Luta contra as Dívidas E(x)terna e Interna a partir da Bíblia

(Publicado na FOLHA DA BOA NOVA, out/2000, sessão: Fé e vida, -p. 18.
no JORNAL FALA CALIFÓRNIA, ANO 9, nº 47, sessão: Espaço aberto, -p. 12,
e no JORNAL PELEJANDO, out/2000, sessão: bíblia e vida, -p. 6. )

----------Faz bem dar uma olhada na Bíblia, depois da grande vitória do Plebiscito das Dívidas E(x)terna e Interna, convocado pela CNBB e movimentos populares, com mais de 6 milhões de votos em um curto espaço de tempo de mobilização, onde o povo consciente e organizado gritou forte: “Já pagamos demais, queremos dignidade e paz!”
----------Quase todos os nossos credores são países cristãos. Rezam todos os dias o Pai-Nosso dizendo “Pai-nosso... perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Eloqüente é que quando a Dívida Externa começou a se tornar Eterna, mudaram a tradução do Pai-Nosso de dívida para ofensa. A melhor tradução é dívidas e não ofensas. Será que perdoar ofensa é mais fácil do que perdoar dívida? É claro que a questão foi deslocada do âmbito da economia, uma das principais colunas da nossa vida, para o âmbito da moral, que muitas vezes é determinada por quem comanda a economia.
----------No Apocalipse (Ap 13), vemos que o Império Romano amarrou o mundo com 3 armas: a) Tributo (= opressão econômica); b) Religião idolátrica (o imperador era considerado um deus); c) Exército (com a repressão). Em Ap 13, somente quem tem o número da besta pode participar do mercado (Ap 13,17). Vemos que a dívida e(x)terna desumaniza a Vida. O autor do Apocalipse diz: “É uma besta! Tem forma humana, mas é uma besta!”. O número da besta é 666 (Ap 13,18). Ao dizer este número, o autor do Apocalipse evoca Salomão, o rei opressor e sanguinário que criou um sistema de tributação por ano: 666 talentos de ouro (correspondente a 23 toneladas de ouro) por ano (cf. 1 Rs 10,14).
----------Na Bíblia, temos o Jubileu Bíblico (Lv 25, 8-12). Quando Jesus apresenta sua plataforma de ação na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16ss.), ele proclama um Ano de Graça, ou seja, um Jubileu. No ano do Jubileu, toca-se o “berrante”(em hebraico “sofar”), que acontece no primeiro ano após sete vezes sete anos. Neste Jubileu, todas as dívidas devem ser perdoadas; todas as terras devem voltar ao primeiro dono (aos ancestrais); todos os escravos devem ser libertados. Enfim, é tempo de se fazer uma re-organização geral na sociedade; tempo para recriar a Vida e as relações humanas com fraternidade, solidariedade libertadora, reconciliação e novos sonhos.
----------Cinco experiências estão na base do Jubileu Bíblico como fundantes:
----------1ª) Experiência do Deus misericordioso e libertador (cf. Ex 3,7-10). Quando o faraó no Egito era considerado um deus, o grupo hebreu de Moisés teve uma experiência de um Deus diferente, misericordioso e libertador. Isto está na base de uma nova convivência social mais igualitária;
----------2ª) Experiência dos Lavradores na Terra Prometida(cf. Lv 25,1-7). Eles descobriram que não podiam explorar a terra impunemente e indefinidamente. Eles sentiram a necessidade do Ano Sabático, isto é, de um repouso revigorador para terra de sete em sete anos; Os lavradores descobriram que a terra é Mãe e não pode ser tratada como prostituta. Eis aqui uma visão profundamente ecológica de quem quer ser fraterno com tudo e com todos.
----------3ª) Experiência do Clã. Para a família ampliada do povo no Primeiro Testamento, entre tantas coisas, duas eram sagradas: o valor da Pessoa e o valor da Terra (cf. 1Rs 21 e Lv 19,19). Aqui entra em função o goel, o resgatador, o libertador, o redentor. O irmão ou parente mais próximo devia resgatar o escravo. Na cidade, por motivo de dívidas, começou a ocorrer a escravidão; o Império Romano escravizou meio mundo de pessoas devido às dívidas contraídas e não pagas.
----------4ª) Experiência da Monarquia. Somente três reis – Davi, Ezequias e Josias - escaparam das críticas ferrenhas dos profetas. A monarquia foi um desastre, porque se apropriou das pessoas e das terras (cf. 1 Sm 8,10-17 onde são descritos os Direitos do Rei: criação de um Exército permanente e profissional, escravização do povo, “latifundiarização” das propriedades agrícolas em mãos de poucas pessoas, etc). Essa experiência desastrosa fez nascer e crescer no povo o desejo de um rei justo (cf. Sl 72), como Jesus.
----------5ª) Experiência do/s Exílio/s: No exílio da Babilônia, quando não tinha mais parente próximo para ser o goel (= resgatador), o povo de Israel começou a crer que Deus mesmo iria resgatá-lo. Começaram a valorizar o Sétimo Dia, como um dia de descanso, de reunião, para celebrar a vida, para preservar a memória do passado, pois quem perde a noção do passado, complica o futuro. Resgataram a memória do Ano da Remissão (= perdão) das dívidas (cf. Dt 15,1-11) que visava possibilitar um recomeço de vida ao povo empobrecido e endividado, pois o sonho de Deus é que não exista pobres na sociedade (Dt 15,4), que não exista excluídos, mas que todos sejam incluídos como cidadãos/as. Assim, por exemplo: fazer memória do Ano do Jubileu e do Ano Sabático gera esperança, acorda potencialidades adormecidas. Por exemplo, a palavra “quilombo”, ao ser pronunciada ou ouvida, tem o poder de nos recordar a capacidade de resistência do povo negro e de nos encher de novas energias.
----------Aos poucos, ficou difícil fazer o repouso da terra de sete em sete anos; mitigaram a proposta para o ano seguinte após sete anos vezes sete anos. Mas continua ecoando a profecia que está em Dt 24,6: "Não tome como penhor as duas mós do moinho, nem mesmo a mó de cima, porque seria o mesmo que penhorar uma vida". Este versículo, meio legislação, meio instrução, quer orientar a conduta e as relações humanas em situações conflitivas e coloca a vida acima das Dívidas, pois a vida humana (e dos animais e plantas) não pode ser jamais penhorada.
----------Jesus ao proclamar o Ano do Jubileu, pelo seu ensinamento libertador respaldado por uma prática amorosa e libertadora, reintegra o excluídos. Por isso, Jesus foi condenado à morte, mas ele ressuscitou. Por isso o ideal não morre. Com a ressurreição de Jesus as utopias jamais morrerão, os sonhos de libertação jamais serão pesadelos, a luta dos pequenos será sempre vitoriosa (ainda que custe muito suor) e a forças da Vida terão sempre a última palavra.
----------Os primeiros “zelotas”, liderados por Sadoc e Judas de Gamla, levavam o povo a não dar o nome no censo e a não pagar tributo. Era uma forma de resistir, através da desobediência civil.
----------Enfim podemos dizer que o Jubileu proclamado por Jesus é tempo para: reviver a experiência de fraternidade da origem, do tempo do deserto; recomeçar tudo de novo; refazer a História; resgatar a identidade; reintegrar os excluídos, redistribuir as terras; perdoar as dívidas interna e E(x)terna; redistribuir riquezas e rendas; restituir os direitos roubados, voltar a conviver de modo fraterno com a nossa Mãe Terra, que é nossa única casa.
----------Enfim, a Bíblia nos anima e nos ilumina a continuar na luta para que seja feita uma auditoria cidadã da Dívida E(x)terna e, constatada a ilegitimidade da mesma, deixarmos de pagar o que já foi pago diversas vezes. A dívida e(x)terna está igual a rabo de égua: quanto mais corta, mais cresce. Aliás, o Primeiro Mundo tem uma enorme dívida ecológica para conosco, pois estão devastando nossa Mãe Terra e ameaçando de extinção toda a vida sobre o planeta Terra.
----------Em nome do pagamento da Dívida E(x)terna, o sangue, criminosamente tirado das veias do nosso corpo, o dinheiro produzido pelo esforço dos brasileiros, sobretudo dos trabalhadores, está saindo da Nação e deixa de ser aplicado em obras e programas sociais que são direito do povo e obrigação dos governos. É hora de dizer um basta a esta injustiça que clama aos céus (cf. Tg 5,4). Com o sucesso do Plebiscito vencemos a primeira batalha. Vamos continuar esta luta sublime.

Frei Gilvander Moreira, O.Carm.
E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br