Mártires na Bíblia e na Vida:
sangue inocente clama por justiça e ressuscita na luta do povo.

"Se me matam, vou ressuscitar na luta do meu povo". Oscar Romero

(Publicado no JORMAL FALA CALIFÓRNIA, abril/2001, sessão: Espaço aberto, -p. 11.
e na FOLHA DA BOA NOVA, abril/2001, sessão: Fatos, -p. 16.)

----------Dia 17 de abril de 2001, dia internacional de luta por Terra e por Reforma Agrária, celebramos o quinto aniversário do massacre dos Sem Terra em Eldorado dos Carajás. Em muitos países e de modo muito forte no Brasil estaremos numa grande rede co-inspirando na mesma luta, pois "o sangue dos mártires continua clamando por justiça" (cf. Gn 4,10) e o Deus da vida continua nos interrogando: "Aonde está o teu irmão?" (Gn 4,9).
----------Dia 15 de agosto de 1983 Margarida Alves, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores rurais de Lagoa Seca/PB, foi covardemente assassinada. Ela movia mais de setenta processos trabalhistas contra latifundiários usineiros. Logo depois do assassinato de Margarida apareceram outras centenas de "Margaridas" para continuar a luta por Justiça e por Vida para todos e para tudo. Realizou-se o slogan "do sangue de Margarida, Margaridas". Margarida está viva e o sangue dela, sua causa, circula nas artérias de tantas pessoas pelo Brasil afora.
----------Dia 24 de março celebramos a memória de Dom Oscar Romero, assassinado covardemente há 21 anos atrás. Oscar Romero se tocou, se comoveu diante da repressão realizada pela ditadura militar em El Salvador e assumiu a luta por justiça, com coragem e audácia, denunciando as arbitrariedades e os massacres realizados pelos militares em nome da manutenção da ordem. Oscar Romero, profetizou, em alto e bom som: "Quero falar de modo especial aos soldados e aos militares. Soldados, vocês são parte do povo sofrido. Vocês estão assassinando seus irmãos de sangue. Vocês militares não estão obrigados a obedecerem leis que são contrárias à Lei de Deus. A lei de Deus maior diz "Não matarás!" Parem de matar! Em nome de Deus, eu vos suplico, eu vos imploro, eu vos ordeno "Cessem a repressão". Não podemos nos calar diante de uma ditadura que massacra o povo".
----------No dia 29/10/1979, Santo Dias foi assassinado pela polícia ao reprimir os operários que faziam greve na fábrica Silvânia, em São Paulo. No dia 29/10/2000, exatamente 21 anos depois (21 = 3 X 7, números perfeitos), no segundo turno das eleições municipais o povo elegeu candidatos mais à esquerda resgatando assim a esperança de justiça expressa no clamor do povo. Aqui está o dedo de Deus justo.
----------Mizael, um sem terra destemido, sintetiza o que significa as mais de 2.000 lideranças assassinadas nos últimos 25 anos de luta por libertação no Brasil: "Che Guevara, Onalício Araújo Barros (o Fusquinha) e Valentin Serra (o Doutor), Benezinho, Irmã Adelaide, Paulo Fonteles, Gringo, Quintino, Gabriel Pimenta, João Batista, Oziel (com apenas 19 anos), Expedito Ribeiro, Família Canuto, Dezinho, Santo Dias, os irmãos Januário e José Natal, Eloy Ferreira, sr. Júlio Miranda, os padres Josimo, João Bosco Burnier, Gabriel, Ezequiel Ramin, as crianças da Candelária, os sem terra de Eldorado e de Corumbiara, milhões de índios, Antônio Conselheiro de Canudos, os negros de Palmares, etc estão vivos conosco na luta. Deram a vida deles por nós. Jamais os esqueceremos. Ai de nós se os esquecermos! Eles são Força e Luz para nós na luta pela Terra e por uma nova sociedade. A terra do Brasil está encharcada do sangue dos inocentes mártires e este sangue está fazendo germinar a Reforma Agrária e tantas conquistas sociais e humanas. Quando o medo quer nos pegar, recordamos que os mártires eram destemidos; não tinham medo; eram audaciosos! Como eles deram a vida por nós, se for preciso estamos dispostos a dar a nossa vida para que seja transfigurada a realidade no Brasil e no mundo. Quando nos perguntam se não temos medo de morrer, dizemos: “Medo é uma palavra que nós cortamos do nosso dicionário. O sangue dos mártires circula nas nossas veias.”
----------O sangue dos mártires não cai em vão na terra. Mais cedo ou mais tarde germina gerando justiça e vida nova para o povo. É por aí que o Espírito de Jesus ressuscitado e presente no nosso meio vai rompendo barreiras injustas e recriando a humanidade. É claro que com a co-inspiração ativa das/os discípulas/os da memória de Jesus. Com a força do Espírito o reino de Jesus vai crescendo em meio a perseguições.
----------Na Bíblia no livro de Atos dos Apóstolos vemos que as igrejas de Antioquia, a terceira maior cidade do Império romano, depois de Roma e de Alexandria, é filha, em parte, da perseguição desencadeada com o martírio de Estêvão (8,1b). Estevão, cheio do Espírito Santo, se tornou um destemido "apóstolo" anunciando que Jesus, assassinado pelos líderes dos poderes político-religioso e econômico, tinha ressuscitado. Este anúncio profético gera perseguição, pois anunciar que Jesus está vivo, ressuscitado, no meio dos discípulos e discípulas significa dizer que a luta por justiça e fraternidade vai continuar. A perseguição gerou dispersão. Os primeiros cristãos Helenistas tiveram que fugir para não serem eliminados também. Assim chegaram na Samaria, em Antioquia e até os confins da terra, Roma. Um dos traços da fisionomia das primeiras comunidades cristãs no mundo gentio é crescer a partir da perseguição (cf. At 8,1b.4; 11,19).
----------Em At 8,1b nos diz que "todos foram dispersados... com exceção dos apóstolos". Esta informação se une com At 8,4, onde diz “os que foram dispersados...”. Assim é iniciada a evangelização dos samaritanos por parte de Filipe (At 8,5-24). Na mesma linha está em At 11,19: “aqueles que haviam sido dispersados por causa da tribulação que se seguiu à morte de Estevão”. Assim também introduz a evangelização dos gregos, feita pelo restante do grupo dos Helenistas (At 11,19-20). Em outras palavras, as primeiras comunidades cristãs no meio dos gentios nascem no meio de Tribulação. Esta palavra expressa um processo que inclui repreensão (= censura psicológica), opressão (= necessidades econômicas, sentidas a partir do estômago) e repressão (braço político-militar do Império).
----------Dom Pedro Casaldáliga nos alerta: "Ai de um povo que esquece os seus mártires". Nós somos discípulos de um mártir: Jesus Cristo, nosso Senhor. Embora o Brasil costume esquecer muito rápido a morte dos seus pobres, é necessário cultivar na memória e no coração o exemplo bonito de doação de vida pelos outros dos nossos mártires. Por isso re-cordamos, por exemplo, Dezinho, lá do sul do Pará: quando viu que o jagunço sacava a arma para assassiná-lo avançou sobre o jagunço, depois de receber três tiros, segurou o jagunço até a polícia chegar. Quando a polícia chegou Dezinho soltou o jagunço nas mãos da polícia, caiu e expirou. Tamanha era a sua sede de justiça. Dezinho sabia muito bem que se deixasse o jagunço fugir, dificilmente ele seria preso.
----------Parece este ser o "preço" da libertação: Sem enfrentar os poderes de opressão, o que implica sofrer perseguição e até martírio, não se colhe frutos de libertação, de ressurreição. Mas a força de vida existente em nós e no nosso meio é muito mais forte do que as forças que tentam calar os apaixonados pela vida de todos e de tudo. Sinais de ressurreição vão se multiplicando. Existem pelo Brasil afora inúmeros assentamentos Pe. Josimo, Chico Mendes, Oziel etc, que cultivam a semente lançada pelos nossos mártires. Assim os mártires renascem todos os dias nos acampamentos, nas Escolas libertadoras dos Assentamentos, na produção para saciar a fome do povo brasileiro, nas ervas medicinais das Farmácias Vivas (medicina alternativa), na agricultura familiar ecológica, na elevação do nível de consciência política, na conquista de Direitos Humanos, na democracia com participação ativa, na solidariedade, na festa da vida, etc.

Frei Gilvander Moreira, O.Carm
Email: gilvander@igrejadocarmo.com.br