Frei Carlos Mesters*
Francisco Orofino **
I
DEZ CARACTERÍSTICAS DA LEITURA POPULAR
2. Ao ler a Bíblia, o povo das Comunidades traz consigo a sua própria
história e tem nos olhos os problemas que vem da realidade dura da sua vida. A
Bíblia aparece como um espelho, "sím-bolo" (Hb 9,9; 11,19), daquilo
que ele mesmo vive. Estabelece-se uma ligação profunda entre Bíblia e vida que,
às vezes, pode dar a impressão de um concordismo
superficial. Na realidade, é uma leitura de fé muito semelhante à que faziam as
primeiras comunidades (cf. At 1,16-20; 2,29-35; 4,24-31) e os Santos Padres.
4. Antes deste contato mais vivido com a Palavra de Deus, a Bíblia
ficava longe. Era o livro dos “padres”, do clero. Mas agora ela chegou perto! O
que era misterioso e inacessível, começou a fazer parte da vida quotidiana dos
pobres. E junto com a sua Palavra, o próprio Deus chegou perto! “Vocês que
antes estavam longe foram trazidos para perto!” (Ef 2,13) Difícil para um de
nós avaliar a experiência de novidade e de gratuidade que isto representa para
os pobres.
5. Assim, aos poucos, foi surgindo uma nova maneira de se olhar a Bíblia
e a sua interpretação. Ela já não é vista como um livro estranho que pertence
ao clero, mas sim como o nosso livro,
"escrito para nós que tocamos o fim dos tempos" (1Cor 10,11). Às
vezes, ela chega a ser o primeiro instrumento de uma análise mais crítica da
realidade. Por exemplo, a respeito de uma empresa opressora do povo, o pessoal
da comunidade dizia: "É o Golias que temos que enfrentar!"
6. Pouco a pouco, cresce a descoberta de que a Palavra de Deus não está
só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da
Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da
Bíblia. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na
Bíblia, já existia na vida. As comunidades descobrem que a sua caminhada é bíblica. “Na verdade, o Senhor está
neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!
8. Para que se produza esta ligação profunda entre Bíblia e vida, é
importante: a) Ter nos olhos as perguntas reais que vêm da realidade, e não
perguntas artificiais que nada têm a ver com a vida do povo. Aqui aparece como
é importante o intérprete ter convivência e experiência pastoral inserida no
meio do povo. b) Descobrir que se pisa o mesmo chão, ontem e hoje. Aqui aparece
a importância do uso da ciência e do bom senso, tanto na análise crítica da
realidade de hoje como no estudo do texto e do seu contexto social. c) Ter uma
visão global da Bíblia que envolva os próprios leitores e leitoras, e que
esteja ligada com a situação concreta das suas vidas hoje.
10. Para uma boa interpretação, é muito importante o ambiente de fé e de
fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a
descobrir o sentido que o texto tem
para nós hoje. Pois o sentido da
Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se
objetiva através de raciocínios; é também um sentir, um conforto que é sentido
com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos
proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4).
Convém não esquecer que tudo isto, de que estamos falando, se refere
apenas às Comunidades Eclesiais de Base, que são uma pequena minoria. A grande
maioria tem outro jeito de olhar a Bíblia, menos libertador e mais
fundamentalista.
II
A DINÂMICA INTERNA DO PROCESSO DA INTERPRETAÇÃO
1. TRÊS FATORES
Muitos fatores contribuíram para que se chegasse a este tipo de leitura
da Bíblia aqui na América Latina. O mais importante de todos, que nunca foi
pego em flagrante, embora atue em todos os outros fatores, é a ação do Espírito
Santo. Ele atua nesta realidade e a conduz. Ouvir o que o Espírito diz às
Igrejas! Destacamos três deles que não podem ser ignorados para se entender a
atual conjuntura.
1. O Trabalho da JOC: uma
nova maneira de ver a revelação
O método Ver, Julgar,
Agir trouxe, aos poucos, uma nova maneira de se considerar e experimentar a
ação reveladora de Deus dentro da história. Antes de se procurar saber o que
Deus fala, procura-se ver a situação
do povo, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos bíblicos, procura-se
julgar esta situação. Isto faz com
que, aos poucos, a fala de Deus não vem da Bíblia, mas vem dos fatos iluminados
pela Bíblia. E são eles que levam a agir
de maneira nova. É o método de ver-julgar-agir.
2. O Concílio Vaticano II
e o Documento Dei Verbum
O Documento Dei
Verbum consagrou para a Igreja toda esta nova maneira de ver a ação
reveladora de Deus. Deus fala hoje através dos fatos e das pessoas. Nós
conseguimos descobrir sua fala com a ajuda da Palavra escrita de Deus que nos
traz como norma ou cânon a história vivida do povo de Israel.
3. O golpe militar e a
crise do vanguardismo
A situação do povo era de
abandono. Em 1964, o golpe militar mostrou que o trabalho de conscientização
era imperfeito. O vanguardismo levou um choque. Percebeu-se a necessidade de um
trabalho muito mais capilar e paciente junto do povo, respeitando mais a sua
cultura e as sua caminhada. A Igreja era o único lugar onde se podia ainda
trabalhar com liberdade ser vítima da repressão política. A partir de 1968,
começou um trabalho de base e surgiram em todo canto as comunidades. O povo
começou a ler a Bíblia.
Assim, a partir dos
anos 60, diante da necessidade de um trabalho mais respeitoso no meio dos
pobres, surgiram as Comunidades Eclesiais de Base e, nas comunidades, em todo
canto, foram surgindo os Círculos
Bíblicos, grupos de reflexão, grupos do evangelho, celebrações da Palavra.
Os Círculos Bíblicos
se inspiram no método Ver-Julgar-Agir,
usado pelos grupos da Ação Católica.
Este método tinha trazido uma nova maneira de se considerar a ação reveladora
de Deus. Antes de procurar saber o que Deus falou no passado, ele procura Ver
a situação do povo hoje, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos
da Bíblia, procura Julgar esta situação. Isto faz com que, aos poucos, a fala de
Deus já não vem só da Bíblia, mas também dos próprios fatos iluminados pela
Bíblia. E são eles, os fatos, que assim se tornam os transmissores da Palavra
de Deus e que levam a Agir de maneira nova.
Os Círculos Bíblicos
tiveram uma expansão muito rápida, sinal de que estavam respondendo a uma
exigência real. Ninguém sabe quantos são atualmente. Só mesmo o Espírito Santo.
Eles foram e continuam sendo a raiz de um novo modo de ser igreja. O seu método
imita de perto os passos sugeridos por Lucas no episódio de Emaús, onde o
próprio Jesus interpreta a Escritura para os discípulos: (1) Jesus parte da
realidade, pois quer saber de que estão falando (Lc 24,13-24). (2) Usa a Bíblia
para iluminar o problema dos amigos (Lc 24,25-27) e (3) convida-os a celebrar e
partilhar o pão (Lc 24,28-32). (4) Quando, ao experimentarem a presença viva de
Jesus, os olhos dos discípulos se abrem, eles mesmos ressuscitam, voltam para
Jerusalém e partilham com os outros a sua experiência de ressurreição, como até
hoje acontece nos encontros comunitários.
2. TRÊS ETAPAS
No decorrer deste processo histórico dos últimos quarenta anos, foram
aparecendo três objetivos na atitude do povo frente à Bíblia: vontade de
conhecer a Bíblia; desejo de reunir e celebrar a Palavra; decisão de servir ao
povo e transformar a situação. Estes três objetivos estão presentes e, às
vezes, conflitantes, na leitura popular.
1. Conhecer a Bíblia
As novas descobertas da exegese abriram uma nova janela sobre o texto
bíblico e o contexto da sua origem. Na Igreja Católica, o documento conciliar Dei
Verbum e as Assembléias Episcopais de Medellin e Puebla fizeram crescer o
interesse pela Bíblia. A vontade de conhecer a Bíblia estimulou muita gente a
uma leitura mais freqüente.
Através de vários canais, a Bíblia foi chegando mais perto do povo.
Entre muitos outros, destacamos: (1) A
renovação litúrgica que divulgou o uso da Bíblia na linguagem popular. (2)
O trabalho pioneiro de frei João José Pedreira de Castro, OFM., que nos anos 50
traduziu a Bíblia de Maredsous, hoje com mais de 150 edições sucessivas. (3) O
trabalho da antiga LEB, Liga dos Estudos Bíblicos, cujos membros fizeram uma
tradução diretamente dos textos originais e incentivaram, em todo canto, cursos
e semanas bíblicas. (4) Iniciativas como o Mês
da Bíblia (mais de 25 anos consecutivos) e o Movimento da Boa Nova (MOBON) (inicialmente apologético, mas hoje
um movimento de evangelização libertadora com milhares de grupos). (5) O vigor
missionário das igrejas evangélicas contribuiu para criar nos católicos um
interesse maior pela Bíblia.
2. Reunir e celebrar em
Comunidade
Na medida em que a Palavra começava a ser conhecida, ela produzia os
seus frutos. O primeiro fruto foi aglutinar as pessoas e criar comunidade.
Semanas bíblicas, cursos, círculos Bíblicos, encontros, mês da Bíblia: tudo
isto produziu um fervilhar comunitário que aglutinava as pessoas em torno da
Palavra de Deus. Assim, surgem as Comunidades Eclesiais de Base e os Encontros
Intereclesiais das Comunidades, que foram acontecendo periodicamente e que, no
ano 2000, celebraram o décimo Intereclesial
3. Servir ao povo e transformar a
situação
Sobretudo a partir de 1968, foi dado um passo a mais. O conhecimento da
Bíblia e a preocupação comunitária encontraram o seu objetivo no serviço ao
povo. Não tendo dinheiro nem tempo para ler os livros sobre a Bíblia, os pobres nas suas comunidades, lendo a Bíblia a
partir do único critério de que dispunham, a saber, a sua vida de fé e a sua
situação de povo oprimido, iam descobrindo o óbvio que não conheciam: uma
história de opressão igual à que eles mesmos estavam sofrendo, uma história de
luta pelos mesmos valores que eles perseguem até hoje: terra, justiça,
partilha, fraternidade, vida de gente. É o período em que se acentua a dimensão
política da fé. É neste mesmo período dos anos 70 que surge o CEBI, o Centro
Ecumênico de Estudos Bíblicos para a Pastoral Popular, que procura divulgar e
legitimar esta leitura popular da Bíblia.
Por abrirem o seu espaço para este trabalho de conscientização em favor
dos valores evangélicos da justiça, da liberdade e da fraternidade, as igrejas
sofreram e foram vítimas da repressão política. Aqui devem ser lembrados os
mártires, essa “nuvem de testemunhas ao nosso redor” (Hb 12,1). Como a carta
aos Hebreus, (Hb 11,1-40), a Agenda
Latino Americana, cada ano de novo, faz a memória dos milhares de mártires
latino-americanos, homens e mulheres, católicos e evangélicos, leigos e
religiosos, conhecidos e anônimos. Muitos deles, motivados e sustentados pela leitura orante da Palavra de Deus,
deram a sua vida pela causa da liberdade, da justiça e da fraternidade.
Estas três etapas são como que três aspectos ou três objetivos de uma e
mesma atitude interpretativa frente à Bíblia. Entre eles existe uma dinâmica
interna que marca o processo da interpretação popular: conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao
povo; servir ao povo, por sua vez,
leva a desejar um conhecimento mais
aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante. É uma dinâmica
que não termina nunca. Estes três aspectos: um nasce do outro, supõe o outro e
leva ao outro.

Não importa tanto a partir de qual dos três aspectos se inicia o
processo da interpretação. Isto depende da situação, da história, da cultura e
dos interesses da comunidade ou do grupo. O que importa é perceber que um
aspecto fica incompleto sem os outros dois.
Geralmente, em todas as comunidades, há pessoas que se identificam com
um destes três aspectos: 1. pessoas que querem conhecer a Bíblia e que
se interessam mais pelo estudo; 2. pessoas que insistem mais na comunidade e nas suas funções internas;
3. pessoas mais preocupadas em servir ao
povo e em dar a sua contribuição na política e nos movimentos populares.
Tudo isto produz tensões entre os vários grupos e interesses. Estas
tensões são saudáveis e fecundas. Por exemplo, em alguns lugares, a prática
política mais intensa dos últimos anos está pedindo, agora, um conhecimento mais aprofundado do texto
bíblico e uma vivência comunitária
mais intensa da espiritualidade da libertação. Em outros lugares, a vivência
comunitária chegou no seu limite e está pedindo uma ação mais engajada nos
movimentos populares. Com outras palavras, as tensões ajudam a criar um
equilíbrio que favorece a interpretação da Bíblia, e impedem que ela se torne
unilateral.
Às vezes, porém, estas tensões são negativas e levam cada um dos três
aspectos a se fechar sobre si mesmo e a excluir os outros dois. O itinerário da
interpretação popular, muitas vezes, é tenso e conflituoso, com risco de
fechamento e de retrocesso.
4. PERIGOS DE FECHAMENTO
Quando a comunidade alcança o objetivo de um destes três aspectos
(conhecer, conviver ou servir), alguns membros, por fidelidade à palavra,
querem avançar e dar um passo adiante, e outros, em nome desta mesma
fidelidade, recusam a abertura. É o momento da crise e é também da graça. Nem
sempre vence o grupo que quer avançar.
1. Todos os movimentos pastorais usam a Bíblia e nele se apóiam. Em nome
da Bíblia, os fundamentalistas recusam a interpretação e a abertura para a
realidade. Em alguns lugares, os grupos bíblicos que se fecharam em torno de si
mesmos e em torno da letra da Bíblia, tornaram-se os grupos mais conservadores
da paróquia. O próprio exegeta pode correr o perigo de fechar-se dentro do
estudo liberal e até progressista do texto bíblico.
2. Muitos movimentos se fecham no comunitário, no místico, no
carismático, e recusam a abertura para o político. Eles se abrem para o serviço
aos pobres (e muito), mas não numa linha de transformação e de libertação.
3. Existe o fechamento do lado oposto, embora com menor freqüência. A
comunidade alcança um grau de serviço mais comprometido e de consciência
política mais clara; percebe como o comunitário, o pessoal e o devocional podem
ser manipulados com relativa facilidade pela ideologia dominante, e conclui que
estas coisas não contribuem tanto para a transformação. Por isso, ela corre o
perigo de fechar-se no social, no político, no serviço ao povo.
Embora compreensíveis, fechamentos, assim, são trágicos, pois nenhum dos
três alcança o sentido sozinho. Para superar este perigo, é importante manter
um ambiente de diálogo, pois onde a palavra humana circula com liberdade e sem
censura, a palavra de Deus gera liberdade.
III
NOVIDADE E ALCANCE DA INTERPRETAÇÃO POPULAR
Dentro da interpretação que os pobres fazem da Bíblia existe uma
novidade de grande alcance para a vida das Igrejas. Novidade antiga que vem de
longe e que retoma alguns valores básicos da Tradição comum! Seguem aqui sete
pontos que procuram sinalizar o itinerário:
1. O objetivo da
interpretação já não é buscar informações sobre o passado, mas sim clarear o
presente com a luz da presença do Deus-conosco, Deus Libertador; é interpretar
a vida com a ajuda da Bíblia. Redescobre-se na prática a nova visão da
Revelação, descrita e definida pela DEI VERBUM.
2. O sujeito da
interpretação já não é o exegeta. Interpretar é uma atividade comunitária em
que todos participam, inclusive o exegeta que nela exerce um papel especial.
Por isso, é importante ter nos olhos não só a fé da comunidade, mas também
fazer parte efetiva de uma comunidade viva e buscar o sentido comum aceito por esta comunidade. Esta pertença efetiva
exerce uma influência crítica sobre a função da exegese científica que, assim,
se coloca mais a serviço.
3. O lugar social de
onde se faz a interpretação é a partir dos pobres, dos excluídos e dos
marginalizados. Isto modifica o olhar. Muitas vezes, por falta de uma
consciência social mais crítica, o intérprete é vítima de preconceitos
ideológicos e, sem se dar conta, usa a Bíblia para legitimar o sistema de
opressão que desumaniza.
5. Aqui aparece a diferença com a exegese européia. O problema maior
entre nós não é a fé que corre perigo por causa da secularização. Mas é a vida que corre o sério perigo
de ser eliminada e desumanizada. E o que é pior, a própria Bíblia corre perigo
de ser usada para legitimar esta situação em nome de Deus. Como no tempo dos
reis de Judá e de Israel, usa-se a Tradição para legitimar os ídolos. A
interpretação popular descobre, revela e denuncia esta manipulação.
6. O método e a dinâmica,
usados pelos pobres nas suas reuniões, são muito simples. Eles não costumam
usar uma linguagem discursiva, feita de argumentos e raciocínios. Preferem
contar fatos e usar comparações. É uma linguagem que funciona por associação de
idéias e cuja preocupação primeira não é fazer
saber, mas sim fazer descobrir.
7. Aparecem com maior clareza a função e os limites da Bíblia. Os limites são estes: a Bíblia não é
fim em si mesma, mas está a serviço da interpretação da vida; sozinha ela não
funciona e não consegue abrir os olhos, pois o que abre os olhos é a partilha
do pão, o gesto comunitário. A Bíblia deve ser interpretada dentro de um
processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade. A Bíblia é
como o coração: fora do corpo da comunidade e da vida do povo morre e faz
morrer!
IV
DESAFIOS QUE REVELAM O NOVO QUE ESTÁ CHEGANDO
A leitura feminista
questiona e relativiza a leitura masculinizada de séculos. Ela não pode ser
descartada como um fenômeno passageiro nem como uma das muitas curiosidades
exegéticas sem maiores conseqüências. Ela é uma das características mais
importantes que vem surgindo de dentro da leitura popular da Bíblia. O seu
alcance é muito maior do que poderia parecer à primeira vista. No Brasil ela
adquire uma importância maior ainda por causa da esmagadora maioria de mulheres
que participam ativamente nos grupos bíblicos e sustentam a luta do povo em
muitos lugares.
2. O Fundamentalismo que
avança
No encontro de duas
semanas, organizado pelo CESEP em Goiânia em janeiro de 1991, havia mais de 600
participantes, vindos das CEBs de quase todos os Estados do Brasil. Muitos
jovens! Nos três dias dedicados ao estudo da Bíblia, a linha da interpretação
era claramente libertadora. Nas conversas com os participantes, porém,
aparecia, várias vezes, uma atitude interpretativa diferente, em que se
misturava fundamentalismo com teologia da libertação. Sobretudo nos jovens!
Como explicar este fenômeno? Vem de onde? Do contato com a linha conservadora,
com a linha carismática, com os crentes?
Será que também não vem das deficiências da atitude libertadora frente à
Bíblia? Será que não vem de algo mais profundo ainda que está mudando no
subconsciente da humanidade? Pois, o perigo do fundamentalismo não existe só
nas igrejas cristãs, mas também nas outras religiões: judaica, muçulmana,
budista... Existem até formas de um fundamentalismo secularizado.
Em todo canto se ouve
e se sente o desejo de maior profundidade, de mística, de espiritualidade. A
Bíblia, de fato, pode ser uma resposta a este desejo, pois, a Palavra de Deus
tem duas dimensões fundamentais. De um lado, ela traz uma LUZ. Neste sentido,
ela pode contribuir para clarear as idéias, desmascarar as falsas ideologias e
comunicar uma consciência mais crítica. De outro lado, ela traz uma FORÇA.
Neste sentido, ela pode animar as pessoas, comunicar coragem, trazer alegria,
pois ela é força criadora que produz o novo,
gera o povo, cria os fatos, faz amar. Infelizmente, na prática pastoral, estes
dois aspectos da Palavra estão separados. De um lado, os movimentos
carismáticos; de outro lado, os movimentos de libertação. Os carismáticos têm
muita oração, mas muitas vezes carecem de visão crítica e tendem para uma
interpretação fundamentalista, moralizante e individualista da Bíblia. Por
isso, a sua oração, muitas vezes, carece de fundamento real no texto e na
realidade. Os movimentos de libertação, por sua vez, têm muita consciência
crítica, mas, às vezes, carecem de perseverança e de fé, quando se trata de
enfrentar situações humanas que, dentro da análise científica da realidade, em
nada contribuem para a transformação da sociedade. Às vezes, eles têm uma certa
dificuldade para enxergar a utilidade de longas horas gastas em oração sem
resultado imediato.
No mito do Tucuman,
que explica aos índios da região amazônica a origem do mal no mundo, o culpado
não é a mulher, mas sim o homem. Alguém perguntou: "Por que não usamos os
nossos mitos em vez dos mitos do povo hebreu?" Não houve resposta. A mesma
pergunta foi feita num curso bíblico na Bolívia em Maio de 1991. Os
participantes, quase todos Aymaras, perguntavam: "Por que usar só a
Bíblia? As nossas histórias não são mais bonitas, menos machistas e mais conhecidas?"
As religiões da Ásia, mais antigas que a nossa, levantam estas mesmas
perguntas, há vários anos. Qual o valor da nossa
história e da nossa cultura. Será que elas não poderiam
valer como o nosso Antigo Testamento,
onde estão escondidas as promessas
que Deus fez aos nossos antepassados
e onde existe a nossa lei como "nosso pedagogo para Jesus Cristo” (Gl
3,24)? O Evangelho não veio condenar o Antigo Testamento, mas sim completá-lo e
explicitar todo o seu significado (Mt 5,17). O Antigo Testamento do povo de
Israel é o cânon ou a norma inspirada que nos ajuda a perceber
e a revelar esta dimensão mais profunda da nossa cultura e história, do nosso
Antigo Testamento.
5. Necessidade de se criar
centros de estudos bíblicos na América Latina
A caminhada das
Comunidades avança e se aprofunda. Aos poucos, do coração desta prática popular
está surgindo uma nova atitude interpretativa que não é nova, mas muito antiga.
Ela tem necessidade de ser legitimada tanto a partir da Tradição das Igrejas
como a partir da pesquisa exegética. A leitura que se faz a partir dos pobres e
a partir da causa dos pobres tem suas exigências próprias. Na medida em que se
avança, cresce o desejo de maior aprofundamento científico. Há muitos
assessores bíblicos que gostariam de ter um conhecimento das línguas bíblicas;
gostariam de conhecer melhor o contexto econômico, político, social e
ideológico em que nasceu a Bíblia; gostariam de levar para dentro da Bíblia as
perguntas que hoje angustiam o povo na vivência da sua fé. Além disto, fala-se
muito em escassez do clero. Escassez maior e mais urgente é a de assessores e
assessoras bíblicos capazes de responder à demanda crescente de formação
bíblica e de fazer frente ao problema novo que está se criando por causa do
crescimento imenso do fundamentalismo (muito mais perigoso do que qualquer
outro - ismo). Além disso, a prática da leitura bíblica, feita nas Comunidades
Eclesiais de Base da América Latina, já adquiriu uma certa repercussão na
Igreja universal, pois está provocando discussões, reações e adesões em muitos
lugares. Isto se viu claramente no Encontro Mundial da FEBIC, realizado em
Bogotá em julho de 1990, e no Encontro Mundial da Igreja Luterana, realizado em
Curitiba em janeiro de 1990. Há muitos outros sinais do interesse que existe
nos outros Continentes pela leitura que se faz da Bíblia aqui na América
Latina. Por tudo isso, é importante que se comece a pensar seriamente na
criação de um centro de pesquisa e de formação bíblica que se oriente a partir
dos problemas reais que sentimos por aqui nas nossas comunidades.
* Carlos Mesters nasceu na
Holanda em 1931. Veio para o Brasil
em 1949. Entrou na Ordem Carmelitana em 1952. Estudou Bíblia em Roma e
Jerusalém. Voltou para o Brasil em 1963. Deu aula no seminário até 1971.
De lá para cá tem ajudado o povo na leitura da Bíblia.
** Francisco Rodrigues Orofino
nasceu em 1955. Estudou filosofia e teologia no Instituto Sagrado Coração de
Jesus dos franciscanos
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