Do iceberg à Arca de Noé,
O nascimento de uma ética planetária
BOFF, Leonardo,, Rio de Janeiro, Ed. Garamond Ltda, 2002, 159 pp.

(Recensão do livro BOFF, Leonardo,Do iceberg à Arca de Noé, O nascimento de uma ética planetária”, Rio de Janeiro,
Ed. Garamond Ltda, 2002, in Revista HORIZONTE TEOLÓGICO, ANO 2, n. 3, jan/jun 2003, p. 129-13.)
-----------Leonardo Boff, pedra viva da Teologia da Libertação, no livro Do iceberg à Arca de Noé, com o subtítulo O nascimento de uma ética planetária, nos proporciona, em cinco capítulos, numa reflexão densa e provocativa, uma viagem, da atual crise, sem precedentes na história, a uma ética planetária. Estamos, provavelmente, na maior encruzilhada da história. Das duas uma: ou nos transformamos em anjos humanos salvadores do planeta Terra, nossa única casa comum, ou teremos o destino dos dinossauros.
-----------A crise atual é global, estrutural e terminal, mas é também uma crise de paradigma. O sistema mundial globalizado, mais que agilizar forças produtivas, pôs em marcha forças destrutivas, da Terra, dos ecossistemas, dos povos e da subjetividade das pessoas. Mas a crise pode nos ajudar a criar um novo paradigma, no qual a vida seja sustentável.
-----------L. Boff neste livro dá mais um passo importante para colocar a Teologia da Libertação em um novo patamar, com uma nova feição, para continuar sua missão libertadora e salvacionista. De modo muito incisivo e profético, Leonardo alerta para a necessidade imperiosa de se articular, de forma integrada, as lutas sociais e ecológicas. “Nosso modo de produção capitalista, o mais insustentável de todos, está sendo genocida, pois está assassinando a Terra, nossa única casa comum, que é viva, sagrada e nossa mãe. É hora de colocarmos em prática A CARTA DA TERRA, uma das melhores páginas escritas nos últimos tempos, já assumida pela UNESCO. Eis um imperativo vital: cuidar de todo ser vivo. Deve reinar em nossos corações a integridade e uma justiça sócio-cósmica. Nós somos parte da terra. Entramos e saímos da vida o tempo todo.”
-----------O Big Bang produziu um caos generativo de onde veio o cosmos. O caos não é só caótico, cria cosmo, ordem bela e harmonia. O caos sempre nos acompanha. Somos homo sapiens e demens, ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, somos seres de inteligência, societários, de êxtase. Somos ser que fala, que cuida, que ama, que coopera, que é solidário. Somos seres de paz, mas também podemos ser homicidas, etnocidas, biocidas e geocidas. Como construir a Paz se somos unidade de uma contradição? A evolução é sábia e está nos dando lições. Tudo no universo e na vida é feito de desordem e de ordem, de caos e de cosmos, do diabólico e do simbólico.
-----------O ser humano deve impor limites à competição e reforçar a dimensão da cooperação e do cuidado. Quando cuidamos uns dos outros o medo é exorcizado. A política deve ser um gesto amoroso das grandes causas do povo pobre. Devemos partir das revoluções moleculares, não começando a partir do peito, mas a partir das costas e do coração.
-----------Os astronautas nos deixaram testemunhos impressionantes. Ao contemplar a Terra com os pés na Lua ou em uma nave espacial exclamaram: “A Terra é pequena. Cabe na palma da nossa mão. Olhando de cima, não há distinção entre humanidade e Terra. É uma coisa só.” Somos terra, húmus (= terra fértil). Há uma grande unidade em tudo. Todos os seres vivos são formados por vinte aminoácidos e quatro ácidos nucléicos. Somos um elo vivo da cadeia da vida. Das bactérias até nós todos, temos os mesmos elementos. Somos um alfabeto vivo. A nova física e a física quântica nos ensinam que “tudo no universo tem a ver com tudo em todos os pontos. Há uma inter-retro-dependência em tudo, uma pan-relacionalidade. Tudo aponta para a noosfera, a esfera das mentes e dos corações que sonham e vibram juntos numa harmonia bonita a partir da diversidade. A Terra está sendo vista não mais como um baú de recursos ilimitados, mas como Gaia, um superorganismo vivo, que enlaça em redes de interdependências a todos os seres.
-----------A humanidade vive em alto risco. Vivemos dilacerados por radicalismos, unilateralismos, fundamentalismos e polarizações insensatas em quase todos os campos. Inventaram o princípio de auto-destruição. Estamos em um Titanic. 3.000 espécies estão sendo dizimadas anualmente, quando o normal seria somente 300. A grande questão é: Que futuro tem o planeta Terra? Temos que querer politicamente este futuro, do contrário, teremos o destino dos dinossauros. Queremos o ambiente inteiro e não apenas meio ambiente. Falar em desenvolvimento sustentável é falácia, pois são termos contraditórios. “Desenvolvimento” está no terreno do progresso, é algo que pressupõe acumulação. “Sustentável” é algo do meio ecológico e indica preservação.
-----------A crise atual faz pensar e crescer a percepção do alarme ecológico. Grande é o risco, maior ainda a esperança. A violência assola a Terra. Como entendê-la? L. Boff apresenta a reflexão de René Girard como iluminadora para superarmos a espiral de violência.
-----------Precisamos ultrapassar a compreensão “materialista” da matéria e resgatar seu sentido originário: de mater, mãe de todas as coisas. Assim poderá surgir uma nova democracia sociocósmica, um pacto social que não incluirá apenas seres humanos, mas toda a comunidade da vida, finalmente reconciliada consigo mesma e com sua raiz comum: a matéria sagrada e misteriosa do universo. As religiões têm um papel decisivo nas políticas mundiais. “Não haverá paz política se não houver previamente paz religiosa”, assevera Hans Küng. Paz como equilíbrio do movimento, construída a partir de métodos pacíficos.
-----------Os trezentos milhões de indígenas existentes no mundo podem contribuir muito para a criação de uma ética planetária desde que nos tornemos aprendizes deles no tocante à sua sabedoria ancestral, sua integração sinfônica com a natureza, sua atitude de veneração e de respeito, sua liberdade como essência da vida, seu exercício da autoridade como serviço à comunidade.
-----------O drama ecológico apresenta, hoje, três cenários: (a) um conservador, que é o dominante. (b) um reformista, que considera os riscos atuais; (c) um libertador, que apresenta uma real alternativa salvadora e nos convoca para elevarmos a democracia a uma biocracia e a uma cosmocracia.
-----------Leonardo conclama para o resgate da dívida ecológica. É hora de não mais considerar a ecologia como um tema a mais que se agrega aos já existentes, mas como um eixo novo que redefine todos os demais temas. A falta de ecologia ambiental nos colocou em uma má qualidade de vida. A inexistência de uma ecologia social está nos levando a um desenvolvimento insustentável. Uma ecologia mental nos leva a uma crítica do antropocentrismo, um grande pecado. O ser humano somente entrou na cena da história quando 98% da história do universo e da Terra já estavam concluídos. Ele não assistiu ao nascimento do universo. A imensa biodiversidade não dependeu do ser humano. Este faz parte de um Todo maior, conforme nos ensina a ecologia integral.
-----------E se o ser humano desaparecer? Stephen Hawking, em seu recente livro O universo numa casca de noz, reconhece que o atual crescimento exponencial não pode durar para sempre. Fim da espécie: o que diz a teologia? Para os antigos, o fim do mundo estava na cabeça deles e não no processo realmente existente. Para nós, está no processo real, não é uma fantasia, pois criamos de fato o princípio de auto-destruição.
-----------É hora de cultivarmos princípios, tais como: O feminino, um princípio que origina em nós a percepção da totalidade e nos permite ver símbolos nas coisas e ritos nos atos. A espiritualidade, não sendo mais um monopólio das igrejas e das religiões, mas uma dimensão do humano que habilita a dialogar com o Eu profundo e de ouvir os apelos do coração.
-----------A Teologia da Libertação nasceu e cresceu com o objetivo de anunciar o amor e a misericórdia de Deus para milhões que passam fome e são condenados a serem não-pessoas. Nos anos 70, os oprimidos eram os pobres econômicos. Nos anos 80, emergem os índios e os negros como oprimidos. Nos anos 90, enfatizou-se a singularidade da opressão às mulheres. Mas hoje, não só os pobres e oprimidos gritam. Gritam as águas, gritam os animais, gritam as florestas, gritam os solos, enfim, grita a Terra como superorganismo vivo chamado Gaia. A mesma lógica que explora as classes e subjuga nações também depreda os ecossistemas e extenua o planeta Terra. Desta vez não há uma Arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os demais. Precisamos desentranhar tendências que estão também presentes em nossa mente e em nosso coração: a solidariedade, a compaixão, o cuidado, a comunhão e a amorização.
-----------Está nascendo uma ética planetária a partir do outro que emerge diante de nós. Diante do outro, ninguém pode ficar indiferente. É hora da regra áurea “faz ao outro o que gostarias que fizessem a ti.” Podemos aqui resgatar o filósofo alemão Emmanuel Kant com sua proposta no campo moral: “age de tal forma que a máxima de teus atos possa valer como uma lei universal para todo ser de razão.” De L. Boff, o preceito ético-ecológico urgente, hoje, é este: “Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Casa Comum, a Terra, e de tudo o que nela vive e coexiste conosco.”
-----------A cooperação de todos com todos funda uma nova ótica que, por sua vez, origina uma nova ética de convivência, cooperação, sinergia, solidariedade, de cuidado de uns com os outros e de comunhão de todos com todos e com a Terra, com a natureza e com seus ecossistemas.
-----------A Teologia da Libertação só pode ser integral, se incorporar dentro do seu discurso e de sua prática o resgate da Terra, que finalmente é o resgate da vida. E não pode excluir a dimensão libertadora que passa pela solidariedade, pela mística e pela energia benfazeja que o desejo bom irradia sobre os outros, o que acontece, muitas vezes, pela oração de pessoas anônimas.
-----------A carga genética dos seres humanos e dos chimpanzés tem só 2% de diferença, mas esta pequena diferença faz muita diferença: habilita os seres humanos para serem seres de cooperação e de convivência. A mão do chimpanzé e a do ser humano são diferentes. A mão do ser humano se estende, adapta-se ao corpo e é apta para a carícia, ao passo que a dos símios superiores não se estende e é, antes, adaptada pra pegar e segurar.
-----------L. Boff cita Michel Serres, um notável pensador francês da nova situação da humanidade: “A Declaração dos Direitos Humanos tinha razão em proclamar que cada pessoa humana tem direitos. Mas tinha um defeito: o de pensar que somente os seres humanos os têm. Os demais seres da natureza e da criação também têm direito de existir, de ser respeitados e de conviver na comunidade terrenal e cósmica.”
-----------O século XXI poderá ser o século da espiritualidade com um novo paradigma civilizacional. Na medida em que cresce a consciência planetária, cresce também a convicção de que a questão do meio ambiente, de ecologia, é o contexto de tudo, das políticas públicas, da indústria, da educação e das relações internacionais. O desenvolvimento precisa ser com a natureza e não contra ou à custa dela, como se fez durante séculos. Deverá acontecer uma pacto social mundial entre os povos, baseado em três valores fundamentais que todos devem assumir: (1) salvaguardar as condições para que o planeta Terra possa continuar a existir e a co-evoluir; (2) garantir o futuro da espécie humana como um todo e as condições de seu ulterior desenvolvimento; (3) preservar a paz perpétua entre os povos como meio para solução de todos os conflitos que sempre existirão.
----------- A nova relação com a natureza, no sentido de um reencantamento e uma maior benevolência, fará com que milhões troquem as cidades pela vida no campo ou em cidades menores, integradas ecologicamente com o meio ambiente. O encontro das culturas mostrará formas diferentes de sermos humanos.
-----------O cristão diz que depois que Jesus ressuscitou, não nos é mais permitido perder a esperança. L. Boff pergunta: Estamos passando do local ao global? Do Estado-nação à sociedade planetária? Da sociedade planetária à sociedade da vida? Da sociedade de vida ao superorganismo vivo, Gaia? De Gaia ao cosmos? E do cosmos à Fonte originária de todo ser? Esperançoso, Leonardo frisa que “um pequeno gesto pode ocasionar grandes transformações.” O cristianismo, no seu sentido mais genuíno, deve ser resgatado como um mistério de simplicidade que nos diz: quem tem o amor tem tudo, pois o amor é o nome próprio de Deus.
-----------L. Boff nos recorda que o carpinteiro de Nazaré, Filho do Homem, inaugurou uma revolução dentro da evolução. Deus fez-se humano, pobre e excluído. A partir da encarnação, tudo é divino, pois tudo foi assumido por Deus. Somos também Deus por participação.
-----------L. Boff diz que Deus se parece com os piolhos, conforme dizia o cura José Gabriel Brochero, espécie de Frei Damião argentino, ainda no século XIX: “Deus está em todas as partes. Mas estejam convencidos de que está mais perto dos pobres que dos ricos. Nisto se parece com os piolhos, que estão mais junto dos pobres do que junto dos ricos”.
A contribuição do cristianismo à humanidade é fundamentalmente isto: a promessa de ressurreição para toda a carne, para cada pessoa e para a inteira criação. Ressurreição é uma vida tão inteira que exclui a realidade da morte; é a realização da utopia de uma vida sem fim e absolutamente realizada. Na ressurreição se realizar plenamente nossa essência, que consiste em sermos um nó de relação e de comunicação para todos os lados.
-----------L. Boff, já no final de Do iceberg à Arca de Noé, aponta os caminhos do verdadeiro ecumenismo, mostrando que ninguém está fora do Cristo e longe da verdade e nenhuma igreja ou religião encerra em suas tradições e em seus dogmas todo o mistério do Cristo nem carrega em suas vasilhas toda a água do oceano cristão. Importa todas as igrejas acolherem umas às outras e viver em comunhão de reciprocidade.
-----------Enfim, há dores e dores, travessias e travessias. Não há transformações seminais sem rupturas, o que é doloroso, mas é o preço a pagar para que o novo se instaure e faça seu curso. A hora é de crescer para dentro, aprofundar as reflexões sobre os acertos e erros de nosso modelo de convivência, semear valores e alimentar sonhos.
-----------L. Boff conclui citando a conclusão da Carta da Terra: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência em face da vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz e a alegre celebração da vida.”
Gilvander Luís Moreira, O.Carm.
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