CRITÉRIOS E MÉTODO DA LEITURA POPULAR DA BÍBLIA

Frei Carlos Mesters*

Francisco Orofino **

I

 

DEZ CARACTERÍSTICAS DA LEITURA POPULAR

1. A Bíblia é reconhecida e acolhida pelo povo como Palavra de Deus. Esta fé já existia antes da chegada do que se convencionou chamar leitura popular. É nesta raiz antiga que se enxerta todo o nosso trabalho com a Bíblia junto do povo. Sem esta fé, todo o método teria de ser diferente. “Não es tu que sustentas a raiz, mas a raiz sustenta a ti” (Rm 11,18).

2. Ao ler a Bíblia, o povo das Comunidades traz consigo a sua própria história e tem nos olhos os problemas que vem da realidade dura da sua vida. A Bíblia aparece como um espelho, "sím-bolo" (Hb 9,9; 11,19), daquilo que ele mesmo vive. Estabelece-se uma ligação profunda entre Bíblia e vida que, às vezes, pode dar a impressão de um concordismo superficial. Na realidade, é uma leitura de fé muito semelhante à que faziam as primeiras comunidades (cf. At 1,16-20; 2,29-35; 4,24-31) e os Santos Padres.

3. A partir desta ligação entre Bíblia e vida, os pobres fazem a descoberta, a maior de todas: "Se Deus esteve com aquele povo no passado, então Ele está também conosco nesta luta que fazemos para nos libertar. Ele escuta também o nosso clamor!" (cf. Ex 2,24;3,7). Nasce assim, imperceptivelmente, uma nova experiência de Deus e da vida que se torna o critério mais determinante da leitura popular e que menos aparece nas suas explicitações e interpretações. Pois o olhar não se enxerga a si mesmo.

4. Antes deste contato mais vivido com a Palavra de Deus, a Bíblia ficava longe. Era o livro dos “padres”, do clero. Mas agora ela chegou perto! O que era misterioso e inacessível, começou a fazer parte da vida quotidiana dos pobres. E junto com a sua Palavra, o próprio Deus chegou perto! “Vocês que antes estavam longe foram trazidos para perto!” (Ef 2,13) Difícil para um de nós avaliar a experiência de novidade e de gratuidade que isto representa para os pobres.

5. Assim, aos poucos, foi surgindo uma nova maneira de se olhar a Bíblia e a sua interpretação. Ela já não é vista como um livro estranho que pertence ao clero, mas sim como o nosso livro, "escrito para nós que tocamos o fim dos tempos" (1Cor 10,11). Às vezes, ela chega a ser o primeiro instrumento de uma análise mais crítica da realidade. Por exemplo, a respeito de uma empresa opressora do povo, o pessoal da comunidade dizia: "É o Golias que temos que enfrentar!"

6. Pouco a pouco, cresce a descoberta de que a Palavra de Deus não está só na Bíblia, mas também na vida, e de que o objetivo principal da leitura da Bíblia não é interpretar a Bíblia, mas sim interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. A Bíblia ajuda a descobrir que a Palavra de Deus, antes de ser lida na Bíblia, já existia na vida. As comunidades descobrem que a sua caminhada é bíblica. “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28,16)!

7. A Bíblia entra na vida do povo não pela porta da imposição autoritária, mas sim pela porta da experiência pessoal e comunitária. Ela se faz presente não como um livro que impõe uma doutrina de cima para baixo, mas como uma Boa Nova que revela a presença libertadora de Deus na vida e na luta do povo. Os que participam dos grupos bíblicos, eles mesmos se encarregam de divulgar esta Boa Notícia e atraem outras pessoas para participar. “Vinde ver um homem que me contou toda a minha vida!” (Jo 4,29).

8. Para que se produza esta ligação profunda entre Bíblia e vida, é importante: a) Ter nos olhos as perguntas reais que vêm da realidade, e não perguntas artificiais que nada têm a ver com a vida do povo. Aqui aparece como é importante o intérprete ter convivência e experiência pastoral inserida no meio do povo. b) Descobrir que se pisa o mesmo chão, ontem e hoje. Aqui aparece a importância do uso da ciência e do bom senso, tanto na análise crítica da realidade de hoje como no estudo do texto e do seu contexto social. c) Ter uma visão global da Bíblia que envolva os próprios leitores e leitoras, e que esteja ligada com a situação concreta das suas vidas hoje.

9. A interpretação que o povo faz da Bíblia é uma atividade envolvente que compreende não só a contribuição intelectual do exegeta, mas também todo o processo de participação da Comunidade: trabalho e estudo de grupo, leitura pessoal e comunitária, teatro, celebrações, orações, recreios, “enfim, tudo que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer maneira merece louvor” (Fl 4,8). Aqui aparecem a riqueza da criatividade popular e a amplidão das intuições que vão nascendo.

10. Para uma boa interpretação, é muito importante o ambiente de fé e de fraternidade, através de cantos, orações e celebrações. Sem este contexto do Espírito, não se chega a descobrir o sentido que o texto tem para nós hoje. Pois o sentido da Bíblia não é só uma idéia ou uma mensagem que se capta com a razão e se objetiva através de raciocínios; é também um sentir, um conforto que é sentido com o coração, “para que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15,4).

Convém não esquecer que tudo isto, de que estamos falando, se refere apenas às Comunidades Eclesiais de Base, que são uma pequena minoria. A grande maioria tem outro jeito de olhar a Bíblia, menos libertador e mais fundamentalista.

II

A DINÂMICA INTERNA DO PROCESSO DA INTERPRETAÇÃO

                  1. TRÊS FATORES

Muitos fatores contribuíram para que se chegasse a este tipo de leitura da Bíblia aqui na América Latina. O mais importante de todos, que nunca foi pego em flagrante, embora atue em todos os outros fatores, é a ação do Espírito Santo. Ele atua nesta realidade e a conduz. Ouvir o que o Espírito diz às Igrejas! Destacamos três deles que não podem ser ignorados para se entender a atual conjuntura.

1. O Trabalho da JOC: uma nova maneira de ver a revelação

              O método Ver, Julgar, Agir trouxe, aos poucos, uma nova maneira de se considerar e experimentar a ação reveladora de Deus dentro da história. Antes de se procurar saber o que Deus fala, procura-se ver a situação do povo, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos bíblicos, procura-se julgar esta situação. Isto faz com que, aos poucos, a fala de Deus não vem da Bíblia, mas vem dos fatos iluminados pela Bíblia. E são eles que levam a agir de maneira nova. É o método de ver-julgar-agir.

2. O Concílio Vaticano II e o Documento Dei Verbum

              O Documento Dei Verbum consagrou para a Igreja toda esta nova maneira de ver a ação reveladora de Deus. Deus fala hoje através dos fatos e das pessoas. Nós conseguimos descobrir sua fala com a ajuda da Palavra escrita de Deus que nos traz como norma ou cânon a história vivida do povo de Israel.

3. O golpe militar e a crise do vanguardismo

              A situação do povo era de abandono. Em 1964, o golpe militar mostrou que o trabalho de conscientização era imperfeito. O vanguardismo levou um choque. Percebeu-se a necessidade de um trabalho muito mais capilar e paciente junto do povo, respeitando mais a sua cultura e as sua caminhada. A Igreja era o único lugar onde se podia ainda trabalhar com liberdade ser vítima da repressão política. A par­tir de 1968, começou um trabalho de base e surgiram em todo canto as comunidades. O povo começou a ler a Bíblia.

Assim, a partir dos anos 60, diante da necessidade de um trabalho mais respeitoso no meio dos pobres, surgiram as Comunidades Eclesiais de Base e, nas comunidades, em todo canto, foram surgindo os Círculos Bíblicos, grupos de reflexão, grupos do evangelho, celebrações da Palavra.

Os Círculos Bíblicos se inspiram no método Ver-Julgar-Agir, usado pelos grupos da Ação Católica. Este método tinha trazido uma nova maneira de se considerar a ação reveladora de Deus. Antes de procurar saber o que Deus falou no passado, ele procura Ver a situação do povo hoje, os seus problemas. Em seguida, com a ajuda de textos da Bíblia, procura Julgar esta situação. Isto faz com que, aos poucos, a fala de Deus já não vem só da Bíblia, mas também dos próprios fatos iluminados pela Bíblia. E são eles, os fatos, que assim se tornam os transmissores da Palavra de Deus e que levam a Agir de maneira nova.

Os Círculos Bíblicos tiveram uma expansão muito rápida, sinal de que estavam respondendo a uma exigência real. Ninguém sabe quantos são atualmente. Só mesmo o Espírito Santo. Eles foram e continuam sendo a raiz de um novo modo de ser igreja. O seu método imita de perto os passos sugeridos por Lucas no episódio de Emaús, onde o próprio Jesus interpreta a Escritura para os discípulos: (1) Jesus parte da realidade, pois quer saber de que estão falando (Lc 24,13-24). (2) Usa a Bíblia para iluminar o problema dos amigos (Lc 24,25-27) e (3) convida-os a celebrar e partilhar o pão (Lc 24,28-32). (4) Quando, ao experimentarem a presença viva de Jesus, os olhos dos discípulos se abrem, eles mesmos ressuscitam, voltam para Jerusalém e partilham com os outros a sua experiência de ressurreição, como até hoje acontece nos encontros comunitários.

                  2. TRÊS ETAPAS

No decorrer deste processo histórico dos últimos quarenta anos, foram aparecendo três objetivos na atitude do povo frente à Bíblia: vontade de conhecer a Bíblia; desejo de reunir e celebrar a Palavra; decisão de servir ao povo e transformar a situação. Estes três objetivos estão presentes e, às vezes, conflitantes, na leitura popular.

1. Conhecer a Bíblia

As novas descobertas da exegese abriram uma nova janela sobre o texto bíblico e o contexto da sua origem. Na Igreja Católica, o documento conciliar Dei Verbum e as Assembléias Episcopais de Medellin e Puebla fizeram crescer o interesse pela Bíblia. A vontade de conhecer a Bíblia estimulou muita gente a uma leitura mais freqüente.

Através de vários canais, a Bíblia foi chegando mais perto do povo. Entre muitos outros, destacamos: (1) A renovação litúrgica que divulgou o uso da Bíblia na linguagem popular. (2) O trabalho pioneiro de frei João José Pedreira de Castro, OFM., que nos anos 50 traduziu a Bíblia de Maredsous, hoje com mais de 150 edições sucessivas. (3) O trabalho da antiga LEB, Liga dos Estudos Bíblicos, cujos membros fizeram uma tradução diretamente dos textos originais e incentivaram, em todo canto, cursos e semanas bíblicas. (4) Iniciativas como o Mês da Bíblia (mais de 25 anos consecutivos) e o Movimento da Boa Nova (MOBON) (inicialmente apologético, mas hoje um movimento de evangelização libertadora com milhares de grupos). (5) O vigor missionário das igrejas evangélicas contribuiu para criar nos católicos um interesse maior pela Bíblia.

2. Reunir e celebrar em Comunidade

Na medida em que a Palavra começava a ser conhecida, ela produzia os seus frutos. O primeiro fruto foi aglutinar as pessoas e criar comunidade. Semanas bíblicas, cursos, círculos Bíblicos, encontros, mês da Bíblia: tudo isto produziu um fervilhar comunitário que aglutinava as pessoas em torno da Palavra de Deus. Assim, surgem as Comunidades Eclesiais de Base e os Encontros Intereclesiais das Comunidades, que foram acontecendo periodicamente e que, no ano 2000, celebraram o décimo Intereclesial em Porto Seguro, Bahia e que, em 2005 (19 a 23 de julho), estarão se congregando para o XI Intereclesial, em Minas Gerais, na Diocese de Itabira.

3. Servir ao povo e transformar a situação

Sobretudo a partir de 1968, foi dado um passo a mais. O conhecimento da Bíblia e a preocupação comunitária encontraram o seu objetivo no serviço ao povo. Não tendo dinheiro nem tempo para ler os livros sobre a Bíblia, os pobres nas suas comunidades, lendo a Bíblia a partir do único critério de que dispunham, a saber, a sua vida de fé e a sua situação de povo oprimido, iam descobrindo o óbvio que não conheciam: uma história de opressão igual à que eles mesmos estavam sofrendo, uma história de luta pelos mesmos valores que eles perseguem até hoje: terra, justiça, partilha, fraternidade, vida de gente. É o período em que se acentua a dimensão política da fé. É neste mesmo período dos anos 70 que surge o CEBI, o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos para a Pastoral Popular, que procura divulgar e legitimar esta leitura popular da Bíblia.

Por abrirem o seu espaço para este trabalho de conscientização em favor dos valores evangélicos da justiça, da liberdade e da fraternidade, as igrejas sofreram e foram vítimas da repressão política. Aqui devem ser lembrados os mártires, essa “nuvem de testemunhas ao nosso redor” (Hb 12,1). Como a carta aos Hebreus, (Hb 11,1-40), a Agenda Latino Americana, cada ano de novo, faz a memória dos milhares de mártires latino-americanos, homens e mulheres, católicos e evangélicos, leigos e religiosos, conhecidos e anônimos. Muitos deles, motivados e sustentados pela leitura orante da Palavra de Deus, deram a sua vida pela causa da liberdade, da justiça e da fraternidade.

                  3. A DINÂMICA INTERNA

Estas três etapas são como que três aspectos ou três objetivos de uma e mesma atitude interpretativa frente à Bíblia. Entre eles existe uma dinâmica interna que marca o processo da interpretação popular: conhecer a Bíblia leva a conviver em comunidade; conviver em comunidade leva a servir ao povo; servir ao povo, por sua vez, leva a desejar um conhecimento mais aprofundado do contexto de origem da Bíblia, e assim por diante. É uma dinâmica que não termina nunca. Estes três aspectos: um nasce do outro, supõe o outro e leva ao outro.

Não importa tanto a partir de qual dos três aspectos se inicia o processo da interpretação. Isto depende da situação, da história, da cultura e dos interesses da comunidade ou do grupo. O que importa é perceber que um aspecto fica incompleto sem os outros dois.

Geralmente, em todas as comunidades, há pessoas que se identificam com um destes três aspectos: 1. pessoas que querem conhecer a Bíblia e que se interessam mais pelo estudo; 2. pessoas que insistem mais na comunidade e nas suas funções internas; 3. pessoas mais preocupadas em servir ao povo e em dar a sua contribuição na política e nos movimentos populares.

Tudo isto produz tensões entre os vários grupos e interesses. Estas tensões são saudáveis e fecundas. Por exemplo, em alguns lugares, a prática política mais intensa dos últimos anos está pedindo, agora, um conhecimento mais aprofundado do texto bíblico e uma vivência comunitária mais intensa da espiritualidade da libertação. Em outros lugares, a vivência comunitária chegou no seu limite e está pedindo uma ação mais engajada nos movimentos populares. Com outras palavras, as tensões ajudam a criar um equilíbrio que favorece a interpretação da Bíblia, e impedem que ela se torne unilateral.

Às vezes, porém, estas tensões são negativas e levam cada um dos três aspectos a se fechar sobre si mesmo e a excluir os outros dois. O itinerário da interpretação popular, muitas vezes, é tenso e conflituoso, com risco de fechamento e de retrocesso.

                  4. PERIGOS DE FECHAMENTO

Quando a comunidade alcança o objetivo de um destes três aspectos (conhecer, conviver ou servir), alguns membros, por fidelidade à palavra, querem avançar e dar um passo adiante, e outros, em nome desta mesma fidelidade, recusam a abertura. É o momento da crise e é também da graça. Nem sempre vence o grupo que quer avançar.

1. Todos os movimentos pastorais usam a Bíblia e nele se apóiam. Em nome da Bíblia, os fundamentalistas recusam a interpretação e a abertura para a realidade. Em alguns lugares, os grupos bíblicos que se fecharam em torno de si mesmos e em torno da letra da Bíblia, tornaram-se os grupos mais conservadores da paróquia. O próprio exegeta pode correr o perigo de fechar-se dentro do estudo liberal e até progressista do texto bíblico.

2. Muitos movimentos se fecham no comunitário, no místico, no carismático, e recusam a abertura para o político. Eles se abrem para o serviço aos pobres (e muito), mas não numa linha de transformação e de libertação.

3. Existe o fechamento do lado oposto, embora com menor freqüência. A comunidade alcança um grau de serviço mais comprometido e de consciência política mais clara; percebe como o comunitário, o pessoal e o devocional podem ser manipulados com relativa facilidade pela ideologia dominante, e conclui que estas coisas não contribuem tanto para a transformação. Por isso, ela corre o perigo de fechar-se no social, no político, no serviço ao povo.

Embora compreensíveis, fechamentos, assim, são trágicos, pois nenhum dos três alcança o sentido sozinho. Para superar este perigo, é importante manter um ambiente de diálogo, pois onde a palavra humana circula com liberdade e sem censura, a palavra de Deus gera liberdade.

III

 

NOVIDADE E ALCANCE DA INTERPRETAÇÃO POPULAR

Dentro da interpretação que os pobres fazem da Bíblia existe uma novidade de grande alcance para a vida das Igrejas. Novidade antiga que vem de longe e que retoma alguns valores básicos da Tradição comum! Seguem aqui sete pontos que procuram sinalizar o itinerário:

1. O objetivo da interpretação já não é buscar informações sobre o passado, mas sim clarear o presente com a luz da presença do Deus-conosco, Deus Libertador; é interpretar a vida com a ajuda da Bíblia. Redescobre-se na prática a nova visão da Revelação, descrita e definida pela DEI VERBUM.

2. O sujeito da interpretação já não é o exegeta. Interpretar é uma atividade comunitária em que todos participam, inclusive o exegeta que nela exerce um papel especial. Por isso, é importante ter nos olhos não só a fé da comunidade, mas também fazer parte efetiva de uma comunidade viva e buscar o sentido comum aceito por esta comunidade. Esta pertença efetiva exerce uma influência crítica sobre a função da exegese científica que, assim, se coloca mais a serviço.

3. O lugar social de onde se faz a interpretação é a partir dos pobres, dos excluídos e dos marginalizados. Isto modifica o olhar. Muitas vezes, por falta de uma consciência social mais crítica, o intérprete é vítima de preconceitos ideológicos e, sem se dar conta, usa a Bíblia para legitimar o sistema de opressão que desumaniza.

4. A leitura que relaciona a Bíblia com a vida é ecumênica e libertadora. Leitura ecumênica não quer dizer que católicos e protestantes discutem as suas divergências para chegar a uma conclusão comum. Isto pode ser uma conseqüência. O mais ecumênico que temos é a vida que Deus nos deu. Aqui na América Latina, a vida de grande parte da população corre perigo, pois já não é vida. Leitura ecumênica é interpretar a Bíblia em defesa da vida e não em defesa das nossas instituições e confissões. Ora, na atual situação em que vive o povo da América Latina, uma leitura em defesa da vida, necessariamente deve ser libertadora. Por isso mesmo, ela é conflitiva. Tornou-se sinal de contradição.

5. Aqui aparece a diferença com a exegese européia. O problema maior entre nós não é a fé que corre perigo por causa da secularização. Mas é a vida que corre o sério perigo de ser eliminada e desumanizada. E o que é pior, a própria Bíblia corre perigo de ser usada para legitimar esta situação em nome de Deus. Como no tempo dos reis de Judá e de Israel, usa-se a Tradição para legitimar os ídolos. A interpretação popular descobre, revela e denuncia esta manipulação.

6. O método e a dinâmica, usados pelos pobres nas suas reuniões, são muito simples. Eles não costumam usar uma linguagem discursiva, feita de argumentos e raciocínios. Preferem contar fatos e usar comparações. É uma linguagem que funciona por associação de idéias e cuja preocupação primeira não é fazer saber, mas sim fazer descobrir.

7. Aparecem com maior clareza a função e os limites da Bíblia. Os limites são estes: a Bíblia não é fim em si mesma, mas está a serviço da interpretação da vida; sozinha ela não funciona e não consegue abrir os olhos, pois o que abre os olhos é a partilha do pão, o gesto comunitário. A Bíblia deve ser interpretada dentro de um processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade. A Bíblia é como o coração: fora do corpo da comunidade e da vida do povo morre e faz morrer!

IV

 

DESAFIOS QUE REVELAM O NOVO QUE ESTÁ CHEGANDO

1. A Leitura de gênero

              A leitura feminista questiona e relativiza a leitura masculinizada de séculos. Ela não pode ser descartada como um fenômeno passageiro nem como uma das muitas curiosidades exegéticas sem maiores conseqüências. Ela é uma das características mais importantes que vem surgindo de dentro da leitura popular da Bíblia. O seu alcance é muito maior do que poderia parecer à primeira vista. No Brasil ela adquire uma importância maior ainda por causa da esmagadora maioria de mulheres que participam ativamente nos grupos bíblicos e sustentam a luta do povo em muitos lugares.

2. O Fundamentalismo que avança

              No encontro de duas semanas, organizado pelo CESEP em Goiânia em janeiro de 1991, havia mais de 600 participantes, vindos das CEBs de quase todos os Estados do Brasil. Muitos jovens! Nos três dias dedicados ao estudo da Bíblia, a linha da interpretação era claramente libertadora. Nas conversas com os participantes, porém, aparecia, várias vezes, uma atitude interpretativa diferente, em que se misturava fundamentalismo com teologia da libertação. Sobretudo nos jovens! Como explicar este fenômeno? Vem de onde? Do contato com a linha conservadora, com a linha carismática, com os crentes? Será que também não vem das deficiências da atitude libertadora frente à Bíblia? Será que não vem de algo mais profundo ainda que está mudando no subconsciente da humanidade? Pois, o perigo do fundamentalismo não existe só nas igrejas cristãs, mas também nas outras religiões: judaica, muçulmana, budista... Existem até formas de um fundamentalismo secularizado.

3. A busca de Espiritualidade e o nosso método de interpretação

              Em todo canto se ouve e se sente o desejo de maior profundidade, de mística, de espiritualidade. A Bíblia, de fato, pode ser uma resposta a este desejo, pois, a Palavra de Deus tem duas dimensões fundamentais. De um lado, ela traz uma LUZ. Neste sentido, ela pode contribuir para clarear as idéias, desmascarar as falsas ideologias e comunicar uma consciência mais crítica. De outro lado, ela traz uma FORÇA. Neste sentido, ela pode animar as pessoas, comunicar coragem, trazer alegria, pois ela é força criadora que produz o novo, gera o povo, cria os fatos, faz amar. Infelizmente, na prática pastoral, estes dois aspectos da Palavra estão separados. De um lado, os movimentos carismáticos; de outro lado, os movimentos de libertação. Os carismáticos têm muita oração, mas muitas vezes carecem de visão crítica e tendem para uma interpretação fundamentalista, moralizante e individualista da Bíblia. Por isso, a sua oração, muitas vezes, carece de fundamento real no texto e na realidade. Os movimentos de libertação, por sua vez, têm muita consciência crítica, mas, às vezes, carecem de perseverança e de fé, quando se trata de enfrentar situações humanas que, dentro da análise científica da realidade, em nada contribuem para a transformação da sociedade. Às vezes, eles têm uma certa dificuldade para enxergar a utilidade de longas horas gastas em oração sem resultado imediato.

4. A cultura dos nossos povos e o Antigo Testamento

              No mito do Tucuman, que explica aos índios da região amazônica a origem do mal no mundo, o culpado não é a mulher, mas sim o homem. Alguém perguntou: "Por que não usamos os nossos mitos em vez dos mitos do povo hebreu?" Não houve resposta. A mesma pergunta foi feita num curso bíblico na Bolívia em Maio de 1991. Os participantes, quase todos Aymaras, perguntavam: "Por que usar só a Bíblia? As nossas histórias não são mais bonitas, menos machistas e mais conhecidas?" As religiões da Ásia, mais antigas que a nossa, levantam estas mesmas perguntas, há vários anos. Qual o valor da nossa história e da nossa cultura. Será que elas não poderiam valer como o nosso Antigo Testamento, onde estão escondidas as promessas que Deus fez aos nossos antepassados e onde existe a nossa lei como "nosso pedagogo para Jesus Cristo” (Gl 3,24)? O Evangelho não veio condenar o Antigo Testamento, mas sim completá-lo e explicitar todo o seu significado (Mt 5,17). O Antigo Testamento do povo de Israel é o cânon ou a norma inspirada que nos ajuda a perceber e a revelar esta dimensão mais profunda da nossa cultura e história, do nosso Antigo Testamento.

5. Necessidade de se criar centros de estudos bíblicos na América Latina

              A caminhada das Comunidades avança e se aprofunda. Aos poucos, do coração desta prática popular está surgindo uma nova atitude interpretativa que não é nova, mas muito antiga. Ela tem necessidade de ser legitimada tanto a partir da Tradição das Igrejas como a partir da pesquisa exegética. A leitura que se faz a partir dos pobres e a partir da causa dos pobres tem suas exigências próprias. Na medida em que se avança, cresce o desejo de maior aprofundamento científico. Há muitos assessores bíblicos que gostariam de ter um conhecimento das línguas bíblicas; gostariam de conhecer melhor o contexto econômico, político, social e ideológico em que nasceu a Bíblia; gostariam de levar para dentro da Bíblia as perguntas que hoje angustiam o povo na vivência da sua fé. Além disto, fala-se muito em escassez do clero. Escassez maior e mais urgente é a de assessores e assessoras bíblicos capazes de responder à demanda crescente de formação bíblica e de fazer frente ao problema novo que está se criando por causa do crescimento imenso do fundamentalismo (muito mais perigoso do que qualquer outro - ismo). Além disso, a prática da leitura bíblica, feita nas Comunidades Eclesiais de Base da América Latina, já adquiriu uma certa repercussão na Igreja universal, pois está provocando discussões, reações e adesões em muitos lugares. Isto se viu claramente no Encontro Mundial da FEBIC, realizado em Bogotá em julho de 1990, e no Encontro Mundial da Igreja Luterana, realizado em Curitiba em janeiro de 1990. Há muitos outros sinais do interesse que existe nos outros Continentes pela leitura que se faz da Bíblia aqui na América Latina. Por tudo isso, é importante que se comece a pensar seriamente na criação de um centro de pesquisa e de formação bíblica que se oriente a partir dos problemas reais que sentimos por aqui nas nossas comunidades.

 

 

 



* Carlos Mesters nasceu na Holanda em 1931. Veio para o Brasil em 1949. Entrou na Ordem Carmelitana em 1952. Estudou Bíblia em Roma e Jerusalém. Voltou para o Brasil em 1963. Deu aula no seminário até 1971. De lá para cá tem ajudado o povo na leitura da Bíblia. 

 

** Francisco Rodrigues Orofino nasceu em 1955. Estudou filosofia e teologia no Instituto Sagrado Coração de Jesus dos franciscanos em Petrópolis. Especializou-se em Bíblia e faz, junto com Carlos Mesters, parte do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), entidade ecumênica criada em 1977 para aprofundar, articular e intensificar a leitura da Bíblia que o povo já fazia nas comunidades. É professor de Bíblia no Seminário Diocesano Paulo VI de Nova Iguaçu e membro do ISER-Assessoria.