DOM CAPPIO E A LUTA CONTRA A TRANSPOSI플O

Um testemunho espiritual e proftico na luta pela Sustentabilidade da Vida

Gilvander Luiz Moreira[1]

 

(Este artigo foi publicado no livro 21o Congresso Anual da Sociedade de Teologia e Religio SOTER, Ed. Digital ebook, Paulinas, So Paulo, 2008, pp. 228-241.)

 

밠eu rio de So Francisco, nesta grande turva豫o, vim te dar um gole d믟gua e pedir sua bn豫o. (Inspirado em Guimares Rosa, refro de msica de frei Luiz)

 

1. Pra comeo de conversa

A maior devasta豫o ambiental da histria do Brasil est em curso e cresce em progresso geomtrica. Eis um sinal dos tempos e um sinal dos lugares que compem o Brasil. Do pau-brasil a brasas, eis um futuro iminente do pas-continente aclamado por tantos no passado como um paraso terrestre, caso no consigamos frear a avalanche de devasta豫o ambiental da nossa nica casa comum: o Planeta Terra.

A Transposi豫o de guas do Rio So Francisco algo muito grave que est acontecendo no Brasil. O Governo do Presidente Lula se nega 밹om unhas e dentes a um dilogo franco e transparente sobre o projeto. O poder miditico compactua com o Governo Federal e no abre espao para que um debate autntico seja feito. Muitos movimentos populares, sob a liderana da Comisso Pastoral da Terra CPT e da Articula豫o do Semi-햞ido ASA continuam agerridamente a luta contra a transposi豫o, em defesa de uma autntica revitaliza豫o da bacia so-franciscana e por um Projeto de Convivncia com o Semi-햞ido.

Em 2005, Dom Cappio fez um jejum (밽reve de fome) de 11 dias, entre 26 de setembro e 05 de outubro, em Cabrob, PE, contra a Transposi豫o do Rio So Francisco, em defesa da Revitaliza豫o da bacia so-franciscana e de um Projeto de Convivncia com o Semi-햞ido.

Dom Cappio afirmou publicamente que, se o acordo firmado, em confiana, com o Presidente Lula - de abrir um amplo e srio dilogo com a sociedade sobre o Projeto de Transposi豫o - no fosse cumprido, ele voltaria ao jejum e ora豫o, com mais determina豫o ainda. Infrutferas e esgotadas foram todas as tentativas de dilogo durante dois anos. Dessa forma, Dom Cappio fez um segundo jejum, durante 24 dias, de 27 de novembro de 2007 a 20 de dezembro de 2007, na Capela de So Francisco, em Sobradinho, BA, ao p da barragem de Sobradinho, o maior lago artificial do mundo que, na poca, estava com menos de 14% da sua capacidade, o que revela que 뱋 Velho Chico est na fila do SUS e no sabe se vai ter direito a uma UTI, profetiza Dom Luiz.

밡o mundo dos pequenos, o Evangelho se situa logo. Interpreta uma situa豫o complexa com muita simplicidade. Inquieta e rouba o sono, ensina Paulo Suess. De fato, testemunhando uma tima notcia para os pobres, uma pssima notcia para os empresrios do agro e hidronegcio, Dom Cappio com seus dois jejuns inquietou e roubou o sono de muita gente.

 

2. Frei Luiz, o Dom Cappio ...

Dom Frei Luiz Flvio Cappio, carinhosamente chamado de frei Luiz, 61 anos, pessoa de eminente santidade pessoal e de incondicional amor aos deserdados do vale do So Francisco, ainda frade jovem, militou na Pastoral Operria em So Paulo. Nasceu no dia 04 de outubro de 1946, dia de So Francisco. Como este, revela, tambm, uma paixo sem igual pela causa so-franciscana e um amor extremado pelo povo da bacia so-franciscana e do Semi-햞ido. H 33 anos chegou Diocese de Barra/Bahia, no Mdio So Francisco, s com a roupa do corpo e sandlias. Fez um dos melhores cursos de teologia do Brasil, em Petrpolis. Foi aluno de Leonardo Boff e de tantos outros telogos da Teologia da Liberta豫o. Cursou economia tambm.

Para Dom Cappio, o rio So Francisco "a me e o pai de todo o povo, de onde tiram o peixe para comer, a gua para beber e molhar suas planta寤es - principalmente em suas ilhas e reas de vazantes. Mesmo no sendo o maior rio brasileiro em volume d'gua, talvez seja o mais importante do Pas, porque d condi豫o de vida popula豫o. Sempre dizemos: rio So Francisco vivo, povo vivo; rio So Francisco doente e morto, popula豫o doente e morta".

A atriz Letcia Sabatella, em visita a frei Luiz no dia 04/12/2007, ao contempl-lo, exclamou: 밆om Cappio alma amorosa e plena de compaixo humana, pastor de uma Igreja que mobiliza e no anestesia, que ajuda a conscientizar e formar cidados.

Roberto Malvezzi, da Comisso Pastoral da Terra, pondera: 밢 gesto de Frei Luiz - sentar-se em uma cadeira, com seu hbito franciscano, tomando apenas gua do So Francisco -, convulsionou o Pas como nenhum outro gesto. Ele no atentou contra a vida dos outros. Ps em risco a sua prpria. E apontou para problemas maiores que o Brasil ter que enfrentar agora e no futuro. Cada pessoa que tem filhos, ao pensar em que planeta eles vivero, em que pas eles vivero, em que Nordeste eles vivero, como ser a situa豫o do So Francisco e de todo o serto, entendeu o gesto dele.

O socilogo Pedro Ribeiro de Oliveira analisa:

밆om Cappio usou a linguagem religiosa para fazer uma denncia poltica, criando uma situa豫o constrangedora para a comunidade catlica que s em parte se alinhou com ele. Foi um gesto extremo, sem dvida, que s uma situa豫o muito grave pode justificar. Para quem v o projeto como uma obra faranica que faz da gua objeto de transa寤es econmicas, desrespeitando os direitos dos povos indgenas, quilombolas e ribeirinhos, aquele foi um gesto da melhor tradi豫o proftica, que provoca mesmo divises. Dividiu-se a 밻squerda entre quem fica com a concep豫o economicista de desenvolvimento, e quem insiste na partilha da riqueza como caminho para que todos tenham vida com dignidade. Dividiu-se a comunidade crist entre quem aceita o lugar que lhe foi atribudo pela (ps) -modernidade e quem insiste na dimenso intrinsecamente poltica do Evangelho. difcil aceitar essas divises, mas, no caso, elas representam um avano poltico para irmos alm daquilo que o governo Lula pode oferecer.

 

S quem vive imerso na doa豫o incondicional de Deus capaz de gestos de to extremada generosidade. Quem sabe que tem Deus sempre por perto, pode, destemido, enfrentar o inspito poder dos que se julgam fortes!

Frei Luiz chegou aos sertes baianos do rio So Francisco e logo se identificou com o Rio. Encontrou l o melhor modo de seguir So Francisco, seu pai e modelo no seguimento de Jesus. Passou a se sentir visceralmente integrado ao povo do Rio e ao rio do povo, em uma franciscana e espiritual ecologia. Vendo com olhar compassivo e penetrante, Dom Cappio foi observando a degrada豫o ambiental e social do Rio e de seus afluentes: peixe escasso, vazantes menos produtivas, bancos de areia, navega豫o difcil, guas poludas, rasas ...

Como intelectual orgnico, frei Luiz comeou a perguntar o porqu de tanta agresso. Descobriu que os principais problemas so o desmatamento, para as monoculturas e as carvoarias, que diminui os mananciais e provoca o assoreamento; a polui豫o urbana, industrial, minerria e agrcola; a irriga豫o que, alm dos agrotxicos, consome guas; as barragens e hidreltricas que expulsam comunidades, impedem os ciclos naturais do Rio e comprometem 80% de suas vazes com a energia eltrica; a pobreza e o abandono da popula豫o, a que mais sofre com as conseq獪ncias desses abusos. ...

Na apresenta豫o do livro Uma vida pela vida, de Dom Itamar Vian (org.)[2], frei Luiz pontua: 밊alar do jejum e ora豫o que aconteceram em Cabrob e em Sobradinho falar de um pastor que, luz de Jesus Cristo, doa a vida por seu rebanho amado e que, imita豫o de So Francisco, entrega o que tem de melhor aos pobres e aos que esto margem, os preferidos de Deus.

Dom Cappio, em Carta ao Presidente Lula, de 04/10/2007, afirmou: 밢 senhor no cumpriu a palavra. O senhor no honrou nosso compromisso. Enganou a mim e a toda a sociedade brasileira. Uma na豫o s se constri com um povo que seja srio, a partir de seus dirigentes. A dignidade e a honradez so requisitos indispensveis para a cidadania. Portanto retomo o meu jejum e ora豫o... Acredito que as foras interessadas no projeto usaro de todos os meios para desmoralizar nossa luta e confundir a opinio pblica. Mas quando Jesus se disps a doar a vida, no teve medo da cruz. Aceitou ser crucificado, pois este seria o preo a ser pago. A vida do Rio e do seu povo ou a morte de um cidado brasileiro.

Em alto e bom som, com a intrepidez dos profetas Elias, Ams, Osias, Jeremias, do dicono Estevo, Dom Cappio 몀eteu o p no barranco e bradou, atravs de palavras e pelo gesto de se dispor doa豫o da sua prpria vida, que o Presidente Lula no cumpriu a palavra, no honrou compromissos assumidos e enganou o povo. Dom Cappio desmascarou o governo Lula. Revelou a grande farsa que se montou. Desmistificou um 묓dolo do povo. Postura assim veicula uma espiritualidade libertadora e imprescindvel na constru豫o da sustentabilidade da vida.

Em 25 de novembro de 2007, em carta endereada aos padres da Diocese de Barra, frei Luiz pondera: 밢s movimentos sociais tm feito o que podem. Em vo. Diante da sucesso de absurdos que vm acontecendo em nveis institucional, econmico, poltico, social e ambiental, no posso me omitir. Novo grito tem que ser dado. Se o eco do primeiro ainda ressoa, agora ser alimentado por novo gesto baseado na f e no amor, principalmente ao povo de Deus, a quem doei minha vida... Sei que isso traz uma profunda experincia de insegurana diante do futuro. Peo que encarem com f este profundo gesto de amor e doa豫o. 밃 profecia no pode morrer, ensinava Dom Hlder Cmara, embora saibamos que seu preo muito caro.[3]

Na primeira carta ao Povo do Nordeste, em 30/09/2005, em jejum e ora豫o, Dom Cappio afirmou: Queridos irmos e irms nordestinos do Cear, da Paraba, do Rio Grande do Norte e do Pernambuco: h mais de 30 anos, buscando ser fiel a Jesus Cristo e a meu pai So Francisco, identifiquei minha vida sacerdotal com o Rio So Francisco e seu Povo. Neste momento, apenas procuro manter-me coerente com esta op豫o. No quero morrer, mas quero a vida verdadeira para o Rio So Francisco e para o todo o Povo Sanfranciscano e do Nordeste! No estivesse o Rio So Francisco beira da morte e suas guas fossem a melhor solu豫o para a sede de vocs, eu no me oporia e lutaria com vocs por isso.

O testemunho de Dom Cappio tem uma histria de coerncia. Vem de longe. Ele outro enviado de Deus, apaixonado por Jesus Cristo e por Francisco de Assis que, como ele, largou o conforto de uma famlia rica, despojou-se de tudo e abraou a luta ao lado dos menores do serto, no Mdio So Francisco. Dom Cappio no queria morrer, mas entende que sua vida est intimamente ligada vida do Rio, do seu Povo e de toda a biodiversidade. Que adianta continuar vivendo, se o nosso prximo o Rio, o Povo e a biodiversidade est morrendo?

Dom Cappio procurou se respaldar por estudos tcnicos srios e aprofundados. Sabe, como lder, que no pode deixar o povo ser enganado. Apia o que, de fato, melhor para os pobres. Toma o partido dos pobres.

Padre Paulo Suess, no artigo Dom para o mundo, frei de todos: o gesto proftico de Luiz Flvio Cappio analisa:

O gesto proftico de frei Cappio produziu uma polmica crescente no interior da Igreja. Um setor apoiou a postura poltica do Frei, porm era contra o meio escolhido, a greve de fome. Outro setor era contra seus objetivos polticos, achando que a transferncia do rio So Francisco um projeto que traz mais benefcios do que prejuzos popula豫o. Ainda outro setor, em torno dos movimentos sociais e das pastorais, era a favor dos objetivos e apoiava o meio da greve de fome, como um recurso ltimo, legtimo e proftico.

A entrou em cena o setor institucional da Igreja, a CNBB, a Nunciatura e o Vaticano. No se pronunciaram sobre a validade dos fins, mas chamaram a aten豫o do colega sobre o meio escolhido, a greve de fome. Esse meio, alegavam, contra 뱋 preceito divino de no extinguir a vida. Exigiram do Frei: 밿mediatamente coloque fim a este gesto em obedincia tambm Santa S, como diz a carta do prefeito da Congrega豫o para os Bispos, cardeal Giovanni Battista Re, a Dom Cappio, datada no Vaticano, dia 04 de outubro de 2005, e publicada, indelicadamente, no site da CNBB.

O Nncio Apostlico, Dom Lorenzo Baldisseri, acionou, discretamente, seus dois braos: o (ento) secretrio-geral da CNBB, D. Odilo Scherer, e o cardeal Re. Ambos traduziram a ofensa contra 뱋 preceito divino como 뱒uicdio. Assumindo uma atitude que poder terminar com a sua morte, D. Luiz Cappio estaria, como suicida potencial, infringindo 뱋s princpios da moral crist.

Tendo conhecimento dessa postura da Santa S, Jacques Wagner, ento Ministro das Rela寤es Institucionais do Governo Lula, dirigiu-se, no mesmo dia 06 outubro de 2005, como o Nncio, com tranqilidade para Cabrob. Sabia que a negocia豫o com frei Luiz Cappio lhe sairia barato. No precisava levar mensagem assinada pelo Presidente Lula, nem prometer a interrup豫o do projeto que causou a greve de fome do Frei. O Governo Federal prometeu apenas 뱎rolongar o debate, dar continuidade s obras da revitaliza豫o, e abrir as portas do Palcio do Planalto para uma visita de Dom Luiz. Enquanto J. Wagner estava fazendo jogo de cena na capelinha de So Sebastio, o Nncio estava esperando na casa paroquial de Cabrob, para um segundo round, se preciso fosse, de cunho disciplinar, munido com a carta de intima豫o do cardeal Re...

Doar a vida no suicdio. Neste momento de perda de referenciais ticos no Brasil, das guas turvas do cenrio poltico, a figura de Dom Luiz Flvio Cappio surge como uma rocha. Assumiu, na solido de sua conscincia, a deciso de dar a sua vida pela vida do povo e do Rio. Mas, a greve de fome no significaria predisposi豫o ao suicdio, como algumas pessoas advertiram? Convm alguns esclarecimentos a respeito. A greve de fome faz parte dos instrumentos de luta da no-violncia. Ela tem como objetivo uma causa, que possvel realizar. Para o sucesso da greve de fome conta muito a opinio pblica, o apoio popular e, como neste caso, a solidariedade eclesial. Com certeza, a percentagem dos que morrem em conseq獪ncia de uma greve de fome menor do que os mortos pela fome ou pela falta de gua no polgono da seca nordestina. Nessa perspectiva, a greve de fome se aproxima da abdica豫o de um privilgio e de uma partilha exemplar de estruturas de morte. Quando, no dia do aniversrio do Rio e do bispo, no dia 04 de outubro, participamos por duas horas da interrup豫o do trnsito da estrada que liga Petrolina a Cabrob. A idia, ento, era exatamente chamar a aten豫o pblica para a causa em jogo, de multiplicar o impacto, de ampliar a audincia da regio para evitar a morte.

Na moral crist existem causas que justificam a morte, sobretudo quando se trata de um bem maior. Quando So Francisco decidiu ir a Jerusalm para falar com o Sulto, a sua deciso foi considerada de alto risco para a sua vida. Existe algo como um risco profissional. Isso vale para cada profisso, seja carvoeiro ou bombeiro. No caso de um religioso est ligado coerncia com sua tica profissional. A greve de fome de Dom Cappio no tinha as caractersticas de um suicdio anunciado, mas de uma vacina zelosamente preparada. Como o veneno da cobra cria anticorpos contra a mordida de cobra, assim o veneno da fome, assumido pelo jejum de frei Luiz, criou anticorpos contra a fome do povo e contra a voracidade daqueles que lucram com a indstria da seca.

Padre Jos Comblin, grande expoente da Teologia da Liberta豫o, no artigo A propsito da greve de fome de Dom Luiz Cappio[4], reflete:

밐 valores mais importantes do que a vida, que no pode ser salva a qualquer preo, como se fosse o valor absoluto. O prprio Jesus mostrou isso na sua vida. Na vspera da sua paixo, ele podia muito bem ter fugido, seguindo os conselhos dos seus discpulos. Bastavam alguns poucos dias de marcha e ele estaria fora do alcance daqueles que o queriam matar. Ele teve que escolher: Fugir ou morrer. Os prprios evangelhos dizem que a tenta豫o foi forte e a luta foi dura, mas ele resolveu ir ao encontro da morte. Sabia que iam mat-lo, e assim mesmo foi ao encontro da morte.

Dom Oscar Romero sabia, tinha a certeza de que iam mat-lo. No entanto, era fcil evitar a morte. Bastava tomar o avio e afastar-se do pas. Assim o suplicavam os padres, os agentes de pastoral e at as autoridades eclesisticas. Era muito fcil. Morreu porque quis. Ficou em San Salvador, sem se esconder. Ele se ofereceu bala do atirador. Por qu? Por causa do Evangelho.

E quantos outros na histria? Claro que na mesma situa豫o a grande maioria faz a outra op豫o e foge. J foi assim nos primeiros sculos. A grande maioria fugiu, se escondeu e escapou. Outros quiseram ficar e oferecer-se cruz...

Dom Oscar Romero achou que, na matana e na opresso do seu povo, o evangelho estava comprometido e que a fidelidade a Jesus exigia dele que tomasse a sua cruz. Tomou a sua cruz. No ia ao encontro de um risco de morte. Era uma certeza. Assim como os primeiros cristos que se negavam a oferecer incenso imagem do imperador sabiam que isso era a morte.

As circunstncias mudam. Hoje em dia em lugar nenhum se pede incenso para o presidente da repblica. No entanto, hoje em dia o grande dolo o capital. Baixar a cabea diante dos grandes bancos mundiais idolatria. Com certeza vo aparecer mrtires da luta contra o deus dinheiro.

De qualquer maneira, no podemos colocar a vida como valor supremo e tudo subordinar necessidade de salvar a vida. Podemos muito bem descobrir que em casos determinados a defesa dos direitos dos pobres justifica o sacrifcio da vida. Quantos morreram porque desafiaram a polcia, os capangas do fazendeiro ou os pistoleiros contratados pelos poderosos?

O que pode nos estranhar a modalidade. Fazer greve de fome diferente de colocar-se na frente do atirador para levar um tiro. A forma exterior diferente, mas isso no muda a natureza moral do ato.

A greve de fome um meio de a豫o social relativamente novo, mas destinado a um grande futuro na sociedade urbana de comunica豫o. Os dominadores dizem que a deciso tomada por um Congresso representa as op寤es da maioria da popula豫o porque os deputados so os representantes da Na豫o. Porm, a experincia mostra que isso pura iluso. Os deputados no representam o povo, mas certas categorias de interesses. O que aconteceu na Europa mostrou muito bem a iluso do sistema chamado de representatividade como se as elei寤es fossem realmente um sistema democrtico. A experincia mostra que os pobres no tm representa豫o, e que os eleitos no levam em considera豫o nenhuma as expectativas dos eleitores. Quem ganha as elei寤es quem tem dinheiro, salvo poucas exce寤es. Ento os pobres no tm voz.

Dizem que os conflitos devem resolver-se pelo dilogo e pelo debate. Ora, quem est presente nos debates? Intelectuais e representantes das classes dominantes. O povo est ausente de todos os dilogos e de todos os debates. Somente pode haver dilogo entre grupos de fora igual. Ora os pobres no tm fora nenhuma e os ricos tm todas as foras. Como pode haver um dilogo? Somente haver dilogo quando os pobres tiverem uma fora social suficiente e equivalente fora dos bancos, das multinacionais, das grandes empresas. At l o dilogo engano.

Acontece que a greve de fome um gesto destinado a despertar o povo. quase a nica maneira que um povo tem de mostrar a sua presena e de pressionar os poderosos. Todos os canais institucionais esto fechados. Para lembrar a sua existncia aos poderosos os pobres precisam de sinais fortes. Sem esses sinais o medo sempre mais forte...

A greve de fome o ltimo recurso quando no h mais recursos. A outra via a violncia como na Palestina e no Iraque. O bispo mostrou que tinha escolhido o caminho pacfico, o que merece admira豫o e gratido. Haveria outro recurso? O Congresso? Os partidos? Os tribunais? Todas estas institui寤es escutam os clamores  do povo? Para o povo somente existem caminhos fora das institui寤es e fora das leis. As leis no foram feitas para lhes facilitar a expresso.

Sobre o ponto de vista da moral catlica, "no se considera que a greve de fome seja condenvel de modo absoluto, ou seja, em qualquer condi豫o e sob qualquer condi豫o e sob qualquer premissa"[5].

A fidelidade ao Evangelho vale mais do que a vida e Deus quer essa fidelidade mais do que a vida. Assim o mostraram os mrtires que provocaram a sua morte porque rejeitaram os gestos que podiam salvar-lhes a vida. Puderam escolher e escolheram a morte porque havia um valor superior que era a fidelidade ao Evangelho.

Quem faz a greve de fome no tira a sua vida, mas pressiona os poderes; cria um risco, mas esse risco existe em outras situa寤es humanas.

Na sua segunda Carta ao Povo do Nordeste[6], em 29/11/2007, Dom Cappio abre os olhos dos pobres do Semi-햞ido:

밢 governo no cumpriu o prometido, abortou o debate apenas iniciado, ganhou as elei寤es e colocou o Exrcito para comear as obras da transposi豫o. Movimentos e entidades da sociedade organizada intensificaram as mobiliza寤es e os protestos, mas o governo se fez de surdo. Diante disso, no me restou outra alternativa seno retomar o jejum e ora豫o, como havia dito que faria se o acordo no fosse cumprido...

A seca no um problema que se resolve com grandes obras. Foram construdos 70 mil audes no Semi-햞ido, com capacidade para 36 bilhes de metros cbicos de gua. Faltam as adutoras e canais que levem essa gua a quem precisa. Muitas dessas obras esto paradas, como a reforma agrria que no anda. Levar maiores ou menores por寤es do So Francisco vai tornar cara toda essa gua existente e estabelecer a cobrana pela gua bruta em todo o Nordeste. O povo, principalmente das cidades, quem vai subsidiar os usos econmicos, como a irriga豫o de frutas nobres, cria豫o de camaro e produ豫o de ao, destinadas exporta豫o. Assim j acontece com a energia, que mais barata para as empresas e bem mais cara para ns. Essa a verdadeira finalidade da transposi豫o, escondida de vocs. Os canais passariam longe dos sertes mais secos, em dire豫o de onde j tem gua.

Portanto, no estou contra o sagrado direito de vocs gua. Muito pelo contrrio, estou colocando minha vida em risco para que esse direito no seja mais uma vez manipulado, chantageado e desrespeitado, como sempre foi. Luto por solu寤es verdadeiras para a vida plena do povo sertanejo isso tem sido minha vida de 33 anos como padre e bispo do serto. , pois, um gesto de amor vida, justia e igualdade que nunca reinaram no Semi-햞ido, seja a, seja aqui no So Francisco, longe ou perto do rio...

O So Francisco precisa urgentemente de cuidados, no de mais um uso ganancioso que se soma aos muitos que lhe foram impostos e o esto destruindo. Como lhes disse da outra vez, fosse a transposi豫o solu豫o real para as dificuldades de gua de vocs, eu estaria na linha de frente da luta de vocs por ela.

O que precisamos, no s no Nordeste, construir uma nova mentalidade a respeito da gua, combater o desperdcio, valorizar cada gota disponvel, para que ela no falte reprodu豫o da vida, no s a humana. Precisamos repensar o que estamos fazendo dos bens da terra, repensar os rumos do Brasil e do mundo. Ou estaremos condenados destrui豫o de nossa casa e nossa prpria extin豫o, contra o Projeto de Deus.

Padre Joo Batista Libnio, em artigo no Jornal OPINI홒, n. 966, reflete:

밇 quando no caminho dos poderosos surge um profeta disposto a dar a vida? A situa豫o se complica. A voz serena, firme, no-violenta de quem abraa a causa, no por prprio interesse, mas por amor ao povo, soa diferente... Na Transposi豫o do rio So Francisco, o governo esbarrou com enorme obstculo, cuja fora reside na fraqueza. Homem de f, religioso, bispo bem prximo dos pobres e comprometido com eles. Que o grito proftico de Dom Luiz Flvio Cappio sirva para mostrar sociedade brasileira e ao governo que h pessoas capazes de jogar a vida por ideais elevados e que o povo brasileiro no se encontra totalmente anestesiado e adormecido diante de causas maiores.

Padre Jos Janurio, aps visitar Dom Cappio em Cabrob/PE, dia 04/10/2005, exclamou: 밇ncontrei 밊rancisco margem do rio So Francisco, em Greve de Fome. Dom Luiz, vestido como frade, tinha a serenidade e o vigor de um profeta, em seus olhos contemplava-se plenamente a vida, seu sorriso trazia a fora e a ternura do evangelho; em suas mos, a marca da popula豫o ribeirinha e, em suas palavras, a liberdade e a clareza da misso que cumpria.[7]

 

3. A luta contra a Transposi豫o do Velho Chico: luta pela sustentabilidade da vida.

Dom Cappio no est sozinho na luta contra a Transposi豫o que foi iniciada e avana com a militariza豫o da regio. Com ele esto mais de 800 organiza寤es populares que integram a ASA Articula豫o do Semi-햞ido -, esto muitos movimentos sociais como a Via Campesina que, em carta a Dom Cappio, disse: 밨eceba nossa solidariedade fraterna. Vamos transform-la em luta prtica e em um chamado a todo o povo, por todo o territrio nacional, mostrando sociedade e ao governo federal que sua luta nossa luta: a busca por um pas justo, soberano e ambientalmente sustentvel. Tenha a certeza de que estamos ao seu lado, atuando em todo o Brasil, em defesa da sua vida, que hoje se integra totalmente com a prpria vida e destino do rio So Francisco. Seu gesto significa um ato de amor pelo povo e pelo nosso pas.

Tambm esto com frei Luiz a CNBB[8], a OAB[9], Ministrios Pblicos estaduais e federais da bacia so-franciscana, a SBPC[10], que em um congresso, em Recife,PE, em agosto de 2004, com os melhores hidrlogos do mundo demonstrou que a Transposi豫o ser uma tragdia social e ambiental. Grandes 뱓cnicos entendidos no assunto assessoram a luta contra a transposi豫o, em defesa do Rio So Francisco, do seu Povo e de toda a biodiversidade j bastante comprometida.

Segundo o professor Dr. Joo Abner Guimares Jr.[11], h um projeto de Transposi豫o fantasioso, vendido opinio pblica por um forte marketing oficial e pela mdia. E h outro projeto real de transposi豫o que est sendo sistematicamente ocultado do povo, pois perigoso, injusto, insano e faranico: 87% das guas da Transposi豫o sero para atividades econmicas altamente consumidoras de gua, como a fruticultura irrigada, a cria豫o de camaro e a siderurgia, voltadas para a exporta豫o e com serissimos impactos ambientais e sociais.[12] O IBAMA, que deu o aval para a obra, forneceu, sem querer, argumentos contra o projeto. Reconhece que 70% da gua ser para a irriga豫o e 26% para o abastecimento de cidades; que a maior parte da gua transposta ir para audes onde se perde at 75% por evapora豫o; que 20% dos solos que se pretendia irrigar "tm limita寤es para uso agrcola" e "62% dos solos precisam de controle, por causa da forte tendncia eroso".

A transposi豫o do Velho Chico um projeto politicamente inconseqente, economicamente invivel, socialmente injusto e ecologicamente covarde. Bastaria qualquer uma dessas quatro condi寤es ser verdadeira para justificar o abandono do projeto. A transposi豫o politicamente inconseqente porque gera um conflito na federa豫o brasileira e nos estados do Nordeste que ser permanente, com tendncia a se agravar - uma briga pelo uso da gua. O rio da 밿ntegra豫o nacional, mas a transposi豫o obra de desintegra豫o nacional, pois, no momento em que se tira gua do Rio So Francisco para levar para o Cear, Paraba e Rio Grande do Norte (os estados receptores), uma injustia cometida com o povo doador (alagoanos, baianos, mineiros, pernambucanos e sergipanos) que possui disponibilidade hdrica de 360 metros cbicos por segundo (m/s) para abastecer uma popula豫o de 13 milhes de pessoas. No Cear, por exemplo, a disponibilidade per capita melhor: 215 m/s para 7,5 milhes; sendo que fenmeno semelhante acontece tambm com o Rio Grande do Norte.

um erro ecolgico dizer que o Rio So Francisco est desperdiando gua no mar. O ecossistema marinho depende desta gua para se manter vivo. Precisa ser mantida uma vazo ecolgica na foz.

A transposi豫o a sofistica豫o da indstria da seca. Os beneficiados sero as empresas da constru豫o civil e os grandes empresrios locais. A Regio Nordeste tem o maior ndice de audagem do mundo 70 mil audes construdos em um sculo - e uma grande
capacidade de armazenar gua. Os projetos j feitos nunca tiveram cunho social. A poltica hidrulica do Nordeste no est atrelada a uma reforma hdrica e nem agrria para oferecer acesso a essa gua. S que a transposi豫o ainda mais prejudicial do que as tpicas obras da indstria da seca. Ela no demanda apenas investimentos na constru豫o - a popula豫o vai pagar um preo constante. Todos, principalmente os que no tm acesso gua da transposi豫o, vo pagar pela gua. Por trs de tudo isso est um lobby poderoso que se encontra infiltrado nos partidos polticos e na mquina do governo e que defende a manuten豫o da velha poltica de grandes obras hidrulicas no Nordeste - a verdadeira e atual indstria da seca na regio.

O gegrafo Aziz Ab뭆ber, no artigo 밃 quem serve a transposi豫o?, afirma: 밢 risco final que, atravessando acidentes geogrficos considerveis, como a eleva豫o da escarpa do Araripe com grande gasto de energia! -, a transposi豫o acabe por significar apenas um canal tmido de gua, de duvidosa validade econmica e interesse social, de grande custo, e que acabaria, sobretudo, por movimentar o mercado especulativo, da terra e da poltica. No fim, tudo apareceria como o movimento geral de transformar todo o espao em mercadoria

Enfim, a transposi豫o no destinada a salvar os nordestinos da seca, pois apenas uma minoria irrelevante do Semi-햞ido receber gua na porta, mas se destina ao hidro e agronegcio, que utilizar uma gua carssima, levada a 700 km, que ter de ser subsidiada a vida inteira. O governo Lula, maquiavelicamente, esconde uma realidade que surpreenderia a Na豫o: no h falta de gua no Nordeste setentrional. O que urge ser feito democratizar o acesso gua existente. O Rio So Francisco est na UTI e a transposi豫o ameaa provocar sua morte, gerando o maior desastre ecolgico e socioeconmico da histria brasileira.

 

4. Alternativas: Reformas Hdrica e Agrria, em Convivncia com o Semi-햞ido

A Transposi豫o se torna ainda mais insensata quando se sabe que h alternativas mais simples e baratas para o abastecimento das cidades e comunidades rurais nos anos secos. Manoel Bomfim Ribeiro, um dos maiores entendidos na potencialidade do Semi-햞ido, defende que o Nordeste precisa de democratiza豫o da gua, o que passa por reforma agrria e pela reforma hdrica atravs de trs subsistemas: adutoras, cisternas e poos tubulares.[13]

Na primeira carta ao Povo do Nordeste[14], em 30/09/2005, Dom Luiz Flvio Cappio dizia:

H muito tempo os poderosos querem fazer vocs acreditarem que s a gua do Rio So Francisco pode resolver os problemas que vos afligem todos os anos no perodo da seca. No verdade. Estes mesmos problemas so vividos a pouca distncia do Rio So Francisco. Ter gua passando prxima no a solu豫o, se no houver a justa distribui豫o da gua disponvel. E temos, perto e longe do Rio, muitas fontes de gua: da chuva, dos rios e riachos temporrios, do solo e do subsolo. O que est faltando o aproveitamento e a administra豫o competente e democrtica dessas guas, de modo a torn-las acessveis a todos, com prioridade para os pobres. No lhes contam toda a verdade sobre este projeto da transposi豫o. Ele no vai levar gua a quem mais precisa, pois ela vai em dire豫o aos audes e barragens existentes e a maior parte, mais de 70%, para irriga豫o, produ豫o de camaro e indstria. Isso consta no projeto escrito. Alm disso, vai encarecer o custo da gua disponvel e estabelecer a cobrana pela gua alm do que j pagam. Vocs no so os reais beneficirios deste projeto. Pior, vocs vo pagar pelo seu alto custo e pelo benefcio dos privilegiados de sempre.

No estivesse o Rio So Francisco beira da morte e suas guas fossem a melhor solu豫o para a sede de vocs, eu no me oporia e lutaria com vocs por isso. Tenho certeza de que o generoso povo do So Francisco faria o mesmo.

 

No podemos perder de vista que o nosso projeto muito maior. Queremos gua para 44 milhes, no s para 12. Para nove estados, no apenas quatro. Para 1.356 municpios, no apenas 397. Tudo pela metade do preo da Transposi豫o. O Atlas do Nordeste da Agncia Nacional de 햓uas (ANA) e as iniciativas da Articula豫o do Semi-햞ido (ASA) com seu projeto de constru豫o de 1 milho de cisternas e a implementa豫o de 144 tipos de tecnologias alternativas, sustentveis ecologicamente, so muito mais abrangentes e tm finalidade no abastecimento humano. A transposi豫o econmica, neoliberal. Um campons do Cear alerta: 밡enhum projeto faranico beneficia os pequenos. O que beneficia os pequenos so as pequenas obras multiplicadas aos milhares.

 

5. Um balano do segundo jejum de Dom Cappio

Durante os 24 dias de jejum e ora豫o de frei Luiz quantas cartas, e-mails, telefonemas e manifesta寤es de apoio dos quatro cantos do mundo, antenados e solidrios. Quantas pessoas frei Luiz ouviu, aconselhou, confessou, abraou, beijou, dirigiu mensagens a elas, ou simplesmente olhou com carinho. Quantas pessoas participaram do 뱂ejum solidrio, uma proposta que ganhou conota寤es - at certo ponto surpreendentes - de crtica a uma sociedade que tem abundncia de comida, mas aumento da fome. Milhares de pessoas sentiram-se questionadas profundamente no seu estilo de vida crist diante do valioso testemunho de frei Luiz, ainda que suas palavras e atitudes profticas tenham sido ignoradas por autoridades que se fizeram surdas voz do povo.

Na capela de So Francisco, na pequena cidade de Sobradinho, no serto da Bahia, graas ao esprito divino presente nas guas do Rio, os 24 dias de jejum e ora豫o de dom Cappio (de 27/11/2007 a 20/12/2007) revelaram o crescente compromisso de milhes de brasileiros com a preserva豫o do So Francisco.O Rio no mais algo fora de ns. a nossa identidade. No princpio era a gua; e a gua se fez 밹arne: criaturas todas do universo. No somos apenas filhos e filhas da gua. Somos gua que sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria.

O gesto de Dom Cappio desmascarou a ignorncia e a omisso de muitos cidados. Desmascarou, sobretudo, a arrogncia do Governo e o cinismo das institui寤es tidas como democrticas. Mostrou que os quatro poderes miditico, executivo, legislativo e judicirio continuam de joelhos diante do poder econmico nacional e internacional. Revelou que o governo do Presidente Luiz Incio Lula da Silva revestiu-se de autoritarismo, de arrogncia e prepotncia na corrup豫o. Ou nas palavras de Dom Toms Balduino: 밢 governo Lula esgotou-se.

Politicamente, no se legitima a transposi豫o do Rio So Francisco. Os movimentos populares, representantes legtimos do povo, levantaram-se na defesa das guas como bem comum. Denunciaram a mercantiliza豫o da gua para o hidronegcio. O jejum de frei Luiz desnudou a verdade sobre a malfadada Transposi豫o: uma obra faranica. A maior da histria do Brasil.

O gesto de Dom Cappio fortaleceu a Via Campesina, os movimentos populares e as lideranas sociais, os setores religiosos e a conscincia cidad para prosseguirem na luta ecolgica, o que significa luta contra injustias sociais, polticas e econmicas. Internacionalmente a repercusso gerou bons frutos. A Comisso Pastoral da Terra, Pastorais Sociais e parte dos movimentos populares que no mediram esforos na luta ao lado de Dom Cappio tambm saram fortalecidos.

Frei Luiz irrompeu como uma forte liderana do Brasil atual. Ser como uma 밻spada de Dmocles levantada sobre a cabea dos quatro poderes, das institui寤es, dos cidados, cmplices do crime e acomodados. A voz e o testemunho de frei Luiz valorizaram o amor pela causa dos pobres.

O gesto proftico de Dom Cappio curou a cegueira de milhes de pessoas. Jejum e ora豫o foram instrumentos para desnudar a mentira. Mobilizou a CNBB, a Igreja Catlica, os cristos, boa parte do clero e dos religiosos. Nas mentes e cora寤es de milhares de pessoas despertou indigna豫o.

A conquista das conquistas: Dom Cappio continua vivo entre ns. Mais do que nunca continuar sendo um grande profeta no meio do povo a encorajar a luta dos pequenos na denncia de arbitrariedades e desumanidades dos quatro poderes que, travestidos de Estado de Direito, insistem em imperar sobre os pobres e sobre o ambiente natural.

O gesto proftico de Dom Luiz sacudiu a Igreja, o Governo e pessoas de tantas institui寤es. A fora cristalina do testemunho de profeta tocou feridas profundas, encobertas por discursos fceis, palavras jogadas ao vento. Dom Cappio retomou uma modalidade de luta assentada sobre a fina flor da tradi豫o crist: jejum e ora豫o. Resgatou no cora豫o de muitos militantes uma espiritualidade nova. Jejuar e orar continua sendo expresso da resistncia contra os faras de hoje. O jejum de Dom Cappio foi tambm contra o perverso modelo de desenvolvimento, excludente, explorador o mesmo de quando Cabral invadiu o Brasil -, que enriquece poucos e joga milhes na misria, como o caso do trabalho escravo nas carvoarias que dizimam o cerrado e pe o Velho Chico beira da morte, pois a morte do cerrado a morte do So Francisco e sua bacia.

A continuidade do debate far com que caiam outras mscaras! Muitos nefitos no debate sobre a Transposi豫o, tema que j est em pauta h pelos menos dez anos, expressam incongruncias, desinforma豫o e o velho preconceito em mal pensar, a partir do Sul/Sudeste, o que se generalizou chamar 밡ordeste. No d mais para ignorar a revolu豫o silenciosa que se expressa no paradigma da Convivncia com o Semi-햞ido.

Com Roberto Malvezzi somamos: 밢 saldo do gesto de Frei Luiz Cappio demarca as margens e estabelece um abismo moral entre companheiros que at ontem bebiam da mesma gua. O rio que nos separa mais profundo que o So Francisco. O que est em jogo o futuro deste pas, do prprio planeta, da prpria humanidade. Ser que o caminho do governo est mesmo "livre" para prosseguir com o projeto aps a vergonhosa deciso do Supremo Tribunal Federal - STF - de liberar as obras sem apreciar o mrito de 15 a寤es que tramitam no plenrio do Supremo? Uma obra de longo prazo, que envolve bilhes de reais durante sucessivos governos, nunca est garantida antes de sua concluso. A preocupa豫o fundamental demonstrada pelo governo foi "no fazer concesses ao bispo", como demonstra豫o de "autoridade". Muitas vezes, a expresso corrente foi que "ceder liquidaria o Estado". Ou: "Agora o So Francisco, depois podem querer barrar usinas no rio Madeira". Portanto, o governo sabe que o gesto de frei Luiz aponta no s contra o governo e seu Programa de Acelera豫o do Crescimento PAC -, das empresas, no do povo - mas tambm contra o modelo de desenvolvimento que est sendo imposto sobre a natureza, as pessoas e as comunidades mais pobres do Pas.

Queiram os opositores e o governo ou no o saldo do gesto de Frei Luiz muito positivo! Com Dom Cappio vivo e a verdade gritando mais forte - aps o jejum e ora豫o no apenas de um, mas de tantos -, temos hoje a certeza ainda maior de estarmos do lado certo desta histria. Ou, como profetizou Leonardo Boff, a transposi豫o j est amaldioada!

 

6. Li寤es e perspectivas (Segundo Paulo Suess)

1. As duas greves de fome de Dom Luiz mostraram que possvel intervir nos processos que pretendem naturalizar a desigualdade e industrializar a fome.

2. Frei Cappio reintroduziu duas palavras importantes na discusso, sem falar delas: ruptura e utopia. No por falta de solidariedade que os movimentos sociais, as pastorais e o povo do vale do So Francisco rejeitam o projeto da transferncia da gua, mas por causa do seu carter elitista. A ruptura com as estruturas autoritrias e faranicas do projeto permite desconstruir a legalidade privatizada e radicalizar a democracia.

3. Muitos movimentos sociais e religiosos perceberam o gesto de frei Luiz como tiro de largada. Podem retomar o leme da histria, em vez de arrumar as cabines no poro do navio. Num momento de depresso poltica, o movimento de Cabrob devolveu ao povo a esperana. A resistncia possvel, a luta faz sentido.

4. O gesto de Dom Luiz Flvio revelou a universalidade de sua causa que o pressuposto para alianas douradoras. Desencadeou um encontro em massa entre peregrinos msticos e militantes em marcha, entre indgenas e pobres que vivem ao longo do Rio, entre brasileiros do Norte ao Sul e internacionalistas de todos os pases.

5. A luta desencadeada na beira do rio So Francisco no visa apenas corrigir deforma寤es residuais do projeto de transposi豫o do Rio, mas seu engavetamento. A luta pela transforma豫o mobiliza. Quem pra de lutar, perde o sonho e a utopia.

6. A causa do rio So Francisco ainda no ganha. Se fizermos ressoar a pluralidade das vozes do povo, possvel ganh-la. Como fazer ressoar a voz do povo, a voz das vtimas, a voz dos que at hoje zelaram pelo rio So Francisco, morando na beira de um rio que lhes foi alienado? As audincias sobre o Projeto da Transposi豫o do Rio So Francisco devem ser transformadas em instncias de deciso. O melhor projeto no vale nada sem a participa豫o do povo.

7. O primeiro jejum de Frei Cappio conseguiu em 11 dias o que a Campanha da Fraternidade 2004 no conseguiu em 40 dias. Dela mal lembramos o lema: 벫gua, fonte de vida. O segundo jejum de Frei Luiz 24 dias - foi mais eficaz do que todas as lutas de milhares de militantes sociais em dois anos de a寤es concretas contra a Transposi豫o. Os jejuns de Dom Cappio apontam para uma nova pedagogia de revitaliza豫o no s das Campanhas da Fraternidade, mas tambm de certas estruturas eclesisticas, das casas religiosas, dos escritrios dos movimentos sociais, de ONGs e inmeras entidades da sociedade civil.

 

7. E agora, Jos?

A transposi豫o comeou, mas no ir muito longe, nem muito menos terminar, pois um projeto invivel economicamente, ilegal e imoral, segundo as leis ambientais e segundo a Constitui豫o de 1988, injusto eticamente, politicamente autoritrio e ecologicamente insustentvel. A histria julgar o Presidente Lula e os apoiadores deste insano e covarde projeto, a obra mais cara da histria do Brasil.

imperioso abrir um amplo debate nacional sobre as alternativas para garantir acesso gua e desenvolvimento sustentvel para o Semi-햞ido. Temos certeza de que, sendo feito com honestidade e verdade, este debate demonstrar o quanto o projeto de transposi豫o nefasto e favorece apenas empreiteiras, hidronegociantes, grandes empresrios, o grande capital internacionalizado, em detrimento do nosso Povo.

밇stamos no Sculo XXI e um gesto proftico como o de Dom Luiz Cappio deveria despertar a sociedade e o seu governo para cuidar dos pobres do Semi-햞ido de maneira exemplar: com sentido de justia, amor natureza e pleno respeito a uma outra maneira de fazer poltica de desenvolvimento. Se benditos so os mrtires, maligna a sociedade que por a豫o ou omisso produz mrtires[15], alerta Guilherme Delgado.

Alfredo de Abreu Paz, poeta popular da CPT, canta: 밡osso povo no quer mais / Ver nosso bispo sofrer / Dom Frei Luiz Cappio passar / Vinte quatro dias sem comer / Nem ele nem outro bispo / Que no corra mais o risco / De agonizar pra morrer. Pelo Jejum solidrio / Frei Luiz fez op豫o / Defendendo o Velho Chico / Sua revitaliza豫o / Se algum no entendeu / Mas este belo exemplo seu / Foi pelo bem da na豫o.

Doar a vida investir, abnegada e saudavelmente, na qualidade de rela寤es, na liberta豫o sistmica, na dignidade das pessoas, na preserva豫o da natureza. No h doa豫o sem abdica豫o. 밫orna-se fator de acrscimo quem se dispe a perder. 밦uem morre h de viver.

O apstolo Pedro pretendia salvar a vida de Jesus. 밫er de doar sua vida? Isto no lhe vai acontecer! Teve de ouvir: 밪eu modo de pensar nada tem a ver com a sabedoria de Deus. Deixe-me em paz, seu covarde e mentiroso! Seria to fcil para Jesus uma retirada, uma fuga inteligente, preservando sua vida. 밠as quem no perde, como h de ganhar?

Feliz o povo, feliz a institui豫o que produz pessoas to dignas a ponto de se disporem a doar a prpria vida para que a vida de tantos seja salva. Maldito o povo e maldita a institui豫o que repudia um filho seu que, de tanto amor, abdica de si para que vida de qualidade se torne herana de todos. Bendito o povo, bendita a institui豫o que alimenta em seus filhos a capacidade de, esquecendo-se de si, priorizar a vida de seus irmos. Repudivel o povo e execrvel a institui豫o que avaliam a doa豫o de um filho seu como um gesto idoltrico.

Dom Cappio, suspendendo o jejum, 뱑essuscitou. Ele agora segue serenamente a defesa intransigente da Revitaliza豫o do Velho Chico. Est mais do que nunca fortalecido em seus princpios ticos. Recebeu das pessoas mais respeitveis do nosso pas e no exterior artistas, intelectuais, ribeirinhos, lideranas sociais -, o apoio para acordar as conscincias adormecidas pelo calmante social distribudo pela mdia. O seu gesto alertou os desatentos, separou muito joio do trigo. Descoloriu ainda mais os discursos mentirosos que falseiam as verdades.

Feliz o povo que ouve a voz de seus profetas e os segue. Eis no nosso meio um verdadeiro filho de Francisco de Assis, um grande profeta. O nome dele DOM FREI LUIZ FL햂IO CAPPIO. A glria de Deus brilha nele e na grande luta em defesa de uma autntica revitaliza豫o de toda a bacia so-franciscana e em prol de um autntico projeto de Convivncia com o Semi-햞ido. Isso implica asfixiar o projeto da Transposi豫o, antes que seja tarde demais. 벫guas para a vida e no para a morte, gritamos todos, ao lado dos militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Salvar o Rio So Francisco, seu povo, o povo de Semi-햞ido e toda a biodiversidade so-franciscana e da caatinga um sonho bom. Sabemos que 뱒onho que se sonha s pode ser pura iluso, mas sonho que se sonha junto sinal de solu豫o. Ento vamos sonhar, companheiros e companheiras!

As reflexes oriundas do testemunho de Dom Cappio fizeram e ainda faro borbulhar o Esprito para suscitar e dinamizar muitas outras li寤es como testemunho de autntica cidadania. Eis um testemunho espiritual e proftico na luta pela Sustentabilidade da Vida! A luta continua! Mos obra!

 

Endereo do autor:

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[1] Frei e padre carmelita, mestre em Exegese Bblica, professor de Teologia Bblica, assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Via Campesina, em Minas Gerais; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br - www.gilvander.org.br

[2] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida: o Jejum de Dom Luiz Cappio em defesa do Rio So Francisco e de seu Povo, ESTEF(Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana), Porto Alegre, 2008, p. 11.

[3] Ibidem, p. 46.

[4] Ibidem, p. 116-119.

[5] E. Lpez Azpitarte - F. J. Elizarri -R. Rincn, Prxis crist, t. II, ed. paulinas, So Paulo, 1984, p. 98.

[6] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida..., p. 50-51.

[7] Jornal de Opinio n. 966 6, Ano 20, de 06 a 12/12/2007, p. 1.

[8] Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil.

[9] Ordem dos Advogados do Brasil.

[10] Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia.

[11] Ex-diretor da Agncia de 햓uas do Rio Grande do Norte, doutor em Recursos Hdricos, professor da UFRN.

[12] Dados do EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relatrio de Impacto sobre o Meio Ambiente), pblicos por lei, j que, na internet, o governo s colocou peas publicitrias.

 

[13] Cf. RIBEIRO, Manoel Bomfim Dias, A Potencialidade do Semi-rido Brasileiro, O Rio So Francisco: Transposi豫o e Revitaliza豫o Uma anlise, FUBBR핿, Braslia, 2007, pp. 203-204.

[14] VIAN, Dom Itamar (org.), Uma vida pela vida..., p. 33-34.

[15] Ibidem, p. 86.