SANTO DIAS, mártir da Pastoral Operária
--------Dia 30 de outubro de 2004, completou-se 25 anos da morte de Santo Dias. Militante das Ceb’s, da Pastoral Operária, da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, Santo foi e continua sendo uma referência importante para milhares de pessoas que acreditam em uma sociedade solidária e humana. Ainda mais em tempos de refluxo da militância, Santo é um exemplo por sua perseverança e acima de tudo pela pedagogia do exemplo, do trabalho de base. Coerente, sensível e comprometido com o mundo dos trabalhadores, é dessa forma que Santo era visto por seus amigos.
--------Santo, um operário. 25 anos depois
--------Santo Dias tinha 37 anos quando foi atingido por um tiro de um policial militar em frente da Sylvania, uma fábrica de lâmpadas no bairro Santo Amaro. Estávamos em 1979 e os metalúrgicos organizavam uma greve.O o sindicato dos metalúrgicos de São Paulo era presidido por Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, apoiado pelos militares. Coube à oposição organizar as greves daquele ano, quando o sindicato permaneceu omisso. Naquele dia, reivindicavam-se 83% de reajuste salarial e Santo Dias liderava o movimento. “Ele notou que um companheiro era conduzido ao camburão e resolveu resgatá-lo. Pedia calma aos colegas quando foi morto”, conta o metalúrgico Waldemar Rossi, também membro da Pastoral Operária e colega de Santo.
--------A revista ISTOÉ, 27/10/04, relata que o “autor do disparo que o matou foi Herculano Leonel, primeiro policial condenado em um tribunal militar por motivo político no Brasil. Alguns anos depois, porém, a defesa recorreu e ele foi absolvido”. Continua a revista: “Santo Dias virou nome de um parque, uma praça e seis ruas só na Grande São Paulo. Tornou-se patrono do Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo, órgão criado em 1980 sob as bênçãos do então cardeal dom Paulo Evaristo Arns e presidido por Hélio Bicudo, vice-prefeito da capital. Foi dom Paulo quem rezou a missa de corpo presente, realizada na Catedral da Sé lotada”. Fala dom Paulo: “A influência de Santo Dias é enorme. Minha oração em sua missa foi publicada em um livro didático na Austrália”. Santo deixou a esposa, Ana Dias, e os filhos Santo Dias Filho e Luciana, então com 12 anos. Santinho tornou-se metalúrgico e hoje tem uma loja de material de construção. Luciana, 37 anos, é pedagoga e acaba de escrever, em parceria com a jornalista Jô Azevedo e com a fotógrafa Nair Benedicto, o livro Santo Dias – quando o passado se transforma em história (Cortez Editora).------- A filha fala do pai
--------A filha de Santo Dias, Luciana Dias em entrevista a ISTOÉ, 27/10/04, fala sobre o pai: “Ele era um pai extremamente rigoroso. Chegava tarde, obrigava a gente a ler os boletins do sindicato em voz alta e ainda queria discutir o conteúdo deles. Era uma tarefa pesada para uma menina de nove anos. Também tínhamos que recortar as tiras do Henfil para ele levar para o mural da igreja. E ainda separávamos os panfletos para ele distribuir nas portas das fábricas. Em 1978, na época da eleição da diretoria do sindicato, saíamos da escola na hora do almoço e ajudávamos na panfletagem. À noite, quando não tinha tarefa, ele montava umas contas enormes com raiz quadrada para a gente resolver. A gente tinha de estar sempre debruçada em livros ou ajudando nas coisas de casa. Passeio para ele era ir a museu, ao Instituto Butantã... Playcenter? Nem pensar! Em casa não entrava camiseta com escritos em inglês nem Coca-cola. Eu já tinha cinco anos quando ele aceitou comprar uma televisão. Ele era tão crítico que até minha mãe se cansava. Não se conformava quando chegava vendedora da Avon em casa. ‘Um monte de gente passando fome e vocês vêm vender perfume na favela!’, dizia”.
--------Metodologia do Santo: 80% escutar e 20%, falar
--------Paulo Maldos, assessor do CEPIS – Centro de Assessoria Político-Pedagógica, no campo da Educação Popular, conviveu longamente com Santo Dias. Estudante ainda jovem, participou com Santo do nascedouro das CEB’s e da incipiente organização operária em São Paulo. Em entrevista ao CEPAT Informa, n. 104, outubro 2004, fala da sua convivência com Santo: “Conheci Santo Dias quando era estudante na Faculdade de Psicologia da PUC de São Paulo, em 1974. Eu fazia um trabalho comunitário na favela do Rio Bonito, na região de Interlagos, zona sul da cidade, e um dia fui convidado para participar de uma reunião à noite, na Paróquia do Socorro, onde as pessoas que faziam vários trabalhos pastorais e comunitários iriam trocar experiências e fazer um planejamento comum. Foram organizados grupos mistos em termos de tipos de trabalho e eu acabei ficando no grupo do Santo. Ele expôs o seu trabalho com comissões e grupos de fábrica na zona sul, o que me deixou fascinado. O Santo me causou uma ótima impressão: ao mesmo tempo militante ousado e extremamente tranqüilo, ótima pessoa, simpático, afetivo, companheiro, pessoa que escutava muito e sabia falar coisas pertinentes, que emergiam do próprio grupo. Ele tinha claras suas idéias e propostas, mas sabia esperar para colocá-las no momento certo.--------A preocupação com as bases
--------Continua Paulo Maldo: “Preocupava-se com a participação das bases, esse eu acho que era o eixo central das suas preocupações: como animar e fortalecer o protagonismo dos operários, dos trabalhadores, dos setores populares nos bairros e favelas. Claro que ele tinha como norte uma sociedade mais justa, o fim da ditadura, a transformação social, a construção de um movimento operário forte e autônomo, que eram as idéias gerais da militância, mas ele colocava o acento na participação direta da base, a sua formação política, a sua organização, a articulação dos diversos trabalhos de base. Tinha claro que precisávamos partir das condições concretas de vida dos trabalhadores, organizá-los a partir daí, mas desencadear processos amplos e massivos de luta, com formação e clareza política, com respeito às bases e com uma direção colada e respeitada por essas bases”.--------Paulo Maldos fala da metodologia do trabalho de base doe Santo Dia: “A metodologia era a de aprender com o povo para poder ensiná-lo, para voltar a aprender e ensinar. Oitenta por cento escutar e vinte, falar e ainda perguntar se o que você disse está certo, se está bom. E isso envolto em companheirismo, solidariedade, compromisso, amizade, humildade. Acho que o principal ensinamento é o da coerência entre afirmar que deseja uma sociedade justa e praticar vinte e quatro horas por dia a construção desta sociedade, nas palavras, atitudes, decisões, propostas, idéias, posturas. Também o ensinamento da participação e protagonismo popular, da organização da base, da formação política e ideológica da base”.
--------Santo não recuava diante das dificuldades
--------O metalúrgico aposentado Waldemar Rossi conviveu com o Santo, e ao lado dele foi uma das importantes figuras na organização da oposição sindical metalúrgica de São Paulo. Rossi, militante cristão, passou pela ACO, pela JOC e pela Pastoral Operária. Rossi em entrevista ao CEPAT Informa, n. 104, outubro 2004, fala um pouco da sua imagem de Santo: “O Santo tinha incomparável capacidade de coordenar sua vida familiar com as atividades na comunidade, nos movimentos populares da região, na Pastoral Operária e, ao mesmo tempo, na Oposição Sindical. Em todas as fábricas por onde passou, Santo deixou a marca da organização de base e das lutas por melhores condições de trabalho, aliadas às lutas sindicais por salários e outras conquistas. Tinha convicção de que as lutas operárias deveriam avançar para um enfrentamento maior com a exploração capitalista, visando à construção de uma sociedade com bases nos ideais socialistas. A Boa Nova e os ideais socialistas se completavam, para Santo Dias. Santo não recuava diante das dificuldades. De pronto reagia diante de uma injustiça maior, como, por exemplo, na Metalúrgica Alfa: quando o patrão assassinou um companheiro de trabalho, comandou a paralisação da fábrica e todo um movimento para a condenação do assassino. Não recuou sequer diante das ameaças recebidas”.SANTO DIAS DA SILVA, mártir das CEBs
(BIOGRAFIA)--------Nasceu em 22 de fevereiro de 1942, em São Paulo, filho de Jesus Dias da Silva e Laura Amâncio. Operário metalúrgico, era motorista de empilhadeira da Metal Leve S/A. Antes havia sido lavrador, colono, diarista e bóia-fria. Em 1961, foi expulso, com a família, das terras onde era colono, por exigir registro de carteira profissional, como era lei. Trabalhador em fábrica, foi demitido por participar de campanhas coletivas por aumento de salário e adicional de horas extras.
-------- Líder operário bastante reconhecido no meio dos trabalhadores,era casado e pai de dois filhos. Após sua covarde morte, como homenagem de sua luta e seu exemplo, foi criado o Centro Santo Dias de Direitos Humanos da Arquidiocese de São Paulo.
-------- Santo era membro da pastoral operária de São Paulo, representante leigo ante a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, membro do Movimento Contra a Carestia, candidato a Vice-presidente da chapa 3, da Oposição no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e integrante do Comitê Brasileiro pela Anistia - CBA/SP. Assassinado friamente pela PM paulista quando comandava um piquete de greve no dia 30 de outubro de 1979, em frente à fabrica Silvânia, em Santo Amaro, bairro da região sul.
-------- Relato da morte de Santo Dias, publicado no Boletim do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, encontrado no Arquivo do DOPS/SP: “ Os policiais estavam puxando o Espanhol por um lado. Do outro, Santo segurava o companheiro. Começou então a violência, com tiros para cima e, depois, eu vi o Santo ser atingido na barriga, de lado, e o tiro sair de outro lado. Escutei três gritos: ai, ai, ai. E o Santo caiu no chão.”
-------- O metalúrgico Luís Carlos Ferreira relatou assim a morte de Santo Dias da Silva, no depoimento que prestou à Comissão de Justiça e Paz, que também ouviu mais duas outras testemunhas sobre a morte do companheiro. Segundo Luís Carlos afirmou à Comissão, ele estava a uns seis metros de distância de Santo Dias, no momento em que ele foi baleado.
-------- Os policiais continuaram a perseguir outros - prossegue Luís Carlos no seu depoimento. ‘Eu fiquei atrás de um poste e posso, com toda segurança, reconhecer o policial que atirou no Santo: tem cerca de um metro e oitenta, alto, forte e aloirado. E pude ver, depois, na delegacia que ele tem uma falha na arcada dentária. Vi ele bem, quando eu estava sendo levado preso no Tático Móvel 209.
-------- Luís Carlos lembra que havia cerca de 50 operários no piquete, que nunca usou de violência, pois só fazíamos o trabalho de conscientização. Ele também desmente a versão de que os trabalhadores teriam iniciado o conflito, afirmando que quando chegamos na porta da Sylvânia, tinha uns quatro ou cinco policiais guardando o local. Não houve nenhum atrito com eles e nenhum de nós estava armado.
-------- Luís Carlos Ferreira reconheceu o soldado Herculano Leonel como o autor do disparo que matou o operário. Correndo, assustados e ao mesmo tempo com raiva do ocorrido, os companheiros entraram na sede com a notícia parada na garganta: ‘Mataram o Santo’. Num primeiro momento, a dúvida e, após a confirmação, a dor. A repressão diante da Sylvânia, local para o qual Santo se dirigira com a finalidade de acalmar os ânimos, dissolveu a tiros o piquete; fez um ferido (João Pereira dos Santos) e um morto, Santo Dias da Silva. A triste notícia correu de boca em boca. As autoridades procuravam esvaziar e eximir-se da culpa.
-------- Imediatamente começou a mobilização dos trabalhadores para protestar contra o assassinato. A polícia não queria nem mesmo liberar o corpo. Depois da interferência de outros sindicalistas e parlamentares, o corpo de Santo chegou à Igreja da Consolação onde foi velado pelo povo de São Paulo. A tristeza se misturava com a incredulidade e a raiva contra os assassinos. Milhares de pessoas desfilaram diante do caixão aberto de Santo, prestando sua homenagem ao novo mártir da luta operária, que estampava no seu rosto um leve sorriso de tranqüilidade. Já na madrugada, o povo continuava a rezar por Santo e a se preparar para a grande marcha até a Sé, local fixado para a cerimônia de encomendação do corpo.
-------- Às 8:00h da manhã a movimentação diante da Consolação era grande: metalúrgicos, estudantes, todos querendo levar Santo. Saindo da Consolação às 14:10h, o cortejo com faixas e palavras de ordem contava com mais de 10 mil pessoas. Dos prédios caiam papeis picados, um sinal silencioso de solidariedade. Novos manifestantes se acresciam ao cortejo e as palavras de ordem se sucediam: ‘A Luta Continua’, ‘A polícia dos patrões matou um operário’, ‘Você está presente, companheiro Santo’...”