DOM CAPPIO E A LUTA CONTRA A TRANSPOSI플O

Um testemunho espiritual e prof�tico na luta pela Sustentabilidade da Vida

Gilvander Luiz Moreira[1]

 

(Este artigo foi publicado no livro 21o Congresso Anual da Sociedade de Teologia e Religi�o � SOTER, Ed. Digital � ebook, Paulinas, S�o Paulo, 2008, pp. 228-241.)

 

�밠eu rio de S�o Francisco, nesta grande turva豫o, vim te dar um gole d믟gua e pedir sua b�n豫o�. (Inspirado em Guimar�es Rosa, refr�o de m�sica de frei Luiz)

 

1. Pra come�o de conversa

A maior devasta豫o ambiental da hist�ria do Brasil est� em curso e cresce em progress�o geom�trica. Eis um sinal dos tempos e um sinal dos lugares que comp�em o Brasil. Do pau-brasil a brasas, eis um futuro iminente do pa�s-continente aclamado por tantos no passado como um para�so terrestre, caso n�o consigamos frear a avalanche de devasta豫o ambiental da nossa �nica casa comum: o Planeta Terra.

A Transposi豫o de �guas do Rio S�o Francisco � algo muito grave que est� acontecendo no Brasil. O Governo do Presidente Lula se nega 밹om unhas e dentes� a um di�logo franco e transparente sobre o projeto. O poder midi�tico compactua com o Governo Federal e n�o abre espa�o para que um debate aut�ntico seja feito. Muitos movimentos populares, sob a lideran�a da Comiss�o Pastoral da Terra � CPT � e da Articula豫o do Semi-햞ido � ASA � continuam ag�erridamente a luta contra a transposi豫o, em defesa de uma aut�ntica revitaliza豫o da bacia s�o-franciscana e por um Projeto de Conviv�ncia com o Semi-햞ido.�

Em 2005, Dom Cappio fez um jejum (밽reve de fome�) de 11 dias, entre 26 de setembro e 05 de outubro, em Cabrob�, PE, contra a Transposi豫o do Rio S�o Francisco, em defesa da Revitaliza豫o da bacia s�o-franciscana e de um Projeto de Conviv�ncia com o Semi-햞ido.

Dom Cappio afirmou publicamente que, se o acordo firmado, em confian�a, com o Presidente Lula - de abrir um amplo e s�rio di�logo com a sociedade sobre o Projeto de Transposi豫o - n�o fosse cumprido, ele voltaria ao jejum e ora豫o, com mais determina豫o ainda. Infrut�feras e esgotadas foram todas as tentativas de di�logo durante dois anos. Dessa forma, Dom Cappio fez um segundo jejum, durante 24 dias, de 27 de novembro de 2007 a 20 de dezembro de 2007, na Capela de S�o Francisco, em Sobradinho, BA, ao p� da barragem de Sobradinho, o maior lago artificial do mundo que, na �poca, estava com menos de 14% da sua capacidade, o que revela que 뱋 Velho Chico est� na fila do SUS e n�o sabe se vai ter direito a uma UTI�, profetiza Dom Luiz.

밡o mundo dos pequenos, o Evangelho se situa logo. Interpreta uma situa豫o complexa com muita simplicidade. Inquieta e rouba o sono�, ensina Paulo Suess. De fato, testemunhando uma �tima not�cia para os pobres, uma p�ssima not�cia para os empres�rios do agro e hidroneg�cio, Dom Cappio com seus dois jejuns inquietou e roubou o sono de muita gente.

 

2. Frei Luiz, o Dom Cappio ...

Dom Frei Luiz Fl�vio Cappio, carinhosamente chamado de frei Luiz, 61 anos, pessoa de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do S�o Francisco, ainda frade jovem, militou na Pastoral Oper�ria em S�o Paulo. Nasceu no dia 04 de outubro de 1946, dia de S�o Francisco. Como este, revela, tamb�m, uma paix�o sem igual pela causa s�o-franciscana e um amor extremado pelo povo da bacia s�o-franciscana e do Semi-햞ido. H� 33 anos chegou � Diocese de Barra/Bahia, no M�dio S�o Francisco, s� com a roupa do corpo e sand�lias.� Fez um dos melhores cursos de teologia do Brasil, em Petr�polis. Foi aluno de Leonardo Boff e de tantos outros te�logos da Teologia da Liberta豫o. Cursou economia tamb�m.

Para Dom Cappio, o rio S�o Francisco � "a m�e e o pai de todo o povo, de onde tiram o peixe para comer, a �gua para beber e molhar suas planta寤es - principalmente em suas ilhas e �reas de vazantes. Mesmo n�o sendo o maior rio brasileiro em volume d'�gua, talvez seja o mais importante do Pa�s, porque d� condi豫o de vida � popula豫o. Sempre dizemos: rio S�o Francisco vivo, povo vivo; rio S�o Francisco doente e morto, popula豫o doente e morta".

A atriz Let�cia Sabatella, em visita a frei Luiz no dia 04/12/2007, ao contempl�-lo, exclamou: 밆om Cappio � alma amorosa e plena de compaix�o humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e n�o anestesia, que ajuda a conscientizar e formar cidad�os�.

�Roberto Malvezzi, da Comiss�o Pastoral da Terra, pondera: 밢 gesto de Frei Luiz - sentar-se em uma cadeira, com seu h�bito franciscano, tomando apenas �gua do S�o Francisco -, convulsionou o Pa�s como nenhum outro gesto. Ele n�o atentou contra a vida dos outros. P�s em risco a sua pr�pria. E apontou para problemas maiores que o Brasil ter� que enfrentar agora e no futuro. Cada pessoa que tem filhos, ao pensar em que planeta eles viver�o, em que pa�s eles viver�o, em que Nordeste eles viver�o, como ser� a situa豫o do S�o Francisco e de todo o sert�o, entendeu o gesto dele�.

O soci�logo Pedro Ribeiro de Oliveira analisa:

�밆om Cappio usou a linguagem religiosa para fazer uma den�ncia pol�tica, criando uma situa豫o constrangedora para a comunidade cat�lica que s� em parte se alinhou com ele. Foi um gesto extremo, sem d�vida, que s� uma situa豫o muito grave pode justificar. Para quem v� o projeto como uma obra fara�nica que faz da �gua objeto de transa寤es econ�micas, desrespeitando os direitos dos povos ind�genas, quilombolas e ribeirinhos, aquele foi um gesto da melhor tradi豫o prof�tica, que provoca mesmo divis�es. Dividiu-se a 밻squerda� entre quem fica com a concep豫o economicista de desenvolvimento, e quem insiste na partilha da riqueza como caminho para que todos tenham vida com dignidade. Dividiu-se a comunidade crist� entre quem aceita o lugar que lhe foi atribu�do pela (p�s) -modernidade e quem insiste na dimens�o intrinsecamente pol�tica do Evangelho. � dif�cil aceitar essas divis�es, mas, no caso, elas representam um avan�o pol�tico para irmos al�m daquilo que o governo Lula pode oferecer.�

 

S� quem vive imerso na doa豫o incondicional de Deus � capaz de gestos de t�o extremada generosidade. Quem sabe que tem Deus sempre por perto, pode, destemido, enfrentar o in�spito poder dos que se julgam fortes!

Frei Luiz chegou aos sert�es baianos do rio S�o Francisco e logo se identificou com o Rio. Encontrou l� o melhor modo de seguir S�o Francisco, seu pai e modelo no seguimento de Jesus. Passou a se sentir visceralmente integrado ao povo do Rio e ao rio do povo, em uma franciscana e espiritual ecologia. Vendo com olhar compassivo e penetrante, Dom Cappio foi observando a degrada豫o ambiental e social do Rio e de seus afluentes: peixe escasso, vazantes menos produtivas, bancos de areia, navega豫o dif�cil, �guas polu�das, rasas ...

Como intelectual org�nico, frei Luiz come�ou a perguntar o porqu� de tanta agress�o. Descobriu que os principais problemas s�o o desmatamento, para as monoculturas e as carvoarias, que diminui os mananciais e provoca o assoreamento; a polui豫o urbana, industrial, miner�ria e agr�cola; a irriga豫o que, al�m dos agrot�xicos, consome �guas; as barragens e hidrel�tricas que expulsam comunidades, impedem os ciclos naturais do Rio e comprometem 80% de suas vaz�es com a energia el�trica; a pobreza e o abandono da popula豫o, a que mais sofre com as conseq獪ncias desses abusos. ...

Na apresenta豫o do livro Uma vida pela vida, de Dom Itamar Vian (org.)[2], frei Luiz pontua: 밊alar do jejum e ora豫o que aconteceram em Cabrob� e em Sobradinho � falar de um pastor que, � luz de Jesus Cristo, doa a vida por seu rebanho amado e que, � imita豫o de S�o Francisco, entrega o que tem de melhor aos pobres e aos que est�o � margem, os preferidos de Deus�.

Dom Cappio, em Carta ao Presidente Lula, de 04/10/2007, afirmou: 밢 senhor n�o cumpriu a palavra. O senhor n�o honrou nosso compromisso. Enganou a mim e a toda a sociedade brasileira. Uma na豫o s� se constr�i com um povo que seja s�rio, a partir de seus dirigentes. A dignidade e a honradez s�o requisitos indispens�veis para a cidadania. Portanto retomo o meu jejum e ora豫o... Acredito que as for�as interessadas no projeto usar�o de todos os meios para desmoralizar nossa luta e confundir a opini�o p�blica. Mas quando Jesus se disp�s a doar a vida, n�o teve medo da cruz. Aceitou ser crucificado, pois este seria o pre�o a ser pago. A vida do Rio e do seu povo ou a morte de um cidad�o brasileiro�.

Em alto e bom som, com a intrepidez dos profetas Elias, Am�s, Os�ias, Jeremias, do di�cono Estev�o, Dom Cappio 몀eteu o p� no barranco� e bradou, atrav�s de palavras e pelo gesto de se dispor � doa豫o da sua pr�pria vida, que o Presidente Lula n�o cumpriu a palavra, n�o honrou compromissos assumidos e enganou o povo. Dom Cappio desmascarou o governo Lula. Revelou a grande farsa que se montou. Desmistificou um 묓dolo� do povo. Postura assim veicula uma espiritualidade libertadora e � imprescind�vel na constru豫o da sustentabilidade da vida.

Em 25 de novembro de 2007, em carta endere�ada aos padres da Diocese de Barra, frei Luiz pondera: 밢s movimentos sociais t�m feito o que podem. Em v�o. Diante da sucess�o de absurdos que v�m acontecendo em n�veis institucional, econ�mico, pol�tico, social e ambiental, n�o posso me omitir. Novo grito tem que ser dado. Se o eco do primeiro ainda ressoa, agora ser� alimentado por novo gesto baseado na f� e no amor, principalmente ao povo de Deus, a quem doei minha vida... Sei que isso traz uma profunda experi�ncia de inseguran�a diante do futuro. Pe�o que encarem com f� este profundo gesto de amor e doa豫o. 밃 profecia n�o pode morrer�, ensinava Dom H�lder C�mara, embora saibamos que seu pre�o � muito caro�.[3]

Na primeira carta ao Povo do Nordeste, em 30/09/2005, em jejum e ora豫o, Dom Cappio afirmou: �Queridos irm�os e irm�s nordestinos do Cear�, da Para�ba, do Rio Grande do Norte e do Pernambuco: h� mais de 30 anos, buscando ser fiel a Jesus Cristo e a meu pai S�o Francisco, identifiquei minha vida sacerdotal com o Rio S�o Francisco e seu Povo. Neste momento, apenas procuro manter-me coerente com esta op豫o. N�o quero morrer, mas quero a vida verdadeira para o Rio S�o Francisco e para o todo o Povo Sanfranciscano e do Nordeste! N�o estivesse o Rio S�o Francisco � beira da morte e suas �guas fossem a melhor solu豫o para a sede de voc�s, eu n�o me oporia e lutaria com voc�s por isso�.

O testemunho de Dom Cappio tem uma hist�ria de coer�ncia. Vem de longe. Ele � outro enviado de Deus, apaixonado por Jesus Cristo e por Francisco de Assis que, como ele, largou o conforto de uma fam�lia rica,� despojou-se de tudo e abra�ou a luta ao lado dos menores do sert�o, no M�dio S�o Francisco. Dom Cappio n�o queria morrer, mas entende que sua vida est� intimamente ligada � vida do Rio, do seu Povo e de toda a biodiversidade. Que adianta continuar vivendo, se o nosso pr�ximo � o Rio, o Povo e a biodiversidade � est� morrendo?

Dom Cappio procurou se respaldar por estudos t�cnicos s�rios e aprofundados. Sabe, como l�der, que n�o pode deixar o povo ser enganado. Ap�ia o que, de fato, � melhor para os pobres. Toma o partido dos pobres.

Padre Paulo Suess, no artigo �Dom para o mundo, frei de todos: o gesto prof�tico de Luiz Fl�vio Cappio� analisa:

�O gesto prof�tico de frei Cappio produziu uma pol�mica crescente no interior da Igreja. Um setor apoiou a postura pol�tica do Frei, por�m era contra o meio escolhido, a greve de fome. Outro setor era contra seus objetivos pol�ticos, achando que a transfer�ncia do rio S�o Francisco � um projeto que traz mais benef�cios do que preju�zos � popula豫o. Ainda outro setor, em torno dos movimentos sociais e das pastorais, era a favor dos objetivos e apoiava o meio da greve de fome, como um recurso �ltimo, leg�timo e prof�tico.

A� entrou em cena o setor institucional da Igreja, a CNBB, a Nunciatura e o Vaticano. N�o se pronunciaram sobre a validade dos fins, mas chamaram a aten豫o do colega sobre o meio escolhido, a greve de fome. Esse meio, alegavam, � contra 뱋 preceito divino de n�o extinguir a vida�. Exigiram do Frei: 밿mediatamente coloque fim a este gesto em obedi�ncia tamb�m � Santa S��, como diz a carta do prefeito da Congrega豫o para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re, a Dom Cappio, datada no Vaticano, dia 04 de outubro de 2005, e publicada, indelicadamente, no site da CNBB.

O N�ncio Apost�lico, Dom Lorenzo Baldisseri, acionou, discretamente, seus dois bra�os: o (ent�o) secret�rio-geral da CNBB, D. Odilo Scherer, e o cardeal Re. Ambos traduziram a ofensa contra 뱋 preceito divino� como 뱒uic�dio�. Assumindo uma atitude que poder� terminar com a sua morte, D. Luiz Cappio estaria, como suicida potencial, infringindo 뱋s princ�pios da moral crist��.

Tendo conhecimento dessa postura da Santa S�, Jacques Wagner, ent�o Ministro das Rela寤es Institucionais do Governo Lula,� dirigiu-se, no mesmo dia 06 outubro de 2005, como o N�ncio, com tranq�ilidade para Cabrob�. Sabia que a negocia豫o com frei Luiz Cappio lhe sairia barato. N�o precisava levar mensagem assinada pelo Presidente Lula, nem prometer a interrup豫o do projeto que causou a greve de fome do Frei. O Governo Federal prometeu apenas 뱎rolongar o debate�, dar continuidade �s obras da revitaliza豫o, e abrir as portas do Pal�cio do Planalto para uma visita de Dom Luiz. Enquanto J. Wagner estava fazendo jogo de cena na capelinha de S�o Sebasti�o, o N�ncio estava esperando na casa paroquial de Cabrob�, para um segundo round, se preciso fosse, de cunho disciplinar, munido com a carta de intima豫o do cardeal Re...

Doar a vida n�o � suic�dio. Neste momento de perda de referenciais �ticos no Brasil, das �guas turvas do cen�rio pol�tico, a figura de Dom Luiz Fl�vio Cappio surge como uma rocha. Assumiu, na solid�o de sua consci�ncia, a decis�o de dar a sua vida pela vida do povo e do Rio. Mas, a greve de fome n�o significaria predisposi豫o ao suic�dio, como algumas pessoas advertiram? Conv�m alguns esclarecimentos a respeito. A greve de fome faz parte dos instrumentos de luta da n�o-viol�ncia. Ela tem como objetivo uma causa, que � poss�vel realizar. Para o sucesso da greve de fome conta muito a opini�o p�blica, o apoio popular e, como neste caso, a solidariedade eclesial. Com certeza, a percentagem dos que morrem em conseq獪ncia de uma greve de fome � menor do que os mortos pela fome ou pela falta de �gua no pol�gono da seca nordestina. Nessa perspectiva, a greve de fome se aproxima da abdica豫o de um privil�gio e de uma partilha exemplar de estruturas de morte. Quando, no dia do anivers�rio do Rio e do bispo, no dia 04 de outubro, participamos por duas horas da interrup豫o do tr�nsito da estrada que liga Petrolina a Cabrob�. A id�ia, ent�o, era exatamente chamar a aten豫o p�blica para a causa em jogo, de multiplicar o impacto, de ampliar a audi�ncia da regi�o para evitar a morte.

Na moral crist� existem causas que justificam a morte, sobretudo quando se trata de um bem maior. Quando S�o Francisco decidiu ir a Jerusal�m para falar com o Sult�o, a sua decis�o foi considerada de alto risco para a sua vida. Existe algo como um risco profissional. Isso vale para cada profiss�o, seja carvoeiro ou bombeiro. No caso de um religioso est� ligado � coer�ncia com sua �tica profissional. A greve de fome de Dom Cappio n�o tinha as caracter�sticas de um suic�dio anunciado, mas de uma vacina zelosamente preparada. Como o veneno da cobra cria anticorpos contra a mordida de cobra, assim o veneno da fome, assumido pelo jejum de frei Luiz, criou anticorpos contra a fome do povo e contra a voracidade daqueles que lucram com a ind�stria da seca.

Padre Jos� Comblin, grande expoente da Teologia da Liberta豫o, no artigo �A prop�sito da greve de fome de Dom Luiz� Cappio�[4], reflete:

밐� valores mais importantes do que a vida, que n�o pode� ser salva a qualquer pre�o, como se fosse o valor absoluto. O pr�prio Jesus mostrou isso na sua vida. Na v�spera da sua paix�o, ele podia muito bem ter fugido, seguindo os conselhos dos seus disc�pulos. Bastavam alguns poucos dias de marcha e ele estaria fora do alcance daqueles que o queriam matar. Ele teve que escolher: Fugir ou morrer. Os pr�prios evangelhos dizem que a tenta豫o foi forte e a luta foi dura, mas ele resolveu ir ao encontro da morte. Sabia que iam mat�-lo, e assim mesmo foi ao encontro da morte.�

Dom Oscar Romero sabia, tinha a certeza de que iam mat�-lo. No entanto, era f�cil evitar a morte. Bastava tomar o avi�o e afastar-se do pa�s. Assim o suplicavam os padres, os agentes de pastoral e at� as autoridades eclesi�sticas. Era muito f�cil. Morreu porque quis. Ficou em San Salvador, sem se esconder. Ele se ofereceu � bala do atirador. Por qu�? Por causa do Evangelho.

E quantos outros na hist�ria? Claro que na mesma situa豫o a grande maioria faz a outra op豫o e foge. J� foi assim nos primeiros s�culos. A grande maioria fugiu, se escondeu e escapou. Outros quiseram ficar e oferecer-se � cruz...

Dom Oscar Romero achou que, na matan�a e na opress�o do seu povo, o evangelho estava comprometido e que a fidelidade a Jesus exigia dele que tomasse a sua cruz. Tomou a sua cruz. N�o ia ao encontro de um risco de morte. Era uma certeza. Assim como os primeiros crist�os que se negavam a oferecer incenso � imagem do imperador sabiam que isso era a morte.

As circunst�ncias mudam. Hoje em dia em lugar nenhum se pede incenso para o presidente da rep�blica. No entanto, hoje em dia o grande �dolo � o capital. Baixar a cabe�a diante dos grandes bancos mundiais � idolatria. Com certeza v�o aparecer m�rtires da luta contra o deus dinheiro.

De qualquer maneira, n�o podemos colocar a vida como valor supremo e tudo subordinar � necessidade de salvar a vida. Podemos muito bem descobrir que em casos determinados a defesa dos direitos dos pobres justifica o sacrif�cio da vida. Quantos morreram porque desafiaram a pol�cia, os capangas do fazendeiro ou os pistoleiros contratados pelos poderosos?

O que pode nos estranhar � a modalidade. Fazer greve de fome � diferente de colocar-se na frente do atirador para levar um tiro. A forma exterior � diferente, mas isso n�o muda a natureza moral do ato.

A greve de fome � um meio de a豫o social relativamente novo, mas destinado a um grande futuro na sociedade urbana de comunica豫o. Os dominadores dizem que a decis�o tomada por um Congresso representa as op寤es da maioria da popula豫o porque os deputados s�o os representantes da Na豫o. Por�m, a experi�ncia mostra que isso � pura ilus�o. Os deputados n�o representam o povo, mas certas categorias de interesses. O que aconteceu na Europa mostrou muito bem a ilus�o do sistema chamado de representatividade como se as elei寤es fossem realmente um sistema democr�tico. A experi�ncia mostra que os pobres n�o t�m representa豫o, e que os eleitos n�o levam em considera豫o nenhuma as expectativas dos eleitores. Quem ganha as elei寤es � quem tem dinheiro, salvo poucas exce寤es. Ent�o os pobres n�o t�m voz.

Dizem que os conflitos devem resolver-se pelo di�logo e pelo debate. Ora, quem est� presente nos debates? Intelectuais e representantes das classes dominantes. O povo est� ausente de todos os di�logos e de todos os debates. Somente pode haver di�logo entre grupos de for�a igual. Ora os pobres n�o t�m for�a nenhuma e os ricos t�m todas as for�as. Como pode haver um di�logo? Somente haver� di�logo quando os pobres tiverem uma for�a social suficiente e equivalente � for�a dos bancos, das multinacionais, das grandes empresas. At� l� o di�logo � engano.

Acontece que a greve de fome � um gesto destinado a despertar o povo. � quase a �nica maneira que um povo tem de mostrar a sua presen�a e de pressionar os poderosos. Todos os canais institucionais est�o fechados. Para lembrar a sua exist�ncia aos poderosos os pobres precisam de sinais fortes. Sem esses sinais o medo � sempre mais forte...

A greve de fome � o �ltimo recurso quando n�o h� mais recursos. A outra via � a viol�ncia como na Palestina e no Iraque. O bispo mostrou que tinha escolhido o caminho pac�fico, o que merece admira豫o e gratid�o. Haveria outro recurso? O Congresso? Os partidos? Os tribunais? Todas estas institui寤es escutam os clamores  do povo? Para o povo somente existem caminhos fora das institui寤es e fora das leis. As leis n�o foram feitas para lhes facilitar a express�o.

Sobre o ponto de vista da moral cat�lica, "n�o se considera que a greve de fome seja conden�vel de modo absoluto, ou seja, em qualquer condi豫o e sob qualquer condi豫o e sob qualquer premissa"[5].

A fidelidade ao Evangelho vale mais do que a vida e Deus quer essa fidelidade mais do que a vida. Assim o mostraram os m�rtires que provocaram a sua morte porque rejeitaram os gestos que podiam salvar-lhes a vida. Puderam escolher e escolheram a morte porque havia um valor superior que era a fidelidade ao Evangelho.

Quem faz a greve de fome n�o tira a sua vida, mas pressiona os poderes; cria um risco, mas esse risco existe em outras situa寤es humanas.

Na sua segunda Carta ao Povo do Nordeste[6], em 29/11/2007, Dom Cappio abre os olhos dos pobres do Semi-햞ido:

밢 governo n�o cumpriu o prometido, abortou o debate apenas iniciado, ganhou as elei寤es e colocou o Ex�rcito para come�ar as obras da transposi豫o. Movimentos e entidades da sociedade organizada intensificaram as mobiliza寤es e os protestos, mas o governo se fez de surdo. Diante disso, n�o me restou outra alternativa sen�o retomar o jejum e ora豫o, como havia dito que faria se o acordo n�o fosse cumprido...

A seca n�o � um problema que se resolve com grandes obras. Foram constru�dos 70 mil a�udes no Semi-햞ido, com capacidade para 36 bilh�es de metros c�bicos de �gua. Faltam as adutoras e canais que levem essa �gua a quem precisa. Muitas dessas obras est�o paradas, como a reforma agr�ria que n�o anda. Levar maiores ou menores por寤es do S�o Francisco vai tornar cara toda essa �gua existente e estabelecer a cobran�a pela �gua bruta em todo o Nordeste. O povo, principalmente das cidades, � quem vai subsidiar os usos econ�micos, como a irriga豫o de frutas nobres, cria豫o de camar�o e produ豫o de a�o, destinadas � exporta豫o. Assim j� acontece com a energia, que � mais barata para as empresas e bem mais cara para n�s. Essa � a verdadeira finalidade da transposi豫o, escondida de voc�s. Os canais passariam longe dos sert�es mais secos, em dire豫o de onde j� tem �gua.

Portanto, n�o estou contra o sagrado direito de voc�s � �gua. Muito pelo contr�rio, estou colocando minha vida em risco para que esse direito n�o seja mais uma vez manipulado, chantageado e desrespeitado, como sempre foi. Luto por solu寤es verdadeiras para a vida plena do povo sertanejo � isso tem sido minha vida de 33 anos como padre e bispo do sert�o. �, pois, um gesto de amor � vida, � justi�a e � igualdade que nunca reinaram no Semi-햞ido, seja a�, seja aqui no S�o Francisco, longe ou perto do rio...

O S�o Francisco precisa urgentemente de cuidados, n�o de mais um uso ganancioso que se soma aos muitos que lhe foram impostos e o est�o destruindo. Como lhes disse da outra vez, fosse a transposi豫o solu豫o real para as dificuldades de �gua de voc�s, eu estaria na linha de frente da luta de voc�s por ela.

O que precisamos, n�o s� no Nordeste, � construir uma nova mentalidade a respeito da �gua, combater o desperd�cio, valorizar cada gota dispon�vel, para que ela n�o falte � reprodu豫o da vida, n�o s� a humana. Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados � destrui豫o de nossa casa e � nossa pr�pria extin豫o, contra o Projeto de Deus.�

Padre Jo�o Batista Lib�nio, em artigo no Jornal OPINI홒, n. 966, reflete:

밇 quando no caminho dos poderosos surge um profeta disposto a dar a vida? A situa豫o se complica. A voz serena, firme, n�o-violenta de quem abra�a a causa, n�o por pr�prio interesse, mas por amor ao povo, soa diferente... Na Transposi豫o do rio S�o Francisco, o governo esbarrou com enorme obst�culo, cuja for�a reside na fraqueza. Homem de f�, religioso, bispo bem pr�ximo dos pobres e comprometido com eles. Que o grito prof�tico de Dom Luiz Fl�vio Cappio sirva para mostrar � sociedade brasileira e ao governo que h� pessoas capazes de jogar a vida por ideais elevados e que o povo brasileiro n�o se encontra totalmente anestesiado e adormecido diante de causas maiores�.

Padre Jos� Janu�rio, ap�s visitar Dom Cappio em Cabrob�/PE, dia 04/10/2005, exclamou:� 밇ncontrei 밊rancisco� � margem do rio S�o Francisco, em Greve de Fome. Dom Luiz, vestido como frade, tinha a serenidade e o vigor de um profeta, em seus olhos contemplava-se plenamente a vida, seu sorriso trazia a for�a e a ternura do evangelho; em suas m�os, a marca da popula豫o ribeirinha e, em suas palavras, a liberdade e a clareza da miss�o que cumpria.�[7]

 

3. A luta contra a Transposi豫o do Velho Chico: luta pela sustentabilidade da vida.

Dom Cappio n�o est� sozinho na luta contra a Transposi豫o que foi iniciada e avan�a com a militariza豫o da regi�o. Com ele est�o mais de 800 organiza寤es populares que integram a ASA � Articula豫o do Semi-햞ido -, est�o muitos movimentos sociais como a �Via Campesina que, em carta a Dom Cappio, disse: 밨eceba nossa solidariedade fraterna. Vamos transform�-la em luta pr�tica e em um chamado a todo o povo, por todo o territ�rio nacional, mostrando � sociedade e ao governo federal que sua luta � nossa luta: a busca por um pa�s justo, soberano e ambientalmente sustent�vel. Tenha a certeza de que estamos ao seu lado, atuando em todo o Brasil, em defesa da sua vida, que hoje se integra totalmente com a pr�pria vida e destino do rio S�o Francisco. Seu gesto significa um ato de amor pelo povo e pelo nosso pa�s�.

Tamb�m est�o com frei Luiz a CNBB[8], a OAB[9], Minist�rios P�blicos estaduais e federais da bacia s�o-franciscana, a SBPC[10], que em um congresso, em Recife,PE, em agosto de 2004, com os melhores hidr�logos do mundo demonstrou que a Transposi豫o ser� uma trag�dia social e ambiental. Grandes 뱓�cnicos� entendidos no assunto assessoram a luta contra a transposi豫o, em defesa do Rio S�o Francisco, do seu Povo e de toda a biodiversidade j� bastante comprometida.

Segundo o professor Dr. Jo�o Abner Guimar�es Jr.[11], �h� um projeto de Transposi豫o fantasioso, vendido � opini�o p�blica por um forte marketing oficial e pela m�dia. E h� outro projeto real de transposi豫o que est� sendo sistematicamente ocultado do povo, pois � perigoso, injusto, insano e fara�nico: 87% das �guas da Transposi豫o ser�o para atividades econ�micas altamente consumidoras de �gua, como a fruticultura irrigada, a cria豫o de camar�o e a siderurgia, voltadas para a exporta豫o e com seri�ssimos impactos ambientais e sociais.[12] O IBAMA, que deu o aval para a obra, forneceu, sem querer, argumentos contra o projeto. Reconhece que 70% da �gua ser�� para a irriga豫o e 26% para o abastecimento de cidades; que a maior parte da �gua transposta ir� para a�udes onde se perde at� 75% por evapora豫o; que 20% dos solos que se pretendia irrigar "t�m limita寤es para uso agr�cola" e "62% dos solos precisam de controle, por causa da forte tend�ncia � eros�o".

A transposi豫o do Velho Chico � um projeto politicamente inconseq�ente, economicamente invi�vel, socialmente injusto e ecologicamente covarde. Bastaria qualquer uma dessas quatro condi寤es ser verdadeira para justificar o abandono do projeto. A transposi豫o � politicamente inconseq�ente porque gera um conflito na federa豫o brasileira e nos estados do Nordeste que ser� permanente, com tend�ncia a se agravar - uma briga pelo uso da �gua. O rio � da 밿ntegra豫o nacional�, mas a transposi豫o � obra de desintegra豫o nacional, pois, no momento em que se tira �gua do Rio S�o Francisco para levar para o Cear�, Para�ba e Rio Grande do Norte (os estados receptores), uma injusti�a � cometida com o povo doador (alagoanos, baianos, mineiros, pernambucanos e sergipanos) que possui disponibilidade h�drica de 360 metros c�bicos por segundo (m�/s) para abastecer uma popula豫o de 13 milh�es de pessoas. No Cear�, por exemplo, a disponibilidade per capita � melhor: 215 m�/s para 7,5 milh�es; sendo que fen�meno semelhante acontece tamb�m com o Rio Grande do Norte.

� um erro ecol�gico dizer que o Rio S�o Francisco est� desperdi�ando �gua no mar. O ecossistema marinho depende desta �gua para se manter vivo. Precisa ser mantida uma vaz�o ecol�gica na foz.

A transposi豫o � a sofistica豫o da ind�stria da seca. Os beneficiados ser�o as empresas da constru豫o civil e os grandes empres�rios locais. A Regi�o Nordeste tem o maior �ndice de a�udagem do mundo � 70 mil a�udes constru�dos em um s�culo - e uma grande
capacidade de armazenar �gua. Os projetos j� feitos nunca tiveram cunho social. A pol�tica hidr�ulica do Nordeste n�o est� atrelada a uma reforma h�drica e nem agr�ria para oferecer acesso a essa �gua. S� que a transposi豫o � ainda mais prejudicial do que as t�picas obras da ind�stria da seca. Ela n�o demanda apenas investimentos na constru豫o - a popula豫o vai pagar um pre�o constante. Todos, principalmente os que n�o t�m acesso � �gua da transposi豫o, v�o pagar pela �gua. Por tr�s de tudo isso est� um lobby poderoso que se encontra infiltrado nos partidos pol�ticos e na m�quina do governo e que defende a manuten豫o da velha pol�tica de grandes obras hidr�ulicas no Nordeste - a verdadeira e atual ind�stria da seca na regi�o.

O ge�grafo Aziz Ab뭆�ber, no artigo 밃 quem serve a transposi豫o?�, afirma: 밢 risco final � que, atravessando acidentes geogr�ficos consider�veis, como a eleva豫o da escarpa do Araripe � com grande gasto de energia! -, a transposi豫o acabe por significar apenas um canal t�mido de �gua, de duvidosa validade econ�mica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da pol�tica. No fim, tudo apareceria como o movimento geral de transformar todo o espa�o em mercadoria�

Enfim, a transposi豫o n�o � destinada a salvar� os nordestinos da seca, pois apenas uma minoria irrelevante do Semi-햞ido receber� �gua na porta, mas se destina ao hidro e agroneg�cio, que utilizar� uma �gua car�ssima, levada a 700 km, que ter� de� ser subsidiada a vida inteira. O governo Lula, maquiavelicamente, esconde uma realidade que surpreenderia a Na豫o: n�o h� falta de �gua no Nordeste setentrional. O que urge ser feito � democratizar o acesso � �gua existente. O Rio S�o Francisco est� na UTI e a transposi豫o amea�a provocar sua morte, gerando o maior desastre ecol�gico e socioecon�mico da hist�ria brasileira.

 

4. Alternativas: Reformas H�drica e Agr�ria, em Conviv�ncia com o Semi-햞ido

A Transposi豫o se torna ainda mais insensata quando se sabe que h� alternativas mais simples e baratas para o abastecimento das cidades e comunidades rurais nos anos secos. Manoel Bomfim Ribeiro, um dos maiores entendidos na potencialidade do Semi-햞ido, defende que o Nordeste precisa � de democratiza豫o da �gua, o que passa por reforma agr�ria e pela reforma h�drica atrav�s de tr�s subsistemas: adutoras, cisternas e po�os tubulares.[13]

Na primeira carta ao Povo do Nordeste[14], em 30/09/2005, Dom Luiz Fl�vio Cappio dizia:

�H� muito tempo os poderosos querem fazer voc�s acreditarem que s� a �gua do Rio S�o Francisco pode resolver os problemas que� vos afligem todos os anos no per�odo da seca.� N�o � verdade.� Estes mesmos problemas s�o vividos a pouca dist�ncia do Rio S�o Francisco. Ter �gua passando pr�xima n�o� � a solu豫o, se n�o houver a justa distribui豫o da �gua dispon�vel. E temos, perto e longe do Rio, muitas fontes de �gua: da chuva, dos rios e riachos tempor�rios, do solo e do subsolo. O que est� faltando � o aproveitamento e a administra豫o competente e democr�tica dessas �guas, de modo a torn�-las acess�veis a todos, com prioridade para os pobres. N�o lhes contam toda a verdade sobre este projeto da transposi豫o. Ele n�o vai levar �gua a quem mais precisa, pois ela vai em dire豫o aos a�udes e barragens existentes e a maior parte, mais de 70%, � para irriga豫o, produ豫o de camar�o e ind�stria. Isso consta no projeto escrito. Al�m disso, vai encarecer o custo da �gua dispon�vel e estabelecer a cobran�a pela �gua al�m do que j� pagam. Voc�s n�o s�o os reais benefici�rios deste projeto. Pior, voc�s v�o pagar pelo seu alto custo e pelo benef�cio dos privilegiados de sempre.

N�o estivesse o Rio S�o Francisco � beira da morte e suas �guas fossem a melhor solu豫o para a sede de voc�s, eu n�o me oporia e lutaria com voc�s por isso. Tenho certeza de que o generoso povo do S�o Francisco faria o mesmo.�

 

N�o podemos perder de vista que o nosso projeto � muito maior. Queremos �gua para 44 milh�es, n�o s� para 12. Para nove estados, n�o apenas quatro. Para 1.356 munic�pios, n�o apenas 397. Tudo pela metade do pre�o da Transposi豫o. O Atlas do Nordeste da Ag�ncia Nacional de 햓uas (ANA) e as iniciativas da Articula豫o do Semi-햞ido (ASA) com seu projeto de constru豫o de 1 milh�o de cisternas e a implementa豫o de 144 tipos de tecnologias alternativas, sustent�veis ecologicamente, s�o muito mais abrangentes e t�m finalidade no abastecimento humano. A transposi豫o � econ�mica, neoliberal. Um campon�s do Cear� alerta: 밡enhum projeto fara�nico beneficia os pequenos. O que beneficia os pequenos s�o as pequenas obras multiplicadas aos milhares�.

 

5. Um balan�o do segundo jejum de Dom Cappio

Durante os 24 dias de jejum e ora豫o de frei Luiz quantas cartas, e-mails, telefonemas e manifesta寤es de apoio dos quatro cantos do mundo, antenados e solid�rios. Quantas pessoas frei Luiz ouviu, aconselhou, confessou, abra�ou, beijou, dirigiu mensagens a elas, ou simplesmente olhou com carinho. Quantas pessoas participaram do 뱂ejum solid�rio�, uma proposta que ganhou conota寤es - at� certo ponto surpreendentes - de cr�tica a uma sociedade que tem abund�ncia de� comida, mas� aumento da fome. Milhares de pessoas sentiram-se questionadas profundamente no seu estilo de vida crist� diante do valioso testemunho de frei Luiz, ainda que suas palavras e atitudes prof�ticas tenham sido ignoradas por autoridades que se fizeram� surdas �� voz do povo.

Na capela de S�o Francisco, na pequena cidade de Sobradinho, no sert�o da Bahia, gra�as ao esp�rito divino presente nas �guas do Rio, os 24 dias de jejum e ora豫o de dom Cappio (de 27/11/2007 a 20/12/2007) revelaram o crescente compromisso de milh�es de brasileiros com a preserva豫o do S�o Francisco.젨 O Rio n�o � mais algo fora de n�s. � a nossa identidade.� No princ�pio era a �gua; e a �gua se fez 밹arne�: criaturas todas do universo. N�o somos apenas filhos e filhas da �gua. Somos �gua que sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria.

O gesto de Dom Cappio desmascarou a ignor�ncia e a omiss�o de muitos cidad�os. Desmascarou, sobretudo, a arrog�ncia do Governo e o cinismo das institui寤es tidas como democr�ticas. Mostrou que os quatro poderes � midi�tico, executivo, legislativo e judici�rio � continuam de joelhos diante do poder econ�mico nacional e internacional. Revelou que o governo do Presidente Luiz In�cio Lula da Silva revestiu-se de autoritarismo, de arrog�ncia e prepot�ncia na corrup豫o. Ou nas palavras de Dom Tom�s Balduino: 밢 governo Lula esgotou-se�.�

Politicamente, n�o se legitima a transposi豫o do Rio S�o Francisco. Os movimentos populares, representantes leg�timos do povo, levantaram-se na defesa das �guas como bem comum. Denunciaram a mercantiliza豫o da �gua para o hidroneg�cio. O jejum de frei Luiz desnudou a verdade sobre a malfadada Transposi豫o: uma obra fara�nica. A maior da hist�ria do Brasil.

O gesto de Dom Cappio fortaleceu a Via Campesina, os movimentos populares e as lideran�as sociais, os setores religiosos e a consci�ncia cidad� para prosseguirem na luta ecol�gica, o que significa luta contra injusti�as sociais, pol�ticas e econ�micas. Internacionalmente a repercuss�o gerou bons frutos. A Comiss�o Pastoral da Terra, Pastorais Sociais e parte dos movimentos populares que n�o mediram esfor�os na luta ao lado de Dom Cappio tamb�m sa�ram fortalecidos.

Frei Luiz irrompeu como uma forte lideran�a do Brasil atual. Ser� como uma 밻spada de D�mocles� levantada sobre a cabe�a dos quatro poderes, das institui寤es, dos cidad�os, c�mplices do crime e acomodados. A voz e o testemunho de frei Luiz valorizaram o amor pela causa dos pobres.

O gesto prof�tico de Dom Cappio curou a cegueira de milh�es de pessoas. Jejum e ora豫o foram instrumentos para desnudar a mentira. Mobilizou a CNBB, a Igreja Cat�lica, os crist�os, boa parte do clero e dos religiosos. Nas mentes e cora寤es de milhares de pessoas despertou indigna豫o.

A conquista das conquistas: Dom Cappio continua vivo entre n�s. Mais do que nunca continuar� sendo um grande profeta no meio do povo a encorajar a luta dos pequenos na den�ncia de arbitrariedades e desumanidades dos quatro poderes que, travestidos de Estado de Direito, insistem em imperar sobre os pobres e sobre o ambiente natural.

O gesto prof�tico de Dom Luiz sacudiu a Igreja, o Governo e pessoas de tantas institui寤es. A for�a cristalina do testemunho de profeta tocou feridas profundas, encobertas por discursos f�ceis, palavras jogadas ao vento. Dom Cappio retomou uma modalidade de luta assentada sobre a fina flor da tradi豫o crist�: jejum e ora豫o. Resgatou no cora豫o de muitos militantes uma espiritualidade nova. Jejuar e orar continua sendo express�o da resist�ncia contra os fara�s de hoje. O jejum de Dom Cappio foi tamb�m contra o perverso modelo de desenvolvimento, excludente, explorador � o mesmo de quando Cabral invadiu o Brasil -, que enriquece poucos e joga milh�es na mis�ria, como � o caso do trabalho escravo nas carvoarias que dizimam o cerrado e p�e o Velho Chico � beira da morte, pois a morte do cerrado � a morte do S�o Francisco e sua bacia.

A continuidade do debate far� com que caiam outras m�scaras! Muitos ne�fitos no debate sobre a Transposi豫o, tema que j� est� em pauta h� pelos menos dez anos, expressam incongru�ncias, desinforma豫o e o velho preconceito em mal pensar, a partir do Sul/Sudeste, o que se generalizou chamar 밡ordeste�. N�o d� mais para ignorar a revolu豫o silenciosa que se expressa no paradigma da Conviv�ncia com o Semi-햞ido.

Com Roberto Malvezzi somamos: 밢 saldo do gesto de Frei Luiz Cappio demarca as margens e estabelece um abismo moral entre companheiros que at� ontem bebiam da mesma �gua. O rio que nos separa � mais profundo que o S�o Francisco. O que est� em jogo � o futuro deste pa�s, do pr�prio planeta, da pr�pria humanidade. Ser� que o caminho do governo est� mesmo "livre" para prosseguir com o projeto ap�s a vergonhosa decis�o do Supremo Tribunal Federal - STF - de liberar as obras sem apreciar o m�rito de 15 a寤es que tramitam no plen�rio do Supremo? Uma obra de longo prazo, que envolve bilh�es de reais durante sucessivos governos, nunca est� garantida antes de sua conclus�o. A preocupa豫o fundamental demonstrada pelo governo foi "n�o fazer concess�es ao bispo", como demonstra豫o de "autoridade". Muitas vezes, a express�o corrente foi que "ceder liquidaria o Estado". Ou: "Agora � o S�o Francisco, depois podem querer barrar usinas no rio Madeira". Portanto, o governo sabe que o gesto de frei Luiz aponta n�o s� contra o governo e seu Programa de Acelera豫o do Crescimento � PAC -, das empresas, n�o do povo - mas tamb�m contra o modelo de desenvolvimento que est� sendo imposto sobre a natureza, as pessoas e as comunidades mais pobres do Pa�s.�

Queiram os opositores e o governo ou n�o o saldo do gesto de Frei Luiz � muito positivo! Com Dom Cappio vivo e a verdade gritando mais forte - ap�s o jejum e ora豫o n�o apenas de um, mas de tantos -, temos hoje a certeza ainda maior de estarmos do lado certo desta hist�ria. Ou, como profetizou Leonardo Boff, a transposi豫o j� est� amaldi�oada!

 

6. Li寤es e perspectivas (Segundo Paulo Suess)

1. As duas greves de fome de Dom Luiz mostraram que � poss�vel intervir nos processos que pretendem naturalizar a desigualdade e industrializar a fome.

2. Frei Cappio reintroduziu duas palavras importantes na discuss�o, sem falar delas: ruptura e utopia. N�o � por falta de solidariedade que os movimentos sociais, as pastorais e o povo do vale do S�o Francisco rejeitam o projeto da transfer�ncia da �gua, mas por causa do seu car�ter elitista. A ruptura com as estruturas autorit�rias e fara�nicas do projeto permite desconstruir a legalidade privatizada e radicalizar a democracia.

3. Muitos movimentos sociais e religiosos perceberam o gesto de frei Luiz� como tiro de largada. Podem retomar o leme da hist�ria, em vez de arrumar as cabines no por�o do navio. Num momento de depress�o pol�tica, o movimento de Cabrob� devolveu ao povo a esperan�a. A resist�ncia � poss�vel, a luta faz sentido.

4. O gesto de Dom Luiz Fl�vio revelou a universalidade de sua causa que � o pressuposto para alian�as douradoras. Desencadeou um encontro em massa entre peregrinos m�sticos e militantes em marcha, entre ind�genas e pobres que vivem ao longo do Rio, entre brasileiros do Norte ao Sul e internacionalistas de todos os pa�ses.

5. A luta desencadeada na beira do rio S�o Francisco n�o visa apenas corrigir deforma寤es residuais do projeto de transposi豫o do Rio, mas seu engavetamento. A luta pela transforma豫o mobiliza. Quem p�ra de lutar, perde o sonho e a utopia.

6. A causa do rio S�o Francisco ainda n�o � ganha. Se fizermos ressoar a pluralidade das vozes do povo, � poss�vel ganh�-la. Como fazer ressoar a voz do povo, a voz das v�timas, a voz dos que at� hoje zelaram pelo rio S�o Francisco, morando na beira de um rio que lhes foi alienado? As audi�ncias sobre o Projeto da Transposi豫o do Rio S�o Francisco devem ser transformadas em inst�ncias de decis�o. O melhor projeto n�o vale nada sem a participa豫o do povo.

7. O primeiro jejum de Frei Cappio� conseguiu em 11 dias o que a Campanha da Fraternidade 2004 n�o conseguiu em 40 dias. Dela mal lembramos o lema: 벫gua, fonte de vida�. O segundo jejum de Frei Luiz � 24 dias - foi mais eficaz do que todas as lutas de milhares de militantes sociais em dois anos de a寤es concretas contra a Transposi豫o. Os jejuns de Dom Cappio apontam para uma nova pedagogia de revitaliza豫o n�o s� das Campanhas da Fraternidade, mas tamb�m de certas estruturas eclesi�sticas, das casas religiosas, dos escrit�rios dos movimentos sociais, de ONGs e in�meras entidades da sociedade civil.

 

7. E agora, Jos�?

A transposi豫o come�ou, mas n�o ir� muito longe, nem muito menos terminar�, pois � um projeto invi�vel economicamente, ilegal e imoral, segundo as leis ambientais e segundo a Constitui豫o de 1988, injusto eticamente, politicamente autorit�rio e ecologicamente insustent�vel. A hist�ria julgar� o Presidente Lula e os apoiadores deste insano e covarde projeto, a obra mais cara da hist�ria do Brasil.

� imperioso abrir um amplo debate nacional sobre as alternativas para garantir acesso � �gua e desenvolvimento sustent�vel para o Semi-햞ido.� Temos certeza de que, sendo feito com honestidade e verdade, este debate demonstrar� o quanto o projeto de transposi豫o � nefasto e favorece apenas empreiteiras, hidronegociantes, grandes empres�rios, o grande capital internacionalizado, em detrimento do nosso Povo.

밇stamos no S�culo XXI e um gesto prof�tico como o de Dom Luiz Cappio deveria despertar a sociedade e o seu governo para cuidar dos pobres do Semi-햞ido� de maneira exemplar: com sentido de justi�a, amor � natureza e pleno respeito a uma outra maneira de fazer pol�tica de desenvolvimento. Se benditos s�o os m�rtires, maligna � a sociedade que por a豫o ou omiss�o produz m�rtires�[15], alerta Guilherme Delgado.

Alfredo de Abreu Paz, poeta popular da CPT, canta: 밡osso povo n�o quer mais / Ver nosso bispo sofrer / Dom Frei Luiz Cappio passar / Vinte quatro dias sem comer / Nem ele nem outro bispo / Que n�o corra mais o risco / De agonizar pra morrer. Pelo Jejum solid�rio / Frei Luiz fez op豫o / Defendendo o Velho Chico / Sua revitaliza豫o / Se algu�m n�o entendeu / Mas este belo exemplo seu / Foi pelo bem da na豫o�.

Doar a vida � investir, abnegada e saudavelmente, na qualidade de rela寤es, na liberta豫o sist�mica, na dignidade das pessoas, na preserva豫o da natureza. N�o h� doa豫o sem abdica豫o. 밫orna-se fator de acr�scimo quem se disp�e a perder�. 밦uem morre h� de viver�.

O ap�stolo Pedro pretendia salvar a vida de Jesus. 밫er de doar sua vida? Isto n�o lhe vai acontecer!�� Teve de ouvir: 밪eu modo de pensar nada tem a ver com a sabedoria de Deus. Deixe-me em paz, seu covarde e mentiroso!� Seria t�o f�cil para Jesus uma retirada, uma fuga inteligente, preservando sua vida. 밠as quem n�o perde, como h� de ganhar?��

Feliz o povo, feliz a institui豫o que produz� pessoas t�o dignas a ponto de se disporem a doar a pr�pria vida para que a vida de tantos seja salva. Maldito o povo e maldita a institui豫o que repudia um filho seu que, de tanto amor, abdica de si para que vida de qualidade se torne heran�a de todos. Bendito o povo, bendita a institui豫o que alimenta� em seus filhos a capacidade de, esquecendo-se de si, priorizar a vida de seus irm�os. Repudi�vel o povo e execr�vel a institui豫o que avaliam a doa豫o de um filho seu como um gesto idol�trico.

Dom Cappio, suspendendo o jejum, 뱑essuscitou�. Ele agora segue serenamente a defesa intransigente da Revitaliza豫o do Velho Chico. Est� mais do que nunca fortalecido em seus princ�pios �ticos. Recebeu das pessoas mais respeit�veis do nosso pa�s e no exterior � artistas, intelectuais, ribeirinhos, lideran�as sociais -, o apoio para acordar as consci�ncias adormecidas pelo calmante social distribu�do pela m�dia. O seu gesto alertou os desatentos, separou muito joio do trigo. Descoloriu ainda mais os discursos mentirosos que falseiam as verdades.

Feliz o povo que ouve a voz de seus profetas e os segue. Eis no nosso meio um verdadeiro filho de Francisco de Assis, um grande profeta. O nome dele � DOM FREI LUIZ FL햂IO CAPPIO. A gl�ria de Deus brilha nele e na grande luta em defesa de uma aut�ntica revitaliza豫o de toda a bacia s�o-franciscana e em prol de um aut�ntico projeto de Conviv�ncia com o Semi-햞ido. Isso implica asfixiar o projeto da Transposi豫o, antes que seja tarde demais. 벫guas para a vida e n�o para a morte�, gritamos todos, ao lado dos militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Salvar o Rio S�o Francisco, seu povo, o povo de Semi-햞ido e toda a biodiversidade s�o-franciscana e da caatinga � um sonho bom. Sabemos que 뱒onho que se sonha s� pode ser pura ilus�o, mas sonho que se sonha junto � sinal de solu豫o. Ent�o vamos sonhar, companheiros e companheiras!�

As reflex�es oriundas do testemunho de Dom Cappio fizeram e ainda far�o borbulhar o Esp�rito para suscitar e dinamizar muitas outras li寤es como� testemunho de aut�ntica cidadania. Eis um testemunho espiritual e prof�tico na luta pela Sustentabilidade da Vida! A luta continua! M�os � obra!

 

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[1] Frei e padre carmelita, mestre em Exegese B�blica, professor de Teologia B�blica, assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Via Campesina, em Minas Gerais; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br - www.gilvander.org.br

[2] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida: o Jejum de Dom Luiz Cappio em defesa do Rio S�o Francisco e de seu Povo, ESTEF(Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana), Porto Alegre, 2008, p. 11.

[3] Ibidem, p. 46.

[4] Ibidem, p. 116-119.

[5] E. L�pez Azpitarte - F. J. Elizarri -R. Rinc�n, Pr�xis crist�, t. II, ed. paulinas, S�o Paulo, 1984, p. 98.

[6] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida..., p. 50-51.

[7] Jornal de Opini�o n. 966 6, Ano 20,� de 06 a 12/12/2007, p. 1.

[8] Confer�ncia Nacional dos Bispos do Brasil.

[9] Ordem dos Advogados do Brasil.

[10] Sociedade� Brasileira para o Progresso da Ci�ncia.

[11] Ex-diretor da Ag�ncia de 햓uas do Rio Grande do Norte, doutor em Recursos H�dricos, professor da UFRN.

[12] Dados do EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relat�rio de Impacto sobre o Meio Ambiente), p�blicos por lei, j� que, na internet, o governo s� colocou pe�as publicit�rias.

 

[13] Cf. RIBEIRO, Manoel Bomfim Dias, A Potencialidade do Semi-�rido Brasileiro, O Rio S�o Francisco: Transposi豫o e Revitaliza豫o � Uma an�lise, FUBBR핿, Bras�lia, 2007, pp. 203-204.

[14] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida..., p. 33-34.

[15] Ibidem, p. 86.