Pessoas idosas, na Bíblia e na Vida, com a Palavra
Campanha da Fraternidade de 2003

(Publicado na REVISTA ADOREMOS, ANO 89, nº 899, maio/2003, sessão: Reflexão, p 9.)

Como pedra não é só pedra, velhice não é só velhice.

----------Uma leitura atenta da Bíblia e da Vida nos mostra a força e a beleza da idade avançada: um dom de Deus. Quem disse que força e beleza estão somente na juventude? Que tipo de força e beleza realmente importam? As pessoas idosas são guardiãs de uma memória coletiva. Na Bíblia, uma juventude, fiel ao Deus da Vida e da Liberdade, tocava a história pra frente. Muitos perguntavam aos jovens: “De onde vem tanta sabedoria?” Com um olho no retrovisor, exclamavam: “Nossos pais nos contaram” (Sl 44,2). Pessoas idosas e Juventude devem ser locomotiva e vagões de um trem que chegam ao destino somente quando ligados entre si. E podem se revezar na liderança do caminho. Importante é que não se desvinculem.
----------Ai de um povo sem memória histórica! Um povo que discrimina e marginaliza os idosos discrimina e marginaliza o próprio futuro. O patriarca Isaac, já velho e cego, pede para preparar-lhe um assado saboroso para comer e, antes de morrer, abençoa Esaú, o filho mais velho. Que beleza receber a bênção de uma pessoa idosa! A pessoa idosa não está perto da morte, mas está perto da ressurreição, que não é mero descanso, nem agitação, mas vida em plenitude.
----------Como o salmista, as pessoas idosas clamam: “E agora, na velhice, de cabelos brancos, Deus, não nos abandones, até que anunciemos teus gestos libertadores, as tuas maravilhas, a todas as gerações que virão” (Sl 71,9.18). Clamar a Deus é clamar a nós. Feliz o/a eterno/a aprendiz, eis a perene juventude. Os jovens apanham muito pela vida afora por falta de experiência. Cada idade possui sua beleza e missão. O salmista profetisa: “Mesmo na velhice darão frutos, serão cheios de seiva e verdejantes, para anunciar quão reto é o Senhor: meu rochedo, nele não há injustiça (Sl 92,13-16).
----------Abraão, um idoso, entrou para a história como o Pai da fé judaica, cristã e muçulmana. Moisés já era ancião quando Deus lhe confia a missão de tirar o povo da escravidão do Egito. Tobias, com humildade e coragem, suporta com paciência a cegueira, procurando observar a lei de Deus sendo solidário com os excluídos, (cf. Tb 3,16-17). “Durante a revolta dos Macabeus, Eleazar, homem de idade avançada, preferiu o martírio a renunciar suas mais legítimas raízes culturais (2Mac 6,18-31)”.
----------No X Intereclesial das CEBs, em Ilhéus/BA, o cacique Xucuru, um indígena idoso, emocionou todo mundo ao proferir as seguintes palavras de fogo: “Eu subi aqui para recordar um pouco a história dos nossos antepassados que viviam felizes aqui no Brasil até o ano 1500, mas depois começou o massacre da nossa Mãe Terra, dos nossos parentes e da natureza... A mãe terra está sendo destruída e nunca mais conseguirá recuperar-se. A terra continua do mesmo tamanho, desde que foi criada por Deus, mas as águas, que são o sangue dela, estão diminuindo. Eu peço, de joelhos, a todos vocês: Respeitem a nossa Mãe Terra!”
----------Em 1992 na periferia de Arinos/MG, encontrei dona Josefa. Viúva, aposentada, sem filhos, pois já tinham morrido, morava sozinha num casebre na periferia de uma “Nazaré” brasileira. Cheguei no casebre dela e ... “Oi de casa!” Dona Josefa respondeu lá de dentro: “Pode entrar! A casa é nossa! Seja bem vindo!” Entrei e fui cumprimentando-a: “Bom dia, dona Josefa!” “Bom dia nada, meu filho. Eu estou é muito triste!” “ Por que dona Josefa?” “Ah! O vizinho está matando as galinhas daqui de casa!” “Matando as galinhas da senhora?!!!”, perguntei exclamando. Dona Josefa continuou: “Não, meu filho, as galinhas não são minhas. Eu é que sou delas.” Fiquei embaraçado e perguntei novamente: “A senhora é das galinhas?!!! Não estou entendendo!” Dona Josefa, quase chorando, com uma voz meiga, foi desabafando e revelando sabedoria: “Meu filho, eu vou lhe contar um pouquinho da minha história. Assim você vai me entender. Eu morava, lá na roça. Perdi o marido e todos os filhos. Senti muito, mas continuei vivendo lá na roça. Lá eu plantava mandioca, banana, laranja, tinha horta, criava galinhas no quintal. Eu era quase feliz. Mas fui adoecendo. O senhor José arrumou a minha aposentadoria. Para recebê-la tinha que vir na cidade. A viagem era muito difícil. Tinha que andar muito a pé. Muitos me aconselharam: “Mude para a cidade!” Mudei! Aqui comecei a criar galinhas. São elas que tratam de mim. Pois o dinheiro da aposentadoria não dá para comprar os remédios que preciso tomar. São as galinhas que me sustentam. Elas botam ovos. Vendo uns, compro arroz e feijão pra eu comer e milho para as galinhas comerem. Outros ovos eu frito, ou cozinho, e como. Por isso é que eu digo que as galinhas não são minhas, mas eu é que sou delas. Elas me sustentam. Sem elas eu não vivo. Estou triste, porque o vizinho, ao matar as galinhas daqui, pensa que está matando só as galinhas, mas, na realidade, ele está me matando aos poucos também. Sem as galinhas eu não vivo. Vou morrer aos poucos. Abaixo de Deus quem cuida de mim são as galinhas. E eu as amo muito.”
----------Esse testemunho altamente eloqüente nos ajuda a reconhecer uma sabedoria com sabor popular, genuíno poço de sabedoria, fonte humanizadora!
----------O Evangelho segundo as comunidades de Lucas inicia-se com o protagonismo de um casal “de idade avançada”
(Lc 1,7): Isabel e Zacarias. De um ventre estéril e de um velho carregado de anos nasce João Batista, o grande profeta, líder de um bonito movimento popular que se batia por transformações sócio-econômico-político-religiosas. Da mesma forma, no Primeiro Testamento, do ventre estéril de Sara, e do corpo centenário de Abraão, nasce Isaac e uma grande descendência (cf. Rm 4,18-20).
----------O velho Simeão, tomando em seus braços o menino Jesus, exclamou: “Agora, Senhor, deixas teu servo ir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória de Israel, teu povo” (Lc 2,29-32). Ana, viúva de 84 anos, mulher contemplativa, pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino Jesus a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém (Lc 2,38). O ancião Nicodemos, estimado membro do Sinédrio, supera o medo dos conservadores da religião e se manifesta como discípulo do Crucificado (cf. Jo 19,38-40). Há tantos Simeãos, Anas e Nicodemos no nosso meio!
----------Leonardo Boff encontrou em uma avenida de Rosário, na Argentina, duas senhoras, velhinhas, elegantes, uma apoiada na outra. Elas, reconhecendo L. Boff, disseram: “Há muito tempo que acompanhamos a Teologia da Libertação. Não somos pobres. Nós somos é velhas, embora ricas. Estamos caminhando para o fim da vida. Mas todos os dias rezamos pelos cristãos libertadores, pelos teólogos e pelos bispos proféticos. E muito mais rezamos pelos oprimidos, para que sejam fortes e encontrem aliados para a sua luta de libertação. Somos solidárias com o senhor”. Que beleza de solidariedade, de mística e de energia. Desconfio que a tenacidade dos militantes, a cooperação dos aliados, a lucidez dos pastores e a inteligência dos teólogos estão assentadas na oração de pessoas anônimas.
----------O apóstolo Paulo nos alerta: “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte. E aquilo que o mundo despreza, acha vil e diz que não tem valor, isso Deus escolheu para destruir o que o mundo pensa que é importante.” (I Cor 1,27-28). Atualizando podemos dizer: o mundo capitalista, ao idolatrar a beleza física, a força bruta e a rapidez, diz que o idoso é inútil, um peso para a sociedade, um improdutivo. Mas, a partir da ótica de Deus, dizemos que o idoso é vital para a sociedade, um sustentáculo detentor da memória de um povo. O idoso é nossa história viva. “A juventude e a adolescência são vaidade” (Ecl 11,10), nos diz a sabedoria popular bíblica.
----------Deus é frágil, como os idosos; não tem a força dos ricos: o dinheiro; nem a força do Estado: as armas; mas tem a força da fraqueza e do amor, que é o que faz a diferença e nos humaniza.
----------Eliseu Lopes (1919-2002), um profeta destemido que partiu para a vida em plenitude, aos 83 anos, nos deixou um brilhante comentário sobre o Decálogo. “Honra teu pai e tua mãe, para que vivas longos anos sobre a terra que Javé, teu Deus, te dá!” (Ex 20,12. cf. Dt 5,16; Ef 6,1-3). Eliseu afirma: “Eis uma das dez palavras do decálogo que, deslocada do contexto histórico e esvaziada de seu conteúdo coletivo e social, infantilizada, tornou-se instrumento de chantagem de pais e mães. Antes de tudo, é uma Palavra para adultos, e não para crianças. É dito "honra" e não "obedece". Só o adulto pode honrar. Porque "honrar" é reconhecer, considerar, homenagear o mérito de alguém". Note-se ainda que "na terra que YHWH teu Deus te dá" supõe que esta Palavra é dirigida não aos indivíduos, mas a todo o Povo, beneficiário do dom da Terra. Merece realce a menção expressa da "Mãe". De certo modo, questiona o "poder pátrio" da cultura romana. Tradicionalmente esse 4º mandamento, infantilizado e individualizado, tem servido aos pais e mães de chantagem para disciplinar os filhos menores com o fantasma do pecado e a terrificante ameaça do castigo divino.”
----------“Levanta-te diante de uma cabeça branca e honra a pessoa idosa” (Lv 19,32). “Quem aflige o pai e afugenta a mãe é um filho desonrado e infame” (Prov 19,26). “Escuta teu pai, que te gerou, e não desprezes tua mãe envelhecida” (Prov 23,22). “Quem respeita sua mãe é como alguém que ajunta tesouros (Eclo 3,4).
----------Ao lado dos nossos vovôs e vovós é hora de cantarmos, com Renato Teixeira: “Ando devagar, porque já tive pressa. Já corri demais... Cada um possui o dom de ser capaz, de ser feliz.”
----------Estamos, não apenas em uma época de mudanças, mas numa mudança de épocas. Fala-se de uma crise de sentido, ou de mudança de paradigmas. Estamos em uma travessia, onde se desponta uma encruzilhada: humanidade ou barbárie. Para caminharmos rumo à humanização é vital que jovens e idosos convivam se respeitando, se amando e se completando.
----------Faz bem re-cor-darmos tantas pessoas idosas que combateram o bom combate; fizeram a diferença e continuam vivos e presentes, mesmo na ausência física. Por exemplo: Dona Zica, a mãe da grande comunidade da Mangueira, mulher que amou profundamente seu povo. Dom Hélder Câmara, etc. (Quem você recorda?). O filósofo Sartre, já idoso, dizia: “Participo das manifestações públicas, porque meu corpo é respeitado. Ajuda para que não haja repressão aos movimentos sociais.”
----------Um outro mundo, justo e solidário, é possível, necessário e urgente, desde que se inclua os idosos, respeitando-os e nos tornando aprendizes da sabedoria deles.
Eis uma dica bibliográfica para quem quiser aprofundar sobre a terceira idade, suas belezas e desafios:
ALVES, Rubem. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas, Papirus, 2001.
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. 2a ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.
OLIVEIRA, R. C. S., Terceira idade: do repensar dos limites aos sonhos possíveis. São Paulo, Paulinas, 1999.
SCHOKEL, L. A., Esperança: meditações bíblicas para a terceira idade. São Paulo, Paulus, 1994.
TONETO, Bernadete. Idoso, com muito prazer: felicidade não tem idade. São Paulo, Salesiana, 2002.

Frei Gilvander Moreira, O.Carm.
email: gilvander@igrejadocarmo.com.br