucos dias recebemos de um morador do Bairro Céu Azul, vizinho da Ocupação Dandara, uma carta, via e-mail, cujas palavras deram-nos conta de como o senso comum e o preconceito podem atrapalhar a caminhada de uma sociedade rumo à solidariedade democrática.
Querido apóstolo Paulo, pensamos em escrever a você, em nome de todos da
Comunidade, moradores e apoiadores, porque fundou e acompanhou muitas
comunidades cristãs e, através de Cartas, ajudou-as (e tem nos ajudado) a
construir comunidades que sejam fermento, sal e luz na sociedade “escravocrata”
como essa em que vivemos. Assim como o Galileu de Nazaré, você também vive
A partir da carta de um vizinho de Dandara, certamente vamos nos ajudar mutuamente na tarefa de compreender a realidade e despertar novos parceiros nesta luta. Preservando a identidade do morador, vamos começar por suas próprias palavras para fazer as reflexões que precisam ser feitas e, sobretudo, dialogadas com os moradores da região. Vamos chamá-lo de Pedro. Essa carta poderá ajudar não apenas aos que vivem ali, mas outras pessoas que vivem em regiões onde chegam essas novas famílias. Todas famílias que buscam na luta e em solidariedade a conquista do espaço nos territórios urbanos e rurais.
Disse Pedro no e-mail:
Meu nome é Pedro. Sou morador do bairro Céu
Azul há 30 anos. Meu pai, com muito sacrifício, comprou e pagou o lote,
construiu uma casa e criou sua família. Seguindo o seu exemplo, casei, morei
com meus pais e depois de oito anos eu e minha esposa adquirimos um lote e
construímos nossa casa também no bairro Céu Azul. Desde 09/04/2009, toda a
população do bairro está apreensiva com a iminência da criação de mais uma
favela. E, para meu espanto com o apoio de setores da Igreja Católica e de sua
Universidade. Não discordo do direito das pessoas de terem um teto para morar,
mas que as coisas sejam feitas dentro da normalidade e legalidade, não
invadindo terrenos e colocando lá pessoas de bem e outros tantos marginais e
pessoas que já possuem casa (até mesmo no Céu Azul). Pelo encaminhamento desse
processo, as famílias irão construir barracos naquele local, sem nenhuma
infra-estrutura e será um "celeiro" para traficantes, ladrões e
outras mazelas que nós brasileiros bem conhecemos. Daí, Frei Gilvander, o
senhor e os outros "apoiadores" e "intelectuais" irão virar
as costas para estas pessoas e passarão a acompanhar de seus apartamentos na
zona sul, essa tragédia humana chamada OCUPAÇÃO DANDARA. Mas, continuo com
esperança que a luz da razão ilumine a liderança deste movimento e procure uma
solução mais sensata. Não crie mais um problema.”
Após pensarmos em todas as mazelas que resultaram, não apenas no Brasil,
mas em toda a América Latina, em tanta desigualdade social - mazelas essas que
podem ser melhor identificadas nos processos históricos irresponsáveis da
colonização européia para a expansão capitalista, da ditadura político-militar,
e mais recentemente da exploração neoliberal -, formulamos a seguinte resposta
a Pedro.
Caro Pedro, nós, os apoiadores da Comunidade Dandara, somos pessoas
comuns, trabalhadoras como você, também somos pais, mães e filhos de
trabalhadores explorados ao longo da história deste país. Começamos a trabalhar
bem cedo, mas descobrimos que não podíamos ficar acomodados, de braços cruzados
dentro da “normalidade e da legalidade” com os pequenos privilégios[5]
(direitos conquistados pelos trabalhadores na luta), esperando a nossa
aposentadoria, acreditando que os processos de inclusão social, ou seja, a
construção de uma sociedade mais justa, fundada no princípio da igualdade,
aconteça pelas vias políticas tradicionais. A democracia representativa, essa
que você chama de via da normalidade, está em descrédito no mundo inteiro. Os
políticos profissionais exercem os seus mandatos preocupados com a reeleição.
Assim, todos os passos são calculados, só fazem o que vai lhes render mais
benefícios eleitorais no futuro. E para isso fazem pesquisas, alianças como os que
têm grande poder econômico, manipulam junto com a mídia as informações. Ao
final fazem as regras, que você chama de legalidade, para beneficiarem-se e
para manterem tudo como está. Mais dinheiro para quem já tem dinheiro, mais
propriedade para quem já tem propriedade. No Brasil vigora, na prática, o
seguinte adágio: “Para os pobres, os rigores da lei; para os ricos, as beneces
das lei.”
Por tudo isso é que acreditamos que há muito caminho a ser percorrido,
no Brasil e na América Latina, rumo à igualdade social, justiça econômica e
sustentabilidade ecológica. Precisamos conquistar o apoio de pessoas como você,
que não fazem parte das elites e não têm nada a ganhar com a manutenção de um
terreno de
Pedro, o fato de você gastar o seu tempo mandando a mensagem, externando
a sua preocupação, é sinal de que quer construir um espaço saudável de
convivência. E é isso mesmo que nós queremos também. Não dá mais para apoiarmos
falsos projetos de cidade, que isolam os indesejáveis bem longe, onerando-lhes
o transporte, dificultando o acesso ao trabalho e renda, aos serviços públicos
de saúde e educação e ao mesmo tempo construindo ilhas de tranqüilidade em
determinados lugares para os mesmos privilegiados e enriquecendo uns poucos com
a especulação imobiliária. Não estamos misturando pessoas de bem com marginais.
Sabemos que não conseguimos compreender sozinhos toda a realidade que
nos cerca. Os meios de comunicação (cite-se em Belo Horizonte a Rádio Itatiaia,
TV Globo, tablóides e outros) só vão noticiar os fatos - e o que acontece na
Ocupação Dandara não é exceção -, de acordo com a conveniência dos patrocinadores
deles, você não acha? Existe um conluio entre a grande mídia, os políticos profissionais
e os grandes exploradores capitalistas, bancos, multinacionais. Somente chegam
até o povo as notícias filtradas por eles. Se olharmos bem as novelas e a vida
dos artistas, como mostrado na televisão, está tudo ótimo no Brasil. O
governador de Minas mesmo, o Aécio Neves, já foi denunciado várias vezes por violar
a liberdade de informação aqui no estado, não deixando que sejam mostradas as
mazelas sociais e a violência que assola a juventude e assombra a maior parte
do povo.
Pensamos que se te incomoda a Ocupação Dandara é porque você ainda não conhece
bem o que ocorre ali. É possível que haja algumas pessoas na Ocupação que não
precisam mesmo de casa, que tentam usar a luta de muitos para levar vantagem
pessoal. Mas, isso não deslegitima a luta dos que precisam. Em qualquer lugar
onde haja seres humanos existem desvios, “pecados”. Existem professores que não
merecem esse nome, existem padres que não são sensíveis às causas dos pobres,
existem médicos que não deveriam ter o direito de exercer a profissão, e vai
por aí a fora. Todavia, a maioria esmagadora dos pobres é digna, merece o nosso
respeito e apoio. Se um sai da exclusão toda a sociedade ganha.
Você mesmo admite que o seu pai somente comprou e pagou o lote onde
morou com muito sacrifício. E isso é verdade. No Brasil, o direito de morar foi
transferido para a própria população que tem de se virar. Mas não deveria ser o
contrário? Se um país quer pessoas saudáveis, pessoas boas trabalhando para
desenvolver a nação, não deveriam os governantes em primeiro lugar cuidar para
que essas pessoas vivessem com dignidade? Diante desta constatação é que
sugerimos a você, ao invés de questionar os apoiadores e as famílias que têm
resistido naquele frio e, às vezes, na chuva e no sol, passando toda a sorte de
dificuldades nas barracas de lona preta, inclusive o criminoso corte da água
pela poderosa estatal COPASA, questione toda essa injustiça social, que impõe
tanto sacrifício às famílias para adquirirem um pedaço de chão - mesmo para
os milhares de desempregados – em um país continental como o Brasil. Pedro, o
Brasil é um país rico. Nós temos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de
território e uma população pequena em relação ao tamanho do território, que
sofre sem terra para trabalhar e sem casa para morar.
Você já se deu conta de que muitos não têm casa e emprego porque
tem gente que tem propriedade ilegal demais, dinheiro demais, não tributado conforme
as leis, e uma grande maioria vivendo igual bicho pelas ruas ou no interior
desprovido de energia, de estradas, de escolas, de alimentos e serviços de
saúde pública? A nossa normalidade e legalidade política são muito injustas e
não podem ser invocadas à luz da Constituição de 1988. O poder só age para
beneficiar os amigos de quem está no poder. E é contra esse poder, que faz da
cidade um espaço para poucos e que joga os demais na periferia de tudo - do transporte, da saúde, da moradia, da
escola, da religião - é que lutamos. Lutamos não só pelos trabalhadores da
Ocupação Dandara, lutamos também por você, por sustentabilidade ecológica, por
justiça social, por Política legítima.
Não se preocupe, não estamos levando uma favela para o bairro Céu Azul.
A comunidade Dandara nasceu ali após a conscientização de trabalhadores pobres
que descobriram que somente se organizando poderiam sonhar com uma vida melhor.
Temos a certeza de que esses trabalhadores que chegam ao Céu Azul agora serão
melhores vizinhos do que são outros nos bairros ricos de Belo Horizonte. Sabe por
quê? Porque nas classes média e alta poucos se conhecem. Normalmente não existe
solidariedade entre as pessoas ricas. Ogocentrismo reina. E mais, existem drogas
e violência em qualquer lugar. Quantos assaltos ocorrem nesses condomínios de
luxo? E os crimes de colarinho branco feito por engravatados?!
Quer uma boa notícia? A Comunidade Dandara foi planejada por arquitetos
da PUC Minas (professores e estudantes) gratuitamente. Não porque esses
profissionais querem desvalorizar os imóveis dos moradores do bairro Céu Azul,
mas porque esses profissionais, capazes de compreender a realidade social
existente, entendem que todos têm o direito de morar com dignidade. Fizeram um
projeto muito bonito, apesar de simples porque acessível, para a Ocupação
Dandara. Junto com os arquitetos, diversos professores, advogados, pedreiros,
religiosos, mães e pais de família arregaçaram as mangas para contribuir na
educação de crianças e adultos da nova comunidade que está sendo gestada. Acreditamos
que uma sociedade boa é o resultado da educação para se viver
Já finalizando, gostaríamos de dar-lhe um conselho. Marque com as
lideranças uma visita à Ocupação Dandara. Conheça as dificuldades para se
resgatar a vida após tanta injustiça social sofrida. Conheça pessoas
maravilhosas e inteligentes que vivem ali e cujos filhos às vezes são mesmo
vítimas do tráfico, crianças que são vítimas da violência, mulheres cujos maridos
são vítimas do alcoolismo, homens e mulheres sem trabalho que há muito perderam
referências de dignidade. Mas veja, eles mesmos não lucram com tudo isso. Contrariamente
há alguém de fora que lucra: jornais sensacionalistas, igrejas descomprometidas
com a verdadeira espiritualidade, empresas que só pensam no lucro, políticos
que só os vêm nas eleições. Sugerimos que você, como bom vizinho, se torne
amigo dos moradores da Ocupação Dandara. Passe a ver neles seres humanos,
pessoas que merecem o nosso apoio e respeito. Veja neles brasileiros, não
pessoas que ameaçam qualquer território. Ofereça a eles algum de seus dons, talentos
para melhorar a vida de todos. Lá precisa-se de gente que saiba construir, ler
projetos, usar trenas, costurar, ler e escrever. Precisa-se sobretudo de gente
capaz de ver além das lentes do preconceito e do senso comum.
Temos certeza de que assim você não terá medo daquelas pessoas e nem
verá ali um celeiro para o tráfico ou uma maldição que desvalorizará o seu
imóvel. Poderá desta forma passar a chamá-los pelo nome e verá neles parceiros capazes
de expulsar do bairro os traficantes e os praticantes de outros crimes,
principalmente os oportunistas das empresas da especulação imobiliária. Com
você, então, cuidaremos melhor do nosso país inteiro, e não apenas no
ambiente mais próximo, porque sabemos que não existem muros capazes de manter a
desigualdade e a injustiça longe de nós.
Finalmente, não se preocupe conosco, os apoiadores da Comunidade Dandara.
Não vamos nos trancar em nossos apartamentos na zona sul. Somos
cidadãos no mundo. Fazemos parte de uma tribo que acredita ser importante
juntar todos numa grande Comunidade Dandara I, II, III, IV, V ...! Venha para
esta tribo você também. Veja como a sua vida ganhará novo significado! Não
temos medo de pobres e lutadores, temos medo é de uma sociedade cujas pessoas
acham que já resolveram a sua vida, mesmo passando dificuldades, sem aprender
com as mazelas sociais e viraram as costas para os outros.
Estimado Pedro, assim como Paulo, o apóstolo Pedro se tornou um grande seguidor
de Jesus, se libertou de preconceitos e abraçou apaixonadamente a causa do
evangelho: opção pelos marginalizados. “Pedro, tu és pedra e em ti construirei
minha igreja”, (que é povo de Deus), disse Jesus, segundo o evangelho. O
apóstolo Pedro foi pedra, mas não pedra maciça, compacta; foi pedra-gruta,
espaço de acolhida de todos, preferencialmente dos pobres. Seja assim Pedro.
Enfim, Pedro, desculpe as muitas linhas da Carta. Não tivemos tempo de
ser breves diante da gravidade dos preconceitos e senso comum referidos na sua
carta. Receba o nosso abraço fraterno!
Querido apóstolo Paulo, perdoe-nos, por Dandara, tomar seu tempo lendo tamanho escrito. Ficaríamos muito contentes se pudéssemos receber também uma longa resposta a esta carta, assinada agora por Pedro e por Paulo.
Abraços ternos,
Delze e Gilvander
p/ Comunidade Dandara
Belo Horizonte, 20 de julho de 2009.
EM TEMPO: Acabamos de receber uma carta de Juvenal Alves Ferreira, morador do bairro Céu Azul que apóia a Ocupação Dandara.
Na Carta, Juvenal diz que apóia o movimento, porque as pessoas que lá estão são humildes e discriminadas pela alta sociedade. Necessitam de uma moradia, pois não possuem condições para aquisição de uma casa para morar. Diz que Deus criou o mundo para todos, mas os políticos não vêem a classe pobre, não percebem que é esta classe que os colocam no poder. Os pobres são tratados como escravos. Ressaltou que os grandes políticos quando necessitam de terreno, na maioria das vezes, não adquirem de forma legal e justa, frequentemente invadem áreas, como é o caso da Britadora Santiago, que invadiu área que pertencia a outro, se tornou uma grande empresa que gera enormes lucros, mas não olha para a comunidade à sua volta.
Juvenal concluiu sua carta com uma pergunta que procura resposta: “Porque os grandes podem e os pequenos não?”
[1]
Professora de Direito Agrário na Escola Superior Dom Hélder Câmara, em Belo
Horizonte; mestre
[2]
Padre Carmelita, mestre
[3] A Carta de Paulo a Filemon é uma carta de recomendação em favor de Onésimo, um escravo que fugiu do seu patrão Filemon, provavelmente após ter cometido roubo (v. 18). Onésimo procurou o apoio do apóstolo Paulo, que estava na prisão, e acabou convertendo-se ao cristianismo (v. 10). Paulo envia-o de volta a Filemon, pedindo a este que o trate como irmão (v. 16).
[4] Segundo a Fundação João Pinheiro (2006), só na região metropolitana de Belo Horizonte há um déficit habitacional total (quantitativo e qualitativo) de 172.593 mil moradias. A prefeitura constrói só umas duzentas casas populares por ano.
[5] Comparando com certas condições de vida de muitas pessoas pobres, ser servidor público, ter direito a aposentadoria, ser de nível superior ou até mesmo ter uma boa casa para morar, pode ser considerado um privilégio no Brasil. Aliás, quem expressou isso foi o geógrafo Milton Santos quando disse que a classe média no Brasil não luta por direitos e sim por privilégios.