-----------Leonardo
Boff, pedra viva da Teologia da Libertação, no livro Do
iceberg à Arca de Noé, com o subtítulo O nascimento
de uma ética planetária, nos proporciona, em cinco capítulos,
numa reflexão densa e provocativa, uma viagem, da atual crise, sem
precedentes na história, a uma ética planetária. Estamos,
provavelmente, na maior encruzilhada da história. Das duas uma: ou
nos transformamos em anjos humanos salvadores do planeta Terra, nossa única
casa comum, ou teremos o destino dos dinossauros.
-----------A
crise atual é global, estrutural e terminal, mas é também
uma crise de paradigma. O sistema mundial globalizado, mais que agilizar
forças produtivas, pôs em marcha forças destrutivas,
da Terra, dos ecossistemas, dos povos e da subjetividade das pessoas. Mas
a crise pode nos ajudar a criar um novo paradigma, no qual a vida seja sustentável.
-----------L.
Boff neste livro dá mais um passo importante para colocar a Teologia
da Libertação em um novo patamar, com uma nova feição,
para continuar sua missão libertadora e salvacionista. De modo muito
incisivo e profético, Leonardo alerta para a necessidade imperiosa
de se articular, de forma integrada, as lutas sociais e ecológicas.
“Nosso modo de produção capitalista, o mais insustentável
de todos, está sendo genocida, pois está assassinando a Terra,
nossa única casa comum, que é viva, sagrada e nossa mãe.
É hora de colocarmos em prática A CARTA DA TERRA, uma das
melhores páginas escritas nos últimos tempos, já assumida
pela UNESCO. Eis um imperativo vital: cuidar de todo ser vivo. Deve reinar
em nossos corações a integridade e uma justiça sócio-cósmica.
Nós somos parte da terra. Entramos e saímos da vida o tempo
todo.”
-----------O
Big Bang produziu um caos generativo de onde veio o cosmos. O caos não
é só caótico, cria cosmo, ordem bela e harmonia. O
caos sempre nos acompanha. Somos homo sapiens e demens, ao mesmo
tempo. Em primeiro lugar, somos seres de inteligência, societários,
de êxtase. Somos ser que fala, que cuida, que ama, que coopera, que
é solidário. Somos seres de paz, mas também podemos
ser homicidas, etnocidas, biocidas e geocidas. Como construir a Paz se somos
unidade de uma contradição? A evolução é
sábia e está nos dando lições. Tudo no universo
e na vida é feito de desordem e de ordem, de caos e de cosmos, do
diabólico e do simbólico.
-----------O
ser humano deve impor limites à competição e reforçar
a dimensão da cooperação e do cuidado. Quando cuidamos
uns dos outros o medo é exorcizado. A política deve ser um
gesto amoroso das grandes causas do povo pobre. Devemos partir das revoluções
moleculares, não começando a partir do peito, mas a partir
das costas e do coração.
-----------Os
astronautas nos deixaram testemunhos impressionantes. Ao contemplar a Terra
com os pés na Lua ou em uma nave espacial exclamaram: “A
Terra é pequena. Cabe na palma da nossa mão. Olhando de cima,
não há distinção entre humanidade e Terra. É
uma coisa só.” Somos terra, húmus (= terra fértil).
Há uma grande unidade em tudo. Todos os seres vivos são formados
por vinte aminoácidos e quatro ácidos nucléicos. Somos
um elo vivo da cadeia da vida. Das bactérias até nós
todos, temos os mesmos elementos. Somos um alfabeto vivo. A nova física
e a física quântica nos ensinam que “tudo no universo
tem a ver com tudo em todos os pontos. Há uma inter-retro-dependência
em tudo, uma pan-relacionalidade. Tudo aponta para a noosfera, a esfera
das mentes e dos corações que sonham e vibram juntos numa
harmonia bonita a partir da diversidade. A Terra está sendo vista
não mais como um baú de recursos ilimitados, mas como Gaia,
um superorganismo vivo, que enlaça em redes de interdependências
a todos os seres.
-----------A
humanidade vive em alto risco. Vivemos dilacerados por radicalismos, unilateralismos,
fundamentalismos e polarizações insensatas em quase todos
os campos. Inventaram o princípio de auto-destruição.
Estamos em um Titanic. 3.000 espécies estão sendo dizimadas
anualmente, quando o normal seria somente 300. A grande questão é:
Que futuro tem o planeta Terra? Temos que querer politicamente este futuro,
do contrário, teremos o destino dos dinossauros. Queremos o ambiente
inteiro e não apenas meio ambiente. Falar em desenvolvimento sustentável
é falácia, pois são termos contraditórios. “Desenvolvimento”
está no terreno do progresso, é algo que pressupõe
acumulação. “Sustentável” é algo
do meio ecológico e indica preservação.
-----------A
crise atual faz pensar e crescer a percepção do alarme ecológico.
Grande é o risco, maior ainda a esperança. A violência
assola a Terra. Como entendê-la? L. Boff apresenta a reflexão
de René Girard como iluminadora para superarmos a espiral de violência.
-----------Precisamos
ultrapassar a compreensão “materialista” da matéria
e resgatar seu sentido originário: de mater, mãe
de todas as coisas. Assim poderá surgir uma nova democracia sociocósmica,
um pacto social que não incluirá apenas seres humanos, mas
toda a comunidade da vida, finalmente reconciliada consigo mesma e com sua
raiz comum: a matéria sagrada e misteriosa do universo. As religiões
têm um papel decisivo nas políticas mundiais. “Não
haverá paz política se não houver previamente paz religiosa”,
assevera Hans Küng. Paz como equilíbrio do movimento, construída
a partir de métodos pacíficos.
-----------Os
trezentos milhões de indígenas existentes no mundo podem contribuir
muito para a criação de uma ética planetária
desde que nos tornemos aprendizes deles no tocante à sua sabedoria
ancestral, sua integração sinfônica com a natureza,
sua atitude de veneração e de respeito, sua liberdade como
essência da vida, seu exercício da autoridade como serviço
à comunidade.
-----------O
drama ecológico apresenta, hoje, três cenários: (a)
um conservador, que é o dominante. (b) um reformista, que considera
os riscos atuais; (c) um libertador, que apresenta uma real alternativa
salvadora e nos convoca para elevarmos a democracia a uma biocracia e a
uma cosmocracia.
-----------Leonardo
conclama para o resgate da dívida ecológica. É hora
de não mais considerar a ecologia como um tema a mais que se agrega
aos já existentes, mas como um eixo novo que redefine todos os demais
temas. A falta de ecologia ambiental nos colocou em uma
má qualidade de vida. A inexistência de uma ecologia
social está nos levando a um desenvolvimento insustentável.
Uma ecologia mental nos leva a uma crítica do antropocentrismo,
um grande pecado. O ser humano somente entrou na cena da história
quando 98% da história do universo e da Terra já estavam concluídos.
Ele não assistiu ao nascimento do universo. A imensa biodiversidade
não dependeu do ser humano. Este faz parte de um Todo maior, conforme
nos ensina a ecologia integral.
-----------E
se o ser humano desaparecer? Stephen Hawking, em seu recente livro O
universo numa casca de noz, reconhece que o atual crescimento exponencial
não pode durar para sempre. Fim da espécie: o que diz a teologia?
Para os antigos, o fim do mundo estava na cabeça deles e não
no processo realmente existente. Para nós, está no processo
real, não é uma fantasia, pois criamos de fato o princípio
de auto-destruição.
-----------É
hora de cultivarmos princípios, tais como: O feminino, um princípio
que origina em nós a percepção da totalidade e nos
permite ver símbolos nas coisas e ritos nos atos. A espiritualidade,
não sendo mais um monopólio das igrejas e das religiões,
mas uma dimensão do humano que habilita a dialogar com o Eu profundo
e de ouvir os apelos do coração.
-----------A
Teologia da Libertação nasceu e cresceu com o objetivo de
anunciar o amor e a misericórdia de Deus para milhões que
passam fome e são condenados a serem não-pessoas. Nos anos
70, os oprimidos eram os pobres econômicos. Nos anos 80, emergem os
índios e os negros como oprimidos. Nos anos 90, enfatizou-se a singularidade
da opressão às mulheres. Mas hoje, não só os
pobres e oprimidos gritam. Gritam as águas, gritam os animais, gritam
as florestas, gritam os solos, enfim, grita a Terra como superorganismo
vivo chamado Gaia. A mesma lógica que explora as classes e subjuga
nações também depreda os ecossistemas e extenua o planeta
Terra. Desta vez não há uma Arca de Noé que salva alguns
e deixa perecer os demais. Precisamos desentranhar tendências que
estão também presentes em nossa mente e em nosso coração:
a solidariedade, a compaixão, o cuidado, a comunhão e a amorização.
-----------Está
nascendo uma ética planetária a partir do outro que emerge
diante de nós. Diante do outro, ninguém pode ficar indiferente.
É hora da regra áurea “faz ao outro o que gostarias
que fizessem a ti.” Podemos aqui resgatar o filósofo alemão
Emmanuel Kant com sua proposta no campo moral: “age de tal forma que
a máxima de teus atos possa valer como uma lei universal para todo
ser de razão.” De L. Boff, o preceito ético-ecológico
urgente, hoje, é este: “Age de tal maneira que tuas ações
não sejam destrutivas da Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela
vive e coexiste conosco.”
-----------A
cooperação de todos com todos funda uma nova ótica
que, por sua vez, origina uma nova ética de convivência, cooperação,
sinergia, solidariedade, de cuidado de uns com os outros e de comunhão
de todos com todos e com a Terra, com a natureza e com seus ecossistemas.
-----------A
Teologia da Libertação só pode ser integral, se incorporar
dentro do seu discurso e de sua prática o resgate da Terra, que finalmente
é o resgate da vida. E não pode excluir a dimensão
libertadora que passa pela solidariedade, pela mística e pela energia
benfazeja que o desejo bom irradia sobre os outros, o que acontece, muitas
vezes, pela oração de pessoas anônimas.
-----------A
carga genética dos seres humanos e dos chimpanzés tem só
2% de diferença, mas esta pequena diferença faz muita diferença:
habilita os seres humanos para serem seres de cooperação e
de convivência. A mão do chimpanzé e a do ser humano
são diferentes. A mão do ser humano se estende, adapta-se
ao corpo e é apta para a carícia, ao passo que a dos símios
superiores não se estende e é, antes, adaptada pra pegar e
segurar.
-----------L.
Boff cita Michel Serres, um notável pensador francês da nova
situação da humanidade: “A Declaração
dos Direitos Humanos tinha razão em proclamar que cada pessoa humana
tem direitos. Mas tinha um defeito: o de pensar que somente os seres humanos
os têm. Os demais seres da natureza e da criação também
têm direito de existir, de ser respeitados e de conviver na comunidade
terrenal e cósmica.”
-----------O
século XXI poderá ser o século da espiritualidade com
um novo paradigma civilizacional. Na medida em que cresce a consciência
planetária, cresce também a convicção de que
a questão do meio ambiente, de ecologia, é o contexto de tudo,
das políticas públicas, da indústria, da educação
e das relações internacionais. O desenvolvimento precisa ser
com a natureza e não contra ou à custa
dela, como se fez durante séculos. Deverá acontecer uma pacto
social mundial entre os povos, baseado em três valores fundamentais
que todos devem assumir: (1) salvaguardar as condições para
que o planeta Terra possa continuar a existir e a co-evoluir; (2) garantir
o futuro da espécie humana como um todo e as condições
de seu ulterior desenvolvimento; (3) preservar a paz perpétua entre
os povos como meio para solução de todos os conflitos que
sempre existirão.
-----------
A nova relação com a natureza, no sentido de um reencantamento
e uma maior benevolência, fará com que milhões troquem
as cidades pela vida no campo ou em cidades menores, integradas ecologicamente
com o meio ambiente. O encontro das culturas mostrará formas diferentes
de sermos humanos.
-----------O
cristão diz que depois que Jesus ressuscitou, não nos é
mais permitido perder a esperança. L. Boff pergunta: Estamos passando
do local ao global? Do Estado-nação à sociedade planetária?
Da sociedade planetária à sociedade da vida? Da sociedade
de vida ao superorganismo vivo, Gaia? De Gaia ao cosmos? E do cosmos à
Fonte originária de todo ser? Esperançoso, Leonardo frisa
que “um pequeno gesto pode ocasionar grandes transformações.”
O cristianismo, no seu sentido mais genuíno, deve ser resgatado como
um mistério de simplicidade que nos diz: quem tem o amor tem tudo,
pois o amor é o nome próprio de Deus.
-----------L.
Boff nos recorda que o carpinteiro de Nazaré, Filho do Homem, inaugurou
uma revolução dentro da evolução. Deus fez-se
humano, pobre e excluído. A partir da encarnação, tudo
é divino, pois tudo foi assumido por Deus. Somos também Deus
por participação.
-----------L.
Boff diz que Deus se parece com os piolhos, conforme dizia o cura José
Gabriel Brochero, espécie de Frei Damião argentino, ainda
no século XIX: “Deus está em todas as partes. Mas estejam
convencidos de que está mais perto dos pobres que dos ricos. Nisto
se parece com os piolhos, que estão mais junto dos pobres do que
junto dos ricos”.
A contribuição do cristianismo à humanidade é
fundamentalmente isto: a promessa de ressurreição para toda
a carne, para cada pessoa e para a inteira criação. Ressurreição
é uma vida tão inteira que exclui a realidade da morte; é
a realização da utopia de uma vida sem fim e absolutamente
realizada. Na ressurreição se realizar plenamente nossa essência,
que consiste em sermos um nó de relação e de comunicação
para todos os lados.
-----------L.
Boff, já no final de Do iceberg à Arca de Noé,
aponta os caminhos do verdadeiro ecumenismo, mostrando que ninguém
está fora do Cristo e longe da verdade e nenhuma igreja ou religião
encerra em suas tradições e em seus dogmas todo o mistério
do Cristo nem carrega em suas vasilhas toda a água do oceano cristão.
Importa todas as igrejas acolherem umas às outras e viver em comunhão
de reciprocidade.
-----------Enfim,
há dores e dores, travessias e travessias. Não há transformações
seminais sem rupturas, o que é doloroso, mas é o preço
a pagar para que o novo se instaure e faça seu curso. A hora é
de crescer para dentro, aprofundar as reflexões sobre os acertos
e erros de nosso modelo de convivência, semear valores e alimentar
sonhos.
-----------L.
Boff conclui citando a conclusão da Carta da Terra: “Que o
nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência em
face da vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade,
a intensificação da luta pela justiça e pela paz e
a alegre celebração da vida.”