O Bom samaritano: Justiça, Solidariedade e Mística
(Publicado no JORNAL PELEJANDO, ago/2001, sessão: Política, p. 07.)
----------Alguns dados estatísticos e a nossa convivência no dia a dia nos indicam que das mais profundas entranhas do nosso povo ecoa um ensurdecedor grito por Justiça, por Solidariedade e por uma espiritualidade (mística) libertadora. 1% das pessoas mais ricas do Brasil possuem renda equivalente a 13,8% da população, enquanto os 50% mais pobres possuem somente 13,5% da renda. 2,8% dos latifúndios possuem 57,6% das terras, enquanto 62,2% dos minifúndios possuem apenas 7,9% das terras(1). A Petrobrás tira petróleo do mar de uma profundidade de 2.300 metros, enquanto por falta de vontade política "não existe" tecnologia para tirar água a 50 ou 80 metros do subsolo para matar a sede do povo do semi-árido brasileiro, que está morrendo de sede. No mundo, a cada ano, duzentos milhões de crianças morrem, por conseqüência da falta d'água. No Brasil existe isenção fiscal para revistas eróticas, mas falta livros didáticos nas escolas estaduais e municipais. A ONU já disse que em 2.025, se continuar o atual ritmo de devastação ambiental, 40% da população do mundo vai ficar sem água. Se continuar a atual idolatria do mercado, em 2.020 apenas 2% dos trabalhadores encontrarão trabalho e produzirão o necessário para toda a população (que ainda estiver sobrevivendo).
----------Diante desta dramática realidade temos um grande desafio: Globalizar as ações que poderão re-criar uma nova sociedade com pessoas mais humanas. Em outros termos, podemos dizer: Globalizar a solidariedade e a luta pela Justiça, de mãos dadas (cf. Sl 85,11). Como dizia Antônio Gramsci, "é preciso pensar globalmente e agir localmente". É hora de articular bem a luta por Justiça, com Solidariedade e com Mística libertadora. Pois luta por Justiça sem solidariedade e sem mística pode recair em "mera ação política"; transforma algumas estruturas, mas não recria as pessoas. Solidariedade sem Justiça e sem mística pode recair em "mero assistencialismo ou paternalismo, o que gera dependência e não liberta as pessoas. Mística sem Justiça e sem solidariedade pode recair em "mero pietismo alienante".
----------O "episódio-parábola" do bom samaritano (cf. Lc 10,25-37), pode ser uma paradigma excelente para nos ajudar a articular de maneira crítica e criativa o tripé LUTA PELA JUSTIÇA, SOLIDARIEDADE E MÍSTICA LIBERTADORA. O samaritano era um estrangeiro, herege segundo os judeus, discriminado pelos judeus, tachado de pagão, um "impuro", um “bárbaro”; enfim um excluído. Ele denuncia uma estrutura assaltante do povo sendo solidário de modo gratuito e libertador. Em Lc 10,33-35, versículos riquíssimos em detalhes, descrevem o comportamento do samaritano; são a coluna vertebral do processo que começa com a Compaixão e deságua na Misericórdia.
----------Em Lc 10,33-35 o samaritano percorre os seguintes passos interligados e interdependentes:
----------1º) Estando viajando, se aproxima da realidade do caído e semimorto. Não passa adiante. Não levanta teorias que justificam a exclusão e aliviam a consciência. Interrompe seus planos e deixa se guiar pelo inesperado, pelo inédito, pelo que acontece. Não foge! Não pensou que perderia tempo.
----------2º) Vê o excluído semi-morto. Entrega seu olhar ao outro que sofre. Olha com benevolência e ternura. Deixa que a dor do outro entre através dos seus olhos. Certamente foi um olhar penetrante. Passa a ver o mundo a partir da dor do outro. E se deixa guiar pela visão que vê o outro sofrendo.
----------3º) Se move de Compaixão frente à dor do excluído. A dor do outro entra pelos olhos e invade todo o corpo. Penetra nas entranhas, no coração, revolvendo os. Revira o corpo por dentro. Quem está comovido se entrega ao outro, não o agride. Ter compaixão é algo muito diferente do que ter pena. Como diz um amigo meu: “Não tenho pena, pois quem tem pena é galinha.” Sentir compaixão não é sentir comiseração, não é dizer: “Coitadinho!”. Quem diz assim não se envolve na dor do outro. O problema do outro continua sendo do outro. Sentir compaixão é associar à dor do outro partilhando-a. Dor partilhada é dor diminuída. A Dor sentida pela pessoa excluída foi suavizada pelo Odor da companhia do samaritano, um co-inspirador de libertação.
----------4º) Aproxima ainda mais da pessoa sofrida, vai se entregando gradativamente ao outro.
----------5º) Cuida (fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas) do outro. A compaixão esquenta o corpo e particularmente o coração e aciona as mãos para a prática da misericórdia. A Compaixão é um passo necessário para se chegar à fidelidade (éleos, em grego) à dor do outro. A solidariedade efetiva conclui o processo da Misericórdia. Ou seja, a Compaixão nos leva à Misericórdia.
----------6º) Faz-se solidário no imediato e no mediato ( = E colocando-o sobre o seu próprio animal, o levou a uma pensão, onde cuidou dele). Dá os primeiros socorros, mas depois encaminha o semi-morto para o restabelecimento completo da vida. O samaritano não se contenta com o mínimo de assistência a alguém em perigo, mas dá seu tempo, seu dinheiro e o seu ser, sem calcular. Para ele o dom do dinheiro não é substituto, mas o complemento da ação pessoal. Ele mostra que amar não é questão só de sentimentos: a sua Compaixão se traduz em atos que tendem a fazer viver aquele que fora deixado semimorto.
----------7º) Deixa o assaltado encaminhado; Foi embora, mas deixou marcas de bondade e saiu marcado positivamente para o resto da vida.
----------8º) O samaritano soube a hora exata de entrar na vida do outro e soube o momento oportuno para sair da vida do outro. Foi embora. Não deixou nem o nome e nem endereço. Agindo assim o samaritano impossibilitou que se criasse vínculo de dependência entre ele e a pessoa semi-morta. Assim agindo, a ação do samaritano se tornou gratuita e libertadora.
----------Enfim, o bom samaritano nos dá uma aula de como viver de modo bem articulado e integrado o tripé: luta pela Justiça, Solidariedade aos excluídos e Mística libertadora.(1) Dados do Atlas fundiário do INCRA, no censo do IBGE.
Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm
email: gilvander@igrejadocarmo.com.br