"Esses meus irmãos mais pequeninos!"

SOBRE A MÍSTICA

QUE ANIMA A DEFESA DA VIDA DA CRIANÇA

NA HISTÓRIA DO POVO DE DEUS

Frei Carlos Mesters

         Ao longo das páginas da Bíblia corre a expressão de uma dupla experiência. De um lado, uma experiência sempre renovada da vida, que levava as pessoas a descobrir e a criticar imagens erradas e opressoras de Deus. De outro lado, uma experiência sempre renovada de Deus, que levava as pessoas a descobrir e a criticar atitudes e leis religiosas repressivas contra a vida. Hoje acontece o mesmo.

         Foi a situação dramática dos índios, operários, agricultores e pescadores, que, no passado, levou à criação de novos instrumentos da Pastoral: CIMI, CPT, CPO, CPP. É a situação dramática da criança e do adolescente que está levando à criação de uma nova ação Pastoral em defesa da vida ameaçada das crianças. São milhões de crianças abandonadas, marginalizadas ou carentes no Brasil. O número continua aumentando! Previsão de um futuro terrível, tanto para elas como para todos nós!

         São sobretudo três coisas que chamam a atenção, quando se analisa esta situação em vista de uma solução:  1. O despreparo total das famílias para poder enfrentar o proble­ma. Pois a causa principal está fora do alcance delas. É a política econômica que produz a insuficiência da renda familiar e favorece o êxodo rural.  2. A desintegração do tecido social. A sociedade, do jeito que está, já não é capaz de enfrentar o problema. Ela apenas se defende contra o menor através de um aparato policial cada vez mais forte.  3. Uma ausência de vida comunitária capaz de assumir uma ação em contrário para reverter a situação. Faltam organismos, comunidades e famílias que possam acolher o menor, ajudar os pais, oferecer uma saída.

         Esta situação tornou-se um apelo à consciência de todos, independente do fato de a pessoa ser crente ou atéia. É o povo como um todo que está sendo questio­nado. Tor­nou-se um apelo sobretudo para a consciência cristã. Pois Jesus disse: “O que você fez para um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fêz!” (Mt 25,40). Para Jesus, a criança tem prioridade absoluta no Reino Com estas questões na mente vamos abrir a Bíblia.

1.

Uma criança chamada "Não misericórdia"

A situação da criança na época do Antigo Testamento

         Foi a luta de quatro mulheres em defesa da vida ameaçada das crianças, que desencadeou o êxodo. Elas tiveram a coragem de iniciar a resistência contra o sistema opressor do faraó que tinha decretado o exter­mínio dos meninos. A história destas mulheres, narrada bem no começo do livro do êxodo (Ex 1,15-22 e 2,1-10), era relida e transmitida de geração em geração. Fazia parte da memória do povo. Era narrada com muito carinho, pois o povo conservou até os nomes delas: Sefra e Fua, as parteiras (Ex 1,15), Jocabed e Miriam, a mãe e a irmã de Moisés (Ex 6,20; 15,20). Sempre de novo, nas reuniões e celebrações, ao longo dos séculos, esta história era lembrada e atualizada, para despertar a consciên­cia e provocar nos participantes a mesma ação em defesa da vida ameaçada das crianças. Por isso, esta história tornou-se símbolo, isto é, espelho crítico, daquilo que povo devia ser. Hoje temos tantas histórias bonitas do mesmo tipo que poderiam ser lembradas e narradas, de geração em geração, para despertar uma nova consciência em nós!

         O contexto mais amplo da luta daquelas quatro mulheres era o seguinte. Na época do êxodo, século XIII antes de Cristo, Palestina, a terra de Canaã, estava sob o domínio do império egípcio. O faraó controlava a região através do tributo, através do exército e através da ideologia que ensinava o rei ser filho de deus. Controle sólido! Já tinha mais de 500 anos! Na Palestina, ao longo dos séculos seguintes, os reis locais, tanto os assim chamados Reis de Canaã como, mais tarde, os Reis de Israel e de Judá, reproduziam o mesmo sistema opressor em escala local.

         Dentro deste mundo, qual era a situação da criança? Alguns fatos, registrados na Bíblia e confirmados pela arqueologia, ajudam a ter uma idéia do contexto em que aconteceu a luta daquelas quatro mulheres e de tantas outras depois delas. Vamos enumerar oito pontos, ligados entre si como oito galhos nascidos do mesmo tronco:

         1. Sacrifícios de fundação.

         Quando alguém construía uma casa, um palácio, um templo ou uma cida­de, costumava sacri­ficar um filho para ser enterrado debaixo das fundações. Era assim que a re­ligião de Canaã procurava a proteção dos deuses para a casa, o palácio, o templo ou a cidade. Por isso, a cida­de de Jericó foi reconstruída “pelo preço” de duas crianças (1Rs 16,34).

         2. Sacrifícios humanos.

         Em épocas de crise, guerra ou desastre total, costumavam sacrifi­car algum filho pequeno para apaziguar a ira dos deuses. Este costume cananeu penetrou na vida do povo hebreu, cujos reis faziam “passar seus filhos pelo fogo” (2Rs 16,3; 21,6; 23,10; Jr 7,31; 19,5; 32,35; Ez 16,20-21; Lv 20,2-5; 18,21). No oráculo contra os Montes de Israel, Ezequiel chega a dizer: “Tu és uma devoradora de homens, tu privas de filhos a tua nação!” (Ez 36,13). Chegaram a fazer sacrifícios humanos no próprio Templo de Jerusalém (Jr 7,6).

         3. Controle da população. 

         Com medo do crescimento numérico dos hebreus, o Faraó decretou a morte dos meninos (Ex 1,16.22). O poder do rei sobre os súditos era absoluto, poder de vida e de morte. As meninas po­diam viver (Ex 1,16). O des­tino da mulher era gerar filhos para o opressor e dar prazer ao seu senhor. O rei podia dispor dos filhos e das filhas dos seus súditos (1Sm 8,11-13).

         4. O culto da fertilidade. 

         Era um culto cananeu, promovido pelo poder publico. Favorecia o acesso à divindade através do contato com prostitutas sagradas, aumentava o número dos filhos para tra­balhar e guerrear a serviço do rei e, assim, produzia crianças abandonadas. Além de desvirtuar o sentido do divino, este culto desintegrava o sentido do humano. A vida do pro­feta Oséias é um exemplo concreto de como este culto marginalizava a mulher e desinte­grava as famílias. O nome simbólico das crianças indicam a situação de abandono: Lo-Ruhamah, Sem-misericórdia; Lo-Ammi, Não-meu-povo (Os 1,6-9).

         5. Filhos e filhas como escravos e escravas. 

         A pobreza obrigava os agricultores endividados a venderem seus filhos e suas filhas como escravos e escravas. Estes deviam trabalhar para o credor, durante tanto tempo quanto fosse necessário para pagar as dívidas (Ex 21,7). Na época do exílio, a escravização foi total do povo inteiro, mas a maior vítima era a juventude (Lm 5,13-15). Depois do exílio, continuava a situação de cativeiro que obrigava os pobres a vende­rem seus filhos e suas filhas como escravos e escravas (Ne 5,1-5)

         6. Viúvas e órfãos. 

         A influência da monarquia, favorecida pelo assim chamado "direito do rei" (1Sm 8,11-17), contribuiu para o enfraquecimento do sistema tribal e a desintegração do clã, da grande família. Por isso, começavam a aparecer os pobres, as viúvas e os órfãos (Ex 22,21). As muitas guerras só faziam aumentar o número deles. Os órfãos e as viúvas não ti­nham quem os acolhesse ou ajudasse (Is 1,23; 10,2). Viviam abandonados, entregues à caridade (Dt 15,7-8). O povo já não dava conta de garantir uma vida digna para todos, como o exigia a Lei (Dt 15,4).

         7. Marginalização da mulher.

         A marginalização da mulher acentuou-se sobretudo depois do exílio. A mulher era excluída de toda a atividade pública. O que mais contribuiu para a sua marginalização foi a lei da pureza. A mu­lher era considerada impura por ser mãe, por ser esposa, por ser filha, por ser mulher(Lv 12,1-5; 15,18). Junto com a mãe ficavam marginalizadas as filhas e os filhos pequenos!

         8. Desintegração da vida humana.  

         Durante o cerco de Samaria, a situação de fome chegou ao ponto de duas mulhe­res combinarem entre si de matar e comer seus próprios filhos. Comeram o filho da pri­meira. Mas a segunda não manteve a promessa. Aí, a primeira recorreu ao rei, para que ele obrigasse a outra a cumprir o prometido (2Rs 6,24-30). A mesma desumanização da vida apareceu durante o cerco de Jerusa­lém. As Lamentações de Jeremias falam de crianças e jovens famintas, abandonadas, assassinadas (Lm 1,5.15.18; 2,11-12.19), e de mães que chegaram ao ponto de matar e comer seus próprios filhos (Lam 2,20; 4,10).

         Sintetizando e resumindo: Este era o contexto, em que se deu a luta daquelas quatro mulheres e em que o povo de Deus era obrigado a viver e a conviver:

*  Situação opressiva, gerada por uma falsa concepção de Deus e da vida.

* Sociedade desumana e abortiva que gerava marginalização, abandono e morte das crianças.

*  Situação legitimada pela religião oficial,

*  e mantida através da marginalização da mulher e da desintegração da família e do clã.

*  A ideologia dominante, legitimada pelo "direito do rei", fazia todo mundo pensar assim.

*  Humanamente falando, não havia saída para o povo.

         Frente a este sistema idólatra de morte, a reação do povo de Deus foi de enfrentamento e de luta constante. Não do povo todo, pois, como vimos, a ideologia dominante tinha minado a resistência e encontrava seus defensores até entre os próprios Reis e Sacerdotes de Israel. Também hoje entre nós, apesar de todo mundo ser cristão, muita gente apoiou o militar aposentado que, anos atrás, matou o menor Joílson a ponta-pé na praça da Sé em São Paulo. Muita gente aprova os policiais que mataram as crianças na Candelaria no Rio de Janeiro.

         Porém, tanto na Bíblia como hoje, uma minoria profética nunca aceitou nem aceita a ideologia dominante e sempre lutará em defesa da vida ameaçada das crianças. Na Bíblia, esta minoria soube encontrar os instru­mentos adequados para conduzir a luta e obter algum resultado. Foi a fé em Javé e o amor à vida que foram ca­pazes de abrir uma brecha nesta muralha impenetrável e de encontrar uma saída. É o que vamos ver agora.

2.

Amor à vida e fé em Deus

A fonte da mística que anima a defesa da vida das crianças

         Quem conta um conto aumenta um ponto. Mas aumenta de acordo com a finalidade que o narrador tinha em mente. Foi o que aconteceu com a história da luta das quatro mulheres do êxodo. Como tantos de nós hoje em dia, quando elas iniciaram a sua luta, não tinham uma visão completa do sistema. O que tinham era um grande amor à vida e um enorme temor a Deus (Ex 1,17). Amor à vida, pois eram parteiras, eram mãe e irmã (Ex 1,15; 2,1-2; 2,7). Temor de Deus (Ex 1,17), pois tiveram participação na nova experiência de Deus que rompeu com a ideologia dominante da “Escola do Faraó”. Descobriram e experimentaram que Deus é JAVÉ, isto é, presença gratuita e libertadora junto dos oprimidos (Ex 3,11-15). Como em Moisés, assim nelas, o sangue e a fé foram mais fortes que a ideologia (Ex 2,11-12). Por causa disso tiveram a coragem de desobedecer às ordens do faraó e souberam desenvolver uma incrível astúcia e criatividade: organizam-se entre si, não têm medo de es­conder a verdade ao Faraó (Ex 1,19); conhecem a situação, pois sabem quando a filha do Faraó vai tomar banho no rio (Ex 2,3-7); elas chegam ao ponto de levar o faraó a pagar a mãe para ela criar seu próprio filho (Ex 2,9).

         Durante toda a história do povo de Deus, esta dupla experiência, tanto de Deus como da vida, dava ao povo a luz para perceber a falsidade da religião que legitimava o extermínio dos menores tanto no Egito como em Israel, e a coragem para desobe­decer às ordens expressas tanto do Faraó como dos Reis. Cada vez de novo, são a fé em Deus e o amor à vida, que levam as pessoas a recomeçar a luta em defesa da vida ameaçada da criança.

         Vamos ver alguns episódios relacionados com a defesa da vida da crian­ça. Trata-se de histórias antigas com um grande valor simbólico, que funcionavam mais como es­pelho do que como janela. Elas nos revelam os traços do rosto de Deus que acordava no povo através da luta em defesa das crianças. Ao mesmo tempo, deixam transparecer os vários aspectos do con­texto desta luta: econômico, social, familiar, político, jurídico, ideológico, religioso, cultural,....

         1. “Deus ouviu os gritos da criança do jeito que ela está aí” (Gn 21,17)

         Uma certeza percorre a Bíblia de ponta a ponta, a saber, Deus escuta o clamor do povo oprimido (Ex 2,23-25; 3,7-8). O clamor do pobre, do pequeno, é o outro lado do apelo de Deus. Dentro deste contexto, adquire um sentido especial a história de Agar (Gn 21,8-21). Marginalizada e ex­pulsa por Sara, sua patrôa, Agar anda errante pelo deserto, carregando seu filho Ismael. Sem re­cursos, sem comida, não sabendo como enfrentar a situação, coloca o menino debaixo de uma árvore e se afasta: “Não quero ver morrer a criança!” (Gn 21,16). Sentou-se e começou a chorar e gri­tar. Mãe e criança choram! Aparece um anjo de Deus que diz: “O que é isso, Agar? Não tenha medo não! Deus ouviu os gritos da criança do jeito que ela está aí” (Gn 21,17). O anjo mandou que ela levantasse o menino e o segurasse com firmeza. Em seguida, assim diz o texto,“Deus abriu os olhos de Agar”, e ela, de repente, enxergou um poço com água que antes não via (Gn 21,19). Imediatamente, se animou e começou a encontrar os meios para alimentar o menino e sobre­viver (Gn 21, 19). E o menino cresceu, lá mesmo no deserto, e se tornou uma nação forte (Gn 21, 20-21).

         A maior tentação nossa é querer enquadrar Deus e reduzi-lo a uma peça dentro do sistema que nós mesmos montamos. Foi o que faziam o faraó e os reis, querendo matar a fonte da vida dentro do povo. Foi o que fez Sara, ao expulsar Agar. Ela tentou assegurar toda a herança só para Isaque (Gn 21,10). Mas a fonte renasceu em Agar! Apesar de expulsa do meio do povo, ela teve uma visão de Deus (Gn 16,7-16) e reencon­trou os meios para defender a vida da criança. “Deus esteve com o meni­no, e o menino cresceu” (Gn 21,20).

         A experiência de Deus que Agar teve no meio do desterro e do abandono, produz um efeito surpreen­dente. Ela revela a Agar que Deus escuta o clamor da criança do jeito que ela se encontra, abandonada, quase à morte! Ela faz com que Agar, escrava e mãe solteira, se restabeleça e se anime. Abre os olhos da mãe e a faz enxergar os meios de vida mesmo no deserto onde só existem desolação e morte. Provoca iniciativas que fazem a criança crescer, não no ambiente de onde foi expulsa por Sara, mas sim no ambiente onde ela vive abandonada. Sinal de muita criatividade!

         Assim, quando em épocas de crise a imagem tradicional de Deus já não diz mais nada ou quando ela é ofuscada pela imagem manipulada ou manipuladora da ideologia dominante, aí sempre aparece uma minoria incômoda, feita de mães solteiras como Agar, de parteiras como Fua e Sefra, de irmãs ou de mães de família como Miriam e Jocabed, de viúvas como Rute e Noemi, ou de escravos fu­gitivos como Moisés, que reencontram a entrada da fonte, desobstruem o acesso e redescobrem que Deus é Javé, aquele que escuta o clamor, que está com os oprimidos e que defende a vida ameaçada das crianças, provocando a raiva tanto dos Reis como dos Sacerdotes do Templo. A fé neste Deus, sempre de novo, faz renascer a esperança e traz luz para descobrir novas saídas.

         2. “Abraão! Não estenda a mão contra o menino!” (Gn 22,12)

         Inicialmente, na época dos Reis, a história do sacrifício de Isaque (Gn 22,1-19) era narrada como uma alerta contra o costume dos cananeus de matar os filhos. A narração deixa transparecer como era forte a tentação de sacrificar os filhos em nome de Deus. Ela apresenta Abraão seguindo uma inspiração religiosa, obedecendo a um apelo de Deus que pedia o sacrifício do filho. No último momento, porém, o narrador faz saber que o Deus de Israel não quer esta morte (Gn 22,12). Ele condena as matanças de crianças que ocorriam em Israel (2Rs 16,3). Assim, a história apresenta Abraão, o pai do povo, como modelo a lutar em defesa da vida ameaçada da criança.

         Mais tarde, depois do exílio, quando a tentação da religião dos cananeus já não existia mais, esta história foi reutilizada como tijolo velho numa parede nova. Agora, no atual contexto da Bíblia, ela serve para apresentar Abraão como modelo de fé: crer até o ponto de admitir que seja possível nascer vida da própria morte (Hb 11,19)!

         Tanto antes como depois do exílio, o Deus de Israel, o nosso Deus, sempre se revela como o Deus da vida. Na atual situação nossa, aqui no Brasil, com  milhões de crianças e adolescentes abandonadas, carentes ou marginalizadas, quem não tiver esta fé na vida criada por Deus, pode até desanimar de lutar!

         3. “Não maltrate a viuva nem o órfão” (Ex 22,21)

         Uma conseqüência imediata da fé em Javé, o Deus da vida, é atender às necessi­dades dos órfãos e viúvas. No Código da Aliança, uma das leis mais antigas, se diz: “Não afligireis a nenhuma viúva ou órfão. Se o afligires e ele clamar a mim, eu escutarei o seu clamor. Minha ira se inflamará e vos farei perecer pela espada: vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos órfãos” (Ex 22,21-23). Ou seja, uma sociedade que não cuida da sua juventude, recebe o troco. Ela cava sua própria ruína. O Código da Aliança não deixa dúvida. Se a criança pobre clamar, e se você for a causa deste clamor, Deus vai atender ao clamor da criança e da mãe, e toma a sua defesa. Ele defende os direitos do pobre.

         No livro do Deuteronômio acentua-se esta preocupação com os órfãos e as viúvas. O dízimo que se paga é para eles (Dt 14,29; cf 24,19-21; 26,12-13). Eles devem poder participar das festas e alegrar-se com o povo (Dt 16,11.14). Pois Javé, é um Deus que faz justiça aos órfãos e às viúvas (Dt 10,18). A lei do Deuteronômio maldiz todo aquele que perverte o direito do órfão e da viúva (Dt 27,19). Nos salmos Deus é chamado “Pai dos órfãos, justiceiro das viúvas” (Sl 68,6).

         4. “Honra teu pai e tua mãe” (Ex 20,12)

         O outro lado da fé em Javé é o compromisso concreto com uma convivência humana que se orienta pelas Dez Palavras ou Mandamentos. Os Dez Mandamentos exprimem a nova organização que nasce quando se acredita em Javé. Eles são a Constituição do Povo de Deus. O gancho, muitas vezes esquecido, onde estão pendurados estes Mandamentos ou orientações básicas é a solene afirmação de Deus: “Eu sou Javé, teu Deus, que te fêz sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20, 2). É para impedir o retorno para a casa da escravidão que o povo deve observar os Dez Mandamentos. Ele deve viver em estado permanente de Êxodo!

         O quarto Mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem teus dias na terra que Deus te dará” (Ex 20,12). Não pede para obedecer aos Reis, nem ao Governo, nem aos sacerdotes, nem às autoridades locais ou regionais, nem mesmo aos pais, mas sim ao teu pai e à tua mãe. Valoriza a mãe, a mulher, ao lado do pai, o homem. Os dois estão em pé de igualdade. Deste modo, o quarto mandamento assegura o ambiente de vida, onde as crianças possam crescer em harmonia e ter um futuro garantido. Procura reforçar o núcleo básico da sociedade que é a família, o clã, a comunidade, para, assim, garantir a posse da terra: “Para que se prolonguem teus dias na terra que Deus te dará” (Ex 20,12). Deste modo, o quarto mandamento contribui para evitar a formação do latifúndio e para manter a decentralização do poder entre as tribos e clâs.

         5. “Terei compaixão da (criança) ‘Não-Compadecida’” (Os 2,25)

         O livro de Oséias traz o seguinte oráculo em que Deus se dirige ao povo: “Eu vou casar com você para sempre, vou casar com você na justiça e no direito, no amor e na ternura, vou casar com você na fidelidade, e você terá experiência de Javé” (Os 2,21-22). Esta frase tão bonita, colo­cada na boca de Javé, exprime o que Oséias, ele mesmo, estava tentando viver no relacionamento com a sua esposa Gomer (Os 1,3) e com as crianças abandonados, Lo-Ruhamah, Sem-misericórdia, e Lo-Ammi, Não-meu-povo (Os 1,6-9).

         O culto de fertilidade tinha desintegrado a vida familiar de Oséias. A desgraça que se abateu sobre a vida desse homem era uma amostra do que estava acontecendo no país. Tanto sua mulher como as crianças, ambas foram marginalizadas pelo sistema idólatra de morte em que vi­viam. Mas Oséias pela força do seu amor gratuito e desinteressado, conseguiu que Gomer abando­nasse o culto da fertilidade e que as crianças fossem acolhidas. Gomer voltou a ser sua esposa com a mesma dignidade de antes (Os 2,18-19). O filho Lo-Ruhamah, Sem misericórdia, é novamente o Amado, e a filha Lo-Ammi, Não-povo, é novamente Povo de Deus (Os 2,25).

         Esta experiência familiar e profundamente humana da força criadora do amor fêz com que Oséias redescobrisse o poder regenerador do amor de Deus. Já não é a imagem de um Deus guerreiro dominador, mas sim a imagem de um Deus amigo, humano, amoroso. Tudo isto foi nele um apelo que o fez descobrir sua vocação como profeta.

         6. A defesa do clã, da família, da comunidade

         Saindo do Egito, ainda no deserto, o povo tinha começado a criar um novo sistema de con­vivência, diferente do sistema do faraó e dos reis. E o fez em nome da sua fé em Javé que o tirou do Egito. No centro desta nova convivência estava o clã, a comunidade, a grande família. Resumindo, se pode dizer que a função do clã, da comunidade, era a seguinte: impedir a criação do latifúndio e a concentração do poder, garantir a posse da terra e promover a partilha dos bens, tomar a defesa das famílias e das pessoas e garantir o acolhimento e a sobrevivência dos órfãos e das viúvas. O clã era o guardião das tradições e dos costumes, conservava a memória do povo e era fonte de identidade. Ele era a mediação da Aliança do povo com Javé.

         No decorrer da história, todas as vezes que enfraquecia a fé em Javé, enfraquecia também o clã, a comunidade. A desintegração do clã deixava as famílias sem defesa, e o sistema opressor se fortalecia. Todas as vezes, porém, que se renovava a fé em Javé, crescia a comunidade, o clã. As tentativas de renovação sempre recomeçavam pelo fortalecimento do clã, da comunidade. Esta é uma constante que marca a história do povo de Deus. Até hoje!

         Por causa deste seu modo de conviver, tão diferente do sistema dos reis e do faraó, o povo de Israel se tornou uma Boa Nova de JAVÉ para os povos oprimidos da época. Durante uns duzentos anos, isto é, durante o período dos Juízes (1250-1200), eles tentaram viver este ideal no alto das montanhas da Palestina. Foi uma experiência do Reino, que ficou na memória do povo como uma eterna saudade a ser transformada em esperança! As histórias sempre lembradas e atualizadas das parteiras, de Abraão e Sara, de Agar e seu filho Ismael, e tantas outras alimentavam esta esperança.

         Por isso, o problema da criança abandonada não era apenas um problema familiar. Era também um problema social e político. Por exemplo, no tempo de Salomão, a monarquia, criando distritos em vista da cobrança dos impostos, enfraqueceu a organização do clã e contribuiu para a desintegração das famílias. Exigindo o tributo, gerou empobrecimento e desigualdade entre as famílias dentro do mesmo clã (1 Rs 4,7). Para construir o Templo, reintroduziu os trabalhos forçados, dos quais Deus tinha libertado o povo, tirando-o do Egito (1 Rs 5,27). Esta política de Salomão pesou tanto, que já no fim do seu reinado o povo se rebelou e provocou a divisão entre Israel e Judá (1Rs 12,4). A monarquia, o rei humano, acabou com o sonho. Deixou a saudade que crescia na mesma medida em que crescia a opressão. Não é sem motivo que o número da Besta do Apocalipse, 666 (Ap 13,18), evoca a exploração praticada pela monarquia no tempo de Salomão. Cada ano, ele tirava 666 talentos de ouro, isto é, 23 toneladas de ouro (1 Rs 10,14), dos agricultores da Palestina!

3.

A luta dos Profetas no tempo dos Reis

Por uma sociedade que defenda a vida do povo

         Este parágrafo sobre a luta dos profetas é resumido e incompleto. Serve apenas para fazer perceber que a defesa da vida ameaçada da criança fazia parte de uma luta mais ampla.

         A ideologia do Faraó e dos Reis era uma ameaça constante para a nova maneira comunitária de se conviver que estava nascendo no povo através da fé em Javé. Além disso, as guerras e as repressões dos reis geravam desigualdade, empobreci­mento e endividamento. Por isso, começavam a aparecer os pobres, as viúvas, os órfãos, os estrangeiros. Sinal de que a Aliança estava quebrada!

         Os profetas são a consciência crítica da nação. Neles acorda a memória do povo. Diante da situação do pobre, do órfão, do menor, eles percebem o apelo de Deus e dão o grito de alarme para despertar a nação. Eles enfrentam os reis. Muito do que vimos no parágrafo anterior já era fruto da luta dos profetas e fazia parte da releitura que eles faziam da história. Os profetas atuavam em três níveis para consertar a vida e refazer a aliança:

         1. No nível da Justiça: para transformar a Sociedade

         Os profetas não se limitavam a condenar o abuso contra as crianças e os jovens, mas se engaja­vam na luta por uma convivência social mais ampla e mais segura, em que a vida de todos fosse respeitada. A seu modo, eles faziam análise da sociedade e apontavam caminhos para renová-la. Sem medo, conde­navam os reis por causa dos sacrifícios das crianças, denunciavam os exploradores, apontavam as causas da injustiça, enfrentavam os poderosos, cobravam deles a observância da Lei e da Aliança, assumiam a defesa dos excluídos e marginalizados, sobretudo dos órfãos e viúvas e lutavam para criar novas leis que pudessem garantir uma vida digna para todo o povo.

         2. No nível da Solidariedade: para renovar a Comunidade

         Desde o tempo da monarquia, os profetas atuavam também no nível da solidariedade e lutavam pela renovação do clã e pela defesa das famílias. Elias e Eliseu, por exemplo, os primeiros pro­fe­tas, ambos defendem a vida de uma criança que morre e a devolvem à mãe viúva (1Rs 17,17-24; 2Rs 4,8-37). É sobretudo depois do exílio que a luta neste nível se acentua. O seu resultado transparece, por exemplo, na legislação deuteronomista. Esta interpela a comunidade, o clã, e faz um apelo para que ele seja uma amostra da Aliança (Dt 15,1-18). Tenta reforçar o clã para que ele seja novamente a base do povo de Deus. O clã deve acolher as vítimas das injustiças e desi­gualdade, geradas pelo sistema do Império Babilônico e Persa. Deve socorrer os órfãos e as viúvas. A Lei do Resgate dos filhos escra­vizados é fruto da luta dos profetas em defesa da vida ameaçada das crianças. Só assim a comunidade será a grande Boa Nova de Deus para o povo, a expressão da Alian­ça, o Servo de Javé para a humani­dade sofrida.

         3. No nível da Mística: para despertar a consciência

         Os profetas tentavam mudar a ideologia dos reis, animavam os que se comprometiam com a aliança, e procura­vam influir sobre a consciência. Queriam criar um novo começo que superasse a dependência e a apatia. Insistiam na busca de Javé, lembravam o passado. A certeza de Deus-Conosco era fonte de luz e de coragem para a caminhada. Criavam nova consciência de missão: ser Servo. Despertavam forças adormeci­das e desconhecidas dentro do povo e dos indivíduos. Sobretudo os discípulos e discípulas de Isaías, que viviam com o povo no desterro do exílio, souberam despertar e aprofundar este nível da mística. A nova experiência de Deus levou-os a comparar Deus com a mãe que acalenta e abraça com muita ternura seus filhos (Is 66,10-13; 49,15-16). Denunciavam a mortalidade infantil e lutavam por saúde sólida para todos (Is 65,20).

4.

Rute, Judite, Ester e suas companheiras

A luta e a resistência da mulher marginalizada

         A marginalização da mulher era e continua sendo uma das causas principais da marginalização das crian­ças. A mulher era marginalizada por ser mãe, por ser esposa, por ser filha, por ser mulher. Por ser mãe: dando a luz, ela se torna impura (Lv 12,1-5). Por ser filha: o filho que nasce traz 40 dias de impureza, mas a filha, 80 dias! (Lv 12,2-5). Por ser esposa: a relação sexual a torna impura durante um dia (Lv 15,18). Por ser mulher: a menstruação a torna impura durante sete dias, e causa impureza nos outros (Lv 15,19-30). Estas e outras leis tornavam insuportável a convivência diária em casa. Mãe e filhos pequenos viviam marginalizados.

         Desde os tempos mais remotos, houve reações em contrário. O povo conservou a memória destes atos de resistência: Agar, rejeitada por Sara e Abraão mas aceita por Deus (Gn 16,1-15; 21,8-21); Sefra e Fua, as duas parteiras (Ex 1,15-22); Miriam, irmã de Moisés, que con­voca as mulheres para cantar e animar a caminhada do povo (Ex 15,19-21); e tantas outras. Nestas histórias transparece a inconformidade com a exclusão da mulher. A mesma resistência anima por dentro as primeiras páginas da Bíblia, onde se afirma a igualdade do homem e da mulher como imagem de Deus (Gn 1,27), e como companheiros que formam uma só carne (Gn 2,23).

         Estas sementes de resistência deram fruto sobretudo depois do exílio, época em que se acentuava a margina­lização da mulher (cf Esd 9,1-2; 10,1-4). Ou seja, a resistência e a valorização da mulher cresciam sobretudo no período em que a sua marginalização era mais pesada. Vários livros sapienciais do perío­do pós-exílico registram esta voz da oposição e da crescente resistência:

*  No Cântico dos Cânticos, a mulher aparece como pessoa independente. Para poder encontrar seu amado, ela enfrenta os guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct 8,11-12), e os irmãos que querem protegê-la (Ct 8,8-10). O Cântico dos Cânticos reafirma a dignidade da mulher.

*  No livro de Rute, duas mulheres pobres, Noemi e Rute, ambas viúvas, das quais uma estran­gei­ra, estão na origem da reconstrução do povo. São elas que tomam as iniciativas para recon­quistar os direi­tos perdidos e para fazer observar a lei do resgate. É de uma estrangeira que nasce o avô do messias

*  No livro de Judite é uma mulher que contesta a decisão tomada pelos anciãos e sacer­dotes. Sozinha, ela enfrenta o exército inimigo e consegue derrotar o general Holofernes, cortando-lhe a cabeça.

*  No livro de Ester é novamente a mulher que se engaja na luta pela sobrevivência do povo. As terrí­veis palavras desumanas do Eclesiástico contra a mulher (Eclo 25,13-26; 42,12-14) talvez se expliquem pela ameaça que representava para o domínio dos homens a incipiente conscientização das mulheres, atestada no livro de Ester (Est 1,9-22, sobretudo vv 17 e 18)

5.

A luta diária na educação

A parede escondida que sustenta todos os ladrilhos

         Este parágrafo, o mais curto de todos, talvez seja o mais importante. Ele é como a parede que não aparece, porque fica escondida atrás dos ladrilhos. Mas é a parede que sustenta todos os la­drilhos. Trata-se aqui do sistema educativo da época e da luta diária para transmitir a experiência de vida para a geração nova. Na Bíblia, a expressão desta luta diária está sobretudo no conjunto dos livros sapienciais. Estes livros revelam uma cultura diferente da nossa com métodos educativos que não funcionariam hoje em dia. O método educativo que transparece, por exemplo, no livro do Ecle­siástico ou no livro dos Provérbios não pode ser copiado tal qual, sob pena de se criar traumas e neuroses. Mas o que deve permanecer é o seguinte:

1. A consciência de responsabilidade por parte dos adultos para com a nova geração.

2. O esforço de transmitir a experiência acumulada capacita os jovens para enfrentar a vida.

3. A organização das comunidades, o ambiente onde se fazia esta transmissão da vida.

4. A integração das gerações que garantia um acolhimento e uma transmissão harmoniosa

5. O respeito pela vida de todos, fruto da fé em Javé, o Deus da vida.

6.

O messias criança

A esperança renasce para o povo[1]