A Profecia na Bíblia
Fonte inspiradora da Vida Religiosa
Introdução
Frei Carlos Mesters,
O. Carm.
Foi me pedido
fazer uma reflexão sobre a Profecia na Bíblia e apresentá-la de tal maneira que
possa ser fonte de inspiração para a Vida Religiosa hoje. Por isso, vou falar
da Bíblia. Mas a maneira de apresentá-la será como olhar num espelho, onde se
reflete o que acontece hoje.
Vou partir de três
observações iniciais para abrir a porta que nos leva para dentro do assunto.
1. Na Bíblia a palavra “Profeta” não tem um sentido bem
definido
Quando hoje
ouvimos a palavra “profeta”, vêm em mente as figuras de Elias, Isaías, Jeremias
e outros. Mas foi só aos poucos, através de demorado discernimento, que se
chegou a esta imagem clara e definida que nos permite distinguir os profetas
verdadeiros dos falsos. Na época dos acontecimentos, as coisas não eram tão
claras assim. O povo ficava confuso sem saber bem quem era e quem não era
profeta de verdade (Jr 27,9-10; 29,8; 2Cr 18,1-22).
A variedade de
profetas era grande. Havia profetas e profetisas. Havia os grupos religiosos de
profetas populares do tempo de Samuel (1Sm 10,10) e de Elias (2Rs 2,3.5). Havia
os que apoiavam a monarquia (2Sm 7,4-16; Jr 28,1-4), enquanto outros a
criticavam (1Rs 18,16-18; 21,17-24). Havia profetas que diziam: “Eu não sou
profeta!” (Am 7,14; Zc 13,5), e que criticavam os profetas, culpando-os pelo
desastre nacional da destruição de Jerusalém (Jr 23,33-40; Ez 13,1-13.16; Zc
13,2-6). Havia profetas que apoiavam o culto e estimulavam a reconstrução do
templo (Ag 1,2-11), e outros que criticavam o Templo e condenavam o culto (Jr
7,1-15; Am 5,21-25; Is 1,10-15). Algumas vezes, se faz a distinção entre profetas e videntes (1Sm 9,9), outras vezes o profeta é chamado “homem de
Deus” (1Sam 9,6.9.11; 1Rs 17,24; 2Rs 1,9.11). O que há de comum a todos, é que
eles aparecem como pessoas ligadas à divindade. Por isso mesmo, havia tanta
confusão, pois as divindades eram muitas. E igualmente variadas eram as imagens
de se representar Javé, o Deus do povo.
A palavra profeta vem do grego e significa,
literalmente, “falar” (fèmi) em nome de “pro” (pro). O profeta é alguém que não
fala em nome próprio, mas em nome de um outro que o enviou. É porta-voz. Assim,
Aarão era profeta (porta-voz) de
Moisés (Ex 7,1). Havia os profetas de Javé (1Rs 18,4) e os de Baal (1Rs 18,19).
Ambos se diziam enviados por Deus. Havia os que diziam falar em nome de Deus,
mas falavam em nome próprio (Jr 23,30-32). Para ser “pro-feta”, a pessoa deve
ter uma ligação íntima com aquele em nome do qual fala e que o envia.
Desde o início da
monarquia (
Durante os 400
anos do período dos reis, eles tiveram seus profetas. Durante mais de 500 anos,
desde o exílio até João Batista, ficaram quase sem profetas e viviam à espera
de algum profeta que lhes explicasse as coisas (cf. 1Mc 4,46 14,41). Esta era a
impressão do povo na época.
A
linha divisória foi o avanço do império internacional da Babilônia que levou à
destruição de Jerusalém no século VI antes de Cristo. Os três grandes sinais ou
“sacramentos” que,
até àquele momento, tinham sido a garantia visível da presença de Deus no meio
do povo, foram destruídos! O Templo,
morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16),
já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido
garantida para sempre (Gen 13,15),
passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).
O império destruiu o sistema
socio-político das pequenas monarquias do Médio Oriente. Ciro, o rei da Pérsia,
parecia ser uma alternativa, mas não deu certo. Todos ficaram sob o domínio do
poder estrangeiro. Já não eram Estado nem Nação, mas apenas comunidades
étnicas, dispersas num império multi-cultural e multi-racial, sem independência política,
sem exército, sem rei. Nesta situação, era impossível imaginar que alguém das
aldeias da Palestina pudesse atuar como profeta ou profetisa no estilo antigo de Amós ou Miquéias. Um
camponês da Palestina já não teria nenhuma possibilidade de cobrar a
observância da Lei de Deus, seja do imperador da Babilônia ou da Pérsia, seja
dos governantes helenistas ou romanos. O império tinha outros deuses e outras
leis!
Ora,
foi precisamente neste período sem
profetas, que a profecia
encontrou novas formas de expressão. É esta nova profecia que vamos olhar mais
de perto, para que ela nos ajude a perceber melhor a profecia que já atua no
meio de nós, tantos nas comunidades eclesiais como na Vida Religiosa.
Antigamente, nos anos 60 e 70, quando os bispos da América Latina
reuniam em assembléia, toda a imprensa acompanhava o evento. Na conferência de
Medellín foi grande a animação. O contexto do mundo, 1968, era marcado pelo
vento renovador do Concílio Vaticano II, pela revolução mundial da juventude,
pelo ambiente da guerra fria, pelas ditaduras na América Latina. As palavras
dos bispos tinham peso, alcançavam os meios de comunicação e despertaram um
movimento popular muito importante para a história dos nossos povos. A
conferência de Medellín, releitura latino-americana do Vaticano II, confirmou e
irradiou a teologia da libertação e tornou-se fonte animadora das Comunidades
Eclesiais de Base e da leitura popular da Bíblia. Puebla foi a confirmação e o
aprofundamento da caminhada. Foi uma época bonita e promissora. Profética!
Hoje, a situação é outra. Quando os bispos reúnem, a imprensa quase não
fala. Já não somos notícia. Muitos dos que lutaram nos anos 60 e 70, hoje estão
cansados e frustrados. Não é que perderam a fé, mas já não sabem como enfrentar
o mundo novo com a fé antiga. O mundo mudou muito. Nós todos mudamos. Cresce a
secularização. É difícil
imaginar que uma comunidade de base do interior do Brasil possa enfrentar o FMI
para cobrar dele a observância do Evangelho. O império neoliberal tem outros
deuses e outras leis! Alguns chegam a dizer que a
teologia da libertação e as comunidades eclesiais de base já pertencem ao
passado.
A linha divisória foi o avanço do império
neoliberal
após a queda do muro de Berlim. A alternativa socialista
que parecia dar certo desintegrou-se e por ora não apareceu outra. Em muitos
países, as eleições parecem um pêndulo: quando a direita não agrada, passa-se
para a esquerda, e onde a esquerda não agradou passou-se para a direita. Não há
um rumo claro que aponta para o futuro. Perigos novos aparecem no horizonte: ameaça
ecológica e atômica, doenças novas, injusta distribuição da riqueza, violência
galopante, ameaça de guerra religiosa em nível mundial, etc. Mudanças profundas
em todos os níveis da vida questionam os valores tradicionais.
Desesperadoramente, a humanidade busca uma saída, suspirando por alguma
profecia que lhe indique o caminho. Enquanto isso, a igreja está cada vez mais
voltada sobre si mesma e seus problemas internos, mais clerical, menos
envolvida nas lutas populares. Menos profética!
Neste tempo sem
profetas, será que também entre nós o espírito profético está suscitando novas
formas de profecia? Isaías respondia aos que ainda não as enxergavam: “Estou
fazendo coisas novas! Não estão vendo?” (Is 43,19) O que será que Isaías estava
vendo que os outros não enxergavam? Quem caça águias não vê a borboleta
(farfalla, mariposa)! Jesus criticou os fariseus por não
prestarem atenção aos Sinais dos Tempos (Mt 16,1-3).
I
A NOVA PROFECIA DURANTE O CATIVEIRO
O trauma da ausência de
Deus e a busca de novos caminhos
O cativeiro
destruiu o quadro das referências religiosas que tinham orientado o povo de
Deus até àquele momento. Perdido, sem rumo, o povo procurava uma saída que lhe
desse segurança e esperança. O que mais pesava era o sentimento do abandono, misturado com um
complexo de culpa (Is 40,27; 49,14; Lam 1,8.14). Eles pensavam que, por causa
da sua infidelidade, Deus tivesse mudado de atitude e os tivesse rejeitado para sempre (Sl
77,8-11; 79,5). Ele já não estaria escutando o grito do povo (Lam 3,8; Sl 22,2-3).
O texto da terceira Lamentação retrata bem esse sentimento de desespero:
"Eu sou o homem que conheceu a dor de
perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas
trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo.
Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno
e amargura, me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados há muito
tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou
gritar de nada vale, ele está surdo à minha súplica. ....
Fugiu a paz do meu espírito, a felicidade acabou. Eu digo:
"Acabaram-se minhas forças e minha esperança em Javé" (Lam 3,1-8.17-18).
A imagem de Deus que transparece nas
entrelinhas deste lamento é a de um carrasco que só quer vingar e machucar.
Trágica experiência! Fonte de desespero! De uma experiência de Deus assim não
nasce profecia que possa dar esperança ao povo. Como redescobrir a presença
amorosa de Deus na vida? Antigamente, profetas como Samuel e Moisés falavam com
Deus e Ele respondia (Sl 99,6). Onde está Deus agora? (Sl 42,4.11; 115,2;
79,10; Mi 7,10). Como sair
desta situação? Eram estas as perguntas que agitavam as consciências e as
conversas de muita gente.
Apareceram várias respostas. Inicialmente,
não eram respostas distintas, separadas umas das outras, mas sim opiniões e
tendências diferentes, misturadas entre si, tanto na vida das pessoas, como dos
grupos, sem muita clareza, num ambiente de busca e desencontro. Exatamente como
hoje! As diversas respostas podem ser classificadas em quatro direções:
A maioria dos
exilados acomodou-se e começou a freqüentar a religião da Babilônia com
suas procissões grandiosas e imagens majestosas. Adotaram os ídolos e o jeito de viver dos
grandes. Este
grupo parece ter sido o mais numeroso. A maioria silenciosa! Pois, o que mais
transparece nos escritos daquela época é a denúncia do perigo dos ídolos da
Babilônia (Is 44,9-20; Ba 6,1-72; Sl 115,4-8). Hoje também, a maioria
silenciosa busca o caminho mais cômodo do consumismo, a nova religião do
império neoliberal com seus templos grandiosos.
2. Zorobabel e Josué: queriam reeditar o
passado, mas foram impedidos
Para outros, o fato
de estar fora da própria terra era o mesmo que estar longe de Deus! Eles
consideravam a época dos Reis como o modelo a ser imitado. Deste grupo eram
Zorobabel, Josué, Ageu e outros. Eles voltaram para Palestina, quando Ciro permitiu o retorno (Esd 1,2-4). Queriam a todo
custo reconstruir o templo, restaurar a monarquia e recuperar a independência
política. Queriam reconstruir
o passado, mas não tiveram
futuro. O império o impediu. Hoje, alguns sonham com o retorno da cristandade.
3. Neemias e Esdras: adaptaram o modelo
antigo à nova situação
Durante e
sobretudo depois do cativeiro, surgiu um outro grupo liderado por Neemias,
Esdras e uma parte da elite pensante. Eles achavam que, em nome de Deus, deviam
aceitar o jugo do rei estrangeiro, rezar por ele e colaborar com ele (Jer
27,6-8.12.17; 42,10-11). Ao mesmo tempo, queriam manter a consciência de serem
o povo eleito de Deus, distinto e separado dos outros povos. Por isso, insistiam na observância da lei de Deus (Esd
7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça que proibia o contato com os
outros povos (Esd 9,1-2). E para que todos os judeus, dispersos no império
persa, se unissem neste esforço de serem a raça escolhida de Deus, criaram um
movimento internacional, transformando Jerusalém em símbolo de unidade para todos (Ne 2,5). O projeto
de Neemias e Esdras levou vantagem sobre os outros e tornou-se hegemônico.
Hoje, a relação igreja-estado muitas vezes tem características semelhantes: de
um lado, abertura frente o poder civil para conseguir favores para a Igreja e,
de outro lado, insistência no direito de a Igreja poder viver sua fé
publicamente com total liberdade.
4. Discípulos Isaías: encontram uma saída,
mas não foram reconhecidos
Um outro grupo achava que a
solução não era voltar ao passado nem acomodar-se no presente, nem adaptar-se
às exigências do império, mas sim aprender a ler com outros olhos a nova
situação em que se encontravam. Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos
quer ensinar por meio deste fato tão trágico do cativeiro?” Eles procuravam
voltar às origens do povo. Reliam as histórias do passado para encontrar nelas
uma
luz que os ajudasse a redescobrir a presença de Deus naquela terrível ausência
ou secularização da vida. Deste grupo
eram Jeremias e os discípulos e discípulas de Isaías, cuja experiência,
registrada em Isaías
Primeiras luzes: uma nova maneira de reler
a profecia do passado
Ainda
durante o exílio, os discípulos de Isaías começaram a reler o passado: a
aliança de Deus com Noé em defesa da vida (Is 54,8-9), a história de Abraão (Is
51,1-2), o Êxodo (Is
41,17-18) (Is 43,16-19), a aliança concluída ao pé do Monte Sinai (Is 42,6;
49,8; 55,3; 61,8), a Lei dada ao povo no Sinai, que agora está no coração (Is
51,7; 51,4). Não
era uma simples memória saudosista ou nostálgica, mas um convite a refazer a
história e recomeçar a ser Abraão e Sara, a viver em estado permanente de
Êxodo.
Por meio deste jeito de citar
e reler o passado, os discípulos e as discípulas comunicavam ao povo exilado a
seguinte mensagem: “Deus não nos abandonou. A história não terminou. Pelo
contrário! A caminhada continua! Estamos envolvidos num novo Êxodo, muito maior
e mais bonito que o primeiro!”
Um
exemplo concreto desta releitura é a maneira como apresentavam a história do
profeta Elias. Eles olhavam não só o lado exterior e grandioso da denúncia
profética, mas também o lado interior e escondido das crises e dúvidas. O estado de
depressão
“Elias sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a
morte, dizendo: "Chega, Javé! Tira a minha vida, porque não sou melhor que
meus pais". Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e
lhe disse: "Levante-se e coma". Elias abriu os olhos e viu bem perto
da cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu
e deitou-se outra vez”. (1Rs 19,2-6)
Elias só queria
comer, beber e dormir. A profecia estava apagada. Como muitos dos exilados,
Elias tinha perdido o sentido da vida.
Mas o anjo voltou uma segunda vez e, finalmente, Elias desperta, reencontra a
força e caminha, quarenta dias e quarenta noites, até chegar no Monte Horeb
(1Rs 19,4-8), onde, séculos antes, naquele mesmo lugar, havia nascido o povo de
Deus (Ex 19,1-8). Elias refaz a história, volta às raízes! Era esta a caminhada
que o povo do cativeiro devia fazer: voltar às raízes!
No Monte Horeb, Deus
o interpela: “Elias, que fazes aqui?”
Ele responde: “Eu me consumo de zelo pela
causa do Senhor, pois os filhos de Israel abandonaram a aliança, derrubaram os
altares e mataram os profetas. Fiquei só eu e até a mim eles querem matar!”
(1Rs 19,10.14). Existe uma contradição entre o discurso e a prática. Conforme o
discurso Elias é o único que sobrou; mas na prática havia sete mil que não
tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso Elias
está cheio de zelo; mas a prática mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3).
Conforme o discurso ele sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não
sabe analisar o seu próprio fracasso, pois nem percebe a presença do anjo.
O olhar de Elias
estava perturbado por algum defeito que o impedia de avaliar a situação com
objetividade. Não é que ele tenha perdido a fé, mas já não sabe como enfrentar
a realidade nova com a fé antiga. Havia algo de comum entre Elias e seus
perseguidores: ambos matavam em nome de Deus! Foi em nome de deus (Javé) que
Elias matou os 450 profetas de Baal (1Rs 18,40). Foi em nome de deus (Baal) que
Jezabel matou os profetas de Javé. (Bush reagiu com a mesma violência de Bin
Laden, ambos agindo em nome de Deus: “Guerra santa!” – “Cruzada!”). Havia algo
de errado na imagem de Deus que animava Elias na sua luta contra Baal. Por
isso, seu olhar estava perturbado, incapaz de avaliar a situação com
objetividade.
Qual a imagem de
Deus que anima a Igreja hoje? Qual a imagem de Deus que deveria estar nos olhos
e no coração do povo do cativeiro e que deveria estar hoje em nós religiosos e
religiosas? Esta era e continua sendo a
pergunta fundamental. A resposta é dada na história da Brisa Leve.
Brisa leve! Tapa na cara! “Por favor,acorda!”
Como Moisés no
mesmo Monte Horeb, Elias recebe a ordem: “Saia e fique no alto da montanha,
diante de Javé, pois Javé vai passar!” (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se
prepara para o encontro com Deus. Momento solene! Verdadeiro arquétipo!
Primeiro, vem um furacão! Depois, um terremoto! Depois, um fogo! No passado,
naquela mesma Montanha Horeb, Deus manifestara sua presença no furacão, no
terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes sinais tradicionais da presença de Deus
eram os critérios que orientavam Elias na sua busca. Mas acontece o inesperado:
Deus já não estava no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que, pouco
antes, lá no Monte Carmelo, havia sido o grande sinal da presença divina a
queimar o sacrifício diante de todo o povo (1Rs 18,38). Parece até um refrão
que chama a atenção: “Javé não estava no furacão!” – “Javé não estava no
terremoto!” – “Javé não estava no fogo!” (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais
da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz!
Deixaram Elias no escuro! Como Zorobabel, Josué, Esdras, Neemias e a elite
pensante, Elias vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos
outros no cativeiro o imaginavam e desejavam. Deus tinha mudado! (Sl 77,11)
É
a desintegração do mundo de Elias: espelho da desintegração da vida do povo no
cativeiro depois que Nabucodonosor mandara destruir os sinais tradicionais da
presença de Deus: templo, rei, posse da terra. Caiu tudo! A imagem que Elias (o
povo do cativeiro) tinha de Deus quebrou em mil pedaços. É o silêncio de Deus!
Na língua hebraica, este silêncio, é expresso com as seguintes palavras: “voz
de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer:
“Murmúrio de uma brisa suave” Mas a palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa suave”, que veio depois do
furacão, terremoto e fogo, indica uma experiência, que, como um golpe suave e
inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe
para escutar. É puxão de orelha, tapa na cara! Mesmo dado com suavidade, não
deixa de ser tapa! Tapa que desperta, quebra a ilusão irreal e faz a pessoa
voltar à realidade. Na realidade, a brisa
suave, o tapa na cara, era o próprio exílio que tinha destruído tudo e
obrigava o povo a uma conversão radical.
Elias
cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha experimentado a
presença de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou! Aprendeu a
lição! A situação de derrota, de morte e de secularização em que se encontrava
o povo no cativeiro é percebida como sendo o momento e o lugar onde Deus o
atinge. A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia
(Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de todas as
representações e imagens! Escuridão luminosa!
A experiência de
Deus na Brisa Leve dá olhos novos e
produz uma mudança radical. Elias descobre que não é ele, Elias, que defende a
Deus, mas é Deus quem defende a Elias. É
a sua conversão e libertação! Reencontrando-se com Deus, encontrou-se
consigo mesmo e com a sua missão. Imediatamente, ele parte para cumprir as
ordens de Deus. Uma delas é ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16).
Renasce a profecia! A Nova Profecia! A luta pela justiça renasce da experiência
da gratuidade. Qual o tapa na cara de que nós religiosos e religiosas estamos
precisando hoje ou que já estamos recebendo e ainda não percebemos?
II
UMA NOVA IMAGEM DE DEUS
UM NOVO JEITO DE TRABALHAR COM O POVO
Esta maneira nova e original de reler o
passado produziu fruto na vida dos discípulos de Isaías que viviam e sofriam no
cativeiro. Para eles, Elias não era alguém do passado, mas era o próprio povo.
De certo modo, não foi Elias, mas sim eles mesmos, discípulos e discípulas de
Isaías, que cobriram o rosto, sinal de que estavam redescobrindo a presença de
Deus naquela terrível ausência do cativeiro. Disso brotou uma nova imagem de
Deus e nasceu um novo jeito de trabalhar com o povo.
Uma nova imagem de Deus,
raiz da nova profecia
Como tantos exilados e migrantes de hoje, o
único espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles lá
no cativeiro da Babilônia era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a
esposa, um irmão ou irmã, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto
que antes fazia parte da vida já não existia: a organização mais ampla da
tribo, a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o
sacerdócio, a monarquia. Nada disse tinha sobrado. Ora, foi exatamente neste
espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que eles
reencontraram a presença de Deus. A nova imagem de Deus que eles criaram
reflete bem este ambiente familiar da casa. Deus é apresentada por eles como Pai
(Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13),
como Marido
(Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (goêl
ou irmão
mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao
Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à Monarquia, agora está
perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem
futuro, mas Casa, e não Templo.
Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da
vida familiar e comunitária de cada dia. Eles humanizaram a imagem de Deus e
sacralizaram a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do
reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de
Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes
ninguém o procurava: em casa, no
relacionamento diário familiar e comunitário, no meio do povo exilado e
excluído (Is 57,15)!
Dá para entender que a elite, a jerarquia,
os chefes e os sacerdotes não gostaram muito desta maneira de interpretar e
comunicar a presença de Deus. No entanto, aqui está a raiz da Nova Profecia que vai ecoar pelos quatro
séculos até à chegada do Novo Testamento!
Um novo jeito de
trabalhar com o povo, uma nova pastoral
Esta nova experiência de Deus fez com que
os discípulos e discípulas de Isaías redescobrissem sua identidade e missão,
não mais como povo privilegiado, separado dos outros, mas sim como povo eleito
por Deus para servir a humanidade (Is
42,1-6; 49,1-6; 50,4-9). E lá mesmo no cativeiro, eles começaram a colocar em
prática esta sua missão de serviço.
Eis algumas características desta nova pastoral:
Acolher o povo com muita ternura
Para o povo que vive machucado e triste, na
solidão do cativeiro, não bastam a imposição de preceitos e as ameaças da lei,
não basta nem mesmo a denúncia profética, para que ele levante a cabeça e
comece a enxergar a situação com esperança renovada. É necessário, antes de
tudo, cuidar das feridas do coração, acolhendo-o com muita ternura e bondade,
para que não morra nele a esperança. Os discípulos e as discípulas de Isaías
têm uma conversa atenciosa, cheia de ternura e consolo, de acolhimento e
encorajamento. As primeiras palavras: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is
40,1) ressoam pelas páginas do livro inteiro, do começo ao fim (Is 49,13;
51,12). “Eles não gritam nem apagam a vela que ainda solta um pouco de fumaça”
(Is 42,2-3). Ou seja, machucados, não machucam. Oprimidos pela situação em que
se encontram, não oprimem, mas tratam e acolhem o povo com muito respeito e
carinho. Usam uma linguagem simples, concreta e direta, numa atitude de ternura
nunca vista antes, que funcionava como bálsamo, e dispunha as pessoas para
olhar a realidade com mais objetividade. Eis alguns exemplos: Is 54,7-8;
41,9-10; 41,13-14; 40,1-2;
43,1-5; 46,3-4; 49,14-16; etc.
Ensinar dialogando em pé de igualdade
Nas entrelinhas dos capítulos
Fazer reunião semanal para rezar, meditar e
se ajudar
É no período do
cativeiro ou logo depois que se começa a insistir na observância do sábado (Is
56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf Gen 2,2-3). Era para que o povo exilado tivesse ao
menos um dia por semana para se encontrar, partilhar sua fé, louvar a Deus e,
assim, refazer as forças e animar-se mutuamente. É nestas reuniões semanais que
eles refrescam a memória (Is 43,26; 46,9), contam as histórias de Noé (Is
54,9-10), de Abraão e Sara (Is 51,1-2), da Criação (Is 45,18-19; 51,12-13),
lembram o Êxodo (Is 43,16-17), apontam os fatos da política e perguntam: “Quem
é que faz tudo isto?" (Is 41,2). Fazem reunião de noite, fora de casa, e
perguntam: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso?” (Is
40,26). A resposta é sempre a mesma: "É Javé, o Deus do povo, o nosso
Deus!". Assim, aos poucos, a natureza
deixa de ser o santuário dos falsos deuses; a história já não é mais decidida pelos opressores do povo; o mundo
da política já não é mais o domínio
de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de
Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se
aliados dos pobres na sua caminhada como Servo
de Deus e “Luz das Nações” (Is 42,6;
49,6). Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na
história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo:
"Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão
vendo?" (Is 43,19).
Agora, já não é a perseguição que
enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos
poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa
Notícia, desperta (Is 51,9.17; 52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar
(Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10; 63,7) e a resistir (Is 48,20).
III
O RUMO QUE A HISTÓRIA TOMOU
Depois do
cativeiro, o grupo da maioria silenciosa diluiu-se no império. O da
independência política ou do retorno ao passado desapareceu. Provavelmente, foi
eliminado pelo império e pelo tempo. A
experiência dos
discípulos e discípulas de Isaías continuava viva, animando o povo, mas como
força subterrânea, não chegou a ter um reconhecimento oficial das autoridades
religiosas da época. O projeto
do
grupo de Neemias e Esdras tornou-se a proposta oficial, aparentemente a mais
viável naquele contexto, pois muitos deles tinham adquirido bons empregos e
posições vantajosas na nova pátria, como transparece nas entrelinhas de vários
livros (Ne 2,1-9; Esd 7,11-26; Tb 1,12; Es 2,16; 6,10-11; Dn 3,97).
Assim, a partir da metade do século V, em
A proposta de Neemias e Esdras carregava no
seu bojo uma contradição. De um lado, buscava abertura e barganha frente ao
poder político e econômico. De outro lado, promovia o isolamento e a separação
do povo de Deus frente às outras religiões e culturas. Desta ambigüidade
inicial nasceram dois partidos que se tornaram inimigos irreconciliáveis entre
si, ambos lutando pela liderança, ambos irmãos, filhos da mesma contradição,
ambos querendo Jerusalém como centro simbólico do movimento judaico
internacional.
O grupo da abertura e barganha identificava a
obediência a Deus com a obediência à lei
do Rei. Eles conseguiram a
liderança política e econômica e autoritariamente, sem nenhuma sensibilidade
pela religiosidade do povo, impunham aos outros tudo que vinha do império, inclusive a
cultura grega e as expressões do culto imperial: jogos olímpicos, ginásio,
uniformes, associações, construção das cidades, comércio, dinheiro (2Mac 4,12-14; 1Mac 1,11-15). Eles deram origem
aos saduceus, aos quais se aliou a elite sacerdotal.
O grupo do isolamento e da separação identificava a
obediência a Deus com a observância da
lei de Deus. Eles
conseguiram a liderança religiosa e cultural e tinham grande influência sobre a
consciência do povo. Eles deram origem aos fariseus e doutores da lei. Para defender o povo contra a agressão da
elite econômica e política e ajudá-lo a manter sua identidade como povo eleito
de Deus, eles se fechavam cada vez mais na estrita observância fundamentalista
da lei de Deus e na pureza da raça, o que os levou a um total isolamento entre
as nações. Até a reunião semanal no sábado foi por eles transformada em
preceito obrigatório.
Paradoxalmente, este fechamento quase
irracional em torno da lei de Deus evitou que o povo fosse desintegrado pela
política desastrosa e opressora daquela elite estúpida que barganhava favores
junto aos poderes públicos do império e agredia o povo com a imposição de
costumes estrangeiros. O fechamento foi a única saída que sobrou para os pobres
e foi assim que, depois de 400 anos, Jesus os encontrou nas aldeias da
Galiléia. Mesmo formado no fundamentalismo autoritário, alienado e alienante
dos fariseus, o povo pobre, diferentemente dos fariseus, continuava aberto para
a mensagem de vida que Jesus que lhe revelava (Mt 11,25-27).
A história se
repete até hoje! Clericalismo pode até proteger em casos especiais, mas não
traz vida. O povo aguarda a mensagem da vida que vem de Jesus Ao longo dos quatro
séculos, de 445 até o NT, em meio às contradições, avanços e recuos da
história, a experiência
profética dos discípulos e discípulas de Isaías, mesmo abafada pela ideologia
oficial, continuava viva na alma do povo como fonte subterrânea de resistência.
Sempre de novo, de maneira variada, a Nova Profecia levantava a cabeça e
manifestava a sua presença nas novelas populares (Rute, Ester, Judite, Jonas),
na literatura sapiencial (Jó, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes e trechos de
Provérbios, Eclesiástico e Sabedoria), nas celebrações e romarias (muitos
Salmos), no movimento apocalíptico (Daniel). Ela reaparece confirmada e
realizada em e por Jesus que, como os discípulos e discípulas de Isaías, se
apresenta como servidor de Deus e do povo.
V
A NOVA PROFECIA,
REALIZADA
A nova experiência de Deus
A experiência de Deus como Pai
é a raiz da consciência que Jesus tinha de si mesmo, da sua missão e do anúncio
que fazia do Reino. Jesus chegou a identificar-se em tudo com a vontade de Deus:
“Eu a cada momento faço o que o Pai me manda fazer” (Jo 12,50). “O meu alimento
á fazer a vontade do Pai” (Jo 4,34). Por isso, ele é a revelação do Pai: “Quem
vê a mim vê o Pai!” (Jo 14,9). Não foi fácil. Ele teve momentos difíceis, em
que gritou: “Afasta de mim este cálice!” (Mc 14,36). Mas venceu por meio da
oração (Lc 22,41-44). Como diz a carta aos Hebreus: “Com clamor e lágrimas
dirigiu preces àquele que podia salvá-lo da morte!’ (Hb 4,7). Teve que aprender
o que vem a ser obediência (Hb 4,8). Por isso tornou-se para nós revelação e
manifestação de Deus. A obediência de Jesus não é disciplinar, mas profética, reveladora do Pai. Ela deu a
ele olhos novos para perceber a presença do Reino no meio do povo. O Reino já
estava aí, mas ninguém o percebia (Lc 17,20-21). Como os discípulos de Isaías,
Jesus o percebeu e o revelou (Mt 16,1-3). Ele via o tempo maduro, o campo
branco para a colheita (Jo 4,35; cf. Is 40,9; 52,7-8; 62,11)
Pelo seu jeito de
ser e de ensinar, Jesus despertava no povo a força adormecida do Reino que o
próprio povo não conhecia ou tinha esquecido. Jesus desobstruiu o acesso à
fonte dentro das pessoas, e a água começou a jorrar (Jo 4,14). Assim, muitas
pessoas, através da fé em Jesus, despertaram para uma vida nova. Enquanto em
Nazaré, por causa da incredulidade, nada feito! (Mc 6,5-6) A Boa Nova do Reino
era como um fertilizante que fazia a semente da vida crescer. O Reino que estava
escondido apareceu e o povo se alegrou.
O novo jeito de trabalhar com o povo
Como os discípulos de Isaías, Jesus entendia
sua missão como um serviço: “Não vim para ser servido mas para servir” (Mc
10,45). Para apresentar seu programa ao povo usou uma frase do Servo de Deus, anunciado por Isaías (Lc
4,17-18; Is 61,1-2). Tanto no batismo como na transfiguração, a voz do Pai o
confirmou na missão evocando o mesmo Servo de Deus (Mc 1,11; 9,7; Is 42,1). E
os evangelistas, quando descrevem a paixão e a morte, usam frases que evocam a
paixão e morte do Servo em Isaías (Is 52,1-9).
Como os discípulos de
Isaías, Jesus não só falava
sobre Deus, mas também o revelava. Comunicava algo do que ele mesmo
experimentava e vivia. O que mais chama a atenção é a
bondade com que Jesus acolhia o povo (Mc 6,34; 8,2; 10,14; Mt 11,28-29). Deus se fazia presente nesta atitude de
ternura acolhedora. Jesus valorizava as pessoas e as estimulava a se firmar e
ter confiança
Como os discípulos de Isaías, Jesus tinha um jeito próprio de ensinar.
Ele não era do clero. Era leigo. Não tinha estudado na escola dos doutores
Reconstruir a comunidade, imagem do rosto
de Deus
O ponto
No tempo de Jesus havia vários movimentos que
procuravam uma nova maneira de viver e conviver: essênios, fariseus e, mais
tarde, os zelotes. Muitos deles formavam comunidades de discípulos e tinham
seus missionários (Mt 23,15). Quando iam em missão, iam prevenidos. Levavam
sacola e dinheiro para cuidar da sua própria comida, pois não podiam confiar na
comida do povo que nem sempre era ritualmente “pura”. As normas da pureza
dificultavam a acolhida, a partilha, a comunhão de mesa e a hospitalidade, as
quatro pilares da vida comunitária da época.
Ao contrário dos outros missionários, os
discípulos e as discípulas de Jesus não podem levar nada, nem bolsa, nem
sacola, nem ouro nem prata, nem cobre, nem dinheiro, nem bastão, nem cajado,
nem sandálias, nem sequer duas túnicas (Mt 10,9-10; Mc 6,8; Lc 10,4). A única
coisa que podem levar é a paz (Lc 10,5). O missionário vai sem nada, porque
deve acreditar que vai ser recebido. Sua atitude provoca no povo o gesto
evangélico da hospitalidade (Lc 9,4; 10,5-6). Eles devem ficar hospedados na
primeira casa em que forem acolhidos. Não podem andar de casa em casa, mas
devem conviver de maneira estável e, em troca, recebem sustento, “pois o
operário merece o seu salário” (Lc 10,7). Ou seja, devem integrar-se na vida e
no trabalho da comunidade local, no clã, e confiar na partilha. Não podem levar
sua própria comida, mas devem comer o que o povo lhes oferece (Lc 10,8). Isto
é, devem aceitar a comunhão de mesa, e não podem ter medo de perder a pureza no
contato com o povo. A convivência fraterna é um valor evangélico que prevalece
sobre a observância das normas rituais. Como tarefa especial devem praticar a acolhida
e cuidar dos excluídos: doentes, possessos, leprosos (Lc 10,9; Mt 10,8). Isto
é, devem exercer a função do Go´êl :
acolher os excluídos para dentro da comunidade e refazer a vida comunitária do
clã.
Caso todas estas exigências forem preenchidas,
poderão gritar aos quatro ventos: “O Reino chegou!” (cf. Lc 10,1-12; 9,1-6; Mc
6,7-13; Mt 10,6-16). Pois o Reino não é uma doutrina, mas sim uma nova maneira
de viver e conviver, nascida da Boa Nova que Jesus nos trouxe de que Deus é Pai
e todos somos irmãos e irmãs uns dos outros. Devem recriar e reforçar a
comunidade local, o clã, a “casa”, para que possa ser novamente uma expressão
da Aliança, do Reino, do amor de Deus como Pai que faz de todos irmãos e
irmãs.
Fonte de resistência
A simpatia do povo por Jesus ia crescendo a ponto
de provocar medo nos líderes (Mc 11,18. 32; 12,12; 14,2). O povo, antes tão
submisso, crescia em consciência, escapava do controle da “grande disciplina” e
criava dentro de si maior consciência e liberdade frente ao poder religioso que
o oprimia. Graças à Boa Nova de Jesus, o povo começava a ser ele mesmo! A Boa
Nova fez surgir uma nova divisão. Não a divisão causada por crenças e ritos,
mas sim a divisão que tinha a ver com a prática da justiça e da verdade.
Incomodados, os líderes se organizaram para eliminar o perigo e começaram a
perseguir Jesus. Como o Servo de Isaías, Jesus, não voltou atrás, não recuou.
Continuou fiel ao Pai e ao povo marginalizado.
Eis o auto-retrato de Jesus:
4.
O Senhor me concedeu o dom de falar como seu discípulo,
para eu saber dizer uma palavra de conforto
a quem está desanimado.
Cada manhã, ele me desperta, para que eu o
escute,
de ouvidos abertos, como o fazem os
discípulos.
5.
O Senhor me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.
6.
Oferecei minhas costas aos que me batiam
e o queixo aos que me arrancavam a barba.
Não escondi o rosto para evitar insultos e
escarros.
7.
O Senhor é a minha ajuda! Por isso, estas ofensas não me desmoralizam.
Faço cara dura como pedra, sabendo que não
vou ser um fracassado.
8.
Perto de mim está quem me faz justiça.
Quem tem coragem de depor
conta mim?
Vamos comparecer juntos no tribunal!
Quem tem algo contra mim? Que
se apresente e faça a denúncia!
9.
O Senhor é a minha ajuda! Quem tem coragem de condenar-me?
Todos eles vão cair aos pedaços, como roupa
velha comida pela traça! (Isaías
50,4-9)
Eles chegaram a
matar Jesus. Diz o quarto Cântico do Servo:
8.
Sem defesa e sem julgamento, foi levado embora. Não havia ninguém para
defende-lo.
Sim, ele foi arrancado do mundo dos vivos,
foi ferido por causa dos crimes do seu povo.
9.
Foi enterrado junto com os criminosos, recebeu sepultura entre os malfeitores,
ele que nunca cometeu crime algum e que
nunca disse uma só mentira! (Is 53,8-9)
E o cântico
continua com esta prece:
10.
Oh! Senhor, que o teu Servo, quebrado pelo sofrimento, possa agradar-te!
Aceita a sua vida como sacrifício de expiação!
Que ele possa ver os seus descendentes, ter
longa vida,
e que o Teu Projeto se realize por meio
dele!”
(Is 53,10)
Deus atendeu à
prece e ressuscitou Jesus, confirmando assim o testemunho profético que ele
tinha dado do Reino.
Resumindo: Tudo isto era e continua sendo a Nova Profecia! Refazer o tecido das relações humanas Reconstruir a comunidade, imagem
do rosto de Deus, do Deus que nos foi revelado e anunciado por Jesus de Nazaré.
Algo
novo já está nascendo no meio do povo, algo da vida, algo de Deus. “Não estão vendo?” (Is 43,19).
APÊNDICE
A NOVA PROFECIA DEPOIS DO CATIVEIRO,
Mesmo depois do
cativeiro da Babilônia, a figura do profeta Elias continuou alimentando a
esperança do povo, tão bem expressa na última
frase do AT: “Eis que vos envio o profeta
Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor; ele converterá o
coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não
venha e fira a terra com maldição” (Ml 3,21-22; Eclo 48,10; Lc 1,17). O que pode evitar a maldição, i.é, a
desintegração da convivência humana e o retorno do cativeiro, não é a
restauração sem mais do passado como queriam Zorobabel e Josué, nem a barganha
com o império e a imposição autoritária da lei como pretendiam Neemias e
Esdrasmas, mas sim a reconciliação de
pais e filhos, i.é, a reconstrução da vida comunitária, nascida da
fidelidade à Palavra de Deus, tal como propunham os discípulos de Isaías.
De fato, ao longo
dos quatro séculos, de 445 até o NT, em meio às contradições, avanços e recuos
da história, a experiência
profética dos discípulos e discípulas de Isaías, mesmo abafada pela ideologia
oficial, continuava viva na alma do povo como fonte subterrânea de resistência.
Vejamos
algumas destas expressões da Nova Profecia
1. Qohelet:
redefinir os valores da vida e reconstruir o tecido da convivência humana
O cativeiro
desarticulou o quadro tradicional dos valores da vida. As soluções propostas
por Zorobabel, Josué, Esdras e Neemias, em vez de reconstruir a convivência
humana, contribuíam para miná-la ainda mais, tanto por parte da elite
sacerdotal que promovia a abertura, como por parte dos escribas que se fechavam
na observância da lei. Qohelet oferece
critérios para o povo adquirir uma consciência mais clara frente às tendências
da época e aos valores da vida. Com palavras diferentes, ele repete, do começo
ao fim: “Tudo é vaidade!”, miragem, ilusão! Parece até um estribilho que sempre
volta (Qo 1,2.14.17; 2,1.11.15.17.19.21.23.26; 3,19; 4,4.8.16; 5,9.15.19;
6,2.9.12; 7,6.15; 8,10.14; 9,9; 11,8.10; 12,8). Ele critica tanto a sede de
riqueza da elite (Qo 2,1-16; 5,9-16) e a sua mania de correr atrás das
novidades do império (Qo 1,10-11), quanto o
fechamento dos escribas e a sua pretensa justiça (Qo 7,15-16). Por meio de um
outro estribilho, repetido sete vezes
ao longo das páginas do livro (Qo 2,24-25; 3,12-15; 3,22; 5,17-19; 7,13-14;
8,15; 9,7-10), Qohelet aponta uma outra saída, que pode ser
resumida da seguinte maneira: “Nada
há de melhor para o ser humano do que alegrar-se, comer e beber, desfrutar o
fruto do trabalho e gozar a vida com a esposa amada, pois tudo isto vem da mão
de Deus”. Qohelet
convida o povo a reencontrar o fundamento da existência na vida em comunidade,
na família, no trabalho honesto e na fé
2. Jó:
fazer uma crítica radical à teologia da retribuição
O livro de Jó
ajuda a perceber como a imagem que temos de Deus repercute na organização
econômica, social, política e religiosa da sociedade. Naquele tempo, o ensino
oficial dizia e repetia: “Sofrimento e pobreza são castigo de Deus. Riqueza e
bem-estar, sinais de recompensa divina!” Até hoje, este ainda é o fundamento da
assim chamada Teologia da Retribuição. Esta maneira de representar o
relacionamento entre Deus e o ser humano beneficiava a elite e dava aos pobres
e sofredores um complexo de culpa e de inferioridade. O livro de Jó verbaliza a
tensão que, na época, estava nascendo entre o ensino oficial da elite e a
incipiente consciência rebelde dos sofredores. O livro de Jó é um teatro. Jó
representa os sofredores, cuja consciência estava começando a se rebelar. Os
três amigos representam a visão tradicional, que eles defendem com unhas e
dentes. A cabeça de Jó, isto é, a cabeça dos sofredores, formada pelo catecismo
da tradição dominante, dizia: “Você sofre e é pobre porque você é pecador! Deus
está te castigando!” Mas o coração, a consciência, lhes dizia: “Deus é injusto
comigo! Não pequei! Quero brigar com Ele para me defender”. Jó acusa Deus e
critica os três amigos, que identificavam a presença de Deus com o nível
econômico das pessoas: “Vocês usam mentiras e injustiças para defender a Deus!”
(Jó 13,7). “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!”
(Jó 7,27). A frase final é uma chave para todo o livro e para todos os tempos.
Jó se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti , mas agora
meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó
42,4-6). Jó teve uma nova experiência de Deus e descobriu que, no fundo, a sua
luta não era contra Deus, mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava
a consciência das pessoas e destruía a convivência. Qual a imagem de Deus que a
igreja comunicou ao povo ao longo dos séculos e que agora está sendo
questionado pelo Jó de hoje?
3. Cântico:
resistir contra a marginalização e exclusão da mulher
No relato sobre a manifestação da Sabedoria
Divina na história do povo de Deus (Eclo 44-50), o autor do livro do
Eclesiástico esqueceu as mulheres. Só conservou os nomes dos homens. Quando ele
fala da mulher, manifesta um certo desprezo (Eclo 25,13); e quando diz coisas
boas sobre ela, é só a partir do ponto de vista do homem (Eclo 26,1-2.13; 36,
21-27). Porém, quando fala da Sabedoria Divina, ele a personifica e a elogia
sob a figura de uma mulher (Eclo 4,11-19; 14,20-15,10; 24,1-29). Estas duas
tendências, marginalização e valorização da mulher, aparecem em todo o Antigo
Testamento, mas sobretudo no período depois do cativeiro. Na medida em que
crescia a exclusão da mulher, cresciam também a sua resistência e valorização.
Vários livros registram esta voz da oposição. No Cântico dos Cânticos, a mulher
aparece como pessoa independente que, para poder encontrar o seu amado,
enfrenta os guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct
8,11-12), e os irmãos que querem protegê-la (Ct 8,8-10). No livro de Rute, duas
mulheres pobres, ambas viúvas sem futuro, das quais uma estrangeira, estão na
origem da reconstrução do povo. São elas que tomam as iniciativas para
reconquistar os direitos perdidos e para fazer observar a lei do resgate. É de
uma estrangeira que nasce o avô do messias. Judite, mulher de um povoado
imaginário da Samaria, contesta a decisão tomada pelos anciãos e sacerdotes.
Sozinha, ela enfrenta o exército inimigo e consegue derrotar o general
Holofernes, cortando-lhe a cabeça. Ester é a mulher que se engaja na luta pela
sobrevivência do povo. O mesmo valor de resistência encontramos nas primeiras
páginas da Bíblia, escritas depois do cativeiro, onde se afirma a igualdade do
homem e da mulher como imagem de Deus
(Gn 1,27). Nestes livros a mulher aparece não em primeiro lugar como mãe
e esposa, mas muito mais como mulher que sabe usar sua dignidade, beleza e
feminilidade para lutar pelos direitos dos pobres e assim defender a Aliança do
povo. E ela luta não a favor do Templo, nem a favor de leis abstratas, mas sim
a favor da vida do povo.
Assim, sempre de novo, de maneira variada,
a Nova Profecia levantava a cabeça e manifestava a sua presença nas novelas
populares (Rute, Ester, Judite, Jonas), na literatura sapiencial (Jó, Cântico
dos Cânticos, Eclesiastes e trechos de Provérbios, Eclesiástico e Sabedoria),
nas celebrações e romarias (muitos Salmos), no movimento apocalíptico (Daniel).
Ela reaparece confirmada e realizada em e por Jesus que, como os discípulos e
discípulas de Isaías, se apresenta como servidor de Deus e do povo.