A Terra é nossa Mãe
Gênesis
Frei Carlos Mesters e Francisco
Orofino
Os assuntos de Gênesis
Neste livro vamos oferecer uma chave de leitura que nos permita entender o sentido geral destes doze capítulos da Bíblia e que nos ajude a resolver as dificuldades maiores em torno dos mesmos. O livro terá duas partes:
1ª PARTE: Buscar olhos novos para
ler Gênesis
2ª PARTE: Ler Gênesis
Uma observação: Geralmente, se fala de Gênesis
I PARTE
BUSCAR OLHOS NOVOS PARA LER GÊNESIS
A Bíblia é como uma casa
popular. Casa popular começa pequena e cresce aos poucos de acordo com o
tamanho e as necessidades da família. No fim, depois dos filhos criados, o dono
da casa faz o portão da entrada com uma varanda bonita para receber os netos. O
portão, a primeira coisa que se vê, é a última a ser construída.
Gênesis
Muitos de nós não estamos
habituados a entender assim as narrativas de Gênesis
Por isso, a primeira coisa
de que precisamos para captar bem a mensagem de Gênesis
Acertar os olhos com que olhamos para o texto
bíblico que fala da criação:
As
narrativas de Gênesis
Acertar os olhos com que olhamos para a terra
que nos sustenta:
Diz o
livro de Gênesis: "Submetam a terra;
dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam
sobre a terra" (Gn 1,28). Interpretada ao pé da letra, como nos foi
ensinado, esta frase parece dizer que nós, seres humanos, por ordem divina,
somos os donos do mundo e que podemos explorá-lo como bem entendemos. Isto nos
levou a olhar a terra como objeto a ser explorado para nos enriquecer e não
como mãe que nos dá vida e nos sustenta. Esta falsa mentalidade criou um abismo
entre nós e o resto da criação. Nosso relacionamento com a terra entrou em
crise e a sobrevivência da humanidade corre perigo. Que crise é esta?
1º Capítulo
O relacionamento com nossa mãe Terra
entrou em crise
No
princípio...
No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e
vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas.
Deus disse: "Que exista a luz!" E a luz começou a existir. Deus viu
que a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou "dia",
e às trevas chamou "noite". Houve uma tarde e uma manhã: foi o
primeiro dia. (Gn 1,1-4)
Assim começa na Bíblia a narrativa da criação. O povo pergunta: “Quanto
tempo faz que houve esse princípio?”
Pelas informações da própria Bíblia, tomadas ao pé da letra, seria em torno de
seis mil anos (6.000), ou exatamente 5768 anos conforme o calendário judaico. A
ciência informa que o universo tem em torno de quatorze bilhões de anos
(14.000.000.000).
A Bíblia diz que Deus colocou as estrelas no céu para servirem de
lâmpadas durante a noite. “A grande lâmpada”, o sol, para iluminar o dia, e a
“pequena lâmpada”, a lua, para iluminar a noite (Gn 1,16-18). A ciência informa
que só dentro da nossa galáxia, chamada Via Láctea, existem mais de 100 bilhões
de estrelas. O sol é apenas uma destas 100 bilhões de estrelas. É uma estrela
relativamente pequena, situada na periferia da Via Láctea. Além da Via Láctea,
existem em torno de 100 bilhões de galáxias (100.000.000.000). Faça o cálculo!
Há muito mais estrelas do que seres humanos em toda a história da humanidade!
Quando de noite olhamos as estrelas do céu, pequenos pontinhos de luz,
não nos passa pela cabeça que alguns destes pontinhos de luz são milhões de
vezes maiores que o nosso sol e que a luz de certas estrelas, para poder chegar
até nós aqui na Terra, viajou durante milhares e até milhões de anos a uma
velocidade de
A ciência informa que o sol é um milhão de vezes maior que Terra. A cada
segundo o sol gasta, gratuitamente, quatro milhões de toneladas de si mesmo
para transformá-las em luz. É graças a esta luz, enviada para Terra, que nós
existimos. Sem a luz do sol, a vida não teria sido possível. Ela jamais teria
surgido na face da terra. O sol já presta este serviço há vários bilhões de
anos e o combustível disponível no sol a ser transformado em luz ainda vai dar
para mais uns
Ao redor do nosso sol gira um determinado número de planetas como Marte,
Vênus, Saturno, Júpiter e outros. Um deles é Terra, nossa terra. Solta no
espaço, Terra gira em torno do sol e é mantida no seu lugar pela invisível
força da gravidade. Até hoje ninguém sabe explicar bem como esta força consegue
manter tudo no seu lugar. Vênus fica mais perto do sol e, por isso, o calor
demasiado faz com que nele a vida seja praticamente impossível. Não há água, só
vapor. Marte fica mais longe do sol e por isso é frio e a vida não é possível.
Um gelo só!
Uma evolução de bilhões de anos fez com que Terra, iluminada pela luz do
sol, criasse condições para que a água pudesse aparecer e a vida pudesse nascer
e desenvolver-se nas milhares de formas, desde as algas marinhas até à mente
humana. Cada ser humano, nos nove meses que passa no seio de sua mãe, refaz
esse longo processo da evolução de bilhões de anos. Tem gente que se revolta
quando alguém fala da evolução. Dizem que não querem ser bisneto de macaco. No
entanto, a evolução é um fato comprovado, e é ela mesma, a própria evolução,
que melhor nos revela a infinita grandeza da sabedoria criadora de Deus nosso
Pai, nossa Mãe.
A mente humana fica extasiada ao admirar a grandeza da criação de Deus
que se desdobra diante dos nossos olhos e nos envolve inteiramente. A Bíblia
tem razão em cantar: “Quando me extasio a olhar o céu estrelado, quando
contemplo as noites de luar, e penso que foste Tu seu criador, eu me pergunto:
Que valor imenso não deve ter o ser humano, para estar sempre na tua lembrança
e ser tratado com tanto carinho?” (Sl 8,4-5). Jesus nos revela o rosto deste
nosso Deus que faz nascer o sol para todos, bons e maus, para que tenhamos vida
em abundância (Mt 5,45; Jo 10,10).
Nossa atitude com relação à terra
Apesar dessa grandeza imensa da Criação que nos envolve por todos os
lados, muitos de nós, sem consciência do que somos e de onde viemos, tratamos
mal a Terra e colocamos em perigo a vida que recebemos do Criador. Não cuidamos
de Terra, nossa casa, que por disposição do Criador levou milhões de anos para
ter as condições necessárias que permitissem o aparecimento da vida. Corremos o
risco de destruir em pouco tempo uma obra que levou bilhões de anos para ser
construída. Somos predadores violentos, ignorantes de pai e mãe.
A vida na terra corre perigo por causa da falta de cuidado que temos com
a preservação do meio ambiente. Criamos um desequilíbrio. A organização do mundo
dentro do atual sistema neoliberal criou o ídolo do falso progresso. Parece a besta fera que todos adoram (cf. Apc 13,3.12.15-17). A
propaganda deste ídolo faz com que o mundo inteiro contemple na vida dos países
ricos o ideal supremo da vida humana: todos querendo alcançar aquele mesmo
nível exagerado de bem-estar material dos países ricos. Mas Terra não tem
recursos para fornecer tanto exagero de bens para todos, e os ricos não abrem
mão dos seus privilégios e de suas posses. Eles, que são menos de 10% da
humanidade, apropriaram-se de mais de 80% dos recursos da natureza e deles não
abrem mão. Acham que é o seu direito. Não querem a partilha fraterna dos bens
entre todos os seres humanos.
Estamos esgotando Terra, nossa mãe, querendo tudo para nós, num egoísmo
desenfreado em prejuízo de milhões de irmãos e irmãs, condenados a viver na
pobreza! Assim, sem nos
dar conta, desintegramos a natureza, destruindo rios, plantas, animais,
florestas, mares, geleiras, ....
Na raiz desta depredação interesseira e egoísta
da natureza está a busca de uma falsa segurança. Colocamos a segurança não no
ser, mas no ter: “Quanto mais possuo, mais segurança eu tenho!” E fundamentamos
esta busca desenfreada de bens numa interpretação errada de uma frase do livro
de Gênesis que diz:
Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de
Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençoou e lhes disse:
"Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os
peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a
terra" (Gn 1,27-28)
Afirmações semelhantes encontram-se também em
outros livros da Bíblia (cf Sb 10,1-2; Eclo 17,1-4; Sl 8,7). Por causa da
interpretação errada destes textos nós nos comportamos como se tivéssemos
recebido de Deus o direito de dominar todas as coisas e a licença para fazer o
que bem entendermos com os recursos da natureza. Terra, nossa casa, é tratada com desprezo, como se fosse uma simples
mercadoria. Isto produziu a ganância interesseira que fez crescer em muitos a vontade
de explorar os outros, impedindo que eles também tenham acesso aos mesmos bens.
E o resultado é o desequilíbrio total de tudo:
* é o caos da poluição ameaçando a vida no
planeta que volta a ser “sem forma e vazio” (Gn 1,2);
* é o irmão matando o irmão,
é Caim matando Abel (Gn 4,1-16);
* é a violência extrema e
agressiva, pior do que a de Lamec (Gn 4,17-24);
* é a manipulação da
religião e a desintegração de tudo, igual àquela que deu origem ao Dilúvio (Gn
6,1-7):
* é uma nação querendo
dominar as outras, criando a confusão da Torre de Babel (Gn 11,1-9).
Perdemos o contato com o universo, com a natureza, com a nossa origem.
Já não sabemos quem somos. Dizemos que conhecemos a nossa história, mas
conhecemos apenas uns poucos anos, não mais que uns 20 ou 30 séculos. Só o
planeta Terra, nossa casa, já tem mais de 3 bilhões de anos. A carteira de
identidade indica nossa idade, diz o ano em que nascemos. Dificilmente alguém
passa dos 90 anos. Na realidade, como parte do universo, nós seres humanos temos
em torno de 14 bilhões de anos.
Vivemos neste universo desde o nosso nascimento e esquecemos a missão
que o Criador nos confiou. Ao longo dos milhões de anos da lenta e progressiva
evolução, a vida foi aparecendo até desabrochar na consciência de nós, seres
humanos. Nós somos os primeiros que abrimos os olhos sobre a terra, sobre o
sistema solar, sobre a Via Láctea, sobre o Universo, com a capacidade de
admirar essa beleza infinita da criação de Deus. Nossa segurança não está em
ter muitas coisas, mas sim em entrar na lógica da Criação e ser um ato vivo de
louvor e de gratidão ao Criador. Nossa missão não é dominar tudo como patrão do
mundo, mas sim, como criaturas, ocupar nosso lugar no meio das outras criaturas
e assim contribuir para engrandecer a sinfonia do universo, pois, “o Senhor deu aos homens a ciência para que pudessem glorificá-lo por
causa das maravilhas dele” (Eclo 38,6). E a maior glória de Deus é e será sempre o ser humano vivendo
Assim, de um lado, a leitura ao pé da letra de Gênesis e, de outro lado,
a ganância sem freios em explorar a terra nos fizeram esquecer nossa missão e
falsificaram nosso relacionamento com a Terra. Estamos perdidos no espaço! É
urgente mudar os olhos para que possamos redescobrir nossa missão e salvar a
vida no planeta Terra.
Nas páginas que seguem vamos olhar de perto como uma crise semelhante
levou o povo da Bíblia a repensar o seu relacionamento com a terra e a
descobrir o verdadeiro sentido da sua fé no Deus Criador. Vamos em busca da luz
que aquelas narrativas de Gênesis
2º Capítulo
A crise que levou o Povo de Deus a repensar tudo
Os primeiros sinais da crise
Uma crise nunca vem de
repente, mas nasce aos poucos. É como o cupim que vai entrando nas vigas do
telhado. Bem devagar! O dono da casa não se dá conta, nem presta atenção. Vai
vivendo a vida despreocupado, desatento de tudo. De repente, um temporal cai sobre
a casa e o telhado desaba. Desaba de
repente, sim, mas é por causa da falta de cuidado do dono da casa que já
vinha de longe. E o dono deu a culpa ao carpinteiro: “Mau serviço!”
Assim aconteceu com o povo
de Deus. Desatento, ele permitiu que o cupim da falsa imagem de Deus fosse
comendo por dentro a viga da sua fé. Ao longo dos 400 anos da monarquia (de
O profeta Oséias deu o primeiro
sinal de alerta, mostrando que uma sociedade injusta coloca em colapso a ordem
da criação de Deus. Ele dizia:
Ouçam a palavra de Javé, filhos de Israel! Javé abre um processo contra
os moradores do país, pois não há mais fidelidade, nem amor, nem conhecimento
de Deus no país. Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adultério e
violência; e sangue derramado se ajunta a sangue derramado. Por isso, a terra
geme e seus moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar
estão desaparecendo. Embora ninguém acuse, ninguém conteste, eu levanto
acusação contra você, sacerdote! Você tropeça de dia, o profeta tropeça com
você de noite e você faz perecer a sua própria mãe. O meu povo está morrendo
por falta de conhecimento (Os 4,1-5).
A violência e a corrupção das elites, sacerdotes e profetas, provocavam a
destruição da ordem da criação, faziam “perecer
sua própria mãe”, estavam
matando a terra. Os povos indígenas da América Latina também
chamam a terra de Mãe, Pachamama. “A terra (a mãe) geme e seus
moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar estão
desaparecendo”.
Oséias fez a ligação entre o comportamento humano e a integridade da criação de
Deus. Foi o primeiro sinal de alerta. O cupim da
falsa imagem de Deus estava entrando, mas ninguém lhe dava atenção. Para Oséias uma sociedade gananciosa e
corrupta, marcada pelo sangue derramado (Caím), coloca em risco a ordem da
criação de Deus. Faz o cosmos virar caos. Isto foi no século VIII antes de
Cristo.
No século seguinte,
Jeremias retomou a denúncia de Oséias e dizia:
Olhei para a terra: estava sem forma e vazia.
Olhei para o céu, e não havia luz. Olhei as montanhas: elas tremiam, e todas as
colinas se abalavam. Olhei: não havia mais ninguém, e todas as aves do céu
haviam fugido. Olhei: o Carmelo era um deserto. (Jr 4,23-26).
Jeremias diz que a terra
“estava sem forma e vazia”. Mais tarde, o livro de Gênesis repetirá a mesma
frase ao dizer que, antes da ação criadora da Deus, “a terra estava sem forma e vazia!” (cf Gn 1,2). Jeremias via a
desintegração da natureza como um retorno ao caos anterior à ação criadora de
Deus. A corrupção e as injustiças estavam contrariando a vontade de Deus
expressa na ordem da Criação.
O mesmo alerta transparece
em alguns salmos. No salmo 82 se diz que a injustiça dos juizes provoca o abalo
dos fundamentos da terra:
Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga:
"Até quando vocês julgarão injustamente, sustentando a causa dos injustos?
Protejam o fraco e o órfão, façam justiça ao pobre e ao necessitado, libertem o
fraco e o indigente, e os livrem da mão dos injustos!" Eles não sabem, não
entendem, vagueiam nas trevas: todos os fundamentos da terra se abalam (Sl
82,1-5).
As vozes isoladas de
Oséias, Jeremias e outros profetas não foram ouvidas e caíam no vazio, pois
havia muitos outros profetas e pastores que diziam o contrário (Jr 28,1-11; Ez
34,1-10). O cupim da idolatria foi avançando e, de repente, veio a tempestade
da invasão da Babilônia e do cativeiro. O telhado veio abaixo; tudo foi
destruído: o templo, os palácios, as casas, as muralhas, a cidade inteira,
tudo! Muita gente dava a culpa a Deus (Lam 3,1-18). Na realidade, a culpa era
deles mesmos. Desatentos de tudo, deixaram o cupim avançar. A falsa imagem de
Deus, a idolatria, tomou conta de tudo e, por isso, não foram capazes de
entender o sentido verdadeiro do desastre que se abateu sobre eles (cf. Is
44,20).
O desastre nacional do cativeiro
No mês de agosto de
Os textos que melhor
ajudam a perceber essa desintegração total do povo no cativeiro são as cinco Lamentações de Jeremias. Sobretudo a
terceira e a quinta. A Quinta descreve o cativeiro da opressão que, de fora, caiu em cima do povo. A
Terceira descreve o desespero que, de
dentro, estourou na alma do povo. Há também alguns Salmos que ajudam a
sentir mais de perto a dor do povo: Salmo
74(73) descreve o terrível massacre e a destruição do Templo. Salmo 137(136) canta a tristeza do povo
fora da sua pátria. Salmo 44(43)
canta a tristeza de quem não entende por que foram tão duramente castigados.
Humanamente falando, não
havia mais saída. Estavam sem futuro. Qualquer tentativa de revolta seria
esmagada sem dó nem piedade! O poder ameaçador do império matava na raiz a
esperança de libertação. Uma frase da Terceira Lamentação retrata bem o sentimento de desespero do povo:
Eu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob
o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e não na
luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo. Consumiu minha carne
e minha pele, e quebrou os meus ossos.
Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, me fez morar nas trevas como
os defuntos, enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado,
me prendeu. Clamar ou gritar de nada vale, ele está surdo à minha súplica. ...
Fugiu a paz do meu espírito, a felicidade acabou. Eu digo: "Acabaram-se
minhas forças e minha esperança em Javé" (Lam 3,1-8.17-18).
A imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a de um
carrasco que só quer castigar, vingar e machucar. Trágica experiência! Fonte de
desespero! Fruto daquele cupim da idolatria que esvaziou a fé por dentro. Quem
olha a vida e a natureza com esta falsa imagem de Deus nos olhos, nunca vai
reencontrar a presença amorosa de Deus na vida.
Como redescobrir a
presença de Deus na vida? Pois, antigamente, profetas como Samuel e Moisés
falavam com Deus e Ele respondia (Sl 99,6). Onde está Deus agora? (Sl 42,4.11; 115,2; 79,10; Mq 7,10). Como sair desta situação? Eram estas as perguntas que agitavam as
consciências e as conversas de muita gente.
O início de uma nova leitura da
natureza para sair da crise
Jeremias ajudou o povo a
perceber a presença de Deus de outra maneira. Apesar de ter sofrido os mesmos
contratempos e de ter passado pelo terrível sofrimento da destruição dos sinais
(sacramentos) de Deus, ele não perdeu a esperança. Pelo contrário. Ele dizia
ter muitos motivos de esperança! E o motivo maior, ele o encontrou na natureza.
É como se dissesse: A maior certeza que eu tenho e que me sustenta é que o sol vai nascer
amanhã. Ou seja, é no movimento da natureza e na lógica da criação que
Jeremias redescobre a manifestação do poder de Deus. Ele diz: “Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol
para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite,
aquele cujo nome é Javé dos exércitos: quando essas leis falharem diante de mim
– oráculo de Javé – então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim
uma nação para sempre” (Jr 31,35-36; cf Jr 33,19-21). Nabucodonosor, o rei
da Babilônia, pode ser forte, mas ele não tem poder para impedir o nascimento
do sol amanhã! Deus é maior! O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das
estrelas, das plantas revela o poder criador de Deus e são a prova de que Deus
não rejeitou o seu povo. Mais tarde, este
pensamento de Jeremias será retomado na narrativa da Criação no livro de
Gênesis (cf.Gn 1,16 e Jr 31,35).
Esta maneira de apresentar
a ação criadora da Deus transparece também na visão dos ossos secos do profeta Ezequiel (Ez 37,1-14). Embranquecidos pelo
calor do sol, os ossos são um símbolo eloqüente da morte, imagem da situação
sem saída em que se encontrava o povo no cativeiro. Na visão de Ezequiel,
aqueles ossos sem vida reviveram pelo poder criador do Espírito de Deus, e o
povo renasceu.
Foi no contato renovado
com a natureza que Jeremias redescobriu o alcance libertador da fé no Deus
Criador. É disso que nós precisamos hoje: de um novo olhar para entender de
outro modo nosso relacionamento com a terra e com a narrativa de Gênesis sobre
a criação. Precisamos redescobrir a grande sabedoria que move tudo e que se
revela de mil maneiras na natureza e no dia a dia da nossa vida. Onde e como
adquirir este novo olhar?
No próximo capítulo, por
um momento, vamos deixar a Bíblia de lado para fazer o que fez o povo da
Bíblia, isto é, vamos olhar nosso próprio passado. Vamos escutar uma lição
importante que nos vem dos nossos índios. Eles mais do que nós souberam viver
mantendo um contato estreito com a natureza.
3º Capítulo
A importância do Mito na vida dos povos
Muita gente, quando ouve
falar de mito, pensa nos índios. Criou-se a idéia de que mitos são lendas
indígenas que já foram superadas pela ciência. Pensamos que nós somos mais
avançados do que eles. Pode ser que sejamos mais avançados do ponto de vista
técnico, mas do ponto da visão do mundo e da comunhão com a natureza, temos
muito a aprender deles.
Para muitos de nós, um
mito é uma história sem valor. O povo até diz: "Isso é mito!" Por
outro lado, quando, de repente, uma pessoa fica famosa, o povo diz:
"Fulana virou mito!". E aí
muita gente procura imitá-la. O mito exerce uma força de atração sobre as
pessoas. Ele pode levá-las a fazer coisas que um simples convite ou um conselho
mais racional não conseguiria. Existem mitos verdadeiros e mitos falsos. No ano
passado, o mito falso do corpo bonito levou uma moça a um regime alimentar que
causou sua morte. O mito verdadeiro
da ressurreição de Jesus leva muita gente a doar sua vida pelo bem dos outros.
Levou os mártires a doar o seu sangue.
A lição dos índios
Eis dois exemplos
concretos da lição de índios que não perderam o contato com a natureza: o
primeiro é de um índio do Xingu, Brasil, contado pelo indigenista Orlando
Villas Bôas; o segundo, de um índio da América do Norte.
Orlando Villas Bôas
conviveu com os índios durante anos e estudou os costumes deles. Ele conta o
seguinte:
"De
todas as histórias contadas pelos índios, a mais surpreendente foi nascida de
uma conversa com Arru, um de meia-idade que, embora não fosse um grande pajé,
era, sem dúvida, o mais versado nos conhecimentos que transcendem o saber
comum, principalmente no campo do sobrenatural. Arru chegara do mato cansado da
caminhada e, encontrando-nos na aldeia, sentou-se a meu lado. Não havia muita
coisa a conversar. Seu mundo monótono, nesse aspecto, valia pelo que já havia
acontecido. Foi por isso que ele, olhando para os lados, para o chão e depois
para o céu, disse: -“Lá é o céu. –“Eu já
sabia”, respondi. –“Lá é a aldeia dos que morrem”. –“Eu já sabia”. Depois de um
breve intervalo, e de olhar bastante elevado para o céu, falou: -“Lá no céu do
céu... ela está lá”. Fui tomado de surpresa. Céu do céu... O que viria a ser
isso? Ela está lá? Ela, quem? A figura de um índio velho? Daí perguntei:
-“Quem? Um índio velho que sabe tudo? –“Não! (pronunciado com veemência),
somente uma sabedoria!” E com um gesto
largo abrangendo o sol e o céu deu-me a idéia de que lá havia somente uma
sabedoria, que, tal qual a concepção das seitas tibetanas, mantém a harmonia do
universo.” (Orlando Villas Bôas, A
Arte dos Pajés, Impressões sobre o universo espiritual do indio
xinguaano,Editoria Globo,2000, p.89-90) .
Em 1852, o governo dos Estados Unidos propôs comprar as terras dos
índios. O cacique Seattle estranhou a proposta e expôs a sua preocupação numa
carta ao Presidente. Segue aqui um trecho da carta:
"O
presidente em Washington informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é
possível comprar ou vender o céu ou a terra? A idéia nos é estranha. Se nós não
possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão
comprá-los? Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. ... Somos parte da
terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso e a
águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do
corpo do cavalo, o ser humano, pertencem todos à mesma família. A água
brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas é o sangue de
nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é
precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. Uma
coisa sabemos: nosso Deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele.
Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa
sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum ser humano, vermelho ou branco, pode
viver à parte. Afinal, somos irmãos!" (Joseph Campbell, O Poder do Mito, Editora Palas Athena, 14ª edição, São
Paulo, 1996, pp.34 e 36)
São duas maneiras diferentes de relacionar-se com a terra. Para Seattle,
o chefe indígena, a terra é dom de Deus e fonte de identidade. Para o
Presidente dos Estados Unidos a terra é apenas uma mercadoria, um objeto de
troca. Para Arru, o índio do Xingu, a terra, o chão, o passado, o céu, tudo faz
parte de uma sabedoria universal que
nos envolve e da qual nós somos apenas uma parte. Não somos os donos do mundo;
tomamos conta, e temos que prestar conta. Dizia um descendente dos índios lá do
Ceará: “Eu não sou pessoa. Sou pedaço de pessoa. A pessoa é a comunidade.
Vivendo em comunidade me torno pessoa”. São duas mentalidades distintas: a dos
índios e a nossa. Temos muito a aprender deles. Nos últimos três ou quatro
séculos, uma ciência utilitarista que só busca seu próprio proveito, privou-nos
desse contato com a natureza e, por conseguinte, da sabedoria que nasce do
contato com a mãe terra, Pachamama.
Segue uma reflexão de Leonardo Boff sobre as lições que podemos receber
dos índios:
Os
índios sentem e vêem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como
prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza é um sujeito
vivo e carregado de intencionalidades. Não é como para nós modernos, um objeto
mudo e sem espírito. A natureza fala e o indígena entende sua voz e mensagem.
Por isso ele está sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo
complexo de inter-relações. Há sábias lições que precisamos aprender deles face
às atuais ameaças ambientais. Importa entender a Terra, não como algo inerte,
com recursos ilimitados, disponíveis ao nosso bel prazer. Mas como algo vivo, a
Mãe do índio a ser respeitada em sua integridade. Se uma árvore é derrubada,
faz-se um rito de desculpa para resgatar a aliança de amizade. Precisamos de
uma relação sinfônica com a comunidade de vida, pois como foi comprovado, Gaia
(terra) já ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas
correrem e não fizermos nada as ameaças se tornarão devastadora realidade.
(Leonardo Boff, O desafio Amazônico, 19 de fevereiro 2007).
O Mito na vida dos povos
O mito verdadeiro é uma coisa muito séria. É a
memória coletiva de um povo, sua carteira de identidade. Cada povo tem os seus
mitos. No mito o povo diz quem ele é, de onde vem, onde vive, para onde vai. No
mito, o povo descreve como se relaciona com a natureza, com a terra, com os
outros, consigo mesmo, com Deus. As histórias do mito explicam as coisas da
vida ligando-as com a origem do povo. Dentro do espaço em que uma tribo mora e dentro do tempo em que ela vive, o mito estabelece um quadro de referências
que dá segurança e identidade aos membros da tribo. Explica os lugares (espaço)
e estabelece os ritos e as festas (tempo). Do mito fazem parte as celebrações,
as danças, as peregrinações, as visitas, as histórias, os remédios, os
costumes, etc. Os mitos falam de tudo que faz parte da vida. Falam da origem
das montanhas, dos riachos, das fontes, das árvores, das plantas, das estradas,
dos bichos, dos peixes, das chuvas, do casamento, do sexo, das crianças, das
festas, dos ritos, dos costumes, dos lugares sagrados, dos mistérios da vida.
Falam da Divindade como origem da vida. É a coletânea de tudo, coletânea
necessária para o povo e os indivíduos se encontrarem consigo mesmo, com a sua
missão, com Deus.
Em momentos de crise, de
mudança ou de derrota, quando a identidade do grupo é ameaçada, o mito ajuda o
grupo a reencontrar-se e a não se perder na estrada. Os mitos dos povos
indígenas da América Latina, por exemplo, eram e são a expressão da sua identidade.
Quando, por ocasião da invasão européia nos séculos XV e XVI, a identidade
destes povos ficou ameaçada, o mito reagiu e ajudou-os a não perder sua
identidade. Para superar a crise e a ameaça de extinção os índios fizeram uma
releitura dos antigos mitos integrando neles a novidade ameaçadora. Deste modo,
neutralizavam o perigo e conseguiam reencontrar-se e manter sua identidade.
A releitura dos seus mitos
a partir dos fatos novos da vida reflete a resistência destes povos frente à
invasão européia. É como o nosso corpo quando recebe uma ferida. O corpo reage
e se defende, formando uma cicatriz ao redor da ferida, neutralizando assim o
perigo. Nos mitos indígenas existem hoje grandes cicatrizes. Eis um exemplo das
cicatrizes que existem no mito do povo indígena Desana das nascentes do Rio Negro. (Colocamos a cicatriz em escrita
itálica):
"Emeko Sulan Panlamin, o criador do mundo
começou a dividir os homens, conforme eles iam saindo de um grande buraco, do
fundo da terra. Cada um saía acompanhado de sua mulher, formando uma fila. O primeiro que saiu foi o chefe dos
índios Tukano, Doé Tiró. Seu nome significa Traíra, cabeça chata. Em segundo lugar saiu Emeko Boleka. O terceiro a sair à superfície foi o pai
dos índios Pirá-Tapuia. O quarto foi
o pai dos índios Suriana. O quinto
foi o pai dos Baniwa. Este saiu com o arco e flecha, e logo puxou o arco para
experimentar. Por isso, os Baniwa são guerreiros. O sexto a sair foi o pai dos índios Maku. Para todas essas tribos
Emeko disse: "Dou a vocês o bem-estar e as riquezas de que vocês
precisam". Dizendo isto, o Criador do mundo estava dando a eles o poder de
serem pacíficos, de fazerem grandes festas com danças, reunindo muita gente,
de conviver bem com todos e de não guerrear. Tanto assim que os mais antigos dessas
tribos nunca fizeram guerra. O sétimo a sair foi o homem branco, de
espingarda na mão. Então Emeko disse ao homem branco: "Você é o último.
Dei aos primeiros todos os bens que eu tinha. Como você é o último, deve ser
uma pessoa sem medo. Você deverá fazer guerra para conseguir a riqueza dos
outros. Com isso conseguirá muito dinheiro". Quando Emeko acabou de dizer
isso, o primeiro branco virou as costas, deu o primeiro tiro e foi para o Sul.
Chegou a São Gabriel e alí mesmo fez a primeira guerra". (Sem Fronteiras,
Janeiro Fevereiro de 1992, página 42)
O mesmo pode-se dizer dos
povos negros que foram transportados da África para o Brasil como escravos nos
navios negreiros. Foi a releitura dos mitos antigos da África, feita à luz da
nova situação aqui na colônia portuguesa marcada pela religião dos santos e dos
sacramentos, que lhes deu a força para manter sua identidade e sobreviver
durante o longo e terrível cativeiro, até hoje.
4º Capítulo
O Mito na Vida do Povo da Bíblia
Num certo sentido podemos
dizer que a Bíblia nos traz o Grande Mito
do Povo de Deus. A carta aos Hebreus usa uma outra palavra e diz que ela é
o nosso Símbolo (cf. Hb 11,19; 9,9). A Bíblia explica quem somos, de onde viemos, para onde
vamos. Como nos outros povos, assim também em Israel transmitiam-se as
narrativas sobre a origem do mundo e da humanidade. Elas faziam parte do
patrimônio cultural e ajudavam o povo a se situar no mundo e descobrir sua
missão. Assim como os mitos, as narrativas de Gênesis
O mito é como a música. As
notas musicais escritas no papel não dizem nada. Mas quando ativadas pelo
maestro e sua orquestra, elas nos colocam em contato direto com a inspiração
original do artista. Assim, são as narrativas de Gênesis
Em todos os povos os mitos
da criação ensinam qual a vontade de Deus sobre a vida humana. Pois a crença
geral da humanidade é esta: do jeito que Deus criou o mundo, assim deverá ser
organizada a vida. Em muitos povos, porém, esta crença era manipulada para
legitimar a organização social e política em que viviam. No Antigo Egito, por
exemplo, a organização piramidal da sociedade era justificada pela maneira de
eles transmitirem ao povo a história da criação do mundo. O Faraó na ponta da
pirâmide era visto como o representante do Deus Criador. A ele todos deviam
obediência e era só através dele que o povo podia entrar em contato com Deus e
ter acesso à bênção divina. Assim, o mito, em vez de ser uma força libertadora,
transformava-se numa força dogmática opressora que legitimava e consolidava a
injustiça social e política: “Deus quer assim!”
Como dissemos
anteriormente, há mitos verdadeiros e mitos falsos, mitos manipulados e mitos
recuperados. Há mitos verdadeiros que foram falsificados pelos interesses de
pessoas e de grupos. Há também mitos falsificados que foram recuperados pela
consciência crítica que o grupo ia adquirindo. O mito cresce e se transforma
junto com o povo.
No início, as histórias do
povo de Israel coincidiam em grande parte com as histórias da Criação das
outras tribos nômades do deserto e dos outros povos que viviam na terra de
Canaã. Pouco a pouco, porém, sobretudo depois da saída do Egito e durante a
época dos Juizes, na medida em que se organizavam como Povo de Deus, eles
começaram a adaptar as histórias antigas às exigências da sua nova fé em Javé,
o Deus libertador do Êxodo. À luz desta sua fé eles reinterpretavam os mitos
antigos e faziam a releitura das histórias da Criação adaptando-as à nova
situação em que viviam. Assim, estas histórias antigas recebiam um rosto
próprio, expressão da sua fé e da sua caminhada. Mas também acontecia o
contrário. Os reis chegavam a reler e manipular as histórias antigas do povo em
seu próprio favor. Deste modo, abriram a porta para que o cupim da falsa imagem
de Deus pudesse entrar e esvaziar por dentro a viga da fé. Os profetas, por sua
vez, ao combater os reis, reliam as mesmas narrativas antigas à luz da sua fé
em Javé, o Deus libertador.
Como os mitos indígenas,
também a Bíblia está cheia de cicatrizes, fruto da resistência do povo de Deus
para manter sua identidade e não se perder na caminhada. Na vida acontece às
vezes que a cicatriz é tão grande que repuxa a pele e chega a desfigurar o
rosto de uma pessoa. Aqui e acolá, no Antigo Testamento, a cicatriz repuxou a
pele e desfigurou o rosto de Deus. Jesus o consertou.
Exemplos de releitura na Bíblia
Como os índios aqui no Brasil e em toda a
América Latina, também o povo de Deus, no meio de sua vivência diária, de seus
avanços e de suas crises e ameaças ao longo de sua história, para não se
perder, sempre tentou reler e atualizar o seu passado. Eis alguns exemplos
desta adaptação progressiva das histórias antigas às exigências da fé sempre
renovada em Javé.
Quando Davi tomou a cidade de Jerusalém, havia
por lá um santuário cananeu dedicado a uma serpente chamada Noestã, que, ao
longo dos anos, recebeu uma dupla releitura ou interpretação. Na narrativa do
Paraíso Terrestre, ela aparece como a causadora de toda a desordem (cf. Gn
3,1). Deste modo, apresentando a serpente de uma maneira negativa, o mito se
torna um apelo forte para que o povo não se deixe seduzir pela serpente
atraente da religião dos povos de Canaã.
Mas existe uma outra releitura positiva da
presença desta serpente. Ela foi associada a um episódio durante a travessia do
deserto. Esta serpente Noestã seria a serpente de bronze que Moisés levantou no
deserto para curar as pessoas que tinham sido mordidas por cobras (cf. Nm
21,4-9). Mais tarde, a reforma religiosa promovida pelo rei Ezequias seguiu a
releitura negativa desta serpente e ela foi retirada do templo de Jerusalém
(cf. 2Rs 18,4). Relembrando o gesto de olhar para a serpente e ficar curado, o
livro da Sabedoria, escrito por volta do ano
O evangelho de João faz uma nova releitura e
associa esta serpente levantada no deserto com Jesus crucificado, sinal maior
da misericórdia de Deus (cf. Jo 3,14-17). No entanto, o livro do Apocalipse
retoma a visão negativa da serpente, associando-a ao dragão, o satanás,
inspirador da império romano, que quer devorar o filho da mulher (cf. Ap 12,9).
2. O dilúvio.
O dilúvio e a figura de Noé fazem parte da
história universal. Vários povos falam das águas que vieram e levaram tudo. Noé
é considerado um dos heróis dos tempos antigos, junto com Jó e Danel (cf. Ez
14,14.20), simbolizando uma pessoa que permanece fiel a Deus mesmo quando tudo
parece desabar ao seu redor. A corrupção generalizada causadora do dilúvio
sempre esteve presente na história do povo. O dilúvio já tinha sido
interpretado pelo profeta Isaías como uma grande invasão estrangeira que
destrói todo o país (cf. Is 8,6-8).
3. Os povos vizinhos.
A costura das diferentes narrativas de Gn
4. O bezerro de ouro.
Quando o rei Jeroboão separou Israel do reino de
Judá, criou dois santuários, um em Betel e outro
5. Abraão e Sara.
Para o povo que estava exilado em “Ur dos
caldeus” (cf. Gn 11.31), o Livro da Consolação (Is
6. O êxodo.
Por ser o fato fundante da história do povo de
Deus, o êxodo foi lido e relido ao longo de toda a história. Toda a Bíblia,
inclusive o Novo Testamento, é uma contínua releitura deste episódio que marca
a libertação do povo de Deus. Algumas releituras são para animar a vida do
povo, principalmente a releitura feita na época do exílio da Babilônia (cf. Is
43,1-7; 43,16-21; 48,20-22; 49,8-26).
No entanto, uns duzentos anos antes, o profeta
Amós faz uma releitura questionando a segurança do povo de Deus pelo fato de
ter acontecido a libertação do Egito. A palavra do profeta é dirigida a todas
as famílias que Javé “fez subir da terra do Egito” (Am 3,1). Fazendo uma
denúncia contra todos os pecados do povo, Amós conclui dizendo que os
israelitas não são melhores que outros povos. Afinal, os cuchitas, os filisteus
e os arameus, todos povos inimigos de Israel, também passaram por êxodos, e
Deus cuida deles da mesma maneira que cuida de Israel (cf. Am 9,7-10).
Este
lento e progressivo processo de enculturação e de adaptação dos mitos antigos
da criação às exigências da fé em Javé alcançou o seu ponto alto na época da
grande crise do cativeiro e encontrou sua forma final nos capítulos
5º Capítulo
A nova chave para reler e entender Gênesis
Acompanhamos a caminhada
do povo de Deus no cativeiro. Desafiados por aquela
terrível crise, eles começaram a rever o seu relacionamento com a natureza e a
reler o seu próprio passado. O fruto desta dolorosa revisão foi a redescoberta
da presença de Deus na vida. É nesta nova experiência de Deus que está a
semente, da qual vai nascer o livro de Gênesis
No início, eram narrativas
soltas, sem muita organização, que se transmitiam nas celebrações, nos
encontros familiares, nas festas anuais, nas romarias, nas iniciações das
diversas etapas da vida. Pouco a pouco, ao longo dos anos, as narrativas foram
sendo unidas como as pedrinhas num mosaico, como os retalhos numa colcha.
Nesta colcha de Gênesis

A pessoa que fez o mosaico
de Gênesis
O que nos interessa aqui
não é estudar o tamanho e a qualidade de cada pedrinha, mas sim admirar de
perto o desenho da imagem do Deus que o artista expressou no mosaico,
experimentar algo da presença de Deus na vida e descobrir a mensagem que lá
existe para nós. Vamos ver de perto as etapas deste processo da redação de
Gênesis
A semente: a nova experiência de Deus que se expressa em novas
imagens
Os exilados judeus viviam desenraizados na imensidão do império
babilônico (
A nova imagem de Deus reflete este ambiente familiar da casa, pois Deus
é apresentado por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe
(Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como
parente próximo (ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Imagens de família! O Deus
que antes estava ligado ao Templo, ao Sacerdócio, ao Culto oficial, à
Monarquia, à Posse da Terra, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena,
quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não usaram as imagens religiosas
tradicionais, mas sim as imagens tiradas da vida familiar e comunitária de cada
dia. Eles, por assim dizer, humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram
a vida como o espaço do reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus
que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se
abriga onde antes, na época da monarquia, ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário
familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído! (Is 57,15).
A crise da fé ajudou-os a
redescobrir a presença de Deus bem perto deles em casa, no meio daquela
terrível situação de abandono do cativeiro. Era esta a Boa Nova que os
discípulos e as discípulas de Isaías tentavam transmitir ao povo oprimido e
desanimado. Em vista disso começaram a fazer reunião
com o povo para mandar
refrescar a memória (Is 43,26; 46,9). Nestas reuniões contavam as histórias de
Noé (Is 54,8-9), de Abraão e Sara (Is 51,1-2), da Criação (Is 51,12-13;
45,18-19), lembravam o êxodo (Is 43,16-17), apontavam os fatos da política (Is
45,1-7), mandavam observar a natureza (Is 40,26) e perguntavam: “Quem é que faz
tudo isto?" (Is 41,2). A resposta é sempre a mesma: "É Javé, o Deus
do povo, o nosso Deus!"
Eis um exemplo do andamento daquelas reuniões. De
noite, fora de casa, os discípulos perguntavam ao povo: “Levantem os
olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso?” E eles respondiam: “É Aquele que organiza e põe em marcha o
exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome. Tão grande é o seu poder e
tão firme a sua força, que nenhuma delas deixa de se apresentar. Jacó, por que
você anda falando, e você, Israel, por que anda dizendo: “Javé desconhece o meu
caminho e o meu Deus ignora a minha causa?” (Is 40,26-27). Olhando as
estrelas do céu, o povo lembrava o poder criador de Deus e se reanimava.
Os discípulos e as discípulas de Isaías não só
falavam sobre Deus, mas também o revelavam; comunicavam algo daquilo que eles
mesmos viviam. Deus se fazia presente nessa atitude de ternura e diálogo. O
povo se dava conta de que o Deus dos discípulos era diferente do deus da
Babilônia, diferente também da imagem de Deus que eles ainda carregavam na
memória, desde os tempos da monarquia, de antes da destruição do Templo.
A espiga que nasce da semente: Javé, Deus Libertador e Deus Criador
No centro desta nova experiência da presença de
Deus destaca-se a fé renovada no poder Criador de Javé, poder maior que o poder
de Nabucodonosor que os oprimia e esmagava! O povo já sabia, desde os tempos
mais antigos, que Deus era o Criador do mundo, mas nunca se tinha dado conta da
dimensão libertadora desta fé. Foi a partir do ensinamento de Oséias, Jeremias
e outros, que os discípulos e as discípulas de Isaías, redescobriram a
importância da fé no Deus Criador para ajudar o povo a não desanimar e a ter
esperança.
De todos os livros da Bíblia, os capítulos
Assim, aos poucos, os olhos se abrem. O povo
começa a perceber algo do novo que estava acontecendo: a natureza e o universo deixam de ser o santuário dos falsos deuses;
a história e os acontecimentos já não
são mais decididos pelos opressores do povo; o mundo da política e da organização da sociedade já não é mais o domínio de
Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de
Javé, o Deus Pai, Mãe, Irmão, Marido do
povo. Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na
história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo:
"Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão
vendo?" (Is 43,19).
Esta é a Boa Nova que os discípulos anunciam ao
povo: "Teu Deus reina!" (Is 52,7; cf.
Is 40,9-11;35,4; 62,11-12). Um jovem pode cansar, mas quem confia em Javé nunca se cansará (cf. Is
40,12-31; 43,1-13). Era um verdadeiro renascimento. Uma nova criação!
Esta mudança na maneira de experimentar a
presença de Deus na vida se reflete na maneira de rezar. O povo reza o que crê.
Eles cantam a beleza da Criação que revela o amor e o poder criador de Deus
1. Salmo 8: “A Tua presença irrompe por toda a
terra!” Deus se revela na natureza
2. Salmo 19(18): “Os céus cantam a glória de Deus!” Eles são expressão da Lei de Deus
3. Salmo 46(45): “Deus é nosso refúgio e nossa força!” Ele está conosco! Não temos medo
4. Salmo 104(103): “Envia
teu Espírito e tudo será criado!” A
ordem da Criação vem de Deus
5. Salmo 136(135): “Criou
o céu e a terra! Eterno é seu amor!” Tudo
é revelação do amor de Deus
6. Salmo 139(138): “Tu
me conheces quando estou sentado!” O
Criador está presente em tudo
7. Salmo 148: “Aleluia! Louvai a Javé todas as criaturas!” Convite ao louvor universal
Estes Salmos nos dão uma
idéia do que significava a fé no poder criador de Deus para o povo oprimido do
cativeiro. Não se tratava de uma informação sobre o que aconteceu no passado,
na origem do mundo. Tratava-se de saber quem era o Deus que estava com eles lá
no cativeiro, no mais fundo do fundo do poço, naquela escuridão sem luz,
naquele desânimo sem futuro! A fé na criação era como a ressurreição do povo!
Os grãos dentro da espiga: A nova consciência da missão
A redescoberta da presença
amorosa e criadora de Deus na vida abriu um novo horizonte para o povo.
Ajudou-o a descobrir como o cupim da falsa imagem de Deus tinha falsificado o
seu relacionamento não só com Deus, mas também com os irmãos e com a natureza.
Com esta luz nos olhos conseguiram fazer uma revisão dos erros do passado e
expressá-la na História das Cinco Quedas
que explicava para o povo a causa dos males que os afligiam: (1) A queda de
Adão e Eva quebrou o relacionamento com Deus (Gn
Estas cinco quedas não são
histórias do passado. São espelho de coisas que acontecem sempre. Elas ajudam
as pessoas a fazer uma séria revisão de vida e se perguntar: “Será que sou Adão
e Eva que romperam com Deus? Será que sou como Caim que mata Abe ou como Lamec
que vive de vingança? Será que um adorador de ídolos que leva à desintegração
do dilúvio ou participante de grupos ou partidos que querem dominar e explorar
os outros, levando à Torre de Babel?”
A redescoberta da presença
de Deus na vida e a revisão dos erros do passado ajudaram o povo a redescobrir
sua missão como povo de Deus. Exilados naquela mesma terra da Babilônia, de
onde, 1300 anos antes, Abraão e Sara tinham saída para atender ao chamado de
Deus, descobriram que Deus os chamava para ser novamente Abraão e Sara, fonte
de bênção para todos os povos da terra (Gn 12,1-4). No momento mais escuro do
cativeiro, perdidos no império, eles escutavam o chamado que vinha de Deus e do
seu próprio passado:
“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem
para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram
extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe. Quando os chamei
eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)
Na própria vocação já
estava implícito o duplo caminho a ser trilhado para sair do cativeiro e
recuperar a bênção da vida, prometida por Deus a Abraão e Sara, a saber:
“buscar a justiça e procurar a Deus” (Is 51,1).
O Salmo 146(145), usando outras palavras,
aponta o mesmo caminho. O povo deve colocar sua segurança não nos poderosos,
mas em Deus, o Criador do céu e da terra. Deve buscar Deus e lutar pela
justiça, para que sejam eliminadas as divisões injustas que marginalizam tanta
gente: oprimidos, famintos, prisioneiros, cegos, encurvados, estrangeiros,
órfão e viúvas (Sl 146,7-9). É na grandeza da criação e na prática da justiça
que Deus revela a sua presença. É imitando Deus pela prática da justiça que o
ser humano ajuda a manter a criação de Deus:
1 Aleluia! Louve a Javé, ó minha
alma!
2 Vou louvar a Javé, enquanto eu viver.
Vou tocar ao meu Deus, enquanto
existir!
3 Não coloquem a segurança nos poderosos,
num homem que não pode salvar!
4 Exalam o espírito e voltam ao pó,
e no mesmo dia perecem seus
planos!
5 Feliz quem se apóia no Deus de Jacó,
quem coloca sua esperança em
Javé seu Deus.
6 Foi ele quem fez o céu e a terra,
o mar e tudo o que nele existe.
Ele mantém sua fidelidade para
sempre,
7 fazendo justiça aos oprimidos,
e dando pão aos famintos.
Javé liberta os prisioneiros.
8 Javé abre os olhos dos cegos.
Javé endireita os encurvados.
Javé ama os justos.
9 Javé protege os estrangeiros,
sustenta o órfão e a viúva,
mas transtorna o caminho dos
injustos.
10Javé reina para sempre.
O teu Deus, ó Sião, reina de
geração em geração!
O pão que alimenta: o projeto de Deus que orienta e anima a missão
Toda esta revisão ou
releitura ajudou–os a juntar os retalhos na colcha e as pedrinhas no mosaico de
Gênesis

Agora estamos sintonizados
na mesma freqüência em que a Bíblia transmite a sua mensagem e temos o enfoque
correto para entender o que o autor ou autora de Gênesis