Militância social e academia
Gilvander na luta e na sala de aula

-----------O Jornal do Diretório Acadêmico Oscar Romero, do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte, entrevistou frei Gilvander, no segundo semestre de 2008. Eis, abaixo, cinco perguntas respondidas por ele.

-----------1 - A questão agrária ocupa um espaço "ímpar" em sua vida. Quando isso começou?

-----------Frei Gilvander: Sou filho de família sem-terra. Aos três anos de idade, migrei com minha família para o município de Unaí, noroeste de Minas Gerais, em busca de uma terra onde “manasse leite e mel”. Aos 5 anos, comecei a acompanhar o papai, Sr.. José Moreira de Souza (sempre presente, já em vida plena) na labuta da lavoura, ajudando na plantação de milho, feijão e arroz, à meia com o latifundiário. Fiz muitos calos nas mãos na minha infância e na adolescência. Só pude começar a estudar aos nove anos. Comecei a trabalhar cuidando de porcos no chiqueiro. Foi pão de cada dia da minha infância buscar água, na lata, para matar a sede dos porcos; descascar milho à mão e debulhar; plantar milho e feijão, de matraca; capinar capueraba que sufocava a plantação, sob um sol escaldante; arrancar feijão (no meio de picão), batê-lo, limpá-lo e ensacá-lo. Mas doía muito no meu coração ver o fazendeiro encostar o caminhão, levar a metade da safra que lhe pertencia segundo o sistema de meia e a outra metade que, em tese, deveria ficar conosco como recompensa pelo nosso suor derramado, acabava sendo levada pelo fazendeiro para saldar a dívida que acumulávamos com ele, do plantio à colheita, ao comprar, a prazo, café, açúcar, remédio, sal, fósforo, querosene e ...Dentro do meu coração, eu ouvia uma voz que gritava repetidamente: “Deus não quer isso. Não é justo! Por que uns poucos se consideram donos da terra, nossa mãe, viva, sagrada?” Assim iniciou minha ligação umbilical com a luta junto aos sem terra por uma autêntica Reforma Agrária.

-----------2 - Ainda tocando no assunto "Homem e seu direito à terra", o que tem impedido a Reforma Agrária de acontecer em nosso país?

-----------Frei Gilvander: Diversos obstáculos têm impedido a realização efetiva de uma Reforma Agrária no nosso querido Brasil. Primeiro, uma cultura da paciência e da resignação foi introjetada até o inconsciente e até a medula óssea de grande parte das pessoas. Um cristianismo conservador tem fomentado o respeito a toda e qualquer lei, independentemente da sua legitimidade. Há ainda um tabu no Brasil segundo o qual a propriedade é um direito inalienável e intocável. Mas muitos se esquecem de que 90% do povo brasileiro não estão tendo esse direito respeitado. Uma elite predatória e retrógrada também resiste muito a mexer na iníqua estrutura da terra. Falta vontade e decisão política de construir justiça social no Brasil. O povo luta pela reforma agrária, mas a massa, vassala de uma elite que anda de costas para o Brasil, é condicionada a não entrar na luta pela mudança da estrutura fundiária. Graças a Deus e a milhares de lutadores populares esse panorama está mudando para melhor.

-----------3 - PT, MST, Comissão Pastoral da Terra... estão todos no mesmo “balaio”?

-----------Frei Gilvander: São companheiros de luta, mas com identidades e especificidades próprias. A Comissão Pastoral da Terra – CPT - nasceu há 35 anos como resposta aos clamores dos camponeses que começaram a perceber que “fazendeiro é, em grande parte, um comedor de suor de pobre”. Uma presença solidária por parte da/s igreja/s, em uma perspectiva ecumênica, no meio de boias-frias, trabalhadores rurais, atingidos por barragens, sem-terra e pequenos sitiantes, tem contribuído decisivamente para o nascimento de movimentos sociais populares que se batem pela Reforma Agrária. Em grande parte, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST - é filho da CPT, mas o MST conserva autonomia em relação à CPT, aos governos e aos partidos políticos, o que é muito bom. O PT nasceu no meio dos metalúrgicos. Ainda não descobriu a importância sine qua non da Reforma Agrária no Brasil.

-----------4 - É possível unir o ato de lecionar com conscientização social (sem ser partidário)? O senhor conseguiria (ou consegue) fazer isso?

-----------Frei Gilvander: Eis um desafio imprescindível. Acredito que a academia deve estar em diálogo constante com o mundo social que nos envolve e do qual fazemos parte. Precisamos não apenas de intelectuais, mas de intelectuais orgânicos. No dizer de Antônio Gramsci, eles ajudam os sofredores a entenderem os porquês e as causas mais profundas dos sofrimentos que padecem. A convivência com os excluídos dá mais substrato para nossa reflexão acadêmica; é importante para nos desvencilhar de muitas posturas moralistas, perguntas estéreis que roubam nossa atenção. Não basta erudição livresca; é preciso filosofar buscando ser sábio com saber/sabor que liberta.

-----------5 - Em pesquisa feita em 2008, o IBGE constatou que 15% dos brasileiros não sabem o que irão comer no dia seguinte à sua última refeição (5%, se vão comer). Constatação alarmante essa! Com que a Igreja, o Governo e a sociedade têm contribuído para essa situação? O que fazer para mudar?!

-----------Frei Gilvander: Não dá para dormir tranquilo com 49 milhões de irmãos e irmãs passando fome, enquanto 400 mil famílias possuem a metade da riqueza do Brasil. Participar do programa Fome Zero é um imperativo ético que interpela todos nós. Fome Zero e Vida Mil dependem muito mais de ações participativas dos cidadãos e das cidadãs, de ações afirmativas, do que de ações governamentais. A tarefa gigantesca de combate à miséria pressupõe o engajamento dos cidadãos conscientes nessa verdadeira força-tarefa que está se formando no País.

-----------O programa “Fome Zero” do governo federal tem recebido aplausos e críticas. Todos são unânimes em afirmar que algo precisa ser feito com urgência. Não podemos nos calar diante da miséria e da fome. Nada justifica, num país rico como o Brasil, a convivência de dois extremos: de um lado, grande concentração de poder, terras e riqueza em tão poucas mãos; de outro, 49 milhões de pessoas – dados do IBGE – condenadas à miséria, expropriadas de todas as condições humanas de sobrevivência. Estão condenadas à fome, ao analfabetismo, ao desemprego, à ausência de todos os serviços públicos, indispensáveis à existência humana digna, na atualidade.

-----------Ao tempo em que acreditamos na necessidade do socorro imediato a esse sem número de desvalidos, qualquer programa governamental nesse sentido deve ser “autodestrutivo”, ou seja, no bojo do programa devem estar as condições para que os próprios atendidos sejam capazes de, em pouco tempo, andarem com as próprias pernas, assumirem a sua cidadania. De fato, qualquer programa de erradicação da pobreza, da fome, da marginalização no Brasil, segundo a opinião de economistas e sociólogos e outros estudiosos sérios, como Celso Furtado, Fábio Konder Comparato e outros, deve vir acompanhado de políticas públicas, tais como: Reforma Agrária, geração de emprego e renda, moradia popular, educação para a cidadania etc.