faíscas da Primeira Carta de Pedro
( Publicado no JORNAL DE OPINÃO, 01 à 07/09/2003, sessão: Idéias, p. 6.
na REVISTA ADOREMOS, ANO 89 nº 863 set/2003, sessão: Espiritualidade, p. 38,
e também em O CARRILHÃO, ANO 04 nº 22, agosto/2002, sessão: Opinião, p. 3.)
-----------Em setembro, mês da Bíblia, somos convidados a beber de uma fonte boa que é a Primeira Carta de Pedro
(I Pd). Se ficarmos na superficialidade da I Pd poderemos pensar que a Carta defende moralismo, sacrificialismo e submissão ingênua das esposas aos maridos, dos servos aos patrões, etc. Se lida nas linhas, nas entrelinhas e por trás das palavras, descobrimos que a I Pd não é lição de moral, mas um testemunho solidário e libertador; é Pedra Viva, uma injeção de esperança fecunda; é fina flor que quer ser uma bússola na vida dos cristãos e cristãs que sobrevivem em contextos tremendamente hostis e opressivos.
-----------Segundo I Pd, as cristas e os cristãos, no sofrimento, se assemelham a Jesus, àquele que “injuriado, não injuriava e que, padecendo, não nutria rancores (I Pd 2,23); que deixou-nos um “modelo” (I Pd 2,21) a ser seguido. Ou seja, para I Pd, Jesus Cristo é um servo sofredor. Mais: Ele está vitorioso à direita do Pai (I Pd 3,18-22), pois venceu a morte e ressuscitou. Enganaram-se (completamente) os algozes de Jesus. Logo a pessoa cristã pode seguir, com alegria, pelo caminho trilhado por Jesus. É bom, santo e leva à verdadeira vitória.
-----------A Primeira Carta de Pedro explicita a fina flor da Teologia do Servo Sofredor, que se rege pela lógica da solidariedade. O servo sofredor se torna luz para as nações e é sinal de salvação, porque não apenas se pauta por uma nova lógica, mas segue à risca essa lógica do amor: humilhado, não humilha; pisado, não pisa; violentado, não violenta; caluniado, não calunia; difamado, não difama; excluído, não exclui; marginalizado, não marginaliza; desprezado, não despreza.
-----------As comunidades cristãs, às quais I Pd foi endereçada, sobreviviam sob diversas opressões. A esperança estava por um fio. O povo estava cercado por todos os lados. Ser estrangeiro, clandestino, sem pátria, sem cidadania, sem casa para morar, condenado a peregrinar sem eira nem beira, ofuscava demasiadamente o esplendor da vida que insistia em resistir. I Pd objetiva elevar a auto-estima e a esperança do povo. Trata-se de uma esperança viva (I Pd 1,4) que fecunda. Por isso, enfatiza que o povo cristão, como Jesus, é Pedra Viva. Aqui há uma dupla beleza: a) Ser comparado a Jesus, alguém que se tornou Cristo, porque cultivou e desenvolveu seu potencial humano; foi capaz de testemunhar que é possível florir e produzir frutos que libertam e humanizam as relações. b) Ser definido como Pedra Viva, não como algo morto ou fadado à morte, mas como fonte de vida e de soerguimento, frente a todo e qualquer obstáculo.
-----------Enfim, a Primeira Carta de Pedro tem como objetivo maior reacender a Esperança. I Pd convoca todos os cristãos e cristãs a praticarem o amor ao próximo, tendo os sentimentos de Jesus (cf. Fl 2,5-8), sendo compassivo-misericordiosos, fraternais, humildes, perdoando-se mutuamente e superando o mal com o bem, segundo a lógica do amor.
---------------------P.S: Para uma compreensão melhor da Primeira Carta de Pedro, sugerimos o livro Esperança a toda prova, uma leitura da Primeira Carta de Pedro, CEBI, São Leopoldo, 2003. Frei Gilvander é co-autor. Encontra-se no CEBI-MG, tel: 031 3222-1805 ou na secretaria da Igreja do Carmo (tel: 031 3221 3055)