A Terra é nossa Mãe

Gênesis 1 a 12

Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino

 

Os assuntos de Gênesis 1 a 12 que vamos meditar e estudar neste livro são bem variados e provocam muitas perguntas. Todo mundo já ouviu falar de Adão e Eva, do Pecado Original, Caim e Abel, Dilúvio, Torre de Babel, Paraíso Terrestre, Abraão e Sara, Criação do mundo. São histórias que já pertencem ao patrimônio comum da humanidade. Mas nem todos as entendem do mesmo jeito. Tem gente que aceita a evolução e diz que a Bíblia está errada. Dizem que ela conta histórias infantis. Outros afirmam que a ciência está errada e proíbem ensinar a evolução nas escolas. Uns entendem tudo ao pé da letra, outros dizem que tudo é simbólico. Com entender estes capítulos da Bíblia? Qual a sua mensagem para nós hoje? 

Neste livro vamos oferecer uma chave de leitura que nos permita entender o sentido geral destes doze capítulos da Bíblia e que nos ajude a resolver as dificuldades maiores em torno dos mesmos. O livro terá duas partes:

1ª PARTE:  Buscar olhos novos para ler Gênesis 1 a 12

2ª PARTE:  Ler Gênesis 1 a 12 com olhos novos

Uma observação: Geralmente, se fala de Gênesis 1 a 11 e não de Gênesis 1 a 12. Neste livro falamos de Gênesis 1 a 12. Incluímos o início da história de Abraão e Sara. Gênesis 1 a 11 é um livro que faz o diagnóstico do estado de saúde da humanidade. Gênesis 12 é o começo de um outro livro que oferece o remédio e inicia o tratamento.

 

I PARTE

BUSCAR OLHOS NOVOS PARA LER GÊNESIS 1 A 12

 

A Bíblia é como uma casa popular. Casa popular começa pequena e cresce aos poucos de acordo com o tamanho e as necessidades da família. No fim, depois dos filhos criados, o dono da casa faz o portão da entrada com uma varanda bonita para receber os netos. O portão, a primeira coisa que se vê, é a última a ser construída.

Gênesis 1 a 12 é o portão da entrada da Bíblia. É a primeira coisa que se vê, e quase a última a ser escrita! É a varanda bonita, onde Deus recebe o povo oprimido que sofria no cativeiro, para consolá-lo e animá-lo novamente para a caminhada. Gênesis 1 a 12 não é um texto científico. Não foi escrito para ensinar ciências, geografia ou história, nem para informar como foi a criação do mundo e da humanidade, mas sim para devolver a fé, a esperança e o amor a um povo explorado, descrente e desanimado de tudo, para ajudá-lo a reconhecer os seus erros, olhar o mundo com um olhar mais crítico e descobrir sua missão como povo de Deus no meio da humanidade.

Muitos de nós não estamos habituados a entender assim as narrativas de Gênesis 1 a 12. Fomos acostumados pela catequese antiga a entendê-las ao pé da letra. Imaginávamos que tudo tivesse acontecido exatamente do jeito que está escrito, como se um repórter tivesse filmado a conversa e tirado uma fotografia. Na realidade, ao invés de oferecerem informações jornalísticas sobre um passado que já passou, estas narrativas querem colocar-nos em contato direto com a fonte de onde nascemos. Elas querem aprofundar em nós a identidade e a missão como seres humanos e povo de Deus. Como os antigos mitos, elas nos ajudam a descobrir quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

Por isso, a primeira coisa de que precisamos para captar bem a mensagem de Gênesis 1 a 12, é sintonizar na mesma freqüência em que a Bíblia transmite a sua mensagem. Precisamos acertar os olhos com que lemos as histórias da Bíblia sobre a origem do mundo e da humanidade. Pois a leitura ao pé da letra falsificou nosso relacionamento não só com o texto bíblico que fala da criação, mas também com a terra que nos sustenta. 

Acertar os olhos com que olhamos para o texto bíblico que fala da criação:

As narrativas de Gênesis 1 a 12 não caíram prontas do céu, mas nasceram dos problemas e das esperanças do povo de Deus que vivia aqui na terra. São respostas às perguntas que o povo se fazia. Para você entender bem todo o alcance de uma resposta, é importante conhecer a pergunta que a provocou. Do contrário, você corre o perigo de não captar o seu sentido verdadeiro.

Acertar os olhos com que olhamos para a terra que nos sustenta:

Diz o livro de Gênesis: "Submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra" (Gn 1,28). Interpretada ao pé da letra, como nos foi ensinado, esta frase parece dizer que nós, seres humanos, por ordem divina, somos os donos do mundo e que podemos explorá-lo como bem entendemos. Isto nos levou a olhar a terra como objeto a ser explorado para nos enriquecer e não como mãe que nos dá vida e nos sustenta. Esta falsa mentalidade criou um abismo entre nós e o resto da criação. Nosso relacionamento com a terra entrou em crise e a sobrevivência da humanidade corre perigo. Que crise é esta?

1º Capítulo

O relacionamento com nossa mãe Terra entrou em crise

No princípio...

 

No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. Deus disse: "Que exista a luz!" E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa. E Deus separou a luz das trevas: à luz Deus chamou "dia", e às trevas chamou "noite". Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia. (Gn 1,1-4)

Assim começa na Bíblia a narrativa da criação. O povo pergunta: “Quanto tempo faz que houve esse princípio?” Pelas informações da própria Bíblia, tomadas ao pé da letra, seria em torno de seis mil anos (6.000), ou exatamente 5768 anos conforme o calendário judaico. A ciência informa que o universo tem em torno de quatorze bilhões de anos (14.000.000.000).

A Bíblia diz que Deus colocou as estrelas no céu para servirem de lâmpadas durante a noite. “A grande lâmpada”, o sol, para iluminar o dia, e a “pequena lâmpada”, a lua, para iluminar a noite (Gn 1,16-18). A ciência informa que só dentro da nossa galáxia, chamada Via Láctea, existem mais de 100 bilhões de estrelas. O sol é apenas uma destas 100 bilhões de estrelas. É uma estrela relativamente pequena, situada na periferia da Via Láctea. Além da Via Láctea, existem em torno de 100 bilhões de galáxias (100.000.000.000). Faça o cálculo! Há muito mais estrelas do que seres humanos em toda a história da humanidade!

Quando de noite olhamos as estrelas do céu, pequenos pontinhos de luz, não nos passa pela cabeça que alguns destes pontinhos de luz são milhões de vezes maiores que o nosso sol e que a luz de certas estrelas, para poder chegar até nós aqui na Terra, viajou durante milhares e até milhões de anos a uma velocidade de 300.000 km por segundo.

A ciência informa que o sol é um milhão de vezes maior que Terra. A cada segundo o sol gasta, gratuitamente, quatro milhões de toneladas de si mesmo para transformá-las em luz. É graças a esta luz, enviada para Terra, que nós existimos. Sem a luz do sol, a vida não teria sido possível. Ela jamais teria surgido na face da terra. O sol já presta este serviço há vários bilhões de anos e o combustível disponível no sol a ser transformado em luz ainda vai dar para mais uns 4 a 5 bilhões de anos.

Ao redor do nosso sol gira um determinado número de planetas como Marte, Vênus, Saturno, Júpiter e outros. Um deles é Terra, nossa terra. Solta no espaço, Terra gira em torno do sol e é mantida no seu lugar pela invisível força da gravidade. Até hoje ninguém sabe explicar bem como esta força consegue manter tudo no seu lugar. Vênus fica mais perto do sol e, por isso, o calor demasiado faz com que nele a vida seja praticamente impossível. Não há água, só vapor. Marte fica mais longe do sol e por isso é frio e a vida não é possível. Um gelo só!

Uma evolução de bilhões de anos fez com que Terra, iluminada pela luz do sol, criasse condições para que a água pudesse aparecer e a vida pudesse nascer e desenvolver-se nas milhares de formas, desde as algas marinhas até à mente humana. Cada ser humano, nos nove meses que passa no seio de sua mãe, refaz esse longo processo da evolução de bilhões de anos. Tem gente que se revolta quando alguém fala da evolução. Dizem que não querem ser bisneto de macaco. No entanto, a evolução é um fato comprovado, e é ela mesma, a própria evolução, que melhor nos revela a infinita grandeza da sabedoria criadora de Deus nosso Pai, nossa Mãe.

A mente humana fica extasiada ao admirar a grandeza da criação de Deus que se desdobra diante dos nossos olhos e nos envolve inteiramente. A Bíblia tem razão em cantar: “Quando me extasio a olhar o céu estrelado, quando contemplo as noites de luar, e penso que foste Tu seu criador, eu me pergunto: Que valor imenso não deve ter o ser humano, para estar sempre na tua lembrança e ser tratado com tanto carinho?” (Sl 8,4-5). Jesus nos revela o rosto deste nosso Deus que faz nascer o sol para todos, bons e maus, para que tenhamos vida em abundância (Mt 5,45; Jo 10,10).

Nossa atitude com relação à terra

Apesar dessa grandeza imensa da Criação que nos envolve por todos os lados, muitos de nós, sem consciência do que somos e de onde viemos, tratamos mal a Terra e colocamos em perigo a vida que recebemos do Criador. Não cuidamos de Terra, nossa casa, que por disposição do Criador levou milhões de anos para ter as condições necessárias que permitissem o aparecimento da vida. Corremos o risco de destruir em pouco tempo uma obra que levou bilhões de anos para ser construída. Somos predadores violentos, ignorantes de pai e mãe.

A vida na terra corre perigo por causa da falta de cuidado que temos com a preservação do meio ambiente. Criamos um desequilíbrio. A organização do mundo dentro do atual sistema neoliberal criou o ídolo do falso progresso. Parece a besta fera  que todos adoram (cf. Apc 13,3.12.15-17). A propaganda deste ídolo faz com que o mundo inteiro contemple na vida dos países ricos o ideal supremo da vida humana: todos querendo alcançar aquele mesmo nível exagerado de bem-estar material dos países ricos. Mas Terra não tem recursos para fornecer tanto exagero de bens para todos, e os ricos não abrem mão dos seus privilégios e de suas posses. Eles, que são menos de 10% da humanidade, apropriaram-se de mais de 80% dos recursos da natureza e deles não abrem mão. Acham que é o seu direito. Não querem a partilha fraterna dos bens entre todos os seres humanos.

Estamos esgotando Terra, nossa mãe, querendo tudo para nós, num egoísmo desenfreado em prejuízo de milhões de irmãos e irmãs, condenados a viver na pobreza! Assim, sem nos dar conta, desintegramos a natureza, destruindo rios, plantas, animais, florestas, mares, geleiras, ....

Na raiz desta depredação interesseira e egoísta da natureza está a busca de uma falsa segurança. Colocamos a segurança não no ser, mas no ter: “Quanto mais possuo, mais segurança eu tenho!” E fundamentamos esta busca desenfreada de bens numa interpretação errada de uma frase do livro de Gênesis que diz:

Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençoou e lhes disse: "Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra" (Gn 1,27-28)

Afirmações semelhantes encontram-se também em outros livros da Bíblia (cf Sb 10,1-2; Eclo 17,1-4; Sl 8,7). Por causa da interpretação errada destes textos nós nos comportamos como se tivéssemos recebido de Deus o direito de dominar todas as coisas e a licença para fazer o que bem entendermos com os recursos da natureza. Terra, nossa casa, é tratada com desprezo, como se fosse uma simples mercadoria. Isto produziu a ganância interesseira que fez crescer em muitos a vontade de explorar os outros, impedindo que eles também tenham acesso aos mesmos bens. E o resultado é o desequilíbrio total de tudo:

* é o caos da poluição ameaçando a vida no planeta que volta a ser “sem forma e vazio” (Gn 1,2);

* é o irmão matando o irmão, é Caim matando Abel (Gn 4,1-16);

* é a violência extrema e agressiva, pior do que a de Lamec (Gn 4,17-24);

* é a manipulação da religião e a desintegração de tudo, igual àquela que deu origem ao Dilúvio (Gn 6,1-7):

* é uma nação querendo dominar as outras, criando a confusão da Torre de Babel (Gn 11,1-9).

Perdemos o contato com o universo, com a natureza, com a nossa origem. Já não sabemos quem somos. Dizemos que conhecemos a nossa história, mas conhecemos apenas uns poucos anos, não mais que uns 20 ou 30 séculos. Só o planeta Terra, nossa casa, já tem mais de 3 bilhões de anos. A carteira de identidade indica nossa idade, diz o ano em que nascemos. Dificilmente alguém passa dos 90 anos. Na realidade, como parte do universo, nós seres humanos temos em torno de 14 bilhões de anos.

Vivemos neste universo desde o nosso nascimento e esquecemos a missão que o Criador nos confiou. Ao longo dos milhões de anos da lenta e progressiva evolução, a vida foi aparecendo até desabrochar na consciência de nós, seres humanos. Nós somos os primeiros que abrimos os olhos sobre a terra, sobre o sistema solar, sobre a Via Láctea, sobre o Universo, com a capacidade de admirar essa beleza infinita da criação de Deus. Nossa segurança não está em ter muitas coisas, mas sim em entrar na lógica da Criação e ser um ato vivo de louvor e de gratidão ao Criador. Nossa missão não é dominar tudo como patrão do mundo, mas sim, como criaturas, ocupar nosso lugar no meio das outras criaturas e assim contribuir para engrandecer a sinfonia do universo, pois, “o Senhor deu aos homens a ciência para que pudessem glorificá-lo por causa das maravilhas dele” (Eclo 38,6). E a maior glória de Deus é e será sempre o ser humano vivendo em fraternidade. Esta é a nossa missão.

Assim, de um lado, a leitura ao pé da letra de Gênesis e, de outro lado, a ganância sem freios em explorar a terra nos fizeram esquecer nossa missão e falsificaram nosso relacionamento com a Terra. Estamos perdidos no espaço! É urgente mudar os olhos para que possamos redescobrir nossa missão e salvar a vida no planeta Terra.

Nas páginas que seguem vamos olhar de perto como uma crise semelhante levou o povo da Bíblia a repensar o seu relacionamento com a terra e a descobrir o verdadeiro sentido da sua fé no Deus Criador. Vamos em busca da luz que aquelas narrativas de Gênesis 1 a 12 nos oferecem para corrigir nosso relacionamento com a Terra e redescobrir nossa missão como seres humanos.

2º Capítulo

A crise que levou o Povo de Deus a repensar tudo

Os primeiros sinais da crise

Uma crise nunca vem de repente, mas nasce aos poucos. É como o cupim que vai entrando nas vigas do telhado. Bem devagar! O dono da casa não se dá conta, nem presta atenção. Vai vivendo a vida despreocupado, desatento de tudo. De repente, um temporal cai sobre a casa e o telhado desaba. Desaba de repente, sim, mas é por causa da falta de cuidado do dono da casa que já vinha de longe. E o dono deu a culpa ao carpinteiro: “Mau serviço!”

Assim aconteceu com o povo de Deus. Desatento, ele permitiu que o cupim da falsa imagem de Deus fosse comendo por dentro a viga da sua fé. Ao longo dos 400 anos da monarquia (de 1000 a 600 aC), Javé, o Deus libertador do Êxodo, foi reduzido à falsa imagem de um Deus-Quebra-Galho, a um ídolo, que era manipulado  para legitimar a corrupção e a ganância dos reis. Os profetas alertavam sobre o perigo, mas ninguém lhes dava atenção. O dono da casa, o povo de Deus, cego por causa da idolatria e desatento de tudo, não se dava conta do que estava acontecendo.

O profeta Oséias deu o primeiro sinal de alerta, mostrando que uma sociedade injusta coloca em colapso a ordem da criação de Deus. Ele dizia:

Ouçam a palavra de Javé, filhos de Israel! Javé abre um processo contra os moradores do país, pois não há mais fidelidade, nem amor, nem conhecimento de Deus no país. Há juramento falso e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência; e sangue derramado se ajunta a sangue derramado. Por isso, a terra geme e seus moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar estão desaparecendo. Embora ninguém acuse, ninguém conteste, eu levanto acusação contra você, sacerdote! Você tropeça de dia, o profeta tropeça com você de noite e você faz perecer a sua própria mãe. O meu povo está morrendo por falta de conhecimento (Os 4,1-5).

A violência e a corrupção das elites, sacerdotes e profetas, provocavam a destruição da ordem da criação, faziam “perecer sua própria mãe”, estavam matando a terra. Os povos indígenas da América Latina também chamam a terra de Mãe, Pachamama. A terra (a mãe) geme e seus moradores desfalecem; as feras, aves do céu e até peixes do mar estão desaparecendo”. 

Oséias fez a ligação entre o comportamento humano e a integridade da criação de Deus. Foi o primeiro sinal de alerta. O cupim da falsa imagem de Deus estava entrando, mas ninguém lhe dava atenção. Para Oséias uma sociedade gananciosa e corrupta, marcada pelo sangue derramado (Caím), coloca em risco a ordem da criação de Deus. Faz o cosmos virar caos. Isto foi no século VIII antes de Cristo.

No século seguinte, Jeremias retomou a denúncia de Oséias e dizia:

Olhei para a terra: estava sem forma e vazia. Olhei para o céu, e não havia luz. Olhei as montanhas: elas tremiam, e todas as colinas se abalavam. Olhei: não havia mais ninguém, e todas as aves do céu haviam fugido. Olhei: o Carmelo era um deserto. (Jr 4,23-26).

Jeremias diz que a terra “estava sem forma e vazia”. Mais tarde, o livro de Gênesis repetirá a mesma frase ao dizer que, antes da ação criadora da Deus, “a terra estava sem forma e vazia!” (cf Gn 1,2). Jeremias via a desintegração da natureza como um retorno ao caos anterior à ação criadora de Deus. A corrupção e as injustiças estavam contrariando a vontade de Deus expressa na ordem da Criação.

O mesmo alerta transparece em alguns salmos. No salmo 82 se diz que a injustiça dos juizes provoca o abalo dos fundamentos da terra:

Deus se levanta no conselho divino, em meio aos deuses ele julga: "Até quando vocês julgarão injustamente, sustentando a causa dos injustos? Protejam o fraco e o órfão, façam justiça ao pobre e ao necessitado, libertem o fraco e o indigente, e os livrem da mão dos injustos!" Eles não sabem, não entendem, vagueiam nas trevas: todos os fundamentos da terra se abalam (Sl 82,1-5).

As vozes isoladas de Oséias, Jeremias e outros profetas não foram ouvidas e caíam no vazio, pois havia muitos outros profetas e pastores que diziam o contrário (Jr 28,1-11; Ez 34,1-10). O cupim da idolatria foi avançando e, de repente, veio a tempestade da invasão da Babilônia e do cativeiro. O telhado veio abaixo; tudo foi destruído: o templo, os palácios, as casas, as muralhas, a cidade inteira, tudo! Muita gente dava a culpa a Deus (Lam 3,1-18). Na realidade, a culpa era deles mesmos. Desatentos de tudo, deixaram o cupim avançar. A falsa imagem de Deus, a idolatria, tomou conta de tudo e, por isso, não foram capazes de entender o sentido verdadeiro do desastre que se abateu sobre eles (cf. Is 44,20).

O desastre nacional do cativeiro

No mês de agosto de 587 aC, Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina e destruiu a Cidade de Jerusalém (2Rs 25,8-12; Jr 52,12-16). Perderam tudo que, até àquele momento, tinha sido a expressão visível da presença de Deus: O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16), já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sem­pre (Gn 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jr 39,10; 52,16). Os sinais (sacramentos) tradicionais da presença de Deus foram destruídos como um vaso de argila que se quebra em mil pedaços (Jr 18,1-10). Os que tinham identificado Deus com os sinais tradicionais da Monarquia, do Templo, da posse da terra, diziam: “Deus nos abandonou” (Jr 33,23; Is 40,27; 49,14). “Acabou-se a esperança que vinha de Deus” (Lam 3,18). O Deus do povo já não fazia mais sentido para eles; deixou de existir. Desapareceu o quadro de referências que tinha orientado o povo até àquele momento. Muitos preferiram o deus de Nabucodonosor que parecia mais forte.

Os textos que melhor ajudam a perceber essa desintegração total do povo no cativeiro são as cinco Lamentações de Jeremias. Sobretudo a terceira e a quinta. A Quinta descreve o cativeiro da opressão que, de fora, caiu em cima do povo. A Terceira descreve o desespero que, de dentro, estourou na alma do povo. Há também alguns Salmos que ajudam a sentir mais de perto a dor do povo: Salmo 74(73) descreve o terrível massacre e a destruição do Templo. Salmo 137(136) canta a tristeza do povo fora da sua pátria. Salmo 44(43) canta a tristeza de quem não entende por que foram tão duramente castigados.

Humanamente falando, não havia mais saída. Estavam sem futuro. Qualquer tentativa de revolta seria esmagada sem dó nem piedade! O poder ameaçador do império matava na raiz a esperança de libertação. Uma frase da Terceira Lamentação retrata bem o sentimento de desespero do povo:

Eu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo. Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus  ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou gritar de nada vale, ele está surdo à minha súplica. ... Fugiu a paz do meu espírito, a felicidade acabou. Eu digo: "Acabaram-se minhas forças e minha esperança em Javé" (Lam 3,1-8.17-18).

A imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a de um carrasco que só quer castigar, vingar e machucar. Trágica experiência! Fonte de desespero! Fruto daquele cupim da idolatria que esvaziou a fé por dentro. Quem olha a vida e a natureza com esta falsa imagem de Deus nos olhos, nunca vai reencontrar a presença amorosa de Deus na vida.

Como redescobrir a presença de Deus na vida? Pois, antigamente, profetas como Samuel e Moisés falavam com Deus e Ele respondia (Sl 99,6). Onde está Deus agora? (Sl 42,4.11; 115,2; 79,10; Mq 7,10). Como sair desta situação? Eram estas as perguntas que agitavam as consciências e as conversas de muita gente.

O início de uma nova leitura da natureza para sair da crise

Jeremias ajudou o povo a perceber a presença de Deus de outra maneira. Apesar de ter sofrido os mesmos contratempos e de ter passado pelo terrível sofrimento da destruição dos sinais (sacramentos) de Deus, ele não perdeu a esperança. Pelo contrário. Ele dizia ter muitos motivos de esperança! E o motivo maior, ele o encontrou na natureza. É como se dissesse: A maior certeza que eu tenho e que me sustenta é que o sol vai nascer amanhã. Ou seja, é no movimento da natureza e na lógica da criação que Jeremias redescobre a manifestação do poder de Deus. Ele diz: “Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite, aquele cujo nome é Javé dos exércitos: quando essas leis falharem diante de mim – oráculo de Javé – então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jr 31,35-36; cf Jr 33,19-21). Nabucodonosor, o rei da Babilônia, pode ser forte, mas ele não tem poder para impedir o nascimento do sol amanhã! Deus é maior! O ritmo da natureza, do sol, da lua, das estações, das chuvas, das estrelas, das plantas revela o poder criador de Deus e são a prova de que Deus não rejeitou o seu povo. Mais tarde, este pensamento de Jeremias será retomado na narrativa da Criação no livro de Gênesis (cf.Gn 1,16 e Jr 31,35).

Esta maneira de apresentar a ação criadora da Deus transparece também na visão dos ossos secos do profeta Ezequiel (Ez 37,1-14). Embranquecidos pelo calor do sol, os ossos são um símbolo eloqüente da morte, imagem da situação sem saída em que se encontrava o povo no cativeiro. Na visão de Ezequiel, aqueles ossos sem vida reviveram pelo poder criador do Espírito de Deus, e o povo renasceu.

Foi no contato renovado com a natureza que Jeremias redescobriu o alcance libertador da fé no Deus Criador. É disso que nós precisamos hoje: de um novo olhar para entender de outro modo nosso relacionamento com a terra e com a narrativa de Gênesis sobre a criação. Precisamos redescobrir a grande sabedoria que move tudo e que se revela de mil maneiras na natureza e no dia a dia da nossa vida. Onde e como adquirir este novo olhar?

No próximo capítulo, por um momento, vamos deixar a Bíblia de lado para fazer o que fez o povo da Bíblia, isto é, vamos olhar nosso próprio passado. Vamos escutar uma lição importante que nos vem dos nossos índios. Eles mais do que nós souberam viver mantendo um contato estreito com a natureza.

3º Capítulo

A importância do Mito na vida dos povos

Muita gente, quando ouve falar de mito, pensa nos índios. Criou-se a idéia de que mitos são lendas indígenas que já foram superadas pela ciência. Pensamos que nós somos mais avançados do que eles. Pode ser que sejamos mais avançados do ponto de vista técnico, mas do ponto da visão do mundo e da comunhão com a natureza, temos muito a aprender deles. 

Para muitos de nós, um mito é uma história sem valor. O povo até diz: "Isso é mito!" Por outro lado, quando, de repente, uma pessoa fica famosa, o povo diz: "Fulana virou mito!". E aí muita gente procura imitá-la. O mito exerce uma força de atração sobre as pessoas. Ele pode levá-las a fazer coisas que um simples convite ou um conselho mais racional não conseguiria. Existem mitos verdadeiros e mitos falsos. No ano passado, o mito falso do corpo bonito levou uma moça a um regime alimentar que causou sua morte. O mito verdadeiro da ressurreição de Jesus leva muita gente a doar sua vida pelo bem dos outros. Levou os mártires a doar o seu sangue.

A lição dos índios

Eis dois exemplos concretos da lição de índios que não perderam o contato com a natureza: o primeiro é de um índio do Xingu, Brasil, contado pelo indigenista Orlando Villas Bôas; o segundo, de um índio da América do Norte.

Orlando Villas Bôas conviveu com os índios durante anos e estudou os costumes deles. Ele conta o seguinte:

"De todas as histórias contadas pelos índios, a mais surpreendente foi nascida de uma conversa com Arru, um de meia-idade que, embora não fosse um grande pajé, era, sem dúvida, o mais versado nos conhecimentos que transcendem o saber comum, principalmente no campo do sobrenatural. Arru chegara do mato cansado da caminhada e, encontrando-nos na aldeia, sentou-se a meu lado. Não havia muita coisa a conversar. Seu mundo monótono, nesse aspecto, valia pelo que já havia acontecido. Foi por isso que ele, olhando para os lados, para o chão e depois para o céu, disse: -“Lá é o céu.  –“Eu já sabia”, respondi. –“Lá é a aldeia dos que morrem”. –“Eu já sabia”. Depois de um breve intervalo, e de olhar bastante elevado para o céu, falou: -“Lá no céu do céu... ela está lá”. Fui tomado de surpresa. Céu do céu... O que viria a ser isso? Ela está lá? Ela, quem? A figura de um índio velho? Daí perguntei: -“Quem? Um índio velho que sabe tudo? –“Não! (pronunciado com veemência), somente uma sabedoria!”  E com um gesto largo abrangendo o sol e o céu deu-me a idéia de que lá havia somente uma sabedoria, que, tal qual a concepção das seitas tibetanas, mantém a harmonia do universo.” (Orlando Villas Bôas, A Arte dos Pajés, Impressões sobre o universo espiritual do indio xinguaano,Editoria Globo,2000, p.89-90) .

Em 1852, o governo dos Estados Unidos propôs comprar as terras dos índios. O cacique Seattle estranhou a proposta e expôs a sua preocupação numa carta ao Presidente. Segue aqui um trecho da carta:

"O presidente em Washington informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu ou a terra? A idéia nos é estranha. Se nós não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los? Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. ... Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso e a águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do cavalo, o ser humano, pertencem todos à mesma família. A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas é o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. Uma coisa sabemos: nosso Deus é também o seu deus. A terra é preciosa para ele. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum ser humano, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos!" (Joseph Campbell, O Poder do Mito, Editora Palas Athena, 14ª edição, São Paulo, 1996, pp.34 e 36)

São duas maneiras diferentes de relacionar-se com a terra. Para Seattle, o chefe indígena, a terra é dom de Deus e fonte de identidade. Para o Presidente dos Estados Unidos a terra é apenas uma mercadoria, um objeto de troca. Para Arru, o índio do Xingu, a terra, o chão, o passado, o céu, tudo faz parte de uma sabedoria universal que nos envolve e da qual nós somos apenas uma parte. Não somos os donos do mundo; tomamos conta, e temos que prestar conta. Dizia um descendente dos índios lá do Ceará: “Eu não sou pessoa. Sou pedaço de pessoa. A pessoa é a comunidade. Vivendo em comunidade me torno pessoa”. São duas mentalidades distintas: a dos índios e a nossa. Temos muito a aprender deles. Nos últimos três ou quatro séculos, uma ciência utilitarista que só busca seu próprio proveito, privou-nos desse contato com a natureza e, por conseguinte, da sabedoria que nasce do contato com a mãe terra, Pachamama.

Segue uma reflexão de Leonardo Boff sobre as lições que podemos receber dos índios:

Os índios sentem e vêem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza é um sujeito vivo e carregado de intencionalidades. Não é como para nós modernos, um objeto mudo e sem espírito. A natureza fala e o indígena entende sua voz e mensagem. Por isso ele está sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo complexo de inter-relações. Há sábias lições que precisamos aprender deles face às atuais ameaças ambientais. Importa entender a Terra, não como algo inerte, com recursos ilimitados, disponíveis ao nosso bel prazer. Mas como algo vivo, a Mãe do índio a ser respeitada em sua integridade. Se uma árvore é derrubada, faz-se um rito de desculpa para resgatar a aliança de amizade. Precisamos de uma relação sinfônica com a comunidade de vida, pois como foi comprovado, Gaia (terra) já ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas correrem e não fizermos nada as ameaças se tornarão devastadora realidade. (Leonardo Boff, O desafio Amazônico, 19 de fevereiro 2007).

O Mito na vida dos povos

O mito verdadeiro é uma coisa muito séria. É a memória coletiva de um povo, sua carteira de identidade. Cada povo tem os seus mitos. No mito o povo diz quem ele é, de onde vem, onde vive, para onde vai. No mito, o povo descreve como se relaciona com a natureza, com a terra, com os outros, consigo mesmo, com Deus. As histórias do mito explicam as coisas da vida ligando-as com a origem do povo. Dentro do espaço em que uma tribo mora e dentro do tempo em que ela vive, o mito estabelece um quadro de referências que dá segurança e identidade aos membros da tribo. Explica os lugares (espaço) e estabelece os ritos e as festas (tempo). Do mito fazem parte as celebrações, as danças, as peregrinações, as visitas, as histórias, os remédios, os costumes, etc. Os mitos falam de tudo que faz parte da vida. Falam da origem das montanhas, dos riachos, das fontes, das árvores, das plantas, das estradas, dos bichos, dos peixes, das chuvas, do casamento, do sexo, das crianças, das festas, dos ritos, dos costumes, dos lugares sagrados, dos mistérios da vida. Falam da Divindade como origem da vida. É a coletânea de tudo, coletânea necessária para o povo e os indivíduos se encontrarem consigo mesmo, com a sua missão, com Deus. 

Em momentos de crise, de mudança ou de derrota, quando a identidade do grupo é ameaçada, o mito ajuda o grupo a reencontrar-se e a não se perder na estrada. Os mitos dos povos indígenas da América Latina, por exemplo, eram e são a expressão da sua identidade. Quando, por ocasião da invasão européia nos séculos XV e XVI, a identidade destes povos ficou ameaçada, o mito reagiu e ajudou-os a não perder sua identidade. Para superar a crise e a ameaça de extinção os índios fizeram uma releitura dos antigos mitos integrando neles a novidade ameaçadora. Deste modo, neutralizavam o perigo e conseguiam reencontrar-se e manter sua identidade.

A releitura dos seus mitos a partir dos fatos novos da vida reflete a resistência destes povos frente à invasão européia. É como o nosso corpo quando recebe uma ferida. O corpo reage e se defende, formando uma cicatriz ao redor da ferida, neutralizando assim o perigo. Nos mitos indígenas existem hoje grandes cicatrizes. Eis um exemplo das cicatrizes que existem no mito do povo indígena Desana das nascentes do Rio Negro. (Colocamos a cicatriz em escrita itálica):

"Emeko Sulan Panlamin, o criador do mundo começou a dividir os homens, conforme eles iam saindo de um grande buraco, do fundo da terra. Cada um saía acompanhado de sua mulher, formando uma fila. O primeiro que saiu foi o chefe dos índios Tukano, Doé Tiró. Seu nome significa Traíra, cabeça chata. Em segundo lugar saiu Emeko Boleka. O terceiro a sair à superfície foi o pai dos índios Pirá-Tapuia. O quarto foi o pai dos índios Suriana. O quinto foi o pai dos Baniwa. Este saiu com o arco e flecha, e logo puxou o arco para experimentar. Por isso, os Baniwa são guerreiros. O sexto a sair foi o pai dos índios Maku. Para todas essas tribos Emeko disse: "Dou a vocês o bem-estar e as riquezas de que vocês precisam". Dizendo isto, o Criador do mundo estava dando a eles o poder de serem pacíficos, de faze­rem grandes festas com danças, reunindo muita gente, de conviver bem com todos e de não guerrear. Tanto assim que os mais antigos dessas tribos nunca fizeram guerra. O sétimo a sair foi o homem branco, de espingarda na mão. Então Emeko disse ao homem branco: "Você é o último. Dei aos primeiros todos os bens que eu tinha. Como você é o último, deve ser uma pessoa sem medo. Você deverá fazer guerra para conseguir a riqueza dos outros. Com isso conseguirá muito dinheiro". Quando Emeko acabou de dizer isso, o primeiro branco virou as costas, deu o primeiro tiro e foi para o Sul. Chegou a São Gabriel e alí mesmo fez a primeira guerra". (Sem Fronteiras, Janeiro Fevereiro de 1992, página 42)

O mesmo pode-se dizer dos povos negros que foram transportados da África para o Brasil como escravos nos navios negreiros. Foi a releitura dos mitos antigos da África, feita à luz da nova situação aqui na colônia portuguesa marcada pela religião dos santos e dos sacramentos, que lhes deu a força para manter sua identidade e sobreviver durante o longo e terrível cativeiro, até hoje.

4º Capítulo

O Mito na Vida do Povo da Bíblia

Num certo sentido podemos dizer que a Bíblia nos traz o Grande Mito do Povo de Deus. A carta aos Hebreus usa uma outra palavra e diz que ela é o nosso Símbolo (cf. Hb 11,19; 9,9). A Bíblia  explica quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Como nos outros povos, assim também em Israel transmitiam-se as narrativas sobre a origem do mundo e da humanidade. Elas faziam parte do patrimônio cultural e ajudavam o povo a se situar no mundo e descobrir sua missão. Assim como os mitos, as narrativas de Gênesis 1 a 12 explicam a origem da terra, do sol, da lua, das estrelas, das festas, das plantas, do sofrimento, dos bichos, etc. Lembram as pessoas importantes que estão na origem do povo de Deus: Adão e Eva, Caim e Abel, Noé, Abraão e Sara, .....

O mito é como a música. As notas musicais escritas no papel não dizem nada. Mas quando ativadas pelo maestro e sua orquestra, elas nos colocam em contato direto com a inspiração original do artista. Assim, são as narrativas de Gênesis 1 a 12. Escritas no papel não dizem nada. Mas quando ativadas através do ambiente litúrgico das celebrações, da Leitura Orante, das festas, dos costumes populares, das reuniões das comunidades e das famílias elas nos colocam em contato direto com a inspiração original que deu origem ao povo de Deus.

Em todos os povos os mitos da criação ensinam qual a vontade de Deus sobre a vida humana. Pois a crença geral da humanidade é esta: do jeito que Deus criou o mundo, assim deverá ser organizada a vida. Em muitos povos, porém, esta crença era manipulada para legitimar a organização social e política em que viviam. No Antigo Egito, por exemplo, a organização piramidal da sociedade era justificada pela maneira de eles transmitirem ao povo a história da criação do mundo. O Faraó na ponta da pirâmide era visto como o representante do Deus Criador. A ele todos deviam obediência e era só através dele que o povo podia entrar em contato com Deus e ter acesso à bênção divina. Assim, o mito, em vez de ser uma força libertadora, transformava-se numa força dogmática opressora que legitimava e consolidava a injustiça social e política: “Deus quer assim!”

Como dissemos anteriormente, há mitos verdadeiros e mitos falsos, mitos manipulados e mitos recuperados. Há mitos verdadeiros que foram falsificados pelos interesses de pessoas e de grupos. Há também mitos falsificados que foram recuperados pela consciência crítica que o grupo ia adquirindo. O mito cresce e se transforma junto com o povo.

No início, as histórias do povo de Israel coincidiam em grande parte com as histórias da Criação das outras tribos nômades do deserto e dos outros povos que viviam na terra de Canaã. Pouco a pouco, porém, sobretudo depois da saída do Egito e durante a época dos Juizes, na medida em que se organizavam como Povo de Deus, eles começaram a adaptar as histórias antigas às exigências da sua nova fé em Javé, o Deus libertador do Êxodo. À luz desta sua fé eles reinterpretavam os mitos antigos e faziam a releitura das histórias da Criação adaptando-as à nova situação em que viviam. Assim, estas histórias antigas recebiam um rosto próprio, expressão da sua fé e da sua caminhada. Mas também acontecia o contrário. Os reis chegavam a reler e manipular as histórias antigas do povo em seu próprio favor. Deste modo, abriram a porta para que o cupim da falsa imagem de Deus pudesse entrar e esvaziar por dentro a viga da fé. Os profetas, por sua vez, ao combater os reis, reliam as mesmas narrativas antigas à luz da sua fé em Javé, o Deus libertador.

Como os mitos indígenas, também a Bíblia está cheia de cicatrizes, fruto da resistência do povo de Deus para manter sua identidade e não se perder na caminhada. Na vida acontece às vezes que a cicatriz é tão grande que repuxa a pele e chega a desfigurar o rosto de uma pessoa. Aqui e acolá, no Antigo Testamento, a cicatriz repuxou a pele e desfigurou o rosto de Deus. Jesus o consertou.

Exemplos de releitura na Bíblia

Como os índios aqui no Brasil e em toda a América Latina, também o povo de Deus, no meio de sua vivência diária, de seus avanços e de suas crises e ameaças ao longo de sua história, para não se perder, sempre tentou reler e atualizar o seu passado. Eis alguns exemplos desta adaptação progressiva das histórias antigas às exigências da fé sempre renovada em Javé.

 

1. A serpente.

Quando Davi tomou a cidade de Jerusalém, havia por lá um santuário cananeu dedicado a uma serpente chamada Noestã, que, ao longo dos anos, recebeu uma dupla releitura ou interpretação. Na narrativa do Paraíso Terrestre, ela aparece como a causadora de toda a desordem (cf. Gn 3,1). Deste modo, apresentando a serpente de uma maneira negativa, o mito se torna um apelo forte para que o povo não se deixe seduzir pela serpente atraente da religião dos povos de Canaã.

Mas existe uma outra releitura positiva da presença desta serpente. Ela foi associada a um episódio durante a travessia do deserto. Esta serpente Noestã seria a serpente de bronze que Moisés levantou no deserto para curar as pessoas que tinham sido mordidas por cobras (cf. Nm 21,4-9). Mais tarde, a reforma religiosa promovida pelo rei Ezequias seguiu a releitura negativa desta serpente e ela foi retirada do templo de Jerusalém (cf. 2Rs 18,4). Relembrando o gesto de olhar para a serpente e ficar curado, o livro da Sabedoria, escrito por volta do ano 50 a.C. faz uma nova releitura do episódio de Moisés e da serpente, resgatando o gesto de olhar para a serpente como um sinal dos mandamentos e da misericórdia de Deus (Sb 16,5-7).

O evangelho de João faz uma nova releitura e associa esta serpente levantada no deserto com Jesus crucificado, sinal maior da misericórdia de Deus (cf. Jo 3,14-17). No entanto, o livro do Apocalipse retoma a visão negativa da serpente, associando-a ao dragão, o satanás, inspirador da império romano, que quer devorar o filho da mulher (cf. Ap 12,9).

 

2. O dilúvio.

O dilúvio e a figura de Noé fazem parte da história universal. Vários povos falam das águas que vieram e levaram tudo. Noé é considerado um dos heróis dos tempos antigos, junto com Jó e Danel (cf. Ez 14,14.20), simbolizando uma pessoa que permanece fiel a Deus mesmo quando tudo parece desabar ao seu redor. A corrupção generalizada causadora do dilúvio sempre esteve presente na história do povo. O dilúvio já tinha sido interpretado pelo profeta Isaías como uma grande invasão estrangeira que destrói todo o país (cf. Is 8,6-8).

 

3. Os povos vizinhos.

A costura das diferentes narrativas de Gn 1 a 11 é feita por listas de antepassados chamadas de genealogias (Gn 5,1-32; 10,32; 11,10-32). Estas genealogias englobavam os diferentes povos com os quais Israel tinha conhecimento, contato ou relações comerciais. Para justificar o parentesco de Israel com povos vizinhos, mas ao mesmo tempo entender as lutas contínuas contras estes povos, surgem as narrativas sobre a origem de Edom, Amon e Moab. Edom é associado a Esaú, que já sai da barriga da mãe brigando com seu irmão Jacó-Israel (Gn 25,22-26). Moab e Amon são filhos bastardos que Ló teve numa relação com suas próprias filhas quando estava embriagado (cf. Gn 19,38).

 

4. O bezerro de ouro.

Quando o rei Jeroboão separou Israel do reino de Judá, criou dois santuários, um em Betel e outro em Dã. Nestes santuários colocou dois altares para Javé e em cada um deles fez um bezerro de ouro para simbolizar a presença de Javé (1Rs 12,28-29). Logo este sinal foi visto como um grande pecado pelos sacerdotes do templo de Jerusalém (cf. 1Rs 13,1-3). Para condenar os altares de Jeroboão, a releitura coloca em sua boca a mesma frase que estava na narrativa do episódio do bezerro de ouro construído pelo povo no deserto, enquanto Moisés estava recebendo as tábuas da lei de Deus: “Este é o teu Deus, Israel, o que te fez subir da terra do Egito” (cf. Ex 32,4; 1Rs 12,28).

 

5. Abraão e Sara.

Para o povo que estava exilado em “Ur dos caldeus” (cf. Gn 11.31), o Livro da Consolação (Is 40 a 55) relê a história de Abraão e Sara (cf. Is 51,1-3) apresentando-os como pessoas que souberam resistir e levar adiante a proposta da Aliança. Abraão e Sara são as rochas, os alicerces do mesmo povo que agora estava de volta a Ur dos caldeus, vivendo todas as amarguras do exílio. Da mesma forma que Deus tirou Abraão e Sara do meio dos caldeus, vai tirar também o povo exilado e conduzi-los à Terra Prometida. Ser filho de Abraão passou a dar muita segurança ao povo de Israel. Por isso mesmo Jesus questiona seus contemporâneos que se diziam “filhos de Abraão”. Para Jesus, os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que fazem as obras de Abraão (Jo 8,31-41).

 

6. O êxodo.

Por ser o fato fundante da história do povo de Deus, o êxodo foi lido e relido ao longo de toda a história. Toda a Bíblia, inclusive o Novo Testamento, é uma contínua releitura deste episódio que marca a libertação do povo de Deus. Algumas releituras são para animar a vida do povo, principalmente a releitura feita na época do exílio da Babilônia (cf. Is 43,1-7; 43,16-21; 48,20-22; 49,8-26).

No entanto, uns duzentos anos antes, o profeta Amós faz uma releitura questionando a segurança do povo de Deus pelo fato de ter acontecido a libertação do Egito. A palavra do profeta é dirigida a todas as famílias que Javé “fez subir da terra do Egito” (Am 3,1). Fazendo uma denúncia contra todos os pecados do povo, Amós conclui dizendo que os israelitas não são melhores que outros povos. Afinal, os cuchitas, os filisteus e os arameus, todos povos inimigos de Israel, também passaram por êxodos, e Deus cuida deles da mesma maneira que cuida de Israel (cf. Am 9,7-10).

Este lento e progressivo processo de enculturação e de adaptação dos mitos antigos da criação às exigências da fé em Javé alcançou o seu ponto alto na época da grande crise do cativeiro e encontrou sua forma final nos capítulos 1 a 12 de Gênesis.

5º Capítulo

A nova chave para reler e entender Gênesis 1 a 12

Acompanhamos a caminhada do povo de Deus no cativeiro. Desafiados por aquela terrível crise, eles começaram a rever o seu relacionamento com a natureza e a reler o seu próprio passado. O fruto desta dolorosa revisão foi a redescoberta da presença de Deus na vida. É nesta nova experiência de Deus que está a semente, da qual vai nascer o livro de Gênesis 1 a 12.

No início, eram narrativas soltas, sem muita organização, que se transmitiam nas celebrações, nos encontros familiares, nas festas anuais, nas romarias, nas iniciações das diversas etapas da vida. Pouco a pouco, ao longo dos anos, as narrativas foram sendo unidas como as pedrinhas num mosaico, como os retalhos numa colcha.

Nesta colcha de Gênesis 1 a 12, há retalhos muito antigos e retalhos mais recentes. Há textos que, antes de serem escritos, já tinham sido transmitidos oralmente desde os tempos mais antigos. E há textos que nasceram lá mesmo no cativeiro. Muitas vezes não dá para saber de que época é cada retalho, mas o que sabemos é a época em que a colcha foi costurada e que Gênesis 1 a 12 começou a ser redigido. Foi durante ou pouco depois do cativeiro da Babilônia, em torno do século V antes de Cristo.

 

A pessoa que fez o mosaico de Gênesis 1 a 12 tinha na cabeça e no coração a nova experiência de Deus que havia renascido na alma do povo durante o cativeiro e que se tornou fonte de esperança para os oprimidos. Usando as pedrinhas e os ladrilhos dos antigos mitos, ela conseguiu fazer um mosaico, cujo desenho comunicava esta fé no Deus libertador que tudo cria, tudo transforma e tudo ilumina. O desenho é visível até hoje em Gênesis 1 a 12, e é bonito! Muito bonito!

O que nos interessa aqui não é estudar o tamanho e a qualidade de cada pedrinha, mas sim admirar de perto o desenho da imagem do Deus que o artista expressou no mosaico, experimentar algo da presença de Deus na vida e descobrir a mensagem que lá existe para nós. Vamos ver de perto as etapas deste processo da redação de Gênesis 1 a 12: a semente, a espiga, os grãos dentro da espiga e o pão que alimenta.

A semente: a nova experiência de Deus que se expressa em novas imagens

Os exilados judeus viviam desenraizados na imensidão do império babilônico (587 a 535) e persa (535 a 332). Como tantos exilados e migrantes de hoje, o único espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, os filhos, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte da vida já não existia: a organização mais ampla da tribo, a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia. Nada de tudo isso tinha sobrado. Ora, foi exatamente naquele espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que os discípulos e as discípulas de Isaías reencontraram a presença amorosa de Deus.

A nova imagem de Deus reflete este ambiente familiar da casa, pois Deus é apresentado por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Imagens de família! O Deus que antes estava ligado ao Templo, ao Sacerdócio, ao Culto oficial, à Monarquia, à Posse da Terra, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, que­brada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da vida familiar e comunitária de cada dia. Eles, por assim dizer, humanizaram a ima­gem de Deus e sacralizaram a vida como o espaço do reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes, na época da monarquia, ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído! (Is 57,15).

A crise da fé ajudou-os a redescobrir a presença de Deus bem perto deles em casa, no meio daquela terrível situação de abandono do cativeiro. Era esta a Boa Nova que os discípulos e as discípulas de Isaías tentavam transmitir ao povo oprimido e desanimado. Em vista disso começaram a fazer reunião com o povo para mandar refrescar a memória (Is 43,26; 46,9). Nestas reuniões contavam as histórias de Noé (Is 54,8-9), de Abraão e Sara (Is 51,1-2), da Criação (Is 51,12-13; 45,18-19), lembravam o êxodo (Is 43,16-17), apontavam os fatos da política (Is 45,1-7), mandavam observar a natureza (Is 40,26) e perguntavam: “Quem é que faz tudo isto?" (Is 41,2). A resposta é sempre a mesma: "É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!"

Eis um exemplo do andamento daquelas reuniões. De noite, fora de casa, os discípulos perguntavam ao povo: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso?” E eles respondiam: “É Aquele que organiza e põe em marcha o exército das estrelas, chamando cada uma pelo nome. Tão grande é o seu poder e tão firme a sua força, que nenhuma delas deixa de se apresentar. Jacó, por que você anda falando, e você, Israel, por que anda dizendo: “Javé desconhece o meu caminho e o meu Deus ignora a minha causa?” (Is 40,26-27). Olhando as estrelas do céu, o povo lembrava o poder criador de Deus e se reanimava.

Os discípulos e as discípulas de Isaías não só falavam sobre Deus, mas também o revelavam; comunicavam algo daquilo que eles mesmos viviam. Deus se fazia presente nessa atitude de ternura e diálogo. O povo se dava conta de que o Deus dos discípulos era diferente do deus da Babilônia, diferente também da imagem de Deus que eles ainda carregavam na memória, desde os tempos da monarquia, de antes da destruição do Templo. 

A espiga que nasce da semente: Javé, Deus Libertador e Deus Criador

No centro desta nova experiência da presença de Deus destaca-se a fé renovada no poder Criador de Javé, poder maior que o poder de Nabucodonosor que os oprimia e esmagava! O povo já sabia, desde os tempos mais antigos, que Deus era o Criador do mundo, mas nunca se tinha dado conta da dimensão libertadora desta fé. Foi a partir do ensinamento de Oséias, Jeremias e outros, que os discípulos e as discípulas de Isaías, redescobriram a importância da fé no Deus Criador para ajudar o povo a não desanimar e a ter esperança.

De todos os livros da Bíblia, os capítulos 40 a 66 de Isaías são os que mais usam a palavra criar, mais de vinte vezes! E eles a usam não só para indicar a criação do universo, mas também para indicar a ação com que Deus acompanha o seu povo. Deus cria o universo, cria também o povo e o Êxodo (Is 43,15). Tudo é fruto da ação criadora. Deus é o Criador do mundo e do povo (Is 51,12-13), o Primeiro e o Último (Is 44,6; 41,4; 48,12). O caos não é só a situação anterior à criação (Gn 1,2); é também a situação do povo no cativeiro, situação de aparente ausência de Deus (cf Lm 3,2-16). Javé enfrenta este caos e o vence com o poder criador da sua Palavra (Is 40,8; 45,18-19). Diante de Javé, o poder de Nabucodonosor era como uma “gota de água que cai de um balde cheio!” (Is 40,15). Ele liberta, salva e conduz o seu povo com um poder criador (Is 40,25-31).

Assim, aos poucos, os olhos se abrem. O povo começa a perceber algo do novo que estava acontecendo: a natureza e o universo deixam de ser o santuário dos falsos deuses; a história e os acontecimentos já não são mais decididos pelos opressores do povo; o mundo da política e da organização da sociedade já não é mais o domínio de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de Javé, o Deus Pai, Mãe, Irmão, Marido do povo. Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo: "Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão vendo?" (Is 43,19).

Esta é a Boa Nova que os discípulos anunciam ao povo: "Teu Deus reina!" (Is 52,7; cf. Is 40,9-11;35,4; 62,11-12). Um jovem pode cansar, mas quem confia em Javé nunca se cansará (cf. Is 40,12-31; 43,1-13). Era um verdadeiro renascimento. Uma nova criação!

Esta mudança na maneira de experimentar a presença de Deus na vida se reflete na maneira de rezar. O povo reza o que crê. Eles cantam a beleza da Criação que revela o amor e o poder criador de Deus

1. Salmo 8:            “A Tua presença irrompe por toda a terra!”   Deus se revela na natureza

2. Salmo 19(18):   “Os céus cantam a glória de Deus!”               Eles são expressão da Lei de Deus

3. Salmo 46(45):   “Deus é nosso refúgio e nossa força!”            Ele está conosco! Não temos medo

4. Salmo 104(103):                                                                     “Envia teu Espírito e tudo será criado!”          A ordem da Criação vem de Deus

5. Salmo 136(135):                                                                     “Criou o céu e a terra! Eterno é seu amor!”                              Tudo é revelação do amor de Deus

6. Salmo 139(138):                                                                     “Tu me conheces quando estou sentado!”      O Criador está presente em tudo

7. Salmo 148:        “Aleluia! Louvai a Javé todas as criaturas!”    Convite ao louvor universal

Estes Salmos nos dão uma idéia do que significava a fé no poder criador de Deus para o povo oprimido do cativeiro. Não se tratava de uma informação sobre o que aconteceu no passado, na origem do mundo. Tratava-se de saber quem era o Deus que estava com eles lá no cativeiro, no mais fundo do fundo do poço, naquela escuridão sem luz, naquele desânimo sem futuro! A fé na criação era como a ressurreição do povo!

Os grãos dentro da espiga: A nova consciência da missão

A redescoberta da presença amorosa e criadora de Deus na vida abriu um novo horizonte para o povo. Ajudou-o a descobrir como o cupim da falsa imagem de Deus tinha falsificado o seu relacionamento não só com Deus, mas também com os irmãos e com a natureza. Com esta luz nos olhos conseguiram fazer uma revisão dos erros do passado e expressá-la na História das Cinco Quedas que explicava para o povo a causa dos males que os afligiam: (1) A queda de Adão e Eva quebrou o relacionamento com Deus (Gn 2,1 a 3,24). (2) A separação de Deus obscureceu neles a raiz da fraternidade e Caim matou Abel (Gn 4,1-16). (3) Isto abriu o caminho para a violência e a vingança extremada de Lamec (Gn 4,23-24). (4) Sem Deus e sem irmão, ameaçada pela vingança e a violência, a humanidade, acuada por todos os lados, se corrompe e causa a desintegração do dilúvio (Gn 6,1-8). (5) Na confusão geral que nasceu, um povo procura dominar o outro povo e faz com que o pecado de Adão assuma dimensão imperial na construção da Torre de Babel (Gn 11,1-9).

Estas cinco quedas não são histórias do passado. São espelho de coisas que acontecem sempre. Elas ajudam as pessoas a fazer uma séria revisão de vida e se perguntar: “Será que sou Adão e Eva que romperam com Deus? Será que sou como Caim que mata Abe ou como Lamec que vive de vingança? Será que um adorador de ídolos que leva à desintegração do dilúvio ou participante de grupos ou partidos que querem dominar e explorar os outros, levando à Torre de Babel?”

A redescoberta da presença de Deus na vida e a revisão dos erros do passado ajudaram o povo a redescobrir sua missão como povo de Deus. Exilados naquela mesma terra da Babilônia, de onde, 1300 anos antes, Abraão e Sara tinham saída para atender ao chamado de Deus, descobriram que Deus os chamava para ser novamente Abraão e Sara, fonte de bênção para todos os povos da terra (Gn 12,1-4). No momento mais escuro do cativeiro, perdidos no império, eles escutavam o chamado que vinha de Deus e do seu próprio passado:

“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe. Quando os chamei eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)

Na própria vocação já estava implícito o duplo caminho a ser trilhado para sair do cativeiro e recuperar a bênção da vida, prometida por Deus a Abraão e Sara, a saber: “buscar a justiça e procurar a Deus” (Is 51,1).

O Salmo 146(145), usando outras palavras, aponta o mesmo caminho. O povo deve colocar sua segurança não nos poderosos, mas em Deus, o Criador do céu e da terra. Deve buscar Deus e lutar pela justiça, para que sejam eliminadas as divisões injustas que marginalizam tanta gente: oprimidos, famintos, prisioneiros, cegos, encurvados, estrangeiros, órfão e viúvas (Sl 146,7-9). É na grandeza da criação e na prática da justiça que Deus revela a sua presença. É imitando Deus pela prática da justiça que o ser humano ajuda a manter a criação de Deus:

1 Aleluia!   Louve a Javé, ó minha alma!

2 Vou louvar a Javé, enquanto eu viver.

   Vou tocar ao meu Deus, enquanto existir!

3 Não coloquem a segurança nos poderosos,

   num homem que não pode salvar!

4 Exalam o espírito e voltam ao pó,

   e no mesmo dia perecem seus planos!

5 Feliz quem se apóia no Deus de Jacó,

   quem coloca sua esperança em Javé seu Deus.

6 Foi ele quem fez o céu e a terra,

   o mar e tudo o que nele existe.

   Ele mantém sua fidelidade para sempre,

7 fazendo justiça aos oprimidos,

   e dando pão aos famintos.

   Javé liberta os prisioneiros.

8 Javé abre os olhos dos cegos.

   Javé endireita os encurvados.

   Javé ama os justos.

9 Javé protege os estrangeiros,

   sustenta o órfão e a viúva,

   mas transtorna o caminho dos injustos.

10Javé reina para sempre.

   O teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração!

O pão que alimenta: o projeto de Deus que orienta e anima a missão

Toda esta revisão ou releitura ajudou–os a juntar os retalhos na colcha e as pedrinhas no mosaico de Gênesis 1 a 12. Eis um desenho com a síntese desta mensagem do projeto de Deus para a humanidade:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Agora estamos sintonizados na mesma freqüência em que a Bíblia transmite a sua mensagem e temos o enfoque correto para entender o que o autor ou autora de Gênesis 1 a 12 queria comunicar quando começou a escrever aquela primeira página da Bíblia que começa assim: “No princípio Deus criou o céu e a terra”. É com estes olhos novos da fé que agora vamos ver de perto as narrativas de Gênesis 1 a 12.