Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy: Comunidades que são estrelas-guias do povo
Frei Gilvander Luís Moreira
-------------Quem ouve, lê ou vê as notícias da grande mídia tende a rejeitar as Comunidades das Ocupações Dandara (887 famílias), Camilo Torres (142 famílias) e Irmã Dorothy (132 famílias). Entretanto, quem as conhece por dentro passa a admirar e a apoiar a luta destas 1.171 famílias que, aguerridamente, estão na luta em defesa dos seus sagrados direitos: direito à moradia, à dignidade humana e à cidadania. Tais comunidades são estrelas-guias do povo pelas razões que passo a expor.
-------------Apesar de todas as tentativas (audiências públicas, manifestações de rua, intervenção do Ministério Público, da Igreja, outras instituições e entidades etc), jamais as lideranças do povo que luta de forma organizada foi recebida pelo Prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que se nega ao diálogo e à busca de uma solução digna. A Construtora Modelo, proprietária do terreno onde fica Dandara, por exemplo, já lesou mais de 2 mil mutuários em Minas Gerais com contratos imobiliários abusivos. A Polícia Militar de Minas Gerais, por sua vez, com ordem do Alto Comando, tem praticado inúmeras ilegalidades - apreendendo veículos que transportam materiais de construção para dentro da Comunidade Dandara, apesar das famílias exercerem a posse legítima por decisão judicial. As empresas Vitor Pneus (ex-CDI) e ex-CDI/Banco Rural e Trann Locação e Equipamentos obtiveram ilegalmente e especulavam os terrenos onde se localizam as comunidades Camilo Torres e Irmã Dorothy. Hoje, há uma lista de espera para essas comunidades com mais de 700 famílias inscritas que alimentam a esperança de conquistar sua moradia. Esse quadro é reflexo do drama em que vivem os pobres da capital mineira que tem mais de 70 mil famílias sem-casa (na região metropolitana, são mais de 173 mil famílias sem-casa).
-------------Nas três comunidades existem coordenações coletivas com homens e mulheres (coordenadores de grupos de famílias), mais uma grande rede de apoiadores externos. Todas as decisões relevantes tiradas nas coordenações são discutidas nos grupos de famílias e levadas para a Assembléia Geral que é a instância máxima de decisão. Há coletivos de saúde e de educação formados por moradores e apoiadores das ocupações. Já há três turmas de alfabetização e conclusão do ensino fundamental. Em breve, essas comunidades serão territórios livres de analfabetismo. Os conflitos internos das ocupações são dirimidos e mediados pelas lideranças locais. As três ocupações são comunidades pacíficas em que a organização popular cria fortes vínculos de solidariedade, conscientização, disciplina e compromisso social, numa mística libertadora.
-------------Essas comunidades também possuem projeto urbanístico elaborado por estudantes e profissionais da arquitetura e geografia com a participação decisiva dos moradores. Na Dandara existe ainda um Plano Diretor Coletivo (já em andamento) voltado para o ordenamento na forma de apropriação do espaço, com a construção de equipamentos coletivos (centro comunitário, creche, posto de saúde, campo de futebol, igreja ecumênica etc) e áreas de produção de cultivos agrícolas. De Ocupação a Comunidade Dandara, a família dandarense constrói uma nova identidade, respeita a legislação urbanística (Plano Diretor/ADE Trevo) e ambiental, pois tem clareza da responsabilidade que possui por estar localizada numa área sensível do ponto de vista ambiental. Nesse sentido, é respeitada a distância legal das nascentes (no mínimo 30 metros) e estão sendo construídas fossas ecológicas no modelo bason, um modelo de sanitário seco que não permite a contaminação do lençol freático, até que a rede de esgoto seja feita. A comunidade Dandara, já com mais de 600 casas construídas, é a maior ocupação organizada de Minas Gerais, sendo referência da luta popular no país e no mundo. A Comunidade Camilo Torres já construiu todas suas casas, já com esgoto, água e energia, seguindo um projeto urbanístico elaborado pela comunidade também em parceria com profissionais do ramo, com ruas, espaços coletivos, praças, respeito ao meio ambiente, hortas nos quintais etc.
-------------Pelas comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy já passaram dezenas de turmas de estudantes, de graduação e secundaristas, além de pós-graduandos. Dezenas de freiras e religiosos de diversas congregações e igrejas, militantes e ativistas brasileiros e estrangeiros integram uma forte rede de apoio externo. A Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, núcleo de Direitos Humanos, sob a liderança do defensor Gustavo Corgosinho e da defensora Ana Cláudia, tem sido verdadeira parceira na luta pelo Direito à Moradia mostrando o verdadeiro papel do defensor público frente à questão social.
-------------Enfim, ainda vivendo o drama da ameaça de despejo, as Comunidades Camilo Torres, Dandara e Irmã Dorothy têm sido um importante exemplo de resistência e organização popular. As famílias organizadas pelas organizações populares, mais do que terrenos, com essas ocupações, lograram ocupar corações e mentes de milhares de pessoas dispostas a lutar por uma cidade em que caibam todos e todas. “As pessoas entraram nas ocupações buscando um teto, mas hoje, na união, organização e luta, descobriram que é possível construir um mundo melhor. As pessoas não apenas estão construindo suas casas, mas estão se construindo”, diz Lacerda, um dos líderes da Camilo Torres. Nessas ocupações muita gente que estava doente se curou. Quem visita exclama: “Que sabedoria é essa?!” Quanta determinação! Que beleza! Impossível não perceber a presença do arco-íris, símbolo da aliança de Deus com o povo pobre. Quem tem olhos, veja! Quem tem ouvidos, ouça! E feliz será. Para conhecer melhor essas ocupações/comunidades venha nos visitar. Sugerimos também consultar o que está em www.ocupacaodandara.blogspot.com – www.ocupacaocamilotorres.blogspot.com