"Esses meus irmãos mais pequeninos!"
SOBRE A MÍSTICA
QUE ANIMA A
DEFESA DA VIDA DA CRIANÇA
NA HISTÓRIA DO
POVO DE DEUS
Frei Carlos Mesters
Ao longo das páginas da Bíblia corre a expressão de uma dupla experiência. De um lado, uma experiência sempre renovada da vida, que levava as pessoas a descobrir e a criticar imagens erradas e opressoras de Deus. De outro lado, uma experiência sempre renovada de Deus, que levava as pessoas a descobrir e a criticar atitudes e leis religiosas repressivas contra a vida. Hoje acontece o mesmo.
Foi a situação dramática dos índios, operários, agricultores
e pescadores, que, no passado, levou à criação de novos instrumentos da
Pastoral: CIMI, CPT, CPO, CPP. É a situação dramática da criança e do
adolescente que está levando à criação de uma nova ação Pastoral em defesa da
vida ameaçada das crianças. São milhões de crianças abandonadas, marginalizadas
ou carentes no Brasil. O número continua aumentando! Previsão de um futuro
terrível, tanto para elas como para todos nós!
São sobretudo três coisas que chamam a atenção, quando se
analisa esta situação em vista de uma solução:
1. O despreparo total das famílias para poder enfrentar o problema.
Pois a causa principal está fora do alcance delas. É a política econômica que
produz a insuficiência da renda familiar e favorece o êxodo rural.
Esta situação tornou-se um apelo à consciência de todos,
independente do fato de a pessoa ser crente ou atéia. É o povo como um todo que
está sendo questionado. Tornou-se um apelo sobretudo para a consciência
cristã. Pois Jesus disse: “O que você fez para um destes meus irmãos mais
pequeninos, foi a mim que o fêz!” (Mt
25,40). Para Jesus, a criança tem prioridade absoluta no Reino Com estas
questões na mente vamos abrir a Bíblia.
1.
Uma
criança chamada "Não misericórdia"
A
situação da criança na época do Antigo Testamento
Foi a luta de quatro mulheres em defesa da vida ameaçada das
crianças, que desencadeou o êxodo. Elas tiveram a coragem de iniciar a
resistência contra o sistema opressor do faraó que tinha decretado o extermínio
dos meninos. A história destas mulheres, narrada bem no começo do livro do
êxodo (Ex 1,15-22 e 2,1-10), era relida e transmitida de geração
O contexto mais amplo da luta daquelas quatro mulheres era o
seguinte. Na época do êxodo, século XIII antes de Cristo, Palestina, a terra de
Canaã, estava sob o domínio do império egípcio. O faraó controlava a região
através do tributo, através do exército e através da ideologia que ensinava o
rei ser filho de deus. Controle sólido! Já tinha mais de 500 anos! Na
Palestina, ao longo dos séculos seguintes, os reis locais, tanto os assim
chamados Reis de Canaã como, mais
tarde, os Reis de Israel e de Judá, reproduziam o mesmo sistema opressor em
escala local.
Dentro deste mundo, qual era a situação da criança? Alguns
fatos, registrados na Bíblia e confirmados pela arqueologia, ajudam a ter uma
idéia do contexto em que aconteceu a luta daquelas quatro mulheres e de tantas
outras depois delas. Vamos enumerar oito pontos, ligados entre si como oito
galhos nascidos do mesmo tronco:
1. Sacrifícios de fundação.
Quando alguém construía uma casa, um palácio, um templo ou
uma cidade, costumava sacrificar um filho para ser enterrado debaixo das
fundações. Era assim que a religião de Canaã procurava a proteção dos deuses
para a casa, o palácio, o templo ou a cidade. Por isso, a cidade de Jericó foi
reconstruída “pelo preço” de duas crianças (1Rs 16,34).
2. Sacrifícios humanos.
Em épocas de crise, guerra ou desastre total, costumavam
sacrificar algum filho pequeno para apaziguar a ira dos deuses. Este costume
cananeu penetrou na vida do povo hebreu, cujos reis faziam “passar seus filhos
pelo fogo” (2Rs 16,3; 21,6; 23,10; Jr 7,31; 19,5; 32,35; Ez 16,20-21; Lv
20,2-5; 18,21). No oráculo contra os Montes de Israel, Ezequiel chega a dizer:
“Tu és uma devoradora de homens, tu privas de filhos a tua nação!” (Ez 36,13).
Chegaram a fazer sacrifícios humanos no próprio Templo de Jerusalém (Jr 7,6).
3. Controle da população.
Com medo do crescimento numérico dos hebreus, o Faraó
decretou a morte dos meninos (Ex 1,16.22). O poder do rei sobre os súditos era
absoluto, poder de vida e de morte. As meninas podiam viver (Ex 1,16). O destino
da mulher era gerar filhos para o opressor e dar prazer ao seu senhor. O rei
podia dispor dos filhos e das filhas dos seus súditos (1Sm 8,11-13).
4. O culto da fertilidade.
Era um culto cananeu, promovido pelo poder publico.
Favorecia o acesso à divindade através do contato com prostitutas sagradas,
aumentava o número dos filhos para trabalhar e guerrear a serviço do rei e,
assim, produzia crianças abandonadas. Além de desvirtuar o sentido do divino,
este culto desintegrava o sentido do humano. A vida do profeta Oséias é um
exemplo concreto de como este culto marginalizava a mulher e desintegrava as
famílias. O nome simbólico das crianças indicam a situação de abandono: Lo-Ruhamah, Sem-misericórdia; Lo-Ammi, Não-meu-povo (Os 1,6-9).
5. Filhos e filhas como escravos e escravas.
A pobreza obrigava os agricultores endividados a venderem
seus filhos e suas filhas como escravos e escravas. Estes deviam trabalhar para
o credor, durante tanto tempo quanto fosse necessário para pagar as dívidas (Ex
21,7). Na época do exílio, a escravização foi total do povo inteiro, mas a
maior vítima era a juventude (Lm 5,13-15). Depois do exílio, continuava a
situação de cativeiro que obrigava os pobres a venderem seus filhos e suas
filhas como escravos e escravas (Ne 5,1-5)
6. Viúvas e órfãos.
A influência da monarquia, favorecida pelo assim chamado
"direito do rei" (1Sm 8,11-17), contribuiu para o enfraquecimento do
sistema tribal e a desintegração do clã, da grande família. Por isso, começavam
a aparecer os pobres, as viúvas e os órfãos
(Ex 22,21). As muitas guerras só faziam aumentar o número deles. Os órfãos
e as viúvas não tinham quem os acolhesse ou ajudasse (Is 1,23; 10,2). Viviam
abandonados, entregues à caridade (Dt 15,7-8). O povo já não dava conta de
garantir uma vida digna para todos, como o exigia a Lei (Dt 15,4).
7. Marginalização da mulher.
A marginalização da mulher acentuou-se sobretudo depois do
exílio. A mulher era excluída de toda a atividade pública. O que mais
contribuiu para a sua marginalização foi a lei da pureza. A mulher era
considerada impura por ser mãe, por ser esposa, por ser filha, por ser
mulher(Lv 12,1-5; 15,18). Junto com a mãe ficavam marginalizadas as filhas e os
filhos pequenos!
8. Desintegração da vida humana.
Durante o cerco de Samaria, a situação de fome chegou ao
ponto de duas mulheres combinarem entre si de matar e comer seus próprios
filhos. Comeram o filho da primeira. Mas a segunda não manteve a promessa. Aí,
a primeira recorreu ao rei, para que ele obrigasse a outra a cumprir o
prometido (2Rs 6,24-30). A mesma desumanização da vida apareceu durante o cerco
de Jerusalém. As Lamentações de Jeremias falam de crianças e jovens famintas,
abandonadas, assassinadas (Lm 1,5.15.18; 2,11-12.19), e de mães que chegaram ao
ponto de matar e comer seus próprios filhos (Lam 2,20; 4,10).
Sintetizando e resumindo: Este era o contexto, em que se deu a luta
daquelas quatro mulheres e em que o povo de Deus era obrigado a viver e a
conviver:
* Situação opressiva, gerada por uma falsa
concepção de Deus e da vida.
* Sociedade desumana e
abortiva que gerava marginalização, abandono e morte das crianças.
* Situação legitimada pela religião oficial,
* e mantida através da marginalização da mulher
e da desintegração da família e do clã.
* A ideologia dominante, legitimada pelo
"direito do rei", fazia todo mundo pensar assim.
* Humanamente falando, não havia saída para o
povo.
Frente a este sistema idólatra de morte, a reação do povo de
Deus foi de enfrentamento e de luta constante. Não do povo todo, pois, como
vimos, a ideologia dominante tinha minado a resistência e encontrava seus
defensores até entre os próprios Reis e Sacerdotes de Israel. Também hoje entre
nós, apesar de todo mundo ser cristão, muita gente apoiou o militar aposentado
que, anos atrás, matou o menor Joílson a ponta-pé na praça da Sé
Porém, tanto na Bíblia como hoje, uma minoria profética
nunca aceitou nem aceita a ideologia dominante e sempre lutará em defesa da
vida ameaçada das crianças. Na Bíblia, esta minoria soube encontrar os instrumentos
adequados para conduzir a luta e obter algum resultado. Foi a fé em Javé e o amor à vida que foram capazes de abrir uma brecha nesta muralha
impenetrável e de encontrar uma saída. É o que vamos ver agora.
2.
Amor
à vida e fé em Deus
A
fonte da mística que anima a defesa da vida das crianças
Quem conta um conto aumenta um ponto. Mas aumenta de acordo
com a finalidade que o narrador tinha
Durante toda a história do povo de Deus, esta dupla
experiência, tanto de Deus como da vida, dava ao povo a luz para perceber a
falsidade da religião que legitimava o extermínio dos menores tanto no Egito
como em Israel, e a coragem para desobedecer às ordens expressas tanto do
Faraó como dos Reis. Cada vez de novo, são a fé em Deus e o amor à vida, que
levam as pessoas a recomeçar a luta em defesa da vida ameaçada da criança.
Vamos ver alguns episódios relacionados com a defesa da vida
da criança. Trata-se de histórias antigas com um grande valor simbólico, que
funcionavam mais como espelho do que como janela. Elas nos revelam os traços
do rosto de Deus que acordava no povo através da luta em defesa das crianças.
Ao mesmo tempo, deixam transparecer os vários aspectos do contexto desta luta:
econômico, social, familiar, político, jurídico, ideológico, religioso,
cultural,....
1. “Deus ouviu os gritos
da criança do jeito que ela está aí” (Gn 21,17)
Uma certeza percorre a Bíblia de ponta a ponta, a saber,
Deus escuta o clamor do povo oprimido (Ex 2,23-25; 3,7-8). O clamor do pobre,
do pequeno, é o outro lado do apelo de Deus. Dentro deste contexto, adquire um
sentido especial a história de Agar (Gn 21,8-21). Marginalizada e expulsa por
Sara, sua patrôa, Agar anda errante pelo deserto, carregando seu filho Ismael.
Sem recursos, sem comida, não sabendo como enfrentar a situação, coloca o
menino debaixo de uma árvore e se afasta: “Não quero ver morrer a criança!” (Gn
21,16). Sentou-se e começou a chorar e gritar. Mãe e criança choram! Aparece
um anjo de Deus que diz: “O que é isso, Agar? Não tenha medo não! Deus ouviu os gritos da criança do jeito que
ela está aí” (Gn 21,17). O anjo mandou que ela levantasse o menino e o
segurasse com firmeza. Em seguida, assim diz o texto,“Deus abriu os olhos de Agar”, e ela, de repente, enxergou um poço
com água que antes não via (Gn 21,19). Imediatamente, se animou e começou a encontrar
os meios para alimentar o menino e sobreviver (Gn 21, 19). E o menino cresceu,
lá mesmo no deserto, e se tornou uma nação forte (Gn 21, 20-21).
A maior tentação nossa é querer enquadrar Deus e reduzi-lo a
uma peça dentro do sistema que nós mesmos montamos. Foi o que faziam o faraó e
os reis, querendo matar a fonte da vida dentro do povo. Foi o que fez Sara, ao
expulsar Agar. Ela tentou assegurar toda a
herança só para Isaque (Gn 21,10). Mas a fonte renasceu em Agar! Apesar de
expulsa do meio do povo, ela teve uma visão de Deus (Gn 16,7-16) e reencontrou
os meios para defender a vida da criança. “Deus esteve com o menino, e o
menino cresceu” (Gn 21,20).
A experiência de Deus que Agar teve no meio do desterro e do
abandono, produz um efeito surpreendente. Ela revela a Agar que Deus escuta o
clamor da criança do jeito que ela se encontra, abandonada, quase à morte! Ela
faz com que Agar, escrava e mãe solteira, se restabeleça e se anime. Abre os
olhos da mãe e a faz enxergar os meios de vida mesmo no deserto onde só existem
desolação e morte. Provoca iniciativas que fazem a criança crescer, não no
ambiente de onde foi expulsa por Sara, mas sim no ambiente onde ela vive
abandonada. Sinal de muita criatividade!
Assim, quando em épocas de crise a imagem tradicional de
Deus já não diz mais nada ou quando ela é ofuscada pela imagem manipulada ou
manipuladora da ideologia dominante, aí sempre aparece uma minoria incômoda,
feita de mães solteiras como Agar, de parteiras como Fua e Sefra, de irmãs ou
de mães de família como Miriam e Jocabed, de viúvas como Rute e Noemi, ou de
escravos fugitivos como Moisés, que reencontram a entrada da fonte,
desobstruem o acesso e redescobrem que Deus é Javé, aquele que escuta o clamor,
que está com os oprimidos e que defende a vida ameaçada das crianças,
provocando a raiva tanto dos Reis como dos Sacerdotes do Templo. A fé neste
Deus, sempre de novo, faz renascer a esperança e traz luz para descobrir novas
saídas.
2. “Abraão! Não estenda a
mão contra o menino!” (Gn 22,12)
Inicialmente, na época dos Reis, a história do sacrifício de
Isaque (Gn 22,1-19) era narrada como uma alerta contra o costume dos cananeus
de matar os filhos. A narração deixa transparecer como era forte a tentação de
sacrificar os filhos em nome de Deus. Ela apresenta Abraão seguindo uma
inspiração religiosa, obedecendo a um apelo de Deus que pedia o sacrifício do
filho. No último momento, porém, o narrador faz saber que o Deus de Israel não
quer esta morte (Gn 22,12). Ele condena as matanças de crianças que ocorriam em
Israel (2Rs 16,3). Assim, a história apresenta Abraão, o pai do povo, como
modelo a lutar em defesa da vida ameaçada da criança.
Mais tarde, depois do exílio, quando a tentação da religião
dos cananeus já não existia mais, esta história foi reutilizada como tijolo
velho numa parede nova. Agora, no atual contexto da Bíblia, ela serve para
apresentar Abraão como modelo de fé: crer até o ponto de admitir que seja
possível nascer vida da própria morte (Hb 11,19)!
Tanto antes como depois do exílio, o Deus de Israel, o nosso
Deus, sempre se revela como o Deus da vida. Na atual situação nossa, aqui no
Brasil, com milhões de crianças e
adolescentes abandonadas, carentes ou marginalizadas, quem não tiver esta fé na
vida criada por Deus, pode até desanimar de lutar!
3. “Não maltrate a viuva
nem o órfão” (Ex 22,21)
Uma conseqüência imediata da fé em Javé, o Deus da vida, é
atender às necessidades dos órfãos e
viúvas. No Código da Aliança, uma das
leis mais antigas, se diz: “Não afligireis a nenhuma viúva ou órfão. Se o
afligires e ele clamar a mim, eu escutarei o seu clamor. Minha ira se inflamará
e vos farei perecer pela espada: vossas mulheres ficarão viúvas e vossos filhos
órfãos” (Ex 22,21-23). Ou seja, uma sociedade que não cuida da sua juventude,
recebe o troco. Ela cava sua própria ruína. O Código da Aliança não deixa
dúvida. Se a criança pobre clamar, e se você for a causa deste clamor, Deus vai
atender ao clamor da criança e da mãe, e toma a sua defesa. Ele defende os
direitos do pobre.
No livro do Deuteronômio acentua-se esta preocupação com os
órfãos e as viúvas. O dízimo que se paga é para eles (Dt 14,29; cf 24,19-21;
26,12-13). Eles devem poder participar das festas e alegrar-se com o povo (Dt
16,11.14). Pois Javé, é um Deus que faz justiça aos órfãos e às viúvas (Dt
10,18). A lei do Deuteronômio maldiz todo aquele que perverte o direito do
órfão e da viúva (Dt 27,19). Nos salmos Deus é chamado “Pai dos órfãos,
justiceiro das viúvas” (Sl 68,6).
4. “Honra teu pai e tua
mãe” (Ex 20,12)
O outro lado da fé em Javé é o compromisso concreto com uma
convivência humana que se orienta pelas Dez
Palavras ou Mandamentos. Os Dez Mandamentos exprimem a nova organização que
nasce quando se acredita
O quarto Mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe, para que
se prolonguem teus dias na terra que Deus te dará” (Ex 20,12). Não pede para
obedecer aos Reis, nem ao Governo, nem aos sacerdotes, nem às autoridades
locais ou regionais, nem mesmo aos pais,
mas sim ao teu pai e à tua mãe. Valoriza a mãe, a mulher, ao
lado do pai, o homem. Os dois estão em pé de igualdade. Deste modo, o quarto
mandamento assegura o ambiente de vida, onde as crianças possam crescer em
harmonia e ter um futuro garantido. Procura reforçar o núcleo básico da
sociedade que é a família, o clã, a comunidade, para, assim, garantir a posse
da terra: “Para que se prolonguem teus dias na terra que Deus te dará” (Ex
20,12). Deste modo, o quarto mandamento contribui para evitar a formação do
latifúndio e para manter a decentralização do poder entre as tribos e clâs.
5. “Terei compaixão da
(criança) ‘Não-Compadecida’” (Os 2,25)
O livro de Oséias traz o seguinte oráculo
O culto de fertilidade tinha desintegrado a vida familiar de
Oséias. A desgraça que se abateu sobre a vida desse homem era uma amostra do
que estava acontecendo no país. Tanto sua mulher como as crianças, ambas foram
marginalizadas pelo sistema idólatra de morte em que viviam. Mas Oséias pela
força do seu amor gratuito e desinteressado, conseguiu que Gomer abandonasse o
culto da fertilidade e que as crianças fossem acolhidas. Gomer voltou a ser sua
esposa com a mesma dignidade de antes (Os 2,18-19). O filho Lo-Ruhamah, Sem misericórdia, é
novamente o Amado, e a filha Lo-Ammi, Não-povo, é novamente Povo de Deus (Os 2,25).
Esta experiência familiar e profundamente humana da força
criadora do amor fêz com que Oséias redescobrisse o poder regenerador do amor
de Deus. Já não é a imagem de um Deus guerreiro dominador, mas sim a imagem de
um Deus amigo, humano, amoroso. Tudo isto foi nele um apelo que o fez descobrir
sua vocação como profeta.
Saindo do Egito, ainda no deserto, o povo tinha começado a
criar um novo sistema de convivência, diferente do sistema do faraó e dos
reis. E o fez em nome da sua fé em Javé que o tirou do Egito. No centro desta
nova convivência estava o clã, a comunidade, a grande família. Resumindo, se
pode dizer que a função do clã, da comunidade, era a seguinte: impedir a
criação do latifúndio e a concentração do poder, garantir a posse da terra e
promover a partilha dos bens, tomar a defesa das famílias e das pessoas e
garantir o acolhimento e a sobrevivência dos órfãos e das viúvas. O clã era o
guardião das tradições e dos costumes, conservava a memória do povo e era fonte
de identidade. Ele era a mediação da Aliança do povo com Javé.
No decorrer da história, todas as vezes que enfraquecia a fé
em Javé, enfraquecia também o clã, a comunidade. A desintegração do clã deixava
as famílias sem defesa, e o sistema opressor se fortalecia. Todas as vezes,
porém, que se renovava a fé em Javé, crescia a comunidade, o clã. As tentativas
de renovação sempre recomeçavam pelo fortalecimento do clã, da comunidade. Esta
é uma constante que marca a história do povo de Deus. Até hoje!
Por causa deste seu modo de conviver, tão diferente do
sistema dos reis e do faraó, o povo de Israel se tornou uma Boa Nova de JAVÉ
para os povos oprimidos da época. Durante uns duzentos anos, isto é, durante o
período dos Juízes (1250-1200), eles tentaram viver este ideal no alto das
montanhas da Palestina. Foi uma experiência do Reino, que ficou na memória do
povo como uma eterna saudade a ser transformada em esperança! As histórias
sempre lembradas e atualizadas das parteiras, de Abraão e Sara, de Agar e seu
filho Ismael, e tantas outras alimentavam esta esperança.
Por isso, o problema da criança abandonada não era apenas um
problema familiar. Era também um problema social e político. Por exemplo, no
tempo de Salomão, a monarquia, criando distritos em vista da cobrança dos
impostos, enfraqueceu a organização do clã e contribuiu para a desintegração
das famílias. Exigindo o tributo, gerou empobrecimento e desigualdade entre as
famílias dentro do mesmo clã (1 Rs 4,7). Para construir o Templo, reintroduziu
os trabalhos forçados, dos quais Deus tinha libertado o povo, tirando-o do
Egito (1 Rs 5,27). Esta política de Salomão pesou tanto, que já no fim do seu
reinado o povo se rebelou e provocou a divisão entre Israel e Judá (1Rs 12,4).
A monarquia, o rei humano, acabou com o sonho. Deixou a saudade que crescia na
mesma medida em que crescia a opressão. Não é sem motivo que o número da Besta
do Apocalipse, 666 (Ap 13,18), evoca a exploração praticada pela monarquia no
tempo de Salomão. Cada ano, ele tirava 666 talentos de ouro, isto é, 23
toneladas de ouro (1 Rs 10,14), dos agricultores da Palestina!
3.
A
luta dos Profetas no tempo dos Reis
Por
uma sociedade que defenda a vida do povo
Este parágrafo sobre a luta dos profetas é resumido e
incompleto. Serve apenas para fazer perceber que a defesa da vida ameaçada da
criança fazia parte de uma luta mais ampla.
A ideologia do Faraó e dos Reis era uma ameaça constante
para a nova maneira comunitária de se conviver que estava nascendo no povo
através da fé
Os profetas são a consciência crítica da nação. Neles acorda
a memória do povo. Diante da situação do pobre, do órfão, do menor, eles
percebem o apelo de Deus e dão o grito de alarme para despertar a nação. Eles
enfrentam os reis. Muito do que vimos no parágrafo anterior já era fruto da
luta dos profetas e fazia parte da releitura que eles faziam da história. Os
profetas atuavam em três níveis para consertar a vida e refazer a aliança:
1. No nível da Justiça:
para transformar a Sociedade
Os profetas não se limitavam a condenar o abuso contra as
crianças e os jovens, mas se engajavam na luta por uma convivência social mais
ampla e mais segura, em que a vida de todos fosse respeitada. A seu modo, eles
faziam análise da sociedade e apontavam caminhos para renová-la. Sem medo,
condenavam os reis por causa dos sacrifícios das crianças, denunciavam os
exploradores, apontavam as causas da injustiça, enfrentavam os poderosos,
cobravam deles a observância da Lei e da Aliança, assumiam a defesa dos
excluídos e marginalizados, sobretudo dos órfãos e viúvas e lutavam para criar
novas leis que pudessem garantir uma vida digna para todo o povo.
2. No nível da
Solidariedade: para renovar a Comunidade
Desde o tempo da monarquia, os profetas atuavam também no
nível da solidariedade e lutavam pela renovação do clã e pela defesa das
famílias. Elias e Eliseu, por exemplo, os primeiros profetas, ambos defendem
a vida de uma criança que morre e a devolvem à mãe viúva (1Rs 17,17-24; 2Rs
4,8-37). É sobretudo depois do exílio que a luta neste nível se acentua. O seu
resultado transparece, por exemplo, na legislação deuteronomista. Esta
interpela a comunidade, o clã, e faz um apelo para que ele seja uma amostra da
Aliança (Dt 15,1-18). Tenta reforçar o clã para que ele seja novamente a base
do povo de Deus. O clã deve acolher as vítimas das injustiças e desigualdade,
geradas pelo sistema do Império Babilônico e Persa. Deve socorrer os órfãos e
as viúvas. A Lei do Resgate dos filhos escravizados é fruto da luta dos
profetas em defesa da vida ameaçada das crianças. Só assim a comunidade será a
grande Boa Nova de Deus para o povo, a expressão da Aliança, o Servo de Javé
para a humanidade sofrida.
3. No nível da Mística:
para despertar a consciência
Os profetas tentavam mudar a ideologia dos reis, animavam os
que se comprometiam com a aliança, e procuravam influir sobre a consciência.
Queriam criar um novo começo que superasse a dependência e a apatia. Insistiam
na busca de Javé, lembravam o passado. A certeza de Deus-Conosco era fonte de
luz e de coragem para a caminhada. Criavam nova consciência de missão: ser
Servo. Despertavam forças adormecidas e desconhecidas dentro do povo e dos
indivíduos. Sobretudo os discípulos e discípulas de Isaías, que viviam com o
povo no desterro do exílio, souberam despertar e aprofundar este nível da
mística. A nova experiência de Deus levou-os a comparar Deus com a mãe que
acalenta e abraça com muita ternura seus filhos (Is 66,10-13; 49,15-16).
Denunciavam a mortalidade infantil e lutavam por saúde sólida para todos (Is
65,20).
4.
Rute,
Judite, Ester e suas companheiras
A
luta e a resistência da mulher marginalizada
A marginalização da mulher era e continua sendo uma das
causas principais da marginalização das crianças. A mulher era marginalizada
por ser mãe, por ser esposa, por ser filha, por ser mulher. Por ser mãe: dando
a luz, ela se torna impura (Lv 12,1-5). Por ser filha: o filho que nasce traz
40 dias de impureza, mas a filha, 80 dias! (Lv 12,2-5). Por ser esposa: a
relação sexual a torna impura durante um dia (Lv 15,18). Por ser mulher: a
menstruação a torna impura durante sete dias, e causa impureza nos outros (Lv
15,19-30). Estas e outras leis tornavam insuportável a convivência diária
Desde os tempos mais remotos, houve reações
Estas sementes de resistência deram fruto sobretudo depois
do exílio, época em que se acentuava a marginalização da mulher (cf Esd 9,1-2;
10,1-4). Ou seja, a resistência e a valorização da mulher cresciam sobretudo no
período em que a sua marginalização era mais pesada. Vários livros sapienciais
do período pós-exílico registram esta voz da oposição e da crescente
resistência:
* No Cântico dos Cânticos, a mulher aparece
como pessoa independente. Para poder encontrar seu amado, ela enfrenta os
guardas da cidade (Ct 3,1-4; 5,2-8), o rival que a persegue (Ct 8,11-12), e os
irmãos que querem protegê-la (Ct 8,8-10). O Cântico dos Cânticos reafirma a
dignidade da mulher.
* No livro de Rute, duas mulheres pobres, Noemi
e Rute, ambas viúvas, das quais uma estrangeira, estão na origem da reconstrução
do povo. São elas que tomam as iniciativas para reconquistar os direitos
perdidos e para fazer observar a lei do resgate. É de uma estrangeira que nasce
o avô do messias
* No livro de Judite é uma mulher que contesta
a decisão tomada pelos anciãos e sacerdotes. Sozinha, ela enfrenta o exército
inimigo e consegue derrotar o general Holofernes, cortando-lhe a cabeça.
* No livro de Ester é novamente a mulher que se
engaja na luta pela sobrevivência do povo. As terríveis palavras desumanas do
Eclesiástico contra a mulher (Eclo 25,13-26; 42,12-14) talvez se expliquem pela
ameaça que representava para o domínio dos homens a incipiente conscientização
das mulheres, atestada no livro de Ester (Est 1,9-22, sobretudo vv 17 e 18)
5.
A
luta diária na educação
A
parede escondida que sustenta todos os ladrilhos
Este parágrafo, o mais curto de todos, talvez seja o mais
importante. Ele é como a parede que não aparece, porque fica escondida atrás
dos ladrilhos. Mas é a parede que sustenta todos os ladrilhos. Trata-se aqui
do sistema educativo da época e da luta diária para transmitir a experiência de
vida para a geração nova. Na Bíblia, a expressão desta luta diária está
sobretudo no conjunto dos livros sapienciais. Estes livros revelam uma cultura
diferente da nossa com métodos educativos que não funcionariam hoje
2. O esforço de transmitir
a experiência acumulada capacita os jovens para enfrentar a vida.
5. O respeito pela vida de
todos, fruto da fé em Javé, o Deus da vida.
6.
O
messias criança
A esperança renasce para o povo[1]