Em forma de Via-Sacra

 

Uma história 
de
"Mortes e Ressurreições"

 

 

Enilda de Paula Pedro, rbp.

 

 

Neste livrete, abro meu coração como se abre uma gaiola para deixar voar um pássaro cantante que quer fazer ecoar um hino:

- de louvor a Deus e agradecimento a centenas de pessoas que se fazem presentes na minha história, ajudando-me a ficar em pé;

- ao mesmo tempo, cantar a força da solidariedade;

- E fazer um apelo à doação de órgãos para transplante, seja lá para quem for;

- nesse hino, insistir que doença não é castigo de Deus, mas fruto da vulnerabilidade e fragilidade do corpo humano e das decisões que tomamos no nosso dia-a-dia. Mais ainda: toda doença começa “na cabeça”, ou seja, com a maneira com a qual assumimos nossa corporeidade, nossa convivência com o cosmos, nossa história!

 

 

 

A CAPA deste livrete traz o painel da Ressurreição, exposto na Catedral de São Félix do Araguaia, MT.

 

 

5ª. Edição/redação novas informações

Belo Horizonte

Agosto de 2008

 

 

 

 

ÍNDICE......................................................................  3

 

APRESENTAÇÃO---------------------------------------  5

 

INTRODUÇÃO-------------------------------------------  7

 

PRIMEIRA ESTAÇÃO----------------------------------- 8

Manifestações da doença renal

 

SEGUNDA ESTAÇÃO----------------------------------  9

A doença se agrava

 

TERCEIRA ESTAÇÃO---------------------------------- 14

Volta ao quarto do hospital

 

QUARTA ESTAÇÃO------------------------------------ 17

Saída do hospital e volta às aulas

 

QUINTA ESTAÇÃO------------------------------------- 19

Preparativos para o primeiro transplante

 

SEXTA ESTAÇÃO--------------------------------------- 21

Primeiro transplante e recuperação na casa da Mãe!

 

SÉTIMA ESTAÇÃO --------------------------------------23

Perda do transplante

 

OITAVA ESTAÇÃO -------------------------------------28

Saída da UTI e mais um mês de hospital

 

NONA ESTAÇÃO--------------------------------------   30

Saída do hospital

 

 

 

DÉCIMA ESTAÇÃO-----------------------------------   31

As diálises e a vida na CLINENGE!

 

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO --------------------- 34

O contato com a dor de tantas outras pessoas

 

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO---------------------- 35

Acompanhamento da equipe de transplante

 

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO---------------------  37

Minha amada comunidade do B.Pastor da Nova Suíça

 

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO-----------------------   39

De volta ao Hospital Beneficência Portuguesa

 

DÉCIMA QUINTA ESTAÇÃO-----------------------    41

Início de um novo processo de transplante

 

CONCLUINDO-------------------------------------------- 44

 

APÊNDICE                                          -------------------48

 

Apresentação

 

Uma vida a serviço da VIDA!

 

            "Prova de amor maior não há do que dar a vida pelo irmão". Discípula fiel de Jesus e vibrante missionária do Reino, irmã Enilda é sinônimo de doação! Acompanhei, de perto, seus passos, misturada, irmanada, aos pobres de Guaianases, periferia de São Paulo. Distante no espaço, sigo sua árdua caminhada na estrada do Calvário, na enfermidade, testemunhado sempre a beleza da vida, a certeza da ressurreição! A pastora irmã Enilda, configurada ao Bom Pastor, na dor, na vida, tem sido presença de alegria, ânimo, ressurreição. Apaixonada pela Palavra de Deus da qual é constituída mensageira pelo batismo, tem transformado em fé viva o que lê, ensinando aquilo que crê, procurando realizar, no dia-a-dia, o que ensina!

Há muitos anos, irmã Enilda deu-me pequena estampa do Bom Pastor com a citação do Salmo 138,5: "Estendeis sobre mim a vossa mão". Ao ter a honra-alegria de apresentar estas páginas que retratam cinco anos da história da abençoada vida de irmã Enilda, suplico ao Bom Pastor continue a estender sobre ela sua mão, para que possa perseverar fiel discípula de Jesus e vibrante missionária do Reino, na certeza da vitória da VIDA sobre a morte.

 

Blumenau, Páscoa de 2007.

Dom Angélico Sândalo Bernardino

 

 

 

 

 

Paris, 28 de março 2007.

 

Querida Enilda,

 

            Foi com emoção e carinho que pude ler o relato de sua experiência de sofrimento e luta durante longo tempo. Acredito que muito antes desses últimos anos, já tivesse experimentado suas "asinhas" de águia e vivido profundamente comprometida com muitos irmãos e irmãs na luta pela Vida. Agradeço seu testemunho. De fato, é um apelo muito forte a manifestar presença e apoio a todas e todos que lutam pela Vida, sob qualquer forma que seja.

 

É também um apelo comovedor a assumir doação de órgãos para transplante. Espero que seu testemunho possa colocar em movimento muita gente que sente ainda receio diante da perspectiva de doação.

 

            Que Deus nos ajude a continuar percebendo sua presença nos múltiplos aspectos da Vida, e a testemunhar essa nossa fé diante dos demais. Com muita amizade. 

 

Irmã Rose Marie Mauban

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Introdução

 

Estamos nos aproximando da maior festa do cristianismo: a Ressurreição do Senhor, Conforme a primeira carta de Paulo aos Coríntios “se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a nossa fé” (1Cor 15,14).

 Mas, o que é Ressuscitar?

Segundo os “Cânticos do Servo Sofredor” de Isaías, ressuscitar é ser solidário/a. É entregar a vida para que outros/as tenham vida. Podemos ler em Is 53,10b: “mas, se ele oferece a sua vida como sacrifício pelo pecado, certamente verá uma descendência, prolongará os seus dias, e por meio dele o desígnio de Deus há de triunfar”.

No texto mais antigo dos Evangelhos, ou seja, o Evangelho de Marcos, capítulo 16,6, que fala da Ressurreição de Jesus, a palavra ressuscitar, em grego, “egueiro”, significa “voltar à vida”, “erguer-se”. Ainda em Marcos, na cena da ressurreição da menina, aparece a palavra ressuscitar, em hebraico: “Talita kum!”, que quer dizer: “menina, levanta-te!”. (Mc 12,26)

A palavra “ressuscitar”, ou “egueiro”, pode ser encontrada 12 vezes nesse mesmo Evangelho. Verifique em sua Bíblia: 1,31; 2,9; 2,11; 2,12; 3,3; 5,41, 9,27; 10,49; 12,26; 14,28; 14,42 e 16,6 – todas com o mesmo sentido: levantar-se, pôr-se de pé, erguer-se. Assumir a própria história. 

A partir desses significados tão fortes, quero contar a minha história de “Ressurreições”. Esse texto quer ser um canto, um hino de ação de graças a Deus e a todas as pessoas que me têm ajudado a ficar em pé e a andar com minhas próprias pernas!

É claro, falar de Ressurreição implica necessariamente falar de algum processo de morte. Só se levanta quem cai, ou está deitado ou sentado. Ressuscita quem de alguma forma experimenta sinais de morte.  Como somos um feixe de relações, esse processo envolve uma multidão de pessoas, que, de certa forma, também morrem e ressuscitam com a gente[1].

Pois bem. Quero partilhar com você o que tem sido para mim, ressuscitar, no decorrer desses meus últimos cinco anos.

 

A VIA -SACRA[2]

 

Enilda, alegre-se por estar participando dos sofrimentos de Cristo, para que você também se alegre e exulte ao se revelar a glória dele

                    (1 Pe 4,13).

 

PRIMEIRA ESTAÇÃO

Manifestações da doença renal

 

Há muitos anos, tenho problema renal. Parece-me de que se trata de uma questão genética. Minha avó materna, Maria Eulália da Cunha, morreu inchada, por retenção de urina, em 1973. Minha irmã Angelita de Paula Braga chegou a perder um rim, por volta de 1998, e várias sobrinhas e sobrinhos sofrem problema renal.

A minha primeira grande crise renal foi em Guaianases, bairro periférico da cidade São Paulo, em setembro de 1987. Fui tratada na emergência do pronto socorro com uma dose dupla de “buscopam”. O médico fez exame, mas não me orientou para procurar um nefrologista... talvez se o fizesse o rumo da história seria outro.

Dez anos depois, fui submetida a três cirurgias com “Raio laser”, denominada “Litotripsia” - no Hospital Beneficência Portuguesa.

No Natal de dezembro de 1999, fui internada no Hospital Felício Rocho, Belo Horizonte, com grave infecção renal. No dia 7 de janeiro de 2000, fui submetida a uma cirurgia relâmpago, por Dr. Eugênio e sua equipe, que retirou uma pedra e meia do rim direito. A anestesia acabou, e meia pedra ficou no rim. Tive alta, com a condição de me recuperar um pouco e voltar, ainda em janeiro, para retirar o restante da pedra. Eu não voltei. Viajei para São Paulo e fiquei me tratando no Hospital do Rim.

Em junho de 2002, a pedra que havia ficado no rim desceu para o ureter e fui submetida a outra cirurgia de urgência, no Hospital do Rim. E a vida continuou.

 

SEGUNDA ESTAÇÃO

A doença se agrava

 

Passei o dia 30 de outubro de 2002, das 08 às 17 horas, no pronto socorro da Beneficência Portuguesa. A cada hora, um médico me examinava e passava para outro. Lembro-me do mal-estar terrível que eu sentia. Para aliviar minha dor, ia mudando de cadeira. E assim passei o dia todo sem comer. À tardinha, já escurecendo, fui internada com forte crise renal. Lourdes Trentin me acompanhou.

 Pe. Shigeyuki Nakanose (Shige) e Maria Antônia Marques (Toninha) me visitaram e me ofereceram ajuda econômica para me transferir para o Hospital do Rim, no qual eu já estava acostumada a ser tratada. As Irmãs da Comunidade da Aclimação consideraram melhor eu me manter na Beneficência Portuguesa por causa da viabilidade do plano de saúde. Minha sobrinha, Patrícia Antônia Braga e seu esposo, Sérgio Vilas Boas, foram presença constante desde esse primeiro momento.

 No outro dia, Corina de Paula Brito, minha irmã, chegou de Belo Horizonte para ficar comigo. Eu estava tão mal que variava. Pe. Arlindo Dias, Provincial dos Verbitas, veio me visitar. No meu torpor, eu o via e sonhava com meu sobrinho e afilhado médico, Dr. Frederico de Paula Brito.

No dia 4 de novembro, desse mesmo ano, comecei a fazer hemodiálise. No dia 8, fui para UTI, pois me sentia muito mal. Após uma semana, voltei para o quarto. Tinha-se a esperança de que meus rins voltariam a funcionar, e que eu receberia alta dentro de alguns dias.

No dia 18 de novembro, nasce Sara Alves Braga, filha de minha sobrinha, Palma Braga e Gilson Alves. A família fez promessa de que se eu saísse com vida do hospital, iria amadrinhar a “princesinha” que hoje, é minha afilhadinha muito amada. Esse gesto da minha família me deixou deveras feliz!

No dia 21, os médicos fizeram uma biópsia para ver quais as condições dos meus rins. Após a biópsia, tive uma nova crise violenta, pois, minha pressão era 22 por 12.  Levaram-me com urgência novamente para a UTI, onde passei 15 dias, entre a vida e a morte.

Nesse tempo de UTI, muitas pessoas enfrentavam fila, para me ver por dois minutos! Gostaria de lembrar de todas e todos. Citarei os nomes que me vêm à memória.

Lembro-me da presença amorosa e solidária da equipe do Centro Bíblico Verbo, dos Padres e funcionárias/os do Seminário Espírito Santo. Toninha e Shige iam todos os dias ao hospital e à UTI. Shige foi “desencavar” até um livrinho preto, de unção dos enfermos, bem antigo, que devia estar no fundo do baú, para ”servir de passaporte” e assim ter livre trânsito como Padre, na entrada da UTI. Maristela Tezza, Terezinha Veronese,  Pe. Fernando Dorën e Pe. Agostinho, eram também presença constante. Gestos inesquecíveis!

Destaco, também, a presença de Dom Frei Caetano Ferrari, bispo auxiliar da Diocese de Franca. Ao visitar-me, na UTI, além de me confortar com sua presença, me ungiu com os santos óleos dos enfermos. As Irmãs que trabalham diretamente no Hospital Beneficência Portuguesa me acompanharam com esmero. Quero mencionar, de uma maneira especial, a Irmã Cezarina que fez o possível e o impossível por mim.

 Lembro-me com gratidão da presença incansável de minhas irmãs da comunidade da Aclimação, sobretudo de Isabel Oliveira e Lourdes Trentin. Esta, “fizesse sol, fizesse chuva”, ia todos os dias ao hospital. Levava comida, frutas, cuidava de minhas roupas, organizava o revezamento das minhas acompanhantes, além de dar o maior apoio aos meus familiares que vinham de longe me visitar. Lourdes Trentin,  receba minha eterna gratidão.

            Expresso minha gratidão à  Ir. Dulce Ruv que reside em Goiânia, e veio passar cinco minutos comigo, na UTI!

            Minhas irmãs de sangue: Angelita de Paula Braga e Corina de Paula Brito vieram de Minas e se revezavam no meu acompanhamento, bem como minhas sobrinhas: Rosa Alice Gonçalves Pedro e M. Alice Braga, Patrícia Antônia Braga - a Patrícia que me doou o rim - e seu marido, Sérgio Vilas Boas. Sérgio e Patrícia moram em São Paulo. Eles colocaram seu tempo e sua casa a meu serviço. Como agradecer tudo isso? Impossível!

            Patrícia, quando soube de que eu havia mesmo perdido os rins, imediatamente ofereceu-me o seu. Certamente, naquele momento, movida pelo amor e solidariedade, ela não sabia exatamente o que estava oferecendo. Obrigada, minha princesa!

Tive visitas incontáveis de familiares, vindos de Minas. Além deles, vieram diversas pessoas amigas, membros das comunidades de Guaianases, onde trabalhei 20 anos! Esse pessoal tomava um ônibus e um metrô para vir, e outra dose, para voltar, o que dava mais ou menos, quatro horas de viagem. Tudo isso para enfrentar uma fila e me ver, por cinco minutos. Lembro-me especialmente de dona Silvana, Maria José Moreira e Sr. Moreira, dona Zefinha, dona Angélica, dona Lili, Teresa Silva, Jaime e Madalena, e das Baixinhas: Helena, Fátima e nossa amiga Bia.

 Dona Silvana Teodoro de Faria um dia chegou à UTI com um envelope e disse: “Irmã, tá aqui meu exame de sangue. Se for para a senhora voltar para o meio do povo, meu rim está à sua disposição!” Ela também não sabia o que estava falando! Mas, valeu, minha comadre amada!         

            No dia 27 de novembro, dia do meu aniversário, estava na UTI, cheia de sondas – entubada para salvar meu pulmão, minha vida! Meus irmãos: Edmundo de Paula Pedro, Alda de Paula Carvalho e a sobrinha M. Alice Lara vieram de Lafaiete, só para me visitar por alguns minutos na UTI. Vieram também Ivone de Paula Avelar, Angelita de Paula Braga, Frederico de Paula Brito e Vânia.

Patrícia, Sérgio e Irmã Isabel providenciaram um colchãozinho apropriado para aliviar o mal-estar daqueles colchões de napa, que queimam até o tutano dos ossos! Obrigada, meus amores!

Lembro-me de alguns acontecimentos interessantes na UTI de São Paulo.  Uma noite, às 2 horas da madrugada, estava frio; pedi à enfermeira que me trouxesse a “comadre”. A enfermeira lavou-a com água quente, para amainar o impacto. Foi um gesto de profunda ternura. Obrigada!

O regime alimentar de hemodiálico é violento! Passei 10 dias na UTI só comendo gelatina! Haja Deus! Um enfermeiro, o Sr. Virgulino (vejam o nome!) por engano, me deu uma abençoada canequinha de café com leite! Pobre coitado! Ganhou “pitos e pitos” da médica! Fiquei com pena dele, mas muitíssimo agradecida! Estou vivendo dos juros até hoje!

 Sou “apaixonada” por frutas, principalmente laranja! As frutas são os alimentos mais condenados para os doentes renais crônicos, pois têm uma forte porcentagem de potássio. Uma manhã, veio um pedacinho de mamão junto ao café. Olhei com tristeza e disse: “estou com tanta vontade de chupar uma laranja!” A enfermeira disse: “eu trouxe uma laranja de lanche. Posso trocar com a senhora”. Obrigada, enfermeira. Seu nome está escrito no Livro da Vida.

 Na UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, as luzes ficavam acesas dia e noite. E, dava-se banho nos pacientes a qualquer hora. Uma noite me deram banho à meia noite. A UTI estava silenciosa. Pensei: vou conseguir dormir. Mal fechei os olhos, entraram com um doente na maca, todo arrebentado, aos gritos: “tenham pena de mim. Não sou ladrão. Sou pobre da favela. Fui agredido...!” Colocaram a maca do homem, que reagia aos berros, do lado direito da minha cama.

Logo a seguir, vieram com outra maca, carregando um comandante de avião, que vinha de Porto Alegre para São Paulo. O avião caiu e o piloto se “espatifou”. O homem estava muito nervoso. Não conseguia sintonizar sua respiração com o aparelho respiratório que apitava “piui, piui” o tempo todo. Colocaram a maca do “comandante de avião” do lado esquerdo de minha cama. E assim passei o resto da noite no meio dessa orquestra de dor.

A dor, a doença, a morte nos igualam!

 

TERCEIRA ESTAÇÃO

Volta ao quarto do hospital

 

No dia 5 de dezembro, saí da UTI. Quando passei, de maca, pela grande porta, onde estava escrito em letras garrafais: TRATAMENTO DE CHOQUE, o relógio, pendurado na parede da saída, marcava 17 horas! Fui para o quarto e continuei no hospital. Tempo de lenta espera.

             Nesse caminhar, é inumerável a lista de pessoas que foram solidárias comigo, me ajudando a ficar em pé – a ressuscitar, seja através de “e-mails” e telefonemas, como foi o caso de D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo de Blumenau. P. Shige, em férias no Japão, me telefonou duas vezes. Pe. Ademar Kaffer, e Irmã Dietlin que estavam na Alemanha, também ligaram. Irmã Áurea Marques, de Recife e Irmã Lygia, de Timboteua – Pará, fizeram o mesmo.

Irmã Isa Mascarenhas, de Salvador, Bahia, sempre me telefonava, mandava recados, etc. Também me ligaram meus amigos e professores: Ana Flora Anderson e Frei Gilberto Gorgulho. Chamou-me atenção sobremaneira um telefonema rápido de minha cunhada: Madrinha Terezinha, dizendo que estava fazendo uma novena a São Judas para eu recuperar os rins! Agradecida, muito agradecida.

Recebi muitas cartas, bilhetes e visitas como das Irmãs de Congregação: Zulma do Amaral Goulart, Zélia do Amaral, Lourdes Vicari, Ana Bastos e outras. Vale ainda destacar a visita amiga, repetida várias vezes, do psicólogo Laurindo Trombeta e de sua irmã psicóloga, Irmã Ida de Lucca; dos biblistas: Nancy Cardoso e Luiz Dietrich, e da presidente da Equipe Bíblica da CRB Nacional, Magda Brasil. Lembro-me, agora, dessas pessoas, no meio da multidão de presenças amigas. A memória não registrou tudo, mas o coração, SIM.

 Muitas pessoas se revezaram no hospital, me fazendo companhia durante o dia e à noite;  às vezes, por semanas inteiras. Corina, Angelita, Patrícia, Lourdes Trentin, Isabel, Constança, M. Paula Rodrigues, dona Silvana (muitas vezes), Toninha, Lourdes, irmã da Toninha, e tantas outras pessoas. - Pe. Manoel de Godoy, conhecido também por Mané, Manezinho, veio de Brasília passar um dia comigo!!!

            Vários padres verbitas, Tolias, Alexandre, Edênio e funcionárias/os do Seminário Espírito Santo, se revezavam; nas visitas, rezavam comigo, traziam flores e guloseimas: Rosa e Ricardo, dona Lázara, dona Lúcia, dona Eva e outras/os.  Dona Alice, Sr. Hiroche, dona Terezinha que me levavam até comida japonesa, já que meu estômago não aceitava quase nada.

            O ecônomo verbita, Irmão Paulo, chegou a pagar as enfermeiras que trabalhavam na casa dos idosos, para me fazerem companhia, revezando com minhas irmãs de sangue e minhas co-irmãs de Congregação.

 Entre as muitas visitas de colegas da faculdade, como Vanise Freitas, pessoas da diretoria e alunos/as, destaco as visitas de Marli Angelini, Floripes, Maria do Carmo, Nilda Assis e de meu aluno, pastor-fundador de uma Igreja Pentecostal – ele era bombeiro. Não me lembro o nome, mas o gesto. Ficou comigo algumas horas e rezou intensamente. Durante sua oração, ele teve quase que um tipo de convulsão: chorava, gemia e tremia todo. Hoje, eu analiso assim: provavelmente, o moço entrou numa comunhão tão profunda comigo, que intuiu, de alguma forma, que ainda me restava um longo caminho de sofrimento.

Patrícia reiterou sua convicta oferta do rim. A mesma oferta foi feita por todas as suas irmãs e irmão! Corina, minha irmã, também queria doar seu rim a qualquer custo. Minhas sobrinhas Rosalice Gonçalves Pedro e M. Alice Braga também ofereceram seus rins.

 Entre as ofertas de rim, ficaram as de Patrícia e de Paula. Esta insistia tanto que seu rim devia ser objeto de implante, que Pauline, sua irmã, dizia brincando: “a Paula está quase tirando o rim pela boca, para doar para a Tia Enilda!”A todas, obrigada, muito obrigada por estas suas generosas ofertas.

            Thiago, meu afilhado, naquela época estava com 15 anos e queria me doar um de seus rins, a todo custo! Garoto precioso! Que Deus o faça um homem bom, íntegro e solidário como seus pais!

A demora no hospital foi tanta, que cheguei a montar um presépio na janela do meu quarto para acolher tanta gente e para curtir a pequenez de Jesus Servo.

            No dia 07 de janeiro de 2003, fui submetida a duas tentativas de fístula. É uma cirurgia com duração de 2 a 3 horas, e muito dolorosa! No meu caso, foi inútil. Minhas veias não agüentaram. Continuei fazendo diálise com cateter. “Um galho de árvore implantado nas artérias do pescoço”.

 Nesse dia 7, comemoramos no hospital o aniversário da Toninha, e a volta da Corina para Belo Horizonte. Dor e festa! Morte e Ressurreição. É a mistura da vida!

 

QUARTA ESTAÇÃO

Saída do hospital e volta às aulas

 

No dia 9 de janeiro de 2003, tive alta. Fui para a comunidade da Aclimação.  Eu era um conjunto de ossos cobertos de líquido e pele. Inchada e cambaleando, continuei fazendo diálise no Hospital Beneficência Portuguesa, três vezes por semana.

No dia 22 de janeiro, os médicos me autorizaram a viajar para Lafaiete para passar uns dias com minha mãe, já bem doente e meus familiares. Lourdes Trentin me acompanhou. Fiquei fazendo hemodiálise na Clínica Santo Antônio, Hospital Maternidade. M. Alice Lara, Rosalice me levavam e buscavam. Vivi momentos difíceis. Na Clínica, fui acompanhada carinhosamente por Dr. José Carvalho e Dr. José Alves, enfermeiras/os e funcionárias/os. Minha família e pessoas vizinhas e amigas me deram total apoio

De volta a São Paulo, fui atrás de todo tratamento que as pessoas me indicavam. As irmãs da comunidade, a Isabelinha, funcionária da casa da Aclimação, bem como o pessoal do Centro Bíblico e do Seminário Espírito Santo, foram incansáveis no meu acompanhamento. Dona Lázara, com suas companheiras da cozinha, não sabiam mais o que inventar para que eu comesse!

A fisioterapeuta, Dra. Léa Suzuqui, enviada pelo meu plano de saúde, na época, Bamerindus, vinha, três vezes por semana, fazer exercícios comigo. Conversava como amiga e companheira! Dra. Léa chegou a me buscar num domingo para passar o dia com ela e sua mãe, na Igreja central da religião de que ela participa. Sabe onde? Num parque ao lado da represa Billings!   Obrigada, Dra. Léa. Até hoje continuamos amigas, mesmo a longa distância. O mesmo fazia a psicóloga Dra. Teresa Cristina.

Em fevereiro, recomeçam as aulas, precedidas de reuniões e cursos. O meu corpo não queria de jeito nenhum retomar o ritmo diário da vida. Aqui, uma gratidão especial ao Pe. Shige que me disse:

 Não, Enilda, você tem que voltar a trabalhar, senão o seu corpo acostuma. Eu dou aula no seu lugar, às segundas-feiras, e lhe dou o dinheiro da mesma, para o seu tratamento. Mas as aulas de quinta, pela manhã, na faculdade, e o curso de quinta à noite, na Av. Paulista,  na Igreja Imaculada, bem como os cursos nos fins de semana, você precisa continuar a dar. Isso é bom; é necessário para você”.

 

Shige, sua firmeza e apoio solidário, me substituindo nas Faculdades Claretianas, enquanto a entidade o permitiu, e me ajudando a manter meu tratamento durante a estada na casa de minhas sobrinhas, em Belo Horizonte, foi um verdadeiro gesto do Servo Sofredor de Isaías! Obrigada.

Este foi o primeiro passo na minha ressurreição. Muitos outros foram se seguindo, a duras penas!

 

QUINTA ESTAÇÃO

Preparativos para o primeiro transplante

 

Passou-se o primeiro semestre de 2003. No dia 15 de julho, viajei para Belo Horizonte com Patrícia, minha doadora de rim. Estávamos atrás do transplante.

Dr. Valdivino, nosso grande amigo, já havia marcado entrevista no setor de transplante do hospital Felício Rocho. Nesse mesmo dia, conversamos com Dr. Cláudio; depois, com a psicóloga Dra. Zoleide. A seguir, fui acompanhada minuciosamente por Dr. Estevam Viotti, nefrologista. Tivemos também entrevista  com o cirurgião chefe, Dr. José Maria Figueró.

Fiquei hospedada na casa das queridas sobrinhas: Palma, seus filhos Samuel e Sara, Paula e Pauline, enfrentando os milhares de exames em vista da cirurgia.  O carinho e a ternura dessas “meninas” estão registrados no âmago do meu coração.

Enquanto fazia diálise no Núcleo de diálise Belo Horizonte, estava sendo acompanhada carinhosamente pelo Dr. Roberto; este médico me marcou pelo acompanhamento personalizado que dava a cada doente. Ele ficava o tempo todo da hemodiálise na sala, e pessoalmente verificava o funcionamento de cada máquina!

O apartamento do nosso amigo Dr. Valdivino fica a quatro quadras desse núcleo de diálise. Dr. Valdivino queria a todo custo que eu fosse  me preparar para a cirurgia, na casa dele, já que a psicóloga da equipe que ia me operar, Dra. Zoleide, morava no apartamento em frente ao dele. Obrigada, a você, Dr. Valdivino e à Vera, sua esposa, por tanta solidariedade e ternura.

Na linguagem de São João da Cruz, posso dizer que foi “um tempo de noite escura”! E põe escura nisso!  Sem trabalho, perdida no tempo e no espaço, com mil conflitos internos. Nessa noite escura, brilhava a luzinha da convivência amorosa com meus familiares, especialmente as filhas e filhos de Angelita e seus lindos netinhos, Samuel e Sarinha, que ainda era bebê.

Dentro de mim ressoava um refrão: “Tudo passa... essa etapa também vai passar. O Senhor é meu Pastor. Nada me falta”.

Recebia muita comunicação e apoio das pessoas amigas, da minha família, do pessoal do Centro Bíblico, das minhas irmãs de congregação. Irmã Anna Faria me chamou até para dar palestra sobre o mês bíblico, para a comunidade do Instituto Bom Pastor. As minhas co-irmãs: Sabina Fornazier e Eliene Oliveira Barros foram me visitar na casa das minhas sobrinhas. Toninha, de passagem por Belo Horizonte, também deu um chego onde eu estava e ficamos batendo um longo papo. A todas, obrigada. Muito obrigada.

Nas vésperas da cirurgia, fui acertar o preço com Dr. José M. Figueró. O orçamento da equipe de transplante era três vezes mais do que meu plano se propunha a pagar. Eu estava tentando me explicar, quando Dr. José Maria me interrompeu dizendo:

 Irmã, não quero que a senhora se estresse por causa dessas questões. Minha equipe não trabalha por dinheiro. Eu não vou ficar nem mais rico, nem mais pobre com sua cirurgia. Com plano ou sem plano, eu vou operar a senhora. Fazemos assim: depois da cirurgia a senhora me dá um cheque no valor que o plano se dispõe a pagar. Eu o seguro comigo. Quando o plano depositar, a senhora me avisa e eu também deposito o cheque”.

 E assim foi. Obrigada, Dr. José Maria e equipe. Obrigada, Irmã M. do Carmo Capuano, ecônoma em exercício, que cuidou de todos esses detalhes sem complicar minha vida, já bastante complicada.

 

SEXTA ESTAÇÃO

Primeiro transplante e recuperação na casa da Mãe!

 

No dia primeiro de outubro de 2003, numa quarta feira, Patrícia e eu fomos operadas, por Dr. José M. Figueiró e sua equipe. Acompanharam nossa cirurgia: Dr. Estevam, Dr. Valdivino e meu sobrinho e afilhado, Dr. Frederico. Sucesso total, da minha parte.

Após a cirurgia, fui passar 24 horas de recuperação na UTI. Quando acordei, me senti num mar de orações e apoio espiritual! Lembrei-me de Santa Maria Eufrásia: “Aonde não chega a ação, chega a oração!” (Santa M. Eufrásia).

Patrícia, minha doadora, sofreu terrivelmente com os preparativos, com as reações da anestesia e com a cicatrização, cujas conseqüências perduram até hoje! É mesmo uma extrema generosidade e partilha da vida! A você, Patrícia, eterna gratidão!

O governo geral da Congregação do Bom Pastor, coordenado por Liliane Tauvette, escreveu uma linda carta, solidarizando conosco, e agradecendo à Patrícia o gesto de partilha.

Quero destacar o nome de uma das minhas grandes amigas, Irmã Delia Rodrigues, peruana, que nesse momento fazia parte do governo geral. Delia sempre manifestou apoio e presença na minha vida, especialmente nessa etapa de doença. Obrigada, irmã-amiga!

Durante 10 dias, permaneci no hospital. Acompanhamento preciso da equipe de Dr. José M. Figueró, especialmente Dr. Estevam e Dra. Sandra, que me explicou detalhadamente o sério tratamento pós-transplante. Não entendi grande coisa naquele dia, mas fui em frente.

Depois de 8 dias da cirurgia, me tiraram a sonda. Que alegria imensa quando ouvi o barulho do xixi! Foi uma das maiores sensações de minha vida!

No final dos 10 dias, tive alta. A assistente social mandou levar-me de ambulância, até a comunidade das Irmãs do Instituto Bom Pastor de Belo Horizonte, que me acolheram em festa.  Meu apartamento foi preparado pelas atendentes de enfermagem, especialmente Edna, M. José, Vanessa e Laurita, com todo requinte.

Entrei em casa cantando e dançando: “Ressuscitei, aleluia! Ainda estou convosco, aleluia!”. Ir. Vanda, de 88 anos, ria e dizia: “eu esperava você deitada numa maca! Que energia!”

Depois de 20 dias, fui para a casa da mamãe, em Lafaiete. A cada 15 dias, vinha ao setor de transplante para receber acompanhamento médico. Em um desses encontros com Dr. José M. Figueró, eu disse toda animada: ”Doutor, ressuscitei!  Nasci de novo”! Ao que ele respondeu: “É, dona Enilda, a gente só valoriza a saúde depois que a perdeu”.

Fiquei com mamãe até 25 de janeiro de 2004. Foi minha última etapa de convivência com ela!!!

 

 

 

 

 

SÉTIMA ESTAÇÃO

Perda do transplante

 

No dia 26, às 08 horas, fiz o exame rotineiro de sangue, e, às 9 horas, tive uma entrevista com Dr. José Maria. Acertamos os remédios, a próxima entrevista, e ele me deu alta sem restrições (grifado) para que voltasse a dar aula, em São Paulo. Nessas alturas, já estava de passagem comprada para viajar dia 27, pois, no dia 29, teria reunião dos/as professores/as da faculdade.

Qual não foi a minha surpresa!? No mesmo dia 26 de janeiro, às 15 horas, a secretária do Dr. José Maria me telefona no Instituto Bom Pastor, comunicando a ordem de me internar no Hospital Felício Rocho imediatamente!

Imaginem! Minha cabeça foi a mil!!! Dirigi-me para o hospital. Às 17 horas, fui internada. Lá pelas 18 horas, Dra. Sandra, nefrologista, veio ao meu quarto: “Talvez seja um início de rejeição...”. Os dias se passaram. Minha urina foi diminuindo até parar. Dr. José Maria fez questão de fazer a biópsia do rim implantado. Já havia morrido mesmo!

Voltei para a diálise. Era muito sofrimento! Penso que é algo parecido com a perda de um filho.

Os médicos se revezavam no meu acompanhamento: os nefrologistas Dr. Estevam, Dra. Sandra, Dr. Augusto Júnior, médico residente.

O amigo e irmão Dr. Valdivino era uma presença constante, embora essa não seja sua área de trabalho.

Nesse ínterim, Dr. Augusto Júnior suspeitou que a doença que me atingira seria “a síndrome de Goodpasture”, doença auto-imune, que infecciona as artérias dos rins, matando-os, e depois se dirige às artérias do pulmão, detonando-o. É uma doença rara, portanto pouco conhecida. Não se sabe a sua causa. Se for detectada logo, pode ser detida. Mas, caso contrário, mata mesmo!

Fiz o exame próprio e a suspeita era real. A doença já estava no meu pulmão! Segundo alguns médicos, provavelmente foi essa doença que matou também meus próprios rins.

Passei por várias tentativas de recuperação. Os médicos buscaram um tipo de tratamento chamado “Plasmaferes”. É algo parecido com diálise. Uma máquina especializada é ligada na veia para separar o plasma – parte líquida do sangue, de cor amarela, que contém os anticorpos, - da massa vermelha. É um procedimento que demora várias horas. Não me lembro mais! (Graças a Deus!) Verdadeiro “martirológio”. A máquina é tão sofisticada que até tem nome próprio – no caso, o nome da dita cuja era “Matilde”. E a médica que a controlava se chamava Patrícia.

Passei cinco vezes por esse procedimento para ver se eu ressuscitava. Enquanto isso, perguntas indiscretas caíam no meu coração como uma facada: “o que você fez para perder o transplante?”. Ai! Deus é mais!!!

No dia 7 de fevereiro de 2004, levaram-me para a UTI, onde fiquei 68 dias, boa parte dos quais em coma induzida – desenganada dos médicos – visita a qualquer hora.

Fui acompanhada pelos médicos: Dr. Estevam, Dra. Sandra, Dr. Rafael, Dr. José Neto e equipe, Dr. Ângelo Pimenta e equipe. Certamente, muitos outros/as participaram dessa laboriosa luta entre a vida e a morte, mas minha memória não registrou tudo.

O amigo Dr. Valdivino era presença constante. Ele e Dr. Estevam passavam longos momentos à beira do meu leito. Eu estava cheia de aparelhos. Fizeram traqueotomia para me salvar. Eu não podia falar. Então, escrevia bilhetes e eles pacientemente respondiam – tenho ainda hoje dois bloquinhos com esses bilhetes. Um dia, Dr. José M. Figueró, o cirurgião, foi me visitar. Até hoje sinto o impacto positivo dessa visita!

Alguns enfermeiros e enfermeiras eram otimistas. Todos eram unânimes em insistir: “irmã, você vai sair dessa, e ainda vai voltar para o meio do povo, como é seu sonho! A vida pulsa em você com muita força!”

E os pequenos sinais de ressurreição iam aparecendo lentamente. Um deles era a coragem irresistível que me acompanhava. Uma certeza me sustentava e ainda me sustenta: Deus não quer a dor, a doença. Adoeci porque não cuidei adequadamente de minha saúde, embora tendo os meios. Mas Deus estava e está presente na minha vida. Ele sofre, hemodialisa, e se alegra/ressuscita no meu corpo. Parafraseando Mateus, podemos dizer: “Eu estava doente, e foste me visitar...” (cf. Mt 25,31-46).

Eu tomava alimento pela sonda. Um belo dia, Irmã Rosa Virgínia levou uma linda mexerica, colhida no quintal de nossa casa. E M. Alice Lara, minha sobrinha, com o seu marido, João, levaram um pacotão de mexericas e outras frutas. Comi só duas. Mas, à noite, por muitos motivos, arrebentou o cordão da sonda e o alimento foi para o pulmão!  Quase dobrei o cabo da Boa Esperança!

O que me sustentou nessa “quaresma da vida” e me fez Ressuscitar foram três grandes amores: a paixão por Deus, pela sua Palavra escrita na Bíblia e na Vida, e a paixão pelo povo pobre e sofrido. Eu pensava sempre: “Tudo vai passar. Deus é mais. Antes que eu acorde, a providência de Deus já está de pé.

Elementos que foram carro-chefe nesse caminhar: a presença de Deus manifestada de muitas formas. O dom da convivência amorosa com ele no decorrer de minha vida, e com o povo pobre e sofrido.

Sem dúvida, muito me tem ajudado o temperamento alegre e feliz que Deus me deu e que procuro cultivar, e a presença carinhosa e fraterna de minha família de sangue, de minhas Irmãs de Congregação, dos meus amigos e amigas!

Nessa etapa de UTI, várias pessoas marcaram presença de maneira significativa. Minhas irmãs Corina e os filhos: Frederico e Natacha.  Angelita e as filhas e filho: Patrícia, Sérgio, Paula, Palma, Pauline, Pablo.  Ivone e os/as filhos/as: Nilton, Bete, Nelson, Creusa, Eliane Maria, Enilda.  Edmundo, Lita e filhos/as. Padrinho Alberto e filhos/as: especialmente M. Alice, João e Soninha, Sérgio. Alda, José e filhos. Lia e Eni. Celeste, filhos e filha. Enfim, todas as minhas irmãs, cunhados e irmãos, sobrinhos e sobrinhas vieram me ver e trazer esperança, seja na UTI, seja no sofrido tempo de apartamento. O pessoal de Lafaiete e Itabirito vinham sempre, carregado de frutas e objetos que podiam aliviar meus dias: rádio, Bíblia, terço e outros.

As Irmãs de Congregação: Sabina Fornazier, Anna Faria, M. Helena Faria, M. José Garcia, Rosa Virgínia, M. do Carmo Capuano, Lúcia. Marinho e outras eram presença constante. M. das Vitórias e Pe. Manoel (Manézinho) vinham diariamente me ver. Rezavam, choravam e me transmitiam segurança e paz. Vitória trouxe televisão e bilhetinhos das Irmãs. Fez um mural com os cartões e retratos, dentro da UTI e depois, no quarto. Quanta ternura!

Nem sempre eu estava lúcida, pois passei grande parte do tempo de UTI em coma. Mas, lembro-me emocionada e grata de muitos fatos.

No meu tempo de UTI, o hospital adquiriu um aparelho especializado que media pressão, controlava o coração e outras coisas mais. Esse aparelho foi colocado no box 10, o meu box. Era uma fila de enfermeiros/as e técnicos testando o “bichinho” o dia todo. Uma enfermeirinha novata nunca tinha chance de experienciar seus conhecimentos. De vez em quando, de madrugada, quando não havia nenhuma disputa pela máquina, a garota resolvia fazer seus experimentos em mim.  Uma dessas vezes, eu não sei como, pois eu tinha um dos braços amarrado, eu arranquei o aparelho de pressão, que era branquinho, de plástico, e o risquei todo! Senti-me vitoriosa com aquela arte espetacular!

Havia uma enfermeira de baixa estatura que precisava de uma escadinha para nos dar banho e fazer outros procedimentos. Era espertinha e jeitosa. Mas uma noite, precisei da comadre. Ela a colocou em mim. Eram 20 horas. E disse, vou rápido à portaria assinar o ponto... Quando voltou, eram exatamente 21h15min! O ponto dela virou uma linha infinita para mim... Oh, meu tesouro, nunca mais faça isso com nenhum/a doente. Para quem está numa cama, um quilo tem o peso de uma jamanta e uma hora tem a duração de uma eternidade!

Shige e Toninha vieram de São Paulo duas vezes para me visitar na UTI. Maristela também veio uma vez. Uma dessas vezes, eu estava quase nas últimas. Shige entrou na UTI com o Manézinho. Eu não falava. Mas, naquele momento, meu único desejo era partir para a eternidade. O sofrimento era muito mesmo! Shige pegou um terço preto, que era de uso de sua Mamãe, e o colocou em minhas mãos, quase que pedindo um milagre! “Guarde com você, enquanto estiver doente. Depois, me devolva”. Eu apertei o terço com as mãos e o devolvi. Tinha medo de perdê-lo na UTI. Mas seu gesto, Shige, está tatuado no meu coração.

No dia 11 de abril de 2004, domingo de Páscoa, Shige celebrou a Eucaristia no meu Box – Box 10. Estavam presentes Toninha e Ir. Anna M. Faria. Foi proclamado o Evangelho de João,10,10: “Eu vim para que todos tenham vida”!  Gesto inesquecível!

Ir. M. Helena Faria leu o rascunho desse texto e disse: “Enilda, visitei você na UTI. Você estava em coma. Mas, mesmo sem nos comunicarmos verbalmente, e, mesmo que a esperança me fugisse, paradoxalmente eu carregava uma espécie de certeza de que você “ressuscitaria” e voltaria para o nosso ambiente de comunidade”

Obrigada, M. Helena.

 
OITAVA ESTAÇÃO

Saída da UTI e mais um mês de hospital

 

Era o dia 15 de abril de 2004, quando saí da UTI! Falar em libertação é pouco! Era Ressurreição do coração, embora o corpo, mais uma vez, fosse uma caixa de ossos cobertos de líquido e pele. Tudo o que eu comia caía mal. Fazia diálise todos os dias. Verdadeira tortura. Isso sem falar do drama dos cateteres. Eles foram trocados cinco vezes em dois meses! Normalmente, um cateter tem durabilidade de um mês!

Outro drama foi a cirurgia da fístula: três vezes na mesa cirúrgica para implantar uma “veia artificial”! Deus é mais!

Sem dúvida, esse mês, no quarto, foi um dos mais duros de minha vida. O dia e a noite pareciam uma eternidade. Tudo doía. Os banhos eram uma tragédia!  Cheia de curativos e o corpo uma dor só. Sentar e levantar era um suplício. O coração, um “frangalho”!

As Irmãs de Congregação, minha família e pessoas amigas se revezavam nesse acompanhamento. Quero lembrar, entre outras, Corina, Angelita, Rosalice, Paula, Eliane Maria, dona Vera, tia do Sérgio. As minhas co-irmãs de Congregação: Sabina Fornazier levava até baralho para jogar comigo! M. das Vitórias, Cláudia, Gorette, Ivani, Anna Faria, M. Helena e outras pernoitaram comigo várias vezes. A todas essas pessoas, e àquelas de cujo nome não me lembro, eterna gratidão.

Tive um montão de visitas: Dra. Margarida, - médica pediatra do Felício Rocho, sobrinha de nossas Irmãs: Graça e José de Nazaré -, foi visitar-me várias vezes. Irmã M. Angélica de Sousa, um dia, foi ao hospital me visitar e levou um delicioso peixinho ensopado. Comi com gosto. Ela reagiu dizendo: “mais eu tivesse trazido, pois você comeu tudo”.  Sesnando, na sua cadeira de rodas, veio me visitar várias vezes. Padrinho Alberto, Sérgio, M. Alice e João vieram e me trouxeram até dona Celina, pastora evangélica, para rezar comigo. Ela disse: “Eu vi, na oração, que a senhora ainda vai voltar para o meio do povo!”

Afonso veio com Lia e Eni, e até deixou dinheiro com a Angelita, para compra de lanches para nós! Dr. Luiz Antônio Braga, meu sobrinho, veio duas vezes me ver.

Os médicos nefrologistas: Dr. Estevam, Dra. Sandra, Dr. Rafael, Dr. José Neto e Dr. Augusto Júnior foram presença constante, bem como a equipe ligada à questão respiratória, chefiada por Dr. Ângelo Pimenta. Todos eles deram o maior acompanhamento possível ao meu caso. Obrigada, muito obrigada. Dr. Valdivino, como sempre, quase todos os dias, ia ver-me. Levava livros para tentar “levantar meu astral”!

No dia 19 de abril de 2004, mamãe completou 99 anos! Que dor não poder passar com ela essa data; foi seu último aniversário aqui na terra. No dia seguinte, ela caiu na conta de que eu não estava na Missa que celebrou esse acontecimento. Virou uma “piorra” na casa: “Quedê a Enirda? Ela não estava na missa. Eu quero saber onde ela está!”.

Nessa exata hora, eu estava na sala de cirurgia trocando o aparelho da traqueotomia. Ao sair da sala, já conseguia falar alguma coisa, tampando a saída do aparelho. Chegando ao quarto, liguei para ela, que me perguntou: “Onde você está? Esqueceu que tem mãe?” Penso que foi uma das últimas vezes que falei com ela, tão lúcida!

Lá pelo dia 23 de abril, fui submetida a nova cirurgia de fístula. Até aqui fazia diálise no cateter. Avisei aos médicos vasculares das horríveis tentativas de fístula que sofri em São Paulo. Foi como eu não dissesse nada. Levaram-me para a sala cirúrgica e fizeram várias tentativas inúteis. O médico disse: “a senhora tinha razão. Não deu mesmo. Daqui a alguns dias nós faremos outra cirurgia”. Meu braço ficou inchado, todo costurado de preto, como “um frango preparado para assar”. Senti profunda revolta.

Dali a três dias vieram me apanhar para fazer nova cirurgia. Aí decidiram por uma prótese – ou seja, uma veia artificial. Na hora da cirurgia, o médico disse para a médica que o ajudava: “É prova de fogo. Acertar ou acertar”.

Acertou, Doutor. Obrigada. Já vai para três anos que levo seis agulhadas por semana nessa veiazinha implantada.

            Nesse ínterim, tive que trocar o cateter para continuar a dialisar, enquanto cicatrizava a cirurgia da prótese. Dr. Augusto Júnior entrou no meu quarto todo temeroso, imaginando que eu ia “soltar marimbondo pelas ventas” quando me falasse que iam me cortar de novo... Estendeu a mão com um belo pacote de presente. Quando abri, era uma Bíblia! E ele foi logo dizendo: “Irmã, eu sei que a senhora não quer ser cortada mais. Mas, vamos precisar colocar um novo cateter temporário, até a prótese poder funcionar”. Lembrei-me do ditado: “é bom adular a lagoa para se pegar o peixe...” Boa pedagogia, Dr. Augusto.

            Raion, meu sobrinho, veio me visitar no hospital. Era hora da diálise. Por milagre, o deixaram entrar e ficar comigo uma hora papeando. Aquele dia a diálise ficou curta... Que alívio!

 

NONA ESTAÇÃO

Saída do hospital

 

No dia 15 de maio, tive alta. Dessa vez, cheguei em casa trôpega e fragilizada ao máximo! Foi preciso alugar “bala de oxigênio” porque tinha fortes crises respiratórias.

Corina e Angelita ficaram comigo, na casa das irmãs, por duas ou três semanas. Cada uma por sua vez. As irmãs as acolheram e lhes deram o melhor espaço para me acompanharem!

Tive apoio total da comunidade, das atendentes da enfermaria e de toda minha família, e pessoas amigas, como dona Valda, sogra da Patrícia, que teve a gentileza de tomar táxi e trazer-me até uma travessa de macarrão, preparado com carinho para mim. Ternura especial recebi por parte do pessoal do Centro Bíblico e do Pe. Mané. Certamente, o amor de vocês foi pouco a pouco me erguendo!

Para “minorar” a tortura da volta à diálise, Maria Alice Lara e Patrícia Braga compraram colchõezinhos que eu carrego como se fossem barraca. Coloco-os na poltrona de napa com um lençol e assim passo as 4 horas entre leitura, sono e oração.

 

DÉCIMA ESTAÇÃO

As diálises e a vida na CLINENGE!

 

Por duas semanas, continuei fazendo diálise no Felício Rocho. Maria José Garcia e Vitória iam me levar e me buscar na diálise. Uma noite, quando eu saía cambaleando na porta, Vitória foi me sustentar e nós duas esborrachamos no chão! É de rir e de chorar.

Após 15 dias, a assistente social do Felício Rocho me ligou, dizendo que meu plano não me permitia continuar fazendo diálise lá!

Só Deus sabe a dor que senti no coração!

Mas, “há males que vêm para o bem”, diz o povão!

A própria assistente social me encaminhou para a CLINENGE (Clinica Nefrológica de Minas Gerais). Aí, fui acolhida e estou sendo acompanhada carinhosamente por Dr. Geraldo, Dr. Mário, Dr. Hamilton, Dra. Simone, Dr. Rafael, Dr. Luís Henrique e, agora, por Dra. Marisa – meus grandes amores, aos quais sou muitíssimo grata.

As/os enfermeiras/os: Pompéia, Cássio, Alessander, Carina, Luciana, Patrícia, Aninha, Dinalva e Michele e às chefes de Seção: Karina, Pollyanna e Sandrinha, presença muito querida no meu dia-a-dia, bem como todas e todos funcionários/as da casa, meu amor e carinho!

As assistentes Sociais Neila e Luciana, a Psicóloga Renata e a nutricionista Melissa têm me acompanhado com esmero! Providenciam, com carinho e eficiência, os mil encaminhamentos, para que eu possa fazer diálise em outros cantos, nas minhas contínuas viagens!

De vez enquanto levo frutas, doces, biscoitos, balas para as/os médicas/os, enfermeiras/os e funcionárias/os. Para as/os colegas de diálise, só posso levar balas e biscoitinhos porque é só isso que podemos comer, de guloseimas.

            Outro dia, levei vinho e biscoitos, de presente de Páscoa, para a equipe médica. Um médico veio me agradecer e me deixou emocionada. Ele disse: “Esse vinho e esses biscoitos recebidos da mão da senhora, irmã, significam para nós um gesto de Eucaristia”. Obrigada, doutor querido. Isso me estimula. Percebo que tenho uma nova missão: revelar o rosto alegre e misericordioso de Deus nesse meio sofrido dos doentes, muitos deles em estado doloroso. A diálise mantém a vida e a prolonga por uns tempos... Mas, a gente sai da diálise “bem petimbada”. Demora-se, mais ou menos, uma hora para juntarmos nossos pedacinhos.

            Madre Teresa de Calcutá disse: “Sinto que Jesus  confia muito em mim. Mas chego a ficar assustada por tanta confiança”. Tenho consciência de que sou um cano furado e cheio de lodo. Mas, mesmo assim, Deus faz passar a água de sua graça, de sua ternura, de sua bondade e misericórdia. Obrigada, Senhor. Quero ser como vaso de barro em suas mãos. Mas, não confie demais....

Outro dia, na hora do lanchinho que tomamos após a diálise, eu conversava com uma colega de luta pela vida: Dona Nágila. Dona Nágila é casada, mãe de três filhas, que já estão moças. Uma delas nasceu com doença especial. Hoje, com 24 anos, movimenta apenas os olhos. Dona Nágila se refere a ela como “a filha dos meus amores”. Dona Nágila me dizia:

Hoje vai ter Via-Sacra na minha rua. Na porta da minha casa, vamos celebrar a Segunda Estação. Jesus cai pela primeira vez. Isso mostra que Jesus caiu, mas se reergueu de novo e recomeçou sua missão e foi até o fim. Dando assim exemplo de força, de incentivo a recomeçar sempre... caminhar pela vida mesmo com tribulações, doenças, etc., até chegar ao fim de nossa missão”.

Com essa, vou começar minha Semana Santa de 2007 com novo vigor.

Coisas engraçadas acontecem no dia-a-dia da diálise. Vejam esta. Faço diálise no segundo andar. Certo dia, eu entrei no elevador. Lá estava a querida companheira dona Lucy. Dona Lucy é uma senhora idosa, gordinha, muito simpática, que anda de cadeira de rodas. Como costumo fazer, fui cumprimentando e cantando: “Tá na hora, tá na hora. Tá na hora da agulhada”. A senhora que conduzia a cadeira de dona Lucy logo retrucou: “mas não dói, não. Não é verdade?”. Respondi: “Imagine se não dói! Duas agulhas de 5 cm, de dar injeção em vaca?! Dona Lucy, levantando seu rostinho ensolarado, completou com firmeza: “Não desejo nem para meu marido!” Demos boas risadas e lá fomos para as agulhas!

 Já passei por sete clínicas, fazendo diálise. Sem desfazer de nenhuma, sem dúvida, a CLINENGE é como se fosse minha casa de tratamento. Meus e minhas colegas de luta pela vida, médicas/os, enfermeiras/os, funcionárias/os, todas e todos são minha terceira família.

Ir. M. José Garcia, irmã e amiga, generosamente me leva à diálise e me busca, quase todos os dias! A ela, eterna gratidão!

 

 

 

 

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO

O contato com a dor de tantas outras pessoas

 

Nos primeiros tempos de retorno à diálise, meu corpo estava indomável! Tudo o que eu comia, caía mal e ficava inchada que nem um barril! O pior de tudo, esses fatos me deixavam impressionada, e “a doença começa é na cabeça”, estou convicta disso.

Num fim de semana, fui para a casa da Corina, minha irmã. Chupei três mexericas e amanheci, no domingo, que nem uma pipa! Meu cunhado, Sesnando, me sugeriu ir ao hospital municipal para fazer uma diálise extra. Aceitei. Tomei o café-da-manhã e fomos. Fui muito bem atendida às 13 horas, por uma médica que me examinou. Em seguida, mandou fazer exames de sangue e constatou potássio altíssimo!

Levaram-me para a sala de emergência, numa maca fria, sem lençol! Lá na sala, havia uma multidão de doentes: mulheres, homens, crianças de todas as idades e situações. Às 15 horas, me deram um mísero pãozinho com meio copo de café com leite. E só. À meia-noite, chegou um médico, todo vestido de preto. Arrancou meus aparelhos com toda grossura e empurrou minha maca até a sala de diálise.

Lá, sem lavar as mãos e sem pôr luvas, me colocou as agulhas da diálise e disse: “Tive que sair de Belo Horizonte para vir atender a senhora, por causa de mexericas!” Ao que respondi: “Doutor,  é sua missão! O senhor se fez médico para isso!” Depois ele brincou: “Aqui também tem uma freirinha que faz diálise; é   chatinha, chatinha!” Reagi dizendo: “Não se assuste, doutor; é mal da categoria”. Uma e meia da madrugada me levaram de volta para a sala de emergência e me deram um cobertor. Dormi.

Às 7 da manhã, acordei com a entrada de uma senhora gordinha, na maca, sem um lençol! A dona gemia: “Ai! tem dó de mim!”; e repetia, repetia seus gemidos. Ela foi colocada ao meu lado. De repente, a senhora parou de gemer.  Uma enfermeira veio e, com toda grosseria, sacudiu a dona e gritou: “Fale, qual é seu nome?” “Levanta para eu colocar um lençol”. Nada. A dona já havia morrido dentro do hospital, sem um atendimento sequer!

Que lição para a nossa vida!

 

 

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO

Acompanhamento da equipe de transplante

 

A cada três ou quatro meses eu tenho procurado o setor de transplante do Felício Rocho. Dr. Estevam Viotti me atende, com plano ou sem plano.

Nos primeiros meses, após a saída do hospital, eu estava mal mesmo, mas com idéia fixa de transplante. Dr. Estevam pacientemente me atendia. Fui colocada na lista do MG Transplante. Meu número de inscrição: 14.958.

Na primeira entrevista, Dr. Estevam mostrou-me, com desenhinhos, que uma casa pode ser de palitos ou de pedras, mas deve estar firme. Indicou-me os primeiros exames que deveria fazer no momento em que eu me sentisse firme.

Quando me senti melhor, fiz os exames indicados e fui levar o resultado ao  Dr. Estevam, que analisou tudo e me disse: “Num segundo transplante, a senhora tem 40% de risco de morte.” Eu retruquei: “Aposto nos 60% de possibilidade de vida.”

Mandou-me procurar o Dr. Ângelo Pimenta, estudioso da área do pulmão, e que havia me acompanhado, com sua equipe, na UTI do Felício Rocho.  Dr. Ângelo me pediu uma série de exames. Quando levei os resultados e pedi seu parecer para um segundo transplante, ele me olhou penalizado e disse: “A senhora quer mesmo transplantar?”

 Quero!”

 A senhora lembra da sua situação na UTI?”

 Lembro!”

 E mesmo assim, ainda quer transplantar?”

Quero!”

 Se fosse minha mãe, eu não deixava!”, retrucou.

 É Doutor, quatro horas por dia, três vezes por semana na diálise, sentada sem me mexer, vendo meu sangue correndo que nem lagartixa; não dá para continuar a encarar não”, disse eu.

Dr. Ângelo fez o atestado; olhava para mim, escrevia e tornava a olhar; escrevia mais um pouco; era quase um atestado de óbito. Finalmente, disse-me: “Está autorizada a fazer um segundo transplante. Cirurgia de alto risco, mas a paciente está consciente.”

Quase três anos se passaram. Tive vários encontros com Dr. Ângelo. Ele constata que minha saúde e minha resistência se refizeram milagrosamente! Certamente agora ele me dará outro atestado com positividade! Deus é mais!

De quatro em quatro meses, os médicos da hemodiálise me dão pedido de exame da doença Goodpasture e do pulmão. Os exames da Goodpasture são feitos no laboratório Hermes Pardini. E, graças a Deus, estão 20 pontos abaixo do nível de referência! Deus é Deus.

Nos exames do pulmão tenho sido acompanhada, nestes três anos, pela querida Dra. Virgínia Pacheco, médica do Hospital Madre Teresa, que me acolhe sempre com o maior carinho e interesse. A ela minha eterna gratidão!

 

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO

Minha amada comunidade do Bom Pastor da Nova Suíça

 

Uma palavra de gratidão às minhas co-irmãs: Agnus Dei Dourado, Angélica de Souza, Anna Faria, Anunciação Mourão do Amaral, esta, com seus 77 anos, a cabeça meio confusa, cada vez que me encontrava repetia: “Você é muito preciosa! Precisa sarar. Vou fazer uma novena.” Obrigada, Anunciata; você é muito terna.

Participavam também da comunidade, nessa época: Celeste Ciebert, Ester Abib, Maria Helena de Faria, M. do Amparo Fernandes, M. José Garcia, M. das Vitórias F. Silva, Rosa Virgínia Conceição, Vanda Cordeiro[3]: vocês me mantêm em pé! Vocês me dão alegria de viver! É tão bom voltar para casa e encontrar cada pessoa me acolhendo, me estimulando, me ajudando a ficar em pé – a Ressuscitar!.

Vocês me fizeram redescobrir a vida, voltando a escrever, começando pela história de nossas irmãs falecidas, e a história de minha mãe. Mas, sobretudo, me dando chance de estudar a Bíblia com vocês, semanalmente, com todo entusiasmo!

A partir daí, comecei a dar aula na Paróquia São Vicente Paulo, na Cidade Ozanã – Bairro Ipiranga, trabalho arrumado por nosso então capelão, Pe. Alessander. Já faz um ano e meio que trabalho lá. A seguir, Pe. Mané conseguiu vaga para mim, como professora de História de Israel e Profetismo, na Faculdade do Instituto Teológico Santo Tomás de Aquino (ISTA). Fui convidada ainda, pelo Frei Jacir, para dar aula no Instituto Teológico de leigos dos Franciscanos (OFM), em Belo Horizonte e em Divinópolis.

Pe. Mané e Irmão Murad (Marista) colocaram-me em contato com a querida Irmã Luiza, da Congregação das Irmãs Verbum Dei. Essa me chamou para trabalhar com ela na Favela Ventosa, dando aula de Bíblia, mensalmente (na casa das Irmãs do Bom Pastor) e ajudando nas celebrações eucarísticas no salão comunitário da dita favela. Como o povo canta: “Tudo é graça, tudo é bênção.”

Continuo trabalhando, à distância, com o Centro Bíblico Verbo. Escrevo, assessoro cursos, retiros, colaboro na elaboração de vídeos, leitura e apreciação de textos.

Ir. M. José Garcia não cansa de repetir: “Enilda, não rejeite nenhum convite, enquanto você der conta! E mais, ainda: adquira os instrumentos atuais que facilitem e dinamizem seu trabalho!” Obrigada Zezé, pelo estímulo e apoio de irmã e amiga. TUDO ISSO É VIDA PARA MIM! MUITA VIDA!

Experimento, no dia-a-dia, o salmo 133: “É bom, muito bom viver como irmãs! ... É tão bom ou melhor do que o óleo sobre a face, ou o orvalho do Monte Hermon, atraindo chuva. É bênção de Javé, que dura para sempre!”

 
DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO

De volta ao Hospital Beneficência Portuguesa

 

Na Semana Santa de abril de 2006, fui a São Paulo para uma reunião da Congregação. Naquele encontro, eu estava com uma tosse irritante. A viagem de avião acelerou a tosse. Fiquei mal. O Dr. Cássio, da Clínica Nefrológica Santa Rita, me encaminhou com urgência para o Hospital Felício Rocho, onde fiquei internada mais uma vez, por 17 dias.

Fizeram-me companhia a eterna amiga e companheira, Comadre Silvana, minhas amadas irmãs e amigas de Vida Religiosa: Constança, Conceição, Analuci, de Costa Rica. Como sempre, além das acompanhantes, tive muitas visitas. Quanta manifestação da bondade e misericórdia de Deus. Graças e louvores infinitos!

Clinicamente, fui acompanhada com eficiência por Dr. Pedro Genta e sua equipe. Exames diários. Entre eles, uma nova biópsia do pulmão. Não sei o milagre que fizeram; sei que parei de tossir, e até hoje estou bem. Firme que nem prego na gelatina!

Como sempre, recebi inúmeras visitas e telefonemas, lembrancinhas e outras coisas. Pe. José Maria Frutuoso Braga, professor e amigo de tantos anos, me acompanha com cartas e telefonemas, passo a passo. Ir. Silvana da Silva, da Providência de Gap, irmã-amiga de tantos anos, sempre me manda um bilhetinho, telefona, etc. Obrigada a todos e todas!

Ir. Eliene Oliveira, Bom Pastor, havia me deixado duas imagens de barro de mulheres peruanas, lendo um livro. As imagens ficaram na minha mesinha de hospital; agora, elas estão na minha mesa de trabalho como símbolo de mulheres que fazem da Bíblia o eixo de sua vida, força de ressurreição. Tudo isso é reforço, são muletas que ajudam muito no caminhar.

Na verdade, doença renal não tem cura. O transplante é um outro tipo de tratamento que “amarra um pouco menos a pessoa”. Mas, é tratamento e tratamento doloroso. Os remédios que seguraram o enxerto são violentos ao organismo. Dão diarréia, afta e outros efeitos colaterais muito fortes. No meu caso, tomo continuamente dose de cortisona, por causa da “Goodpasture”. Cortisona detona os nervos e outros órgãos e causa muitos outros efeitos colaterais. Mas Deus é mais! A vida é bela, embora, frágil!

Mas, quero lutar por essa vida “um pouco mais livre” – sem as 15 horas semanais na máquina! Mesmo que seja por pouco tempo!

Enquanto isso, muitas buscas e tentativas são realizadas para melhorar a minha saúde. A nossa amiga japonesa, Toshiko, conseguiu uma oração com o Monge Hayachida, no Japão. Desde três de julho de 2006, estou rezando as orações e, sem dúvida, tive uma grande melhora; minha pressão, meu peso, aparelho respiratório tiveram certa estabilidade. E, conseqüentemente, minha situação geral melhorou.

Outro dia, Toshiko me telefonou e disse: “Irmã, é impressionante como todo mundo tem um dedinho de interesse na saúde da senhora. Só pode ser vindo de Deus”. Obrigada por tudo, Chica, querida e solidária!

Não posso deixar de mencionar o acompanhamento carinhoso de minha amiga e “comadre” Teolide Parizotto Turcatel, especialista em florais. Continuamente ela está me indicando florais apropriados à minha situação. “Comadre”, eu lhe sou eternamente grata, por tanta atenção e carinho.

 

 

DÉCIMA QUINTA ESTAÇÃO

Início de um novo processo de transplante

 

 Oferta generosa de Ir. Conceição Vasconcelos, religiosa do Bom Pastor, Ceiça, minha irmã, amiga e companheira, generosamente, mais uma vez, numa atitude do Servo Sofredor do Profeta Isaías, se fez solidária com minha luta pela vida. Assim, no início de janeiro deste ano de 2007, ofereceu-me um de seus rins. Aceitei sua oferta.

Entramos em contado com as responsáveis pela congregação, com nossas comunidades, e comunicamos aos médicos que me acompanham. Estes vibraram de alegria e se dispuseram a nos acompanhar de maneira rápida. Até nos deram susto! Dr. Estevam Viotti me disse: “Dentro de três meses nós faremos seu transplante. Traga a moça para conversar conosco!”

Meus primeiros exames já estão marcados para o dia 12 de abril, próximo. Mas, sei por experiência que isso é um longo processo. Minha animação e alegria produziram um efeito extraordinário; pela primeira vez, meus exames de rotina, na diálise, não deram um problema sequer!

Eis a carta à coordenadora geral da Congregação, cuja cópia foi enviada à assistente geral, à coordenadora provincial – Belo Horizonte, e às comunidades diretamente envolvidas na história do transplante: Aclimação, ambiente da Ceiça, e Instituto Bom Pastor de B. Horizonte, ambiente da Enilda. Coloco aqui também a resposta da coordenadora geral da Congregação, Ir. Brigid.

 

 

São Paulo, 30 de janeiro de 2007.

Cara irmã Brigid,

Como a senhora sabe, nossa irmã Enilda de Paula Pedro perdeu seus rins em novembro de 2002. Sua sobrinha lhe doou um rim e em outubro de 2003 foi transplantada. Quatro meses depois perdeu o enxerto porque é portadora de uma doença chamada “Síndrome de Goodpasture”, doença essa que só foi descoberta quando atingiu seu pulmão.

Assim sendo, Enilda voltou para a terrível hemodiálise.

Nesta época, eu pensava que tínhamos consangüinidade, por isso estava pensando em doar-lhe um rim. Mas naquele momento o corpo dela não agüentava um novo transplante..

O tempo passou .... eu fui para a segunda missão na África,  em Moçambique.  Hoje a doença de Enilda está sob controle e ela está bem, dentro dos padrões de uma doença renal crônica.

Até o ano passado eu estava indecisa a respeito de oferecer-lhe um novo rim... e somente agora decidi; depois de muita oração senti o apelo de Deus:  "Não existe amor maior do que dar a vida pelos irmãos". Em consciência decidi responder a este forte chamado e doar à Enilda um rim.

Como membro da Congregação, estou apresentando a você minha decisão e lhe informando sobre todo o processo pelo qual vamos seguir.

O cirurgião marcará uma entrevista pessoal para avaliar minha decisão e minhas condições. Ele vai me explicar, em detalhes, o que significa doar um rim e eu farei uma série de exames. Além disso, uma psicóloga da equipe responsável pelo transplante fará uma série de testes e várias entrevistas.

Portanto, este será um longo e bem explicado processo em todos os aspectos.

Eu conto com seu fraternal suporte.

Abraço fraterno,

Conceição.

                  

Resposta da Coordenadora Geral da Congregação à Ir. Conceição:

 

Dear Sister Conceição,

 

Greetings and blessings from Rome!

 

Thank you very much for your letter of January 30, 2007 in which you shared the situation of Sister. Enilda de Paula Pedro and your concern for her.

Now you have decided to donate a kidney to her for a transplant.  You are saying that this will involve a long discernment process with interviews, tests and examinations by the surgeon and also a psychologist.

I want to assure you of my prayers in this process of discerning  and hope that the decision at the end will be for the best of yourself  and also Sr. Enilda.

Lovingly in the Good Shepherd,

Brigid

 

Querida Conceição:

Saudações e bênçãos de Roma!

Muito obrigada pela sua carta de 30 de janeiro de 2007 na qual você partilha a situação de Enilda de Paula Pedro e sua preocupação com ela.

Agora você decidiu doar a ela um rim para transplante. Você esta dizendo que isto envolve um longo processo de discernimento com entrevistas, testes e exames realizados pelo cirurgião e também por uma psicóloga.

Pode contar com minhas preces nesse processo de discernimento e espero que a decisão final seja o melhor para você e também para a Enilda.

Afetuosamente em nosso Bom Pastor,

Brigid

 

Obrigada Brigid, por seu apoio solidário! Que Deus a abençoe, bem como seu generoso e eficiente serviço à Congregação!

 

Concluindo...

 

Por que estou escrevendo tudo isso?

Porque minha experiência de luta pela vida, marcada pela presença amorosa de Deus, da sua Palavra na Bíblia e na vida, bem como a presença solidária e fraterna de minha família de sangue, de minha família religiosa, das pessoas amigas e do povo com o qual trabalhei e trabalho, pode fazer bem aos outros.

Quero também, aqui, ser um apelo às pessoas, para que doem seus órgãos e continuem vivas naquelas e naqueles que estão lutando pela vida. A vida é curta, mas é bela e não tem fronteiras!

 

Para finalizar, uma historinha. Entre as muitas “parábolas da águia”, uma pode ser aplicada especialmente à minha vida. Ela é mais ou menos assim:

 

Uma águia empurrou gentilmente seus filhotes para a beirada do ninho. Seu coração se acelerou com emoções conflitantes, ao mesmo tempo em que sentiu a resistência dos filhotes a seus insistentes cutucões.

Por que a emoção de voar tem que começar com o medo de cair?, pensou ela.

O ninho estava colocado bem no alto de um pico rochoso. Abaixo, somente o abismo e o ar para sustentar as asas dos filhotes.

E, se justamente agora, isto não funcionar?, ela pensou. Apesar do medo, a águia sabia que aquele era o momento.

Sua missão estava prestes a se completar, restava ainda uma tarefa final: o empurrão.

A águia encheu-se de coragem. Enquanto os filhotes não descobrirem suas asas não haverá propósito para a sua vida. Enquanto eles não aprenderem a voar não compreenderão o privilégio que é nascer águia. O empurrão era o melhor presente que ela podia oferecer-lhes. Era seu supremo ato de amor. Então, um a um, ela os precipitou para o abismo.

E eles voaram!

Às vezes, nas nossas vidas, as circunstâncias fazem o papel de águia.

São elas que nos empurram para o abismo.

E quem sabe não são elas, as próprias circunstâncias, que nos fazem descobrir que temos asas para voar![4]”.

Pois bem. A doença foi a mãe-águia na minha vida. A duras penas, estou descobrindo que tenho frágeis asinhas que me permitem pequenos vôos e que meu lugar é “nos céus”, profundamente sintonizada e comprometida com as irmãs e os irmãos, na luta pela Vida.

Vivo um momento de profunda paixão por Deus, pelo povo sofrido e pela Palavra escrita na Bíblia e na vida. Dentro dos meus limites, mas contando com a graça de Deus, a proteção de Maria e a ajuda fraterna de minhas irmãs e irmãos, quero concretizar esse amor em coisas miudinhas do dia-a-dia, esforçando-me por ser atenta e carinhosa:

com as minhas irmãs e as pessoas que passam pela nossa casa;

o       com o povão da “hemodiálise; muitos deles pobres entre os pobres, com os quais passo 15 horas por semana”;

o       com minhas alunas e alunos de Bíblia;

o       com as pessoas que me procuram;

·        cuidando de me manter sintonizada com os MCS para manifestar solidariedade com aqueles e aquelas que sofrem na luta por vida e justiça;

·        usando o dom de Deus de me comunicar pela fala e pela escrita, quero anunciar “a tempo e contratempo”, o Reino, a Boa Notícia: “Deus ama você, e quer que você tenha Vida” – “Cada pessoa é única para Deus e ele lhe dá o nome de amiga/o”.

         (Constituições das Irmãs do B. Pastor)

·        rezando, lendo, estudando, debulhando a Palavra de Deus escrita na Bíblia e na Vida. Buscando fazer dela o ar que respiro, em vista de uma meta inalcançável, mas que vou continuar buscando: que a Palavra penetre de tal forma meu ser, que já não seja eu que viva, mas que a Palavra viva em mim! 

 

Tudo isso enquanto aguardo na alegria, na fé, na esperança e no amor, a vinda definitiva do Senhor! Vem Senhor, Jesus, Maranatá.

 

Parafraseando Jo 20,27-30, quero dizer: “Muitos sinais e prodígios Deus tem feito em minha vida. Escrever tudo não caberia neste livreto. Estes foram escritos para proclamar a fé e a alegria na multiforme presença de Deus no caminho de nossas vidas, ajudando-nos a assumir a nossa própria história - a Ressuscitar!”Amém. [5]

Apêndice: Outro momento da minha história... uma homenagem....

 

Hoje, 24 de agosto de 2008... mais de um ano que terminei meu relato... Muita água já correu no rio da vida...

 

Ceiça – a irmã que ia me doar um rim -, apareceu com câncer no nariz... Submeteu-se à varias sessões de quimioterapia... Graças a Deus está bem, mas não pôde concretizar fisicamente seu gesto generoso... chorou amargamente!

 

Não importa, minha irmã-amiga-companheira. Você me doou vida, energia, alegria no Caminho. Isso não tem preço!  Vivo uma nova etapa da missão. A doença também é um espaço de anúncio da VIDA, da Boa Nova de Jesus.

 

Continuo lutando por um novo transplante. Estou inscrita no MG TRANSPLANTE, com o número 14.958. Na verdade, a fila tem outros critérios, além do número. Tudo bem. Participo de todas as campanhas por doação de órgãos. Se não chegar a minha vez, não tem problema. Luto pelo conjunto.

 

Enquanto isso, cultivo minhas três paixões: por Deus, pelos pobres e pela Palavra. Participo de cursos e assessoro outros tantos.

 

Estou organizando uma equipe de leigas/os para ajudar as comunidades populares na leitura da Bíblia. Menciono com alegria e entusiasmo o grupo que está estudando e me ajudando nas assessorias:

Enilde, Etelvina, Genilda, Ieda, Ir. Luiza, Karla, Lena; Lindomar, M. das Graças.

Quem quiser se juntar a nós, VENHA! Veja nosso telefone e endereço no final do texto.

 

Nesta edição do meu livro, quero fazer uma homenagem póstuma ao meu médico querido: Dr. Geraldo Darcy, Diretor Clínico da CLINENGE.

Vivo nesse momento o impacto de sua morte, ocorrida dia 21 de agosto, p.p.

Dr. Geraldo, todos os dias, nos visitava na cadeira de hemodiálise. Não tinha pressa. Conversava. Brincava. Ria de “nossos causos”. Examinava-nos a cada sinal especial: tosse, febre, inchaço. Medicava-nos imediatamente. Aceitava com alegria uma balinha de café, balançando-a dizia: “vejam, a irmãzinha adoçando a boca do médico” ... e concluía sempre: “é a bala que mais gosto”.

Dr. Geraldo não gostava de falar sobre a morte. No último papo que tive com ele, eu disse: “Dr. Geraldo, vivo tão feliz que estou experimentando o céu na terra. Para mim, tanto faz morrer hoje, como daqui um ano, como amanhã. Não importa o tempo. Minha eternidade já começou...”

Ele foi saindo ligeiro e falando ao mesmo tempo: “Irmãzinha, não vamos falar em morte. Estamos vivos. É isso que importa!”

 

É mesmo, Dr. Geraldo, meu irmão-amigo. O senhor se foi ligeiro... inesperadamente... arrumando-se para vir para a hemodiálise nos acompanhar... Pois bem. O senhor não se foi. O senhor está ressuscitado dentro de cada um/a de nós que o conhecemos... Que experimentamos a ternura dos seus serviços profissionais... Que tivemos a dita de constatar sua humanidade, sua atenção conosco e com nossos familiares... nós que tivemos a oportunidade de observar sua maneira respeitosa, educada com os funcionários/as, enfermeiros/as e colegas médicos/as.

Obrigada, Dr. Geraldo! Nós o amamos! Que Deus Pai-Mãe o acolha com a mesma ternura no grande Encontro ao qual ninguém vai faltar!

 

E, por último, um apelo a cada leitora, cada leitor: apesar das lutas diárias, “canta a esperança e caminha”.

 

Enilda de Paula Pedro,rbp

R. Lindolfo de Azevedo, 380

Nova Suíça - Belo Horizonte - MG

CEP: 30460-050

Tel: (31) 3332 1600/8778 5411

Fax: (31) 3313 3920

E-mail:eppedro@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Neste livrete; abro meu coração como se abre uma gaiola para deixar voar um pássaro cantante que quer fazer ecoar um hino:

- de louvor a Deus e agradecimento a centenas de pessoas que se fazem presentes na minha história, ajudando-me a ficar em pé;

- ao mesmo tempo, cantar a força da solidariedade;

- e fazer um apelo à doação de órgãos para transplante, seja lá para quem for;

- nesse hino, insistir que doença não é castigo de Deus, mas fruto da vulnerabilidade e fragilidade do corpo humano e das decisões que tomamos no nosso dia-a-dia. Mais ainda: toda doença começa “na cabeça”, ou seja, com a maneira com a qual assumimos nossa corporeidade, nossa convivência com o cosmos, nossa história!

 

 

            A CAPA deste livrete traz a representação do ser humano nas mãos da divindade. Estas mãos estão coloridas com as cores do arco-íris, símbolo da Aliança com Deus. Esse cartão foi presente de um aluno do curso de Bíblia, Centro Bíblico Verbo, setembro de 1996. O cartão não traz  assinatura, nem origem.

 

 

 

3ª. Edição/redação revista e ampliada

Belo Horizonte

Maio de 2007

 

 

 

Novembro de 2003

Logo após o transplante

 

Enilda de Paula Pedro, Religiosa do Bom Pastor, nasceu aos 27 de novembro de 1948, no interior da Vila Alto Maranhão, município de Congonhas, Minas Gerais, Brasil.

É a nona filha do casal Luiz de Paula Pedro e Alice Cândida Lobo. Seus irmãos são: Alberto de Paula Pedro, Ivone de Paula Avelar, Maria de Paula Almeida, Celeste de Paula Braga, Edmundo de Paula Pedro, Angelita de Paula Braga, Corina de Paula Brito e Alda de Paula Carvalho.

Enilda fez seu noviciado em São Paulo, em 1966. Pronunciou os votos Perpétuos aos 10 de fevereiro de 1974.

Trabalhos pastorais: trabalhou com jovens adolescentes com problemas de conduta. Participou, durante três anos, no trabalho dentro da Penitenciária Feminina do Carandiru. Colaborou na pastoral vocacional e no acompanhamento a jovens vocacionadas.

Viveu, durante 20 anos, nas Comunidades Eclesiais de Base na Região São Miguel, cujo Bispo  era D. Angélico S. Bernardino.

Cursou Filosofia, Teologia e Mestrado em Bíblia na Faculdade N. Sra. da Assunção, São Paulo..

Há mais de 30 anos assessora retiros, cursos e leciona História de Israel e Profetismo e outras matérias de Bíblia, em diversas Faculdades, Institutos Teológicos, Paróquias, Comunidades e para a Vida Religiosa em geral, através da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). É associada à ABIB - Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica.  Faz parte da equipe do Centro Bíblico Verbo – CBV, SP e da Equipe de Reflexão Bíblica da CRB/BH. É professora de História de Israel, no Instituto Teológico Santo Tomás de Aquino, ISTA, em Belo Horizonte.

 

É co-autora de vários livros. Entre eles:

- Como ler O Primeiro Isaías; (capítulos 1-39) Como ler o Segundo Isaías (capítulos 40-45); Como ler o Terceiro Isaías (capítulos 56-66). Ed. Paulus.

- Como ler Oséias. Ed. Paulus.

- Como ler Malaquias. Ed. Paulus.

- Ele está no meio de nós – O Semeador do Reino. Uma chave para ler Mateus.  CNBB. Ed. Paulinas, Loyola, Vozes. A Bíblia na Formação: Tua Palavra é Vida. CRB. e Loyola.



[1] Lembro-me de alguns fatos... de alguns nomes e pouquíssimos sobrenomes. Muitas pessoas me acompanharam nessa “história” e eu não me lembro, já que grande parte do tempo eu estava inconsciente..., inchada, desfigurada. Tanto que muita gente não esperava que eu, de fato, voltasse a viver... Estou vivendo dos juros...Obrigada, Deus! A todas as pessoas, meu agradecimento, especialmente àquelas que não pude agradecer nem com o olhar – um dos mais sagrados meios de comunicação! Vocês todas estão gravadas no meu coração.

[2] A estrutura em forma de Via-Sacra foi sugerida e organizada pelo Prof. Psicólogo Laurindo Trombeta, um grande amigo de muitos anos de caminhada. Obrigada, meu irmão amado.

[3] Hoje a comunidade já está constituída de outros membros...Anna Faria, Vitória já foram transferidas, bem como Ester. Vieram morar conosco Lourdes Trentin, as Irmãs Graça Diniz Peixoto e M. José de Nazaré Diniz Peixoto.

[4] Livro e autor desconhecido por mim, neste momento.

 

[5] Agradeço a todas as pessoas que corrigiram e deram sua contribuição neste texto: Valmor da Silva, Gilberto, Ester Abib, Gláucia Maria de Carvalho, Sérgio Pereira, Laurindo Trombeta, Karla Barbosa, Cida Queiroz, Marcus Alexandre.