Maria das Neves e Sebastião, mártires na luta contra o narcotráfico
1988: ANO DE MORTE E DE RESSURREIÇÃO
------------Janeiro de 1988 é marcado por muito calor, mas no último fim de semana um forte temporal traz muita chuva que vai continuando no começo de fevereiro, provocando grande enchente. A estrada do Amapá fica alagada por mais de duas semanas e o bairro completamente sem condução. Os trabalhadores tem que vir pegar o ônibus na ponte, caminhando mais de 3 quilômetros em cima do dique ou enfrentando a água que em alguns pontos alcança quase um metro e meio. Um desmoronamento mata 3 crianças. Os bombeiros e as autoridades aproveitam a oportunidade para se promover.
------------No dia 19 de março, Padre Bruno realiza na capela de Nossa Senhora da Conceição construída pelo Sr Manoel a Celebração da penitência comunitária e individual. Dona Maria das Neves, mãe de 3 crianças da catequese, procura o padre para uma conversa individual. Fala de sua vida familiar, da casa que está construindo com o marido Sebastião, de seu sonho de viajar para o Nordeste depois do nascimento do filho que está esperando, para rever seus pais. É uma mãe feliz, pobre, mas feliz e cheia de sonhos bonitos. Com este espírito se prepara para celebrar a Páscoa no dia 3 de abril. Exatamente um mês depois da Páscoa, na noite de 3 de maio, os sonhos de vida e de amor de dona Maria das Neves são interrompidos por mãos assassinas.
------------3 de maio 1988, data que ficará na história com o sinal do sangue dos Mártires. As forças da morte realizam seus planos. Tentam colocar “um ponto final”, tentam impor com a violência do poder assassino o domínio do mal. A casa de Maria das Neves e Sebastião é invadida. Dona Maria das Neves tenta pedir socorro. É agredida e assassinada no quarto em construção já preparado para receber a laje no próximo fim de semana. Os assassinos perfuram o seu corpo de mãe grávida com a tesoura que ela usava como instrumento de trabalho para ajudar no sustento da família. Depois, no único quarto da casa onde toda a família vive, as três meninas: Elizete (5 anos), Elionete (7 anos) e Eliete (9 anos) são violentadas e sufocadas enquanto o pai imobilizado é obrigado a assistir e por fim ele também é assassinado. A violência não termina aí. Os passarinhos na gaiola também são mortos e até as flores em frente da casa são pisoteadas e arrancadas. Não pode ficar nenhum sinal de vida.
------------Por quê? Por que tanta maldade? O único motivo é a vingança? O Sr. Sebastião não teria permitido que traficantes se aproveitassem de seu lugar de trabalho como ponto de distribuição de drogas, pior, denunciou o fato à polícia.
------------No dia seguinte ninguém escuta as vozes das crianças que alegravam sempre as manhãs. Há um silêncio que desperta suspeita. Uma vizinha se aproxima e descobre a tragédia. A notícia explode, assusta, corta os corações. A morte parece tomar conta do bairro todo. A polícia faz seu trabalho burocrático, sem se preocupar em pelo menos recolher a tesoura que foi usada como arma assassina. O responsável de recolher os corpos dos mártires, apesar de estar acostumado a fazer isso, chora. A notícia chega à imprensa por um dia. Em pouco tempo tudo cai no esquecimento e a “normalidade” volta ao lugar.
------------Normalidade? Na realidade a falsa normalidade da conformação, da impotência diante das forças de morte que subjugam os pobres. Mas não todos se conformam, não todos aceitam. Padre Bruno lembra que ao voltar de noite depois de uma reunião na comunidade Santa Rita, no Amapá, olhando a casa onde tudo aconteceu se sente questionado na sua fé. Algo precisa ser feito para que do sangue dos mártires ressuscite a vida. Partilha esta sua angústia com Dona Odete, Sr. João, Sílvia, dona Georgina, Gilberto e outros membros da comunidade Santa Rita e também da comunidade Nossa Senhora da Conceição que está nascendo aí no bairro.
------------Nasce a idéia de uma celebração ecumênica com o nome de “CLAMOR DOS MÁRTIRES” para o dia 5 de junho. Acontecem vários encontros de preparação que reúnem representantes das Igrejas presentes naquela região e também a Associação de Moradores. No dia e na hora marcada a celebração acontece apesar do medo que ainda domina muitos.
O Clamor dos Mártires é um clamor de vida, de esperança, é um grito de ressurreição. A morte não pode ser a vitoriosa. Aos poucos vai nascendo a proposta de comprar aquela casa e torná-la sede de comunidade. Dona Odete se encarrega de procurar saber com quem precisa tratar. Finalmente no começo de outubro de 1989, Dom Mauro efetua a compra. O primeiro a entrar na casa é o marido de dona Odete, o sr. João. O quarto ainda lembra tudo que aí aconteceu. O estrado da única cama está em pé, encostado na parece. A tesoura está lá! Mas há algo especial: Um galho da flor que foi pisada e arrancada pelos assassinos entrou no quarto. Está lá cheio de vida.
------------ Durante um ano e 5 meses venceu a escuridão, a falta de ar, o calor, a falta de água de uma casa sempre fechada. Estava nos aguardando para nos entregar a responsabilidade de continuar testemunhando a vida. Fazemos de tudo para que ele continue vivo, mas de nada adianta. Ele já cumpriu sua missão. Agora cabe a nós lutar para que aquele lugar seja lugar de vida que vence a morte, lugar de ressurreição.
------------A casa dos mártires se torna casa da vida.
------------No Natal de 1989 foi celebrada a Missa campal em baixo da mangueira atrás da casa. Estávamos inaugurando a nova casa da comunidade, agora não mais com o nome de Nossa Senhora da Conceição, mas como Comunidade dos Mártires da Baixada. As obras tinham iniciado ainda em outubro.
------------O senhor João, marido da Odete, foi completando a obra planejada por Sebastião e Maria das Neves.
------------O quarto onde tinha acontecido o martírio ficou como Capela do Santíssimo.
------------Desde o início procuramos também ter um cuidado especial com as plantas. Elas são sinal de vida e tinham sido martirizadas também, e além do mais foi o galho de uma planta que Deus utilizou para nos indicar a missão que estava nos dando.
------------Aos pouco nasceu e foi se tornando realidade o sonho de fazer daquele lugar um centro de espiritualidade. Com o apoio de Dom Mauro e a ajuda da Diocese de Fossano na Itália compramos um segundo lote de terreno e fomos construindo os locais necessários para acolher retiros e encontros de formação. As Missas da comunidade eram celebradas na “varanda”, mas o povo sonhava em ter uma Igreja-templo e também alguns tinham dificuldade em aceitar o nome de Comunidade dos Mártires. Por não ter um conhecimento mais aprofundado para eles este nome trazia apenas a lembrança de morte, exatamente o que nós não queríamos. Decidimos aceitar uma sugestão que nasceu do povo e passamos a chamá-la de Comunidade Nossa Senhora dos Mártires e o padre Bruno fez uma adaptação da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, mais tarde, quando foi pintada a Igreja, a própria imagem também foi adaptada.
------------Dom Mauro acompanhou todas estas etapas e as aprovou. Aliás Dom Mauro Morelli sempre teve um carinho especial pela Comunidade Nossa Senhora dos Mártires e sempre que tinha oportunidade se fazia presente para celebrar. Foi numa destas celebrações que nos incentivou a construir uma Igreja-Templo bem maior e até deu alguns palpites de como poderia ser. Incentivou e deu sugestões, mas também ajudou concretamente a conseguir a verba necessária. A nova Igreja foi inaugurada no dia 17 de julho de 1999.