(Artigo
publicado no livro Criação de um outro mundo – Gênesis 1-11, Rogério
I. de Almeida Cunha (org.), CEBI, São Leopoldo, 2007, pp. 7-32.)
1) Ponto de partida: O paraíso está
gravemente ferido
Uma leitura comunitária, transformadora e libertadora dos
primeiros três capítulos do livro de Gênesis pressupõe levar no coração e na
mente a realidade atual: algumas bombas atômicas explodidas e muitas prontas
para seguir o mesmo destino, sementes transgênicas, monoculturas do eucalipto e
outras, mineração depredadora, condomínios luxuosos que se apropriam de áreas
de proteção ambiental e favelização. Esgoto sem tratamento sendo jogado nos
rios, modelo de desenvolvimento capitalista que, como uma máquina de moer capim,
chupa tudo para dentro de si
e transforma em mercadoria.
O nosso Planeta está em perigo de morte. O uso da energia
nuclear no cotidiano, sem que tenhamos solução para o lixo e seus efeitos
secundários. A utilização abusiva de produtos químicos que levam ao
envenenamento dos solos e das águas. O excesso de gás carbônico decorrente das
indústrias e a destruição das florestas tropicais comprometem inexoravelmente a
saúde da estratosfera e reduzem a fotossíntese, que fabrica o oxigênio
essencial à nossa vida. A própria existência do ser humano está em perigo.
Tudo isso está agredindo covardemente o paraíso terrestre
criado por Deus na beleza da evolução. A humanidade vive em alto risco. A vida
na terra está ameaçada. Em 1945 aconteceu o maior ato de terrorismo de estado:
as bombas atômicas jogadas sobre as cidades japonesas de Hyroshima
e Nagasaki.
A ONG WWF, divulgou, em 2006, relatório anual sobre as condições de vida e capacidade dos recursos naturais do Planeta Terra. As informações reveladas são alarmantes: “os seres humanos já usam recursos naturais a uma taxa 25% maior do que a capacidade do planeta de regenerá-los.” Se não houver uma mudança de modelo de desenvolvimento e de comportamentos, em 2050 “a Humanidade precisará de dois planetas Terra para prover suas necessidades.” Demonstra também que entre 1970 e 2003, o planeta perdeu 30% de sua diversidade biológica, “o que indica que as extinções estão se acelerando.”[1]
O relatório do “Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas” (IPCC) [2] de 02 de Fevereiro de 2007 é de alerta máximo!.O gelo está derretendo, no pólo Norte e no pólo Sul. A água vai ficar mais salgada, as chuvas vão aumentar, o nível dos mares está subindo. As ondas e os ventos vão mudar em freqüência e força. Haverá tempestades muito fortes, furacões, mais calor. Isto acontece porque a produção industrial depende de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão ou gás mineral, unida ao desmatamento em grande escala. A “Revolução Industrial” está destruindo o mundo e a própria humanidade.
“Nós perdemos a comunhão com o planeta”, afirma o fotógrafo
mineiro Sebastião Salgado, ao apresentar o projeto “Gênesis”, exposição de 40
fotos inéditas: “Meu objetivo é encontrar e revelar um mundo onde a natureza e
os animais vivem em equilíbrio ecológico. É absurda esta noção moderna de que
humanidade e natureza estão, de alguma maneira,
separadas. Nosso relacionamento com a natureza e com nós mesmos está em crise”,
afirma o fotógrafo. “O projeto “Gênesis” é uma tentativa de reconectar nossa
espécie com nosso planeta. Estou me dedicando a este mundo de pureza com o
objetivo de registrar as faces imaculadas da natureza e da humanidade”, almeja
o otimista e utópico Salgado.[3]
Diz a sabedoria popular que na frente estão
as matas, depois o ser humano passa e deixa um deserto. Dentro de vinte
anos a água potável poderá faltar para 40% da humanidade. As multinacionais já
estão de olho gordo no “petróleo azul”. Em alguns lugares do planeta a água já
é controlada com poder das armas. A vida na Terra está ameaçada, a nossa única
casa comum está ficando sem
esse combustível sagrado: a água.
Os Sem Terra da Via Campesina - entidade internacional que
congrega Movimentos que lutam pela Reforma Agrária integral em 74 países -
bradam: “Não aceitamos sementes transgênicas. As sementes são
(e devem continuar sendo) um patrimônio da humanidade.” Este grito ecoou
forte em quase todas a atividades do 3o Fórum Social Mundial,
Semente transgênica é fruto do cruzamento de espécies
diferentes para gerar um novo ser. Por exemplo, amendoim com camarão resulta em
um amendoim com gosto de camarão. As sementes transgênicas assassinam a
biodiversidade, oferecem grandes riscos à saúde e são monopólios das
multinacionais. A multinacional Monsanto é proprietária de 70% das sementes
transgênicas no mundo e 30% da Monsanto está no
Triângulo Mineiro,
Ao lado das grandes riquezas que são produzidas, a
degradação ambiental cresce em uma progressão geométrica. Vivemos numa
sociedade abortiva e cada vez mais violenta e cínica. O Grande desafio será
garantir de fato o direito à reprodução, à gestação, ao nascimento e a
manutenção de uma vida digna e feliz com justiça social, educação e
promoção da cidadania.
A
humanidade vive uma das maiores encruzilhadas da história humana. Das duas uma:
ou nos salvamos todos ou pereceremos todos. Desta vez não haverá uma arca de
Noé para salvar um casal de cada espécie. "Ou o ser humano se torna o anjo protetor da Mãe Terra e da Irmã
Água ou ele será o anjo exterminador
da nossa única casa comum, o planeta Terra". Ou recriamos a vida com
relações e estruturas de fraternidade ou vai acontecer a extinção da raça
humana com uma infinidade de outras espécies. [4]
Leonardo Boff, de modo muito incisivo e profético, vem
alertando para a necessidade de se articular, de forma integrada, as lutas
sociais e ecológicas. Nosso modo de produção capitalista, o mais insustentável
de todos, está assassinando a Terra, nossa única casa comum, que é viva,
sagrada e nossa mãe. É hora de colocarmos
A CARTA DA TERRA, que é a Bíblia do planeta Terra, nos
mostra que a Terra é viva. Devemos partir das revoluções moleculares, começando
a partir de nós mesmos. Queremos paz perene com compromisso, mas não
pacificação. Diálogo consigo mesmo, com o outro, com
os antepassados, com o futuro, é o que descortina novos horizontes. Isso
implica superar a idéia de que o ser humano foi colocado na terra para dominar
e subjugar toda a criação.
Os astronautas, ao contemplar a Terra de fora dela,
exclamaram: “É pequena. Cabe na palma da
nossa mão. Olhando de cima, não há distinção entre humanidade e Terra. É uma
coisa só.” Essa visão está em consonância com o relato da criação que diz
que o ser humano foi criado do barro. O nome Adão vem de Adamah (= terra fecunda). Somos
terra fértil, húmus. O nome Adão quer dizer “filho da terra fértil”. Há uma
grande unidade
2) Resgatando a Teologia da Criação
Para captar as luzes e forças de Gen 1- 3 é preciso também
deixar nossa luz poética brilhar.
Contemple a beleza
de um pavão e a do Arco-íris!
Contemple a força
de um touro e a de um sertanejo!
Contemple a coragem
de um leão e a dos Sem Terra!
Contemple a ternura
de uma criança e a de uma flor!
Contemple a esperança
de um mandacaru e a do povo simples!
Contemple a solidariedade
das formigas ao desfolhar uma laranjeira!
Contemple a perseverança
de um João de Barro que constrói a casa de “grão em grão”!
Saboreie a delícia
de um doce de leite!
Deleite-se com um abraço cheio de fraternura!
Deixe seus olhos admirar as coisas mais belas e genuínas!
Feche os olhos para ver o
que realmente é essencial: o invisível!
Reler o livro de Gênesis, capítulos de
Os relatos da Criação, no livro de Gênesis, estão em uma
linguagem simbólica. Podem ser considerados contra-mitos, isto é, mitos usados
para “explicar” as origens e responder a mitos mistificantes dos povos
vizinhos. Mito não é algo que não existe. Trata-se de uma tentativa de explicar
o difícil de ser explicado. Por isso usa uma linguagem simbólica.
Há tribos indígenas que contam o seguinte mito para
explicar o nascimento da lavoura na roça: O pai ia pescar. Ao voltar, a filha
sempre perguntava: “O que pescou, papai?” O pai respondia assobiando. A filha
disse à mãe: “Cave a terra e me enterre até o pescoço.” Após sete dias, o pai,
estranhando o fato de a filha ter sido semi-enterrada, voltou no local e,
surpreso, constatou que a menina semi-enterrada tinha se transformado em uma
roça de todos os tipos de cereais, verduras e frutas. Assim nasceu a roça,
revelando a ligação umbilical entre a terra e a mulher.
Uma índia, ao arrancar a mandioca, conversa com a planta,
um ser vivo. Não há separação entre nós e o “meio ambiente”. A comunidade de
vida, composta por humanos e não humanos, forma um ambiente inteiro.
O final do primeiro relato da criação (Gen 1,1-2,4a), diz:
“no sétimo dia Deus descansou.” Esse repouso sabático é o símbolo da libertação
interior e deve ser vista de forma articulada com a narrativa bíblica do livro
do Êxodo que retrata a luta pela libertação exterior. Lutar e descansar e
vice-versa, eis os dois pólos da libertação integral que está em curso:
libertar-se das opressões externas e superar os limites internos.
“Paraíso terrestre é saudade ou esperança?”, pergunta
Carlos Mesters. Mais do que algo do passado, trata-se de algo que existe no
presente, de forma ambígua e em meio a conflitos, mas é primordialmente algo do
futuro. Com lutas de transformações construímos esta esperança. Deus é apaixonado
pela humanidade e por todas as criaturas terrestres. Por isso veio morar
conosco. Deus não é transcendente, mas trans-descendente Ou seja, Deus não está lá longe, no alto para
além das nuvens, mas Deus habita em nós, nas relações humanas e ecológicas. O
divino está no humano. A transcendência está na imanência. Javé ouve o clamor e
desce para libertar (cf. Êxodo 3,7-10). Através da humanidade e de todas as
criaturas, Deus cria “novo céu, nova
terra” (Isaías 65,17-25). Deus
assume a condição humana, nascido de mulher, humano que se tornou divino, pois
foi muito humano (Gal 4,5). No final da Bíblia, a transdescendencência de Deus
continua sendo afirmada: “Deus desce dos
céus, arma sua tenda e mora entre nós”
(Ap 21,1-5).
“No início (bereshit, em hebraico) criou Deus
...” (Gen 1,1a). Assim abre-se a Bíblia. Normalmente se entende a primeira
palavra da Bíblia de forma temporal, cronológica, como se tivesse tido um
início a partir do nada e em tal data. Essa interpretação tem alimentado um
conflito artificial entre Criação e Evolução. Darwin tem sido satanizado e
incompreendido pelos adeptos da “teoria da criação”. A questão não é criação ou
evolução, mas criação na evolução. A palavra bereshit (= no início) é difícil
de ser traduzida, pois é “início, começo, cabeça”, mas não no sentido temporal, cronológico. Trata-se de “início,
começo” no sentido qualitativo, no mais profundo das relações da teia da vida.
Temos que trazer à mente a distinção que os gregos fazem na idéia de tempo: chronos (tempo
físico quantitativo, sucessão dos fatos) e kairos (tempo qualitativo, o divino tocando o humano, a graça contagiando
tudo). O autor bíblico não quis estabelecer uma oposição entre Criação e
Evolução, pois falou de “início” no sentido de algo profundamente qualificado tocando
a evolução. A criação se dá na evolução. O dedo de Deus toca tudo. Tudo está
permeado e perpassado pela dimensão divina. Evolução é a criação continuada,
continuamente acontecendo.
O movimento negro que luta contra o racismo
diz “nosso início não está nas senzalas, mas na liberdade da África”. O autor
bíblico queria dizer: “no início está a criação, o espírito de Deus presente e
envolvendo tudo. Não começamos no pecado, mas na liberdade da maravilha da
criação, que se dá na evolução. Evolui-se criando e cria-se evoluindo.
Outro equívoco é considerar “criação” como
fazer algo a partir do nada. Essa é uma idéia filosófica grega, que distorce o
sentido bíblico do criar. Cria-se a partir do caos. “No início estava o caos, a
terra sem forma e vazia”. O Big Bang produziu um caos
e o cosmos se faz a partir da organização do caos. O caos não é só caótico,
cria cosmo, ordem bela e harmonia.
“O Espírito (ruah, em hebraico) “pairava”
sobre as águas” (Gen 1,2b). É difícil traduzir o termo merahepet, em hebraico) pois
“pairava” dá a entender que é algo que vem de cima e que atua de fora. Não é
esse o sentido. O sopro divino (ruah) “agitava, revolvia, sagazeava,
bailava, tocava, acariciava, abraçava, envolvia, chocava” as águas. Javé
respirava nas águas. Namorava as águas, talvez possamos dizer. Trata-se de algo
intimamente ligado às águas. Agitava de dentro para fora. Ruah e água não são duas
realidades. Trata-se da mesma realidade sob ângulos diferentes. São “carne e
unha”, inseparáveis. Em Gen 1,2b “água” é símbolo da realidade. Tudo é água,
pois água está
A Criação é boa, é muito boa[5],
é beleza, é o ato primeiro. E Deus viu que a luz era boa, a terra, as águas, o
firmamento, plantas, verduras, árvores frutíferas. Tudo é uma beleza e irradia
a luz e a força divinas.
No primeiro relato da criação (Gn 1,1-2,4a)
se repete, inúmeras vezes, a palavra “terra”. 12 vezes em Gn 1; 57 vezes em Gn
1-11). Isso é forte indício de que o texto foi escrito por um povo na época em
que estava longe da terra, no exílio da Babilônia (587-
Na teologia tradicional e na prática
pastoral, por séculos e séculos, se enfatizou demasiadamente, quase absolutizando,
a exortação de Gen 1,26 onde Deus diz: “Façamos o ser humano à nossa imagem e
semelhança e que ele domine sobre todos os “animais””. Uma interpretação ao pé
da letra deste versículo resulta em vários problemas.
Primeiro, não é somente o ser humano que é
“imagem e semelhança” de Deus. É claro que há uma distinção e especificidade
entre os seres humanos e os outros seres vivos, mas há beleza, grandeza e graça
divina em todos os seres criados por Deus. Urge superarmos o antropocentrismo
que tem feito tantos estragos à história humana.
Segundo, a exortação para que o ser humano
“domine vários seres vivos” – não todos - não pode também ser entendida no
sentido de subjugar, dominar e tiranizar sobre todos e tudo. A “dominação” é
circunscrita, não é sobre tudo e muito menos sobre todos os seres vivos.[6]
Além do mais, temos que recordar a ênfase dada na segunda versão sobre a
criação (Gen 2,4b-25) sobre o “cultivar, pastorear, ser jardineiro”. Olhando a
totalidade das duas versões da criação (Gen 1,1-2,4a e Gen 2,4b-25) temos que
concluir que o espírito de Deus pede cuidado, pastoreio e manuseio responsável
sócio-ecológico e jamais incentiva a dominação e a depredação como,
infelizmente, o modelo capitalista de desenvolvimento vem fazendo.
Em terceiro lugar, temos que observar que
há outras exortações de semelhante importância, como, por exemplo: “Haja um
firmamento” (Gen 1,6). Em uma linguagem atualizada, provavelmente, possamos
dizer no espírito do texto: Haja camada de ozônio que proteja a humanidade e
todas as criaturas que estão no planeta Terra. Reduza-se em 50% as emissões de
gás carbono e dióxido de carbono que estão causando uma enorme mudança
climática. Que não seja submerso o que Deus criou como terra para o habitat
para o ser humano e todos os outros seres vivos da biodiversidade. Em palavras
dos nossos tempos: que não se represem as águas gerando barragens e lagos
enormes que já atingiram e expulsaram mais de 1.000.000 de famílias. Que se
repense o modelo energético e se diversifiquem as fontes geradoras de energia.[7]
“Que
a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que
dêem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente” (Gen
1,11). Temos aqui, em tom poético, a descrição do sonho-projeto de Deus: uma
biodiversidade rica, uma exuberância de plantas, verduras e frutas de todas as
espécies naturais nascendo e crescendo em uma grande sinfonia dos ecossistemas.
Aqui temos, indiretamente e implicitamente, uma crítica contundente às sementes
transgênicas. Temos aqui uma defesa indireta da agricultura sustentável,
orgânica e ecológica.
“Que
haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles
sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos” (Gen
1,14). Ou seja, sigam o ritmo natural de dia, tempo para trabalhar; noite,
tempo para repousar. Não acabemos com este ritmo como está acontecendo nas
cidades grandes onde muita gente é forçada a trabalhar de noite e nos domingos
e dias de festas.
“Fervilhem
as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, sob o
firmamento do céu” (Gen 1,20). Para isto é preciso tratamento de esgoto,
reconstituição das matas ciliares, freio à agricultura do agronegócio que joga
herbicidas e fungicidas de forma indiscriminada sobre as plantações, cujo
destino final é sempre os veios d’água,
controle também da mineração depredadora que joga resíduos minerários – metais
pesados – nas águas dos rios. Tudo isso dizima a exuberante fauna aquática
defendida pelo sonho-projeto de Deus.
Estudo publicado pela Revista Science comprova a diminuição da biodiversidade nos oceanos
e alerta que isso é uma ameaça à humanidade. "A perda da diversidade
marinha está impedindo cada vez mais a capacidade de os oceanos proporcionarem
comida, manterem a qualidade da água e de se recuperarem de perturbações.”
Segundo o estudo, todas as espécies marinhas selvagens que são pescadas hoje em
dia entrarão em colapso (termo que significa o desaparecimento de 90% dos
exemplares) até 2050, caso não sejam tomadas medidas para evitar isto. “A menos
que mudemos de forma fundamental a maneira como administramos todas as espécies
oceânicas, este século será o último de espécies marinhas selvagens",
declarou o professor da Universidade de Stanford (EUA) Steve
Palumbi, um dos autores do estudo. Um dos dados mais
alarmantes é que 29% das espécies pescadas tinham entrado em colapso, em 2003.[8]
Em Gênesis de
O primeiro relato da Criação (Gen 1,1-2,4a)
mostra o ser humano profundamente ligado, inter-conectado, a todas as criaturas
do universo. De uma forma poética, o relato bíblico insiste na fraternidade de
fundo que existe entre todos os seres vivos que são uma beleza. Deus, ao criar,
sempre se extasia diante de todas as criaturas e exclama: “Que beleza! Bom!
Muito bom!” O poeta cantor e compositor das Comunidades Eclesiais de Base, José
Vicente, capta muito bem a mística que envolve, permeia e perpassa todo o
relato da Criação: “Olha a glória de Deus brilhando ...”, em todos e em tudo.
O
segundo relato da Criação (Gen 2,4b-25) mostra o ser humano intimamente ligado
com a terra e com as águas. “Não havia
nenhuma vegetação, porque Javé Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo.” (Gen 2,5). Dois seres
imprescindíveis e inter-dependentes para que o mundo se transforme em um
paraíso com sócio-biodiversidade: água e ser humano.
A água, junto com a terra, é a mãe da vida. Sem ela, tudo morre. Assassinar uma
nascente, poluir um rio, deve ser considerado crime hediondo de lesa pátria. O
ser humano é outro ser imprescindível, mas como cultivador, jamais como
explorador e depredador.
“Um manancial brotava da terra” (Gen
2,6). Essa afirmação revela a íntima relação entre terra e água que é como
“carne e unha”. Uma não pode existir sem a outra. A água é o sangue da terra:
Gaia, grande ser vivo. “Javé Deus esculpiu o ser humano com a argila do solo.”
(Gen 2,7). Além de ser mãe das águas, a terra, umedecida e fertilizada pela
água, aparece também como mãe do ser humano. No princípio era a água e a terra;
e a água e a terra se tornaram “carne”: criaturas todas do universo. Não somos
apenas filhos e filhas da água e da terra. Somos mais. Somos água e terra que
sente, que canta, que pensa, que ama, que deseja, que cria ... Deus cria a
partir das águas e da terra. Só podemos ser co-criadores a partir das águas e
da terra. Quem não defende, respeita e não tem uma relação de veneração e de
encantamento para com as águas e a terra não pode ser criativo. Estará jogando
no time dos assassinos da nossa mãe, irmã e nosso próprio ser: a água e a
terra. Somos tão filhos/as das águas e da terra quanto somos filhos/as de Deus.
A água está
relacionada com os principais eventos fundantes do povo da Bíblia: na criação,
no dilúvio, Moisés salvo das águas, transgressão na águas de Meriba, na saída
do Egito, na entrada da terra prometida, batismo de Jesus, na Nova Jerusalém..[10]
Qualquer projeto bíblico só se sustenta perto de fontes de água, de rios ou
cisternas. Na Bíblia há uma associação da água com a Palavra de Deus. Ao povo
Deus deu água de beber de um rochedo, e durante 40 anos, lhe garantiu o pão de
cada dia e a água para beber. Hoje, mesmo mantendo características semi-rurais,
80% das pessoas vivem na cidade ou nas periferias e vêem água só na torneira ou
no chuveiro, mas já se sente a necessidade de preservar as nascentes,
mananciais, córregos e rios existentes, pois na água está o princípio da vida.
Segundo
o relato bíblico de Gn 2,1-
Devemos
nos espelhar na hospitalidade de Abraão que oferece água para que seus hóspedes
possam lavar os pés (Gn 18,1-5); na solidariedade de Jacó que tira a pedra do
poço para que Raquel possa dar de beber a seu rebanho (Gn 29,10); na decisão de
Moisés de garantir o direito à água para as filhas de Jetro (Ex 2,16-17); na
generosidade da viúva de Sarepta que, em plena seca, não hesita em dar ao
profeta Elias um copo de água e um pedaço de seu último pão (1Rs 17,10-11); na
coragem de Abdias, intendente do palácio do rei Acab, que, mesmo temendo a ira
do sistema monárquico, alimenta os profetas com pão e água (1Rs 18,4); na
sabedoria do profeta Eliseu que torna potáveis as águas para uso do povo (2Rs
2,19-21) e que manifesta sua força curando, no Jordão, a lepra do sírio Naamã e
fazendo boiar o machado que tinha caído no rio (2Rs 5,15; 6,6); na ousadia de
Judite que sabe burlar a vigilância dos soldados inimigos que controlavam as
fontes de águas querendo derrotar o povo pela sede (Jt 7,13-14; 12,7-9). Ao
procedermos assim, na gratidão pela água, tornamo-nos água viva. “Aquele que me
segue, de seu íntimo jorrarão rios de água viva” (Jo 7,38).
3)
Uma leitura libertadora do “pecado de Adão e Eva”
A partir da Teologia da Criação podemos
re-interpretar o episódio do pecado original em chave psicológica, social,
filosófica e antropológica, a qual nos levará a uma compreensão do
comportamento de Eva e Adão. O relato bíblico, comumente entendido, como pecado
original é, na verdade, um relato simbólico que quer falar do processo de
maturação pelo qual todos nós somos convidados a passar. A Bíblia testemunha a
defesa de Javé, Deus da vida, solidário e libertador, e denuncia com veemência
todos os ídolos que se apresentam como sendo deuses, com aparência de Deus, mas
na realidade não são. Aquele "deus" que proibiu os seres humanos de
comer do fruto da árvore do conhecimento queria que os humanos se mantivessem
sempre na fase infantil, sempre submissos e dependentes para que deus pudesse
ser onipotente, todo poderoso. Mas a mulher (Eva) se rebelou contra a idéia de
ficar sempre infantil e dependente, quis crescer, ganhar autonomia. Por este
prisma devemos ver que em Gn 2,4b-3,24 temos um relato simbólico que trata do
amadurecimento humano no nível pessoal e social. Devemos enterrar a idéia de
pensar teologicamente a partir do pecado (original). Este é ato segundo,
induz-nos ao pessimismo, a complexos de culpa. Devemos fazer Teologia a partir
do Ato Primeiro que é a Criação, fruto bom e gratuito do infinito amor que Deus
tem por nós e por todas as criaturas.
3.1) Notas exegéticas que ajudam na
interpretação de Gen 1-3
Gênesis
Gen 3 não pode ser visto separado de Gen 2
e de Gen 1. É preciso observar o conjunto refletido nos três capítulos. Gen 2 e
3 não foram escritos no século X a.E.C, como se pensa tradicionalmente, mas
devem ter sido escritos entre os séculos IV e III a.E.C., pois um texto tão
rico e importante como esse, se tivesse sido escrito em um tempo tão antigo,
teria sido conhecido e freqüentemente citado. Pelo contrário, referência a Gen
2 e 3 só aparece em Eclo 17,1-11 e em Sab 2,23-24, textos deuterocanônicos
escritos entre os séculos IV e III a.E.C. Somente a partir desse momento o
relato de Adão e Eva se torna importante e começa a aparecer nos diversos
escritos apocalípticos escritos na passagem do Primeiro para o Segundo
Testamento.
Gênesis 1 aparece como um texto de alegria
e glória, no qual um Deus grande, na soberania da sua presença “no início” de
todas as coisas, cria o céu, a terra e a luz, antes de fazer tudo o que existe.
Em Gen 1 o nome “Javé” não aparece, apenas um “Eloim”, Deus. Em Gen 2 se refere
a Deus como “Javé”. Saber o nome de alguém dá um certo poder e indica uma certa
proximidade. A cultura moderna obcecada com a privacidade defende o direito de
não oferecer o nome se não diante de total liberdade nas relações familiares e
de amizade, ou sob exigência judicial. Chamar Deus como “Javé” é certamente um
passo rumo a uma relação familiar com a divindade, mas também inclui o risco de
manipulação. Jesus não permitiu a si mesmo dar um nome da Deus, somente “pai”.
Dar um nome significa conhecer, “pegar”, mas Deus é mistério inaferrável.
Em Gen 1 o verbo “criar” é usado nos
momentos mais solenes, é o verbo da grande criação de Deus: céu e terra, mar e
montanha, coisas maravilhosas e o ser humano. Em Gen 2 e 3, diferentemente,
omite-se o verbo “criar” e fala somente do “fazer” de Javé, ou de “formar,
fazer surgir, plantar, colher, estabelecer”.O Deus majestoso de Gen 1 que cria
com a força da sua palavra e do seu sopro, que “respira sobre as águas do
início”, se tornou, em Gen 2-3, um artesão que elabora minuciosamente sua obra.
Em Gen 2 se insiste sobre a ligação do ser
humano com a terra[11].
Como não havia ninguém para cultivar a terra (Gen 2,5), “formou Javé Deus o ser
humano, pó da terra” (Gen 2,7). Em Gen 2,19 os animais são colocados na mesma
dignidade do ser humano, são também “formados da terra”. A estreita relação do
ser humano com a terra já tinha sido colocada em relevo na disposição divina de
por o homem no jardim para trabalhá-lo e cuidá-lo (Gen 2,15) e será acentuada
ainda em Gen 3,17.19 e em Gen 3,19 (o retorno do homem ao pó da terra) e enfim
em Gen 3,23 no mandado para trabalhar a
terra. Em Gen 1, o ser humano é “senhor de tudo”; em Gen 2, servo e cuidador da
terra.
Se a “terra” é um termo que faz o fio
condutor do relato de Gen 2 e marca a diferença com Gen 1 que tem o verbo “criar”
como condutor da criação das “grandes coisas”, em Gen 3 parece ser a “nudez”[12]
do ser humano o que adquire valor primário.
A serpente aparece em Gen 3 como uma sábia
mestra da humanidade, que leva o ser humano a assumir a sua responsabilidade,
direitos e alegrias como um ser sexuado, libertando-se de uma interdição que o
reduzia a uma condição infantil. A serpente não mentiu nas suas duas
afirmações. De fato, o homem e a mulher não morreram imediatamente por terem
comido da árvore. Por outro lado, que antes de haver comido da árvore tivesse
sido previsto um estado de imortalidade, o texto não diz. Também o homem e a
mulher passam a conhecer o bem e o mal, como Javé reconhece em Gen 3,22. E
neste sentido se tornam “como Deus”.
Se tudo é assim, quem é bom e quem é mau
neste relato? (A serpente é boa e “Javé”, o opressor?) Em que consiste a
transgressão? (Sair da infantilidade é transgressão?) O texto deve ser lido
como um relato de transgressão? Se não,
qual é o sentido de Gen 2 e 3 no conjunto da Bíblia e da fé cristã?
Com freqüência se diz que Gen 2,4b-3,24
trata da experiência da origem do mal, e de como o ser humano, criado bom por
Deus, se tornou mau por causa de fatores externos à criação de Deus, o mal
encarnado na serpente. De forma tradicional o “pecado de Adão e Eva”,
considerado pecado original, tem afirmado o poder de Deus e aniquilado o ser
humano, além de despejar nas costas das mulheres as culpas por muitos males que
afligem a humanidade. Em chave moralista
e apocalíptica[13]
se diz que Eva e Adão pecaram, porque desobedeceram a Deus e por isso foram
castigados com a expulsão do paraíso.
O apóstolo Paulo, preocupado em afirmar o caráter
libertador e salvífico de Jesus Cristo, acabou reforçando a culpabilização de
Adão. Disse, se referindo a Adão, que “por um homem entrou o pecado no mundo e
por Jesus Cristo entrou a salvação.” (cf. Rom 5,12-21). Importa recordar que
Paulo não estava interessado
O ser humano de Gen 2-3 não nos parece, inicialmente, “bom”
e nem social, mas simplesmente ignorante sobre o que seja a vida humana.
A interpretação do “pecado e queda” não é
mencionada em nenhum outro lugar na Bíblia, particularmente nos profetas.
Somente a partir do 3° século, antes da era cristã, e daí para frente é
que a interpretação tradicional do
“pecado original de Adão e Eva” começa a vir à tona. Logo a interpretação do
“pecado e queda” não é original do texto. Trata-se de um verniz colocado
posteriormente no texto. Ao repintar a casa mudaram a cor das paredes. A cor
original desapareceu e a nova cor passou a ser considerada como se fosse
original. Devemos recordar que o povo da Bíblia, historicamente, tinha uma
“orientação grupal”, isto é, primava pela vida comunitária, grupal e social que
se dava na família, no clã e na tribo. Com o passar do tempo, pouco-a-pouco foi
surgindo uma “orientação individual”, isto é, a particularidade de cada pessoa
começou a ser valorizada até chegarmos ao individualismo com o renascimento, no
início da era moderna.
Cientistas sociais
concordam que o povo do Primeiro Testamento bíblico era predominantemente de
orientação grupal (cf. M. Douglas). Via-se a comunidade. A identidade pessoal
era quase despercebida. Por exemplo, o decálogo se dirigia ao povo e não apenas
a cada pessoa individualmente. Logo, a sociedade e suas instituições não podem
matar, nem roubar, nem enganar, nem adulterar. Com o passar do tempo, houve uma
privatização do decálogo, reduzindo-o a dez mandamentos. Além de mudar o foco
para a moralidade, começou-se a aplicar os princípios do decálogo às pessoas
individualizadas. Isso trai completamente o sentido do decálogo.
Em uma sociedade de
orientação grupal, a vida e a salvação vêm através da continuação biológica da
vida gerando crianças. Assim o casamento e a família são altamente valorizados
e, logicamente, as relações sexuais. Encara-se com naturalidade a relação
amorosa entre homem e mulher, passando pela relação sexual.
É necessário superarmos muitos dualismos
ocidentais, oriundos de uma determinada interpretação da filosofia grega. Por
exemplo, vida e morte são duas faces da mesma moeda. Trata-se de um processo de
separação ou de diferenciação. Se o filho não se separa da mãe, se não se corta
o cordão umbilical, não empreende respiração no mundo e não adquire autonomia e
identidade própria. A semente, ao morrer, faz nascer de si um novo ser vivo que
continua o ciclo da vida. O nascimento se dá com a separação entre o filho e a
mãe, e na morte se dá a união com a terra-origem. Se não se morre para o ventre
materno, não se nasce para o ventre da mãe Terra.
A palavra hebraica “’eden” significa “prazeroso,
delicioso”. Sugere mais uma situação prazerosa do que um lugar geográfico. Em
Gênesis 2,8 se diz que o jardim está a “leste”, no oriente, simbolicamente do
lado do início do dia. Em tom simbólico o texto parece sugerir que o jardim da
vida está na infância, isto é, do lado do raiar da vida. Logo, falar de jardim
é muito mais simbólico que real.
“Javé
Deus tomou o ser humano e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o
guardar” (Gen 2,15). Em outras palavras, Deus quer que o ser humano viva de
forma intensa e prazerosa cultivando e protegendo sua única casa comum. “Podes
comer de todas as árvores do jardim, exceto uma: a árvore do conhecimento do
bem e do mal” (Gn 2,17). Aqui cabe precisar algumas coisas. A proibição é
somente com relação à árvore do conhecimento do bem e do mal. Devemos
perguntar: Discernir entre o bem e o mal é algo positivo ou negativo? Quem
proíbe?
“Conhecer o bem e o mal” não quer dizer se
tornar como Deus. Parece tratar-se de um conhecimento intelectual, ético,
experiencial e discernimento afetivo-sexual. Algo positivo, desejável para todo
ser humano. Quando aparece, na Bíblia, a expressão “conhecer o bem e o mal”
refere-se, normalmente, a uma capacidade humana, desejável aos filhos do povo
(cf. Dt 1,39). As crianças devem crescer e chegar à capacidade de discernir
entre o bem e o mal (cf. Is 7,15-16). Nunca é procurar além dos limites da
possibilidade humana. "Comer da Árvore do Conhecimento" é preparação
crítica para a vida fora do jardim, no mundo dos adultos onde ambigüidades e
contradições são constantes. Sendo uma coisa positiva discernir entre o bem e o
mal, certamente quem se apresenta para proibir algo bom parece ser Deus, mas,
na realidade, é um ídolo. Em muitas passagens bíblicas se fala da necessidade
de discernir a voz de Deus. Abraão, por exemplo, caminhou três dias, levando
consigo seu filho único Isaac, pensando que Deus pedia o sacrifício do próprio
filho, mas, ainda em tempo, percebeu que se tratava da voz de um ídolo e que o
Deus da vida gritava em sentido contrário: “não levante a mão contra seu
próprio filho. Não lhe faças nenhum mal.” (Gen 22,12aa). Assim Isaac foi salvo.
É provável também que em Gen 2,4-3-24 se dê a passagem da voz de um ídolo,
disfarçado de Deus, para Javé, o Deus solidário e libertador que quer a
humanidade caminhando com as próprias pernas, sem infantilismo.
Em uma linguagem simbólica alegórica, os
quatro rios - Fison, Geon,
Tigre e Eufrates -, além de fazer referência a todo o mundo conhecido na época,
simbolizam toda a terra (cf. Gn 2,10-14).
Deus cria a mulher a partir do homem,
enquanto este dorme (Gn 2,21-24). O sono simboliza a morte, demonstra a
dinâmica essencial da vida: vida que nasce da morte. O sono também indica que a
criação da mulher não teve a participação ativa e consciente do homem. Isto
reafirma a igualdade original entre homem e mulher.
Em sociedades de orientação grupal, como no
Israel bíblico, a vergonha é o mais forte meio de controle social. Uma pessoa
envergonhada é uma pessoa diminuída e acuada. Vergonha não era uma questão
moral oriunda da sexualidade, mas se sentia vergonha por uma derrota militar
(cf. Jz 20,18-28) ou por um empreendimento frustrado.
Historicamente o povo está nu, envergonhado, não por uma questão moral-sexual,
mas por ter sido deportado, exilado e oprimido. A “vergonha” na Bíblia é o
sentimento de quem ficou desiludido, vencido e pisado.
"O homem e sua mulher estavam nus, porém não
sentiam vergonha" (Gn 2,25). O que é central no relato não é a
vergonha, mas a descoberta (algo positivo) da nudez, isto é, encontrar-se a si
mesmos. O homem e a mulher deixaram o
estado infantil e se tornam adultos. Somente na fase da infância o homem e a
mulher não se envergonham de estarem nus. As crianças não são ainda
socializadas o suficiente para perceber as implicações da nudez pública. A
mudança da não vergonha para a vergonha, enquanto nus, indica que ele e ela
estavam na adolescência (cf. Gn 3,7). Até o século III a.C. a nudez não era
considerada um símbolo do mal, tentação, sedução, pecado sexual. O dominicano
Pe. Carron dizia que, para os povos indígenas, pudor
era valorizar o corpo nu e pintá-lo, enfeitá-lo. Vestir o corpo é impudor.
3.3) A serpente não é o demônio
Para entendermos
bem o relato de Adão, Eva e a serpente, temos que passar uma borracha na
interpretação fundamentalista e dualista que associa automaticamente a serpente
ao diabo, ao demônio. Essa leitura é muito posterior ao texto e está
contaminada por uma visão dualista que vê o diabo, o satanás, como se fosse um
deus negativo que compete com o Deus verdadeiro. O Primeiro Testamento Bíblico,
sem os livros deuterocanônicos, não estabelece nenhuma relação entre a serpente
do Gênesis e “satã”. Somente no último livro do Primeiro Testamento, a
Sabedoria, escrito em grego por volta do ano
Satanás (satã, em hebraico) ou diabo (diábolos, em
grego) não são entes abstratos, um deus negativo que faz oposição ao Deus da
vida. Satanás (diabo) é tudo o que divide, separa, desune, oprime, exclui,
discrimina e depreda. Pode ser uma dimensão interior nossa, mas em uma sociedade
capitalista neoliberal como a nossa, trata-se prioritariamente de estruturas e
instituições que oprimem, excluem e depredam a natureza. Por exemplo, podemos
dizer que o agronegócio, a mineração depredadora, a monocultura do eucalipto (e
tantas outras) e o modelo de desenvolvimento capitalista são realidades
satânicas, pois concentram riquezas em poucas mãos, expulsam os pequenos do
campo e depredam o meio ambiente, o santuário da biodiversidade.
A serpente é rápida
como um raio, é astuta (‘arûm,
em hebraico), espécie de sabedoria prática, representa habilidade na linguagem.
Já na antiguidade a medicina descobriu que o veneno da serpente, diluído em
doses infinitesimais, podia servir de remédio. O veneno da serpente pode ser
mortal ou terapêutico. Assim é a vida. Dependendo da forma como é vivida pode
ser ocasião de humanização (salvação) ou de perdição. Mitologias e lendas
populares consideram a serpente como símbolo cósmico e/ou religioso de vida e
de morte. Entre os gregos, os adeptos do deus Príapo acreditavam
que o nascimento de um herói provinha da fecundação de uma mulher por uma
serpente. A Índia conhece gênios meio homens e meio serpentes (os nâga). Desde a época do budismo, as serpentes são tidas por
budistas como “distribuidoras da fertilidade universal”. Há mitos que ligam a
serpente à idéia de uma vida que não se acaba. A longevidade atribuída à
serpente (por causa das renovações da pele) explica esse simbolismo da
imortalidade.[14]
Muitos mitos
associam a serpente à idéia de conhecimento e profecia. Ela “conhece todos os
segredos e entrevê o futuro”, pois dorme com os olhos abertos, por não ter
pálpebras móveis. Assim sendo está sempre vigilante. Enfim, no antigo Oriente
Próximo, onde os relatos bíblicos foram escritos, a serpente era tida como
símbolo antes de tudo positivo. No livro de Números, a serpente erguida é tida
como símbolo de vida. Sob inspiração de Deus, “Moisés fez uma serpente de
bronze e a colocou em um poste levantado. Se alguém era mordido por uma
serpente, olhava para a serpente de bronze e vivia.” (Cf. Nm 21,4-9). O
evangelho de Mateus aconselha: “Sede simples como as pombas, mas astutos como a
serpente.” (Mt 10,16).
A serpente renova a casca constantemente,
mas tem veneno. Em sociedades agrícolas, como o povo do Primeiro Testamento
Bíblico, a serpente é benéfica e ameaçadora, ao mesmo tempo. O povo de
sociedades agrícolas não teria a mesma aversão a serpentes que caracteriza
muitas pessoas nas sociedades modernas. Em Gn 3,1-
Enfim, a serpente aparece mais como
parceira de Deus no processo de educação do ser humano do que como instrumento
do mal. A punição da serpente é apenas uma recurso literário para manter a
estrutura narrativa – três personagens, três punições – ou um sub-produto
causado pela narração ou ainda uma concessão a uma polêmica anti-cananéia, onde
a serpente era considerada um símbolo do maligno, um ídolo.
3.4) Destaques na narrativa
Gn
3,1-10: A linguagem usada não dá indicação
de sedução: a mulher pega, come e dá
também para o homem; e este "do mesmo modo" come (Gn 3,6). Mais tarde na conversa com Deus, o homem não indica
que a mulher tentou-o ou seduziu-o, mas que ela deu para ele a fruta, do mesmo
modo que Javé Eloim[16]
deu para ele a mulher (Gn 3,9-12). Não existe argumento que Deus tentou ou
seduziu o homem dando a ele a mulher.
Comendo o fruto se realiza um “rito de
passagem” no qual a pessoa morre para a fase infantil, passa pela adolescência
e nasce para a fase adulta. Não se trata de rebelião, queda ou falta, mas de um
movimento natural de maturação, liberdade e realização da identidade. E quanto
mais ele e ela entendem a realidade da vida mais ele e ela entenderão Deus.
Gn
3,11-13: Ser adulto é assumir
responsabilidades. Ao não assumir responsabilidades o homem e a mulher (Adão e
Eva) demonstram a incompletude do processo de maturação, pois quem é maduro
assume responsabilidades. Não faz um jogo de empurra-empurra.
Gn
3,14-15: Discernimento da realidade nua e
crua da vida familiar. Gn 3,15 mostra a labuta que é a vida; custa suor e exige
luta.
Gn
3,16: O que o homem "controla" é
o desejo sexual da mulher, não a mulher inteira. Colocar limites é necessário
para o crescimento, mas os limites devem ser dosados. As dores sentidas são
dores de parto, não estertores de morte. A mulher traz em si mesma a sede de
dar a vida, de criar, de amar etc
Gn
3,17-19: À primeira vista estes versículos
soam como castigo, mas não são. São apenas o diagnóstico da vida adulta. O
homem toma consciência de que a luta pela sobrevivência é dura, custará muito
trabalho e suor. O homem se conscientiza também que pertence à Terra, é parte
dela. "O homem é pó, e ao pó voltará"
(Gn 3,19). O homem se entende como transitório e efêmero. A liberdade é um dos
maiores desejos humanos, mas é no provisório, no relativo, no efêmero, que se
pode experimentar ser humano.
Gn 3,20-24: Nesses versículos
acontece a transição para a fase adulta. A palavra Eva, em hebraico
significa mãe “dos viventes” ou “da vida”. Na língua aramaica Eva é Ravah e
significa aquela que vê, que compreende, que “tem um sexto sentido”, como diz a
sabedoria popular. Esta palavra é usada como título honorífico dado à mulher
somente após a “conclusão” do seu processo de amadurecimento. Se conforme a
interpretação tradicional, a mulher é responsável por trazer o mal e a morte
para o mundo, por que ganharia ela um título honorífico?
Javé Eloim ao fazer roupas para o homem e a
jovem, prepara para ele e ela saírem da fase infantil (o jardim) e assumirem o
mundo (a fase adulta - cf. Gn 3,21). O salmo 8,4-7 testemunha a grandeza do ser
humano, sob a bênção de Deus: “Tu o fizeste pouco menor que um Deus”.
“Javé
Eloim expulsou o homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora
tirado.” (Gen 3,23). Essa “expulsão” aparenta ser um castigo, mas não é.
Castigo seria se tivesse jogado o ser humano em uma das prisões brasileiras,
onde a dignidade da pessoa, a integridade física e mental e os direitos humanos
são pisoteados. Como qual objetivo Deus tirou o ser humano do jardim de Éden?
Para cultivar o solo. Eis um motivo nobre. Nem de longe isso pode ser castigo,
mas é uma graça. Também no processo de amadurecimento “proibições” são
elementos necessários. Uma pessoa só pode conhecer suas possibilidades no
momento em que conhece seus limites.
A árvore é “boa para alimentar-se, era bela
para ser vista e desejável para adquirir conhecimento”. A proibição recai
somente sobre o comer.
3.5)
Juntando os fios
No desfecho do relato bíblico sobre o que
aconteceu com Adão e Eva, o que era apenas um diagnóstico foi interpretado como
castigo. Entender Deus como alguém que proíbe e castiga é contraditório com a
idéia de Deus amor.
O processo de amadurecimento sai da
infantilidade do jardim (infância: Gn 2,7-9; Infância primeira e média: Gn
2,16-23; adolescência: Gn 3,1-19) e chega ao mundo adulto que Javé Eloim criou
para ser povoado por adultos. Forças
opostas e a morte fazem parte natural e essencial da vida[17].
Em Gen 2 – 3 Deus, o homem e a mulher amadurecem. O homem rompe sua ligação
inicial com o jardim e abraça sua missão: desenvolver-se no mundo. A mulher,
que inicialmente aparece como reflexo do homem, amadurece também. E Deus
aprende a respeitar os limites de seus direitos sobre o homem e a mulher e
descobre que se por amor criou, deve deixar a liberdade vigorar no ser humano,
o que implica a possibilidade de errar e ser infiel.
Alguém poderia objetar: como é que fica
então o pecado original? Nossa reflexão teve dois objetivos. Primeiro,
desconstruir uma interpretação fundamentalista e dualista, que tem justificado
colocar a culpa dos males do mundo na mulher como se ela fosse discípula fiel
de uma “serpente”, entendida de forma abstrata e a-histórica, como se a causa
dos problemas humanos fosse advinda de fora das entranhas da história. Segundo,
sugerimos uma releitura do “pecado de Adão e Eva” que quebra tabus e indica a
humanidade passando por um processo de humanização. O “pecado”, se é que
existe, estaria na ambigüidade da vida humana ou na ambição de conhecer sem
limites. O ser humano tem o direito de chegar ao conhecimento do bem e do mal.
Conhecer infinitamente, não. A fonte da felicidade está na sabedoria consciente
dos limites da condição humana. Somos
seres abertos. Sendo livres e profundamente circunstanciados nos deparamos com
muitos caminhos. Temos que escolher. Nem sempre as escolhas são as melhores. E,
muitas vezes, podem ser condicionadas por sistemas e instituições que ofuscam a
escolha. O filósofo Paul Ricoeur diz: “na experiência humana, cada um encontra
o mal já presente; ninguém o começa de modo absoluto.” Estamos todos na mesma
rede. Ou nos salvamos de forma coletiva ou pereceremos. Não dá para dizer: a vida é uma preciosidade
criada por Deus. Que cada um cuide da sua.
O cosmo veio do caos, mas o caos sempre nos
acompanha, como um “pecado original”.
Enfim, temos que ouvir os gritos
insistentes do ambiente e fazer coro como Leonardo Boff que vem insistindo
sistematicamente: “Em nome do desenvolvimento capitalista exploram-se, de forma
ilimitada, todos os recursos para que haja mais e mais consumo, sem o qual o
sistema econômico-financeiro se afunda. A continuar com a voracidade deste
sistema, antes de 2050, advertiu na revista Veja
de 25 de outubro do corrente ano, precisaremos de mais de duas Terras
para suprir a demanda da humanidade, diz-nos o relatório "Planeta vivo
2006" do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). James Lovelock, o formulador
da Teoria Gaia - a Terra como super-organismo vivo.: "Até o fim do século
é provável que 80% da população humana desaparecerá" em conseqüência do
superaquecimento da Terra. E acrescenta o teólogo da libertação:
"praticamente todo o território brasileiro será demasiadamente quente e
seco para ser habitado".[18]
bibliografia básica
2.
L. M.
BECHTEL, “Genesis 2,4b-3,24: a Myth about Human Maturation”, JSOT 67 (1995),
pp. 3-26.
Frei Gilvander Luís
Moreira, - Rua Grão Mogol, 502 -
Carmo Sion
CEP: 30310-010 - BELO HORIZONTE – MG
Tel: 031 3221 3055 - E-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br
*
Frei e padre da Ordem dos Carmelitas, mestre
[1] Cf. Jornal Folha de São Paulo, Caderno Ciência,
edição de 25/10//2006.
[2] Cf. www.unisinos.br/_ihu/ - ipcc.ch/meet/meet.html - http://ipcc-ddc.cptec.inpe.br/ipccddcbr/html
[3] Palestra de Sebastião Salgado, no Museu de Artes e Ofícios de Belo Horizonte, em 17/10/2006, na abertura do projeto “Gênesis”, exposição de 40 fotos inéditas feitas por ele.
[5] Cf. Gn 1,1-31, especialmente Gn 1,10.12.18.21.25.31.
[6] Estão na lista de seres a serem “dominados” peixes do mar, aves do céu, animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra. Somente esses! Não estão na lista os peixes dos rios, não todo tipo de ave, nem os animais selvagens. O texto explicita que a dominação seja sobre todas as feras e répteis.
[7] Urge investir também em energia solar, eólica, biodigestor e diversas outras formas.
[9] Cf. Gen 1,11.12 (duas vezes).21.24(duas vezes).25(três vezes); Gen 6,19.20(quatro vezes); Gen 7,3.14(quatro vezes).
[10] Na Bíblia se fala de águas 369 vezes. Isso revela a importância que a água tem para o povo.
[11] Em Gen 1 somente no v. 25 se menciona Adamah.
[12] Cf. Gen 2,25; 3,7.10.11.
[13] Vários livros apocalípticos apócrifos estão na origem da interpretação tradicional do ‘pecado de Adão e Eva”, tais como: a) O “Livro dos Vigilantes”, primeira secção do 1o livro (CC. 6-36) do Primeiro livro de Enoc (1 Enoc), literatura apocalíptica mais antiga; b) Apocalipse de Moisés (meados do 1o século d.C.) sobre a Vida de Adão e Eva depois da queda; c) “Vida de adão e Eva”; d) Apocalipse siríaco de Baruc (2 Bar); e) Esdras ‘apócrifo’ (4 Esdras).
[14] Cf. GIRARD, Marc., Os Símbolos na Bíblia, Ed. Paulus, São Paulo, 1997, pp. 650-666.
[15] Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz, em 2006, empresta dinheiro, em microcrédito, somente às mulheres. Se um homem quiser um empréstimo, ele precisa que uma mulher (esposa, irmã, prima etc) se responsabilize. No início, os empréstimos eram concedidos tanto a homens como a mulheres, mas a prática mostrou que as mulheres são mais “confiáveis”, porque elas vêem nesse dinheiro a grande oportunidade de melhorar a vida dos seus filhos. Cf. Jung Mo Sung, “Nobel da Paz e Economia”, em Jornal de Opinião, 30/10 a 5/11/2006, p. 6.
[16] Deus aqui é invocado como Javé e como Eloim, simultaneamente. Javé é a dimensão de Misericórdia de Deus. Eloim representa a dimensão de Justiça de Deus. Logo, o Deus que interpela o homem e a mulher é misericordioso e justo.
[17] Cf. também SCHWANTES, Milton, "Projetos em conflito, Gênesis 2-3; beleza e realismo", São Paulo, CESEP/Paulus, Curso de Verão - ano V, 1991.
[18] LEONARDO BOFF, “Ecologizar a política e a economia”, em http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=25265