JUVENTUDE
VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS.
CESEP, CURSO DO VERÃO,
INDICE
INTRODUÇÃO
I. A RAIZ DA
NOSSA VOCAÇÃO
II. AS RESISTÊNCIAS
À VOCAÇÃO
1. O Chamado de Abraão e Sara
2. O chamado de Moisés
3. O chamado de Elias
III. IMAGEM DE
DEUS E DESCOBERTA DA VOCAÇÃO
1.
O fracasso do cativeiro faz apelo à consciência do povo
2.
As várias respostas ao apelo de Deus
IV. JUVENTUDE E
VOCAÇÃO
1.
Oséias e Gomer: dois jovens descobrem e assumem sua vocação
2.
Jó: porta-voz das aspirações da juventude;
V. CHAMADO POR
DEUS, JESUS É FIEL À SUA VOCAÇÃO
VI. JESUS CHAMA
PESSOAS PARA ESTAR COM ELE E IR EM MISSÃO
1. As
pessoas chamadas por Jesus
2. O
chamado, a vocação, e o seu duplo objetivo
4.
Jesus é atento ao processo e ao cultivo da vocação dos discípulos
6. Seguir
Jesus na contramão, obediente a Deus e aos pobres até à morte de Cruz
VII. A
DESCOBERTA DA VOCAÇÃO DA HUMANIDADE
1. O
fracasso da observância da Lei de Deus destruiu a raiz da fé
5. Homem e
Mulher: imagem e semelhança de Deus
APÊNDICE.
OLHANDO O ALBUM DA FAMÍLIA DE DEUS
A variedade
das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
A variedade
das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
Um elenco
das pessoas chamadas desde Abraão até o Novo Testamento
Uma sugestão
para aprofundar a vocação na Bíblia
INTRODUÇÃO
O TEMA
O Tema deste
curso é: “Juventude: Vocação e Compromisso à luz da Palavra de Deus”. Tema
vasto. Tem a ver com as coisas mais comuns e mais profundas da vida.
VOCAÇÃO: Escutar
o chamado.
Ser chamado pelo
nome é a coisa mais freqüente e mais comum que acontece com cada um de nós:
“João!” –“Raquel!” -“Carlos!”
-“Maria!” Quando alguém chama, você pára, olha e pergunta: “O que há?”
Às vezes, a gente é chamada por alguém, mas não escuta. Muito barulho ao redor
ou dentro da gente. Pode ser também que o chamado foi muito fraco ou vinha de
uma pessoa muda que chamava com um gesto que você não entendeu. Condição para
poder escutar o chamado é saber fazer silêncio. Sem silêncio não se escuta
nada. Hoje, o que nos falta é silêncio.
COMPROMISSO: Responder
ao chamado.
Alguém o chama
porque ele precisa de você. Você dá a sua resposta, se compromete e vai agindo.
No fundo, tudo que a gente faz na vida é resposta a um chamado, a uma vocação:
“Recebi uma chamada e fui!” Há chamados pequenos e chamados grandes. Às vezes
acontece que alguém chama e você responde: “Sinto muito, mas não posso”. É que
um outro chamado te impede de responder positivamente a este novo chamado.
JUVENTUDE: O
chamado rejuvenesce.
Abraão tinha 75
anos quando Deus o chamou. Era velho, mas foi ficando cada vez mais jovem.
Jesus foi sendo chamado desde pequeno até à idade de 30 anos. Aí ficou tudo
claro para ele. Ele assumiu a vocação e começou a chamar outras pessoas para
segui-lo, rapazes e moças, homens e mulheres. Provavelmente, todos eles mais
jovens do que ele mesmo. Respondendo ao chamado, a pessoa rejuvenesce! (cf Is
40,30-31)
À LUZ DA PALAVRA DE DEUS: Iluminar e aprofundar o chamado.
A Bíblia é a
história da vocação de um povo. É o álbum das pessoas chamadas, homens e
mulheres, rapazes e moças, jovens e velhos, casados e solteiros. É o espelho da
nossa caminhada, a história da nossa vocação. Nestes três dias vamos procurar uma
luz na Bíblia para clarear o fenômeno tão universal, tão comum, tão profundo e
tão pouco conhecido da vocação em nossa vida. Veremos o chamado de Deus e a sua
mística tais como aparecem na Bíblia
OS TERMOS
São muitas as
palavras que se usam para expressar aquilo que escutamos dentro de nós como
apelo ou vocação e às quais procuramos dar uma resposta ao longo dos dias e
anos da nossa vida. São palavras comuns que indicam coisas muito comuns, muito
humanas: Vocação, Apelo, Grito, Chamado e Chamada, Lembrete, Convite, Convocação,
Pedido, Recado, etc.
Geralmente,
falando em vocação, muita gente pensa logo em vocação para padre, freira,
religioso, pastor, ministro, ministra ou obreiro. Pensa na vocação à santidade
ou na vocação que como cristãos recebemos no batismo. Tudo isso é correto, mas
não é o todo. É apenas uma parte, e uma parte muito pequena. É olhar apenas um
único tijolo e achar que já viu e conhece a casa inteira que tem muitos
quartos, salas e andares.
Existe uma
vocação básica mais geral que abarca e fundamenta todas as outras vocações. Eu
sou Carlos. Você é Maria, João, Raquel, Alberto. A vocação básica de cada um de
nós é ser Carlos, ser Maria, ser João, Raquel, Alberto. Todos nós somos Seres
Humanos. Nossa vocação básica e principal é ser HUMANO. Quando falamos
em vocação cristã ou religiosa, não podemos esquecer esta vocação básica de
sermos uma parte da humanidade. Não
se constrói um prédio começando com o terceiro andar. Não dá certo. No passado,
aconteceu muitas vezes que, formando-se na vocação para religioso ou freira, as
pessoas se tornavam menos humanas. Perdiam o brilho de humanidade. Pensavam que
isto fosse o caminho certo. Mas não era. Pois tudo que faz um ser humano
tornar-se menos humano não pode ser expressão da vontade de Deus.
Nestes três
dias, analisando as várias vocações que aparecem na Bíblia, a preocupação será
sempre a mais ampla possível: ver a vocação como é elemento básico e
constitutivo da nossa existência humana e não como um acréscimo que só pertence
a uns poucos privilegiados.
O ESQUEMA
Elaborei o
seguinte esquema para estes três dias. Pensei em abordar sete pontos, sete
aspectos da vocação:
Deus tem vocação e, para ser fiel à sua vocação, ele chama a nós. Nossa
vocação tem sua origem em Deus, na vontade de Deus de comprometer-se com a sua
vocação. Vamos ver como Deus foi chamado e como ele respondeu à vocação.
Isto ajuda para sabermos como responder à nossa vocação;
2. As resistências à vocação:
A vocação
suscita uma dupla reação em todos nós: aceitação e resistência. A pessoa quer
aceitar, mas resiste: ou não crê, ou não quer, ou se
engana. Vamos ver de perto como foram as resistências de Abraão e Sara, de Moisés
e de Elias, e como superaram as resistências e os fracassos da vocação.
3. Imagem de Deus e resposta à vocação:
Na parábola do
bom samaritano, a mesma situação fez um apelo a três pessoas diferentes:
sacerdote, levita e samaritano. A resposta não foi a mesma. Por que? Dependendo da posição social e da imagem que as pessoas se fazem de
Deus, elas reagem diferentemente diante dos apelos ou das vocações que vêm dos
fatos da vida.
4. Juventude e Vocação:
Vamos ver dois
casos bem concretos de jovens ou de um velho com cabeça e coração de jovem. Oséias
e Gomer: um casal jovem, que descobre a vocação que vem de Deus na experiência
do amor sincero que os unia. Jó: um velho rebelde, que se torna porta-voz das
aspirações da juventude.
5. Jesus, chamado por Deus é fiel à
sua vocação
Vamos ver como
Jesus viveu sua vocação. Como foi descobrindo, aprofundando e alargando o
chamado de Deus em sua vida, e como respondia aos apelos que a cada momento recebia
do Pai. Ele mesmo dizia: “Eu faço o que o Pai me mostra o que é para fazer” (Jo
12,50; 8,38). Veremos como foi esse longo chamado de trinta e três anos.
6. Jesus chama pessoas para estar com ele
e ir em missão
Veremos como
Jesus chamava outras pessoas para segui-lo no compromisso à mesma vocação: homens
e mulheres, rapazes e moças, velhos e crianças. Esta parte ocupará o maior
espaço, pois é o que nos caracteriza. Somos discípulos e discípulas de Jesus,
chamados por ele em vista da justiça e da paz no mundo
Apêndice O álbum dos homens e mulheres
chamadas por Deus:
Este apêndice
contém um subsídio para ajudar as pessoas que querem aprofundar este assunto da
vocação na Bíblia. O apêndice nos permite olhar a história da Bíblia do ponto
de vista do chamado e a verificar como era a vocação de cada um, cada uma, e
como as pessoas respondiam à sua vocação. No fim traz uma lista com perguntas
que permitem alargar o assuntos e descobrir outros ângulos.
A DISTRIBUIÇÃO DO ASSUNTO NOS TRÊS DIAS
No primeiro dia:
I.
A raiz da nossa vocação
II.
As resistências à vocação
No segundo dia:
III.
Imagem de deus e descoberta da vocação
IV.
Juventude e vocação
No terceiro dia:
V.
Chamado por deus, jesus é fiel à sua vocação
VI.
Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão
I
A RAIZ DA NOSSA VOCAÇÃO
Deus tem vocação, e se compromete com ela chamando a nós
Diz o livro do
Êxodo (Ex 2,23-25):
“Muito tempo
depois, o rei do Egito morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da
escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus.
Deus ouviu as queixas deles e lembrou-se da aliança que fizera com
Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu a
condição dos filhos de Israel e a levou em consideração”.
E
um pouco mais adiante diz novamente (Ex 3,7-10):
“Javé disse (a
Moisés): "Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o
seu clamor contra seus opressores, e conheço
os seus sofrimentos. Por isso, desci
para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra
onde corre leite e mel, o território dos cananeus. O clamor dos filhos de
Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam.
Por isso, vá. Eu envio você ao
Faraó, para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel".
Deus tem vocação. A vocação de Deus é o grito do povo oprimido! Deus
foi chamado pelo povo sofrido e deixou que o chamado entrasse dentro dele. Escutou,
e deu uma resposta coerente. Deus foi fiel à sua vocação. A Bíblia anota sete
passos bem precisos da maneira como Deus respondeu à sua vocação:
1. Deus ouviu
as queixas, escutou o clamor dos oprimidos.
2. Deus lembrou-se da
aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó.
3. Deus viu a condição, a
miséria do seu povo e a opressão com que os egípcios o atormentavam.
4. Deus conheceu os seus
sofrimentos e os levou em consideração.
5. Deus desceu para
libertá-lo.
6. Deus decidiu fazê-lo
subir para uma terra fértil.
7. Deus chamou Moisés e
o enviou ao faraó para tirar o povo do Egito.
Os sete passos da resposta à vocação
Vale a pena cada um e cada uma de nós fazer uma análise da sua
própria vida e da sua vocação percorrendo estes mesmos sete passos que Deus percorreu
para dar uma resposta adequada à sua vocação: OUVIR, LEMBRAR, VER, CONHECER,
DESCER, DECIDIR, CHAMAR. Não são passos distintos, um depois do outro, mas são
os vários aspectos da resposta que damos ao chamado que recebemos.
1. OUVIR: Deus ouviu o clamor.
A gente deve aprender a escutar o grito
calado do pobre; deve aprender a perceber os problemas dos outros, do povo; a estar
atento aos acontecimentos. Como Jesus na estrada de Emaús, devemos aproximar-se
das pessoas, caminhar com elas, fazer silêncio para escutar o que conversam e perguntar;
ter um desconfiômetro para perceber eventuais resistências, desvios e enganos.
O ponto de partida é saber fazer silêncio dentro de nós para poder escutar a
vocação.
2. LEMBRAR: Deus se lembrou da aliança com
Abraão, Isaque e Jacó.
Muitas vezes, ao presenciar um fato na
rua ou escutar uma notícia na televisão, você se lembra de alguma situação já
vivida antes. Os fatos que acontecem hoje trazem de volta as coisas do passado,
seja da família, seja do Brasil. E esta lembrança do passado, por sua vez,
ajuda a dar uma resposta mais coerente aos apelos que recebemos hoje. A memória
do passado é chave para poder analisar bem a situação de hoje e perceber os
apelos ou as vocações que aí existem para nós. Sem memória do passado, não há
futuro para o povo!
3. VER: Deus viu a miséria do seu povo.
Todos os dias, vemos a miséria do
Brasil: pobres na rua, brigas em família, desemprego, fome, violência, etc.,
mas nem sempre nos damos conta do que está acontecendo. Vemos as coisas mas não
as percebemos. Nós nos acostumamos e nos tornamos insensíveis diante dos
problemas do país e das pessoas. Não analisamos as coisas, e para acalmar uma
possível rebeldia da consciência arrumamos motivos e pretextos para não nos
envolver. Por falta de análise crítica da realidade não enxergamos o apelo e,
mesmo vendo, não descobrimos nossa vocação.
4. CONHECER: Deus conheceu os sofrimentos.
Na Bíblia, a palavra conhecer indica não só um conhecimento
teórico obtido pelo estudo. (Isto pertence ao terceiro passo do VER). Na
Bíblia, conhecer indica uma
experiência prática, obtida na convivência. Uma coisa é conhecer de longe,
outra é sentir de perto. Quem vive em condomínio fechado não sabe o que sofre
um favelado. Quem esteve na casa do desempregado sabe o que significa não ter o
que comer. Uma vocação que não se envolve não atinge o seu objetivo.
5. DESCER: Deus desceu para libertar o seu
povo.
A situação do povo que gritava fez com
que Deus saísse do lugar onde estava para colocar-se no lugar onde estava o povo.
Mudou de posição. Fez opção pelos pobres e oprimidos. Descer significa mudar de
posição social. Para poder assumir sua vocação é muito importante a pessoa
fazer algo, por menor que seja, para descer,
mudar de posição. Por exemplo, no jeito
de oferecer uma ajuda aos outros; na hora de votar; nas decisões que se tomam;
na maneira de fazer análise dos problemas; etc. Diz um provérbio: “A fome na
China pode ser grande, mas meu calo dói mais!” É colocando-me no sapato do
outro, que percebo que a fome na China dói mais que o meu calo.
6. DECIDIR: Deus decidiu fazê-lo subir para
uma terra fértil e espaçosa.
Deus ouviu, lembrou, viu, conheceu
e desceu. Agora Ele começa a agir,
tomando decisões concretas a partir da posição do outro com o enfoque do outro
e elabora um projeto para libertar o povo daquele situação. Percebeu que do
jeito que o povo estava não podia continuar e que era necessário encontrar um
outro modo de viver. O projeto levou quarenta anos para ser realizado. Deus
parece não ter pressa. Ele não planta alface. Planta é jacarandá.
7. CHAMAR: Deus chamou Moisés e o enviou
para tirar o povo do Egito.
Chamou Moisés, Moisés chamou Aarão,
Aarão chamou outros, os outros chamaram outros. Iniciou-se um processo que
chegou até nós. Deus tomou iniciativas, envolveu pessoas, fez com que os outros
passassem pelo mesmo processo. A raiz da vocação de Moisés era a preocupação de
Deus em ser fiel à vocação que ele (Deus) estava recebendo do povo, e em
atender ao chamado dos oprimidos. A raiz da nossa vocação é a vocação de Deus.
Através do chamado que Ele nos dirige e que nós descobrimos dentro dos fatos, Deus
vai dando uma resposta à vocação que ele está recebendo hoje dos pobres, aqui
no Brasil. Foi assim que Jesus viveu a sua vocação lá na Palestina, e que nós também
devemos experimentar e viver a nossa vocação. Isto dá maior profundidade e
compromisso ao que já estamos fazendo.
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Pergunta para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
* Reflita sobre a história da sua vocação
pessoal a partir dos sete passos da vocação de Deus
II
AS
RESISTÊNCIAS À VOCAÇÃO
Vamos ver três casos de resistência à vocação: Abraão e Sara resistem porque não
conseguem crer na vocação e, por isso, apresentam caminhos alternativos. Moisés resiste porque tem medo da
vocação e não quer comprometer-se. Elias resiste porque confunde o Deus
que chama com a imagem que ele mesmo se fazia de Deus e, por isso, sem se dar
conta, busca a resposta numa direção errada. São três casos de vocação de
pessoas que viveram antes de nós. São, ao mesmo tempo, arquétipos, modelos,
símbolos do que acontece ou pode acontecer com todos nós. São espelhos, nos
quais reconhecemos algo de nós mesmos. Eles nos ajudam a entender melhor o que
se passa dentro de nós.
1. O Chamado de
Abraão e Sara
1. Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo estava no
cativeiro da Babilônia. A política expansionista do império de Nabucodonosor,
rei da Babilônia, destruiu Jerusalém e arrasou com o Templo. Matou o rei e
acabou com a independência política do reino de Judá. Isto foi no mês de
agosto do ano 587 antes de Cristo. As grandes promessas do passado não se
realizaram. O povo estava de volta na mesma terra de onde, 1300 anos antes,
Abraão e Sara tinham saído para a Palestina em busca da Terra Prometida. O povo
estava na escuridão (Lam 3,2-6), sentia-se injustiçado por Deus (Is 40,27;
49,14), tinha perdido a auto-estima, achava que sua vida já não tinha valor
nenhum e que todo o seu esforço não adiantava para nada (Is 49,4). Vivia
oprimido e disperso, sem encontrar os sinais da presença de Deus na vida (Sl
77,8-11). Muitos tinham se acomodado e diziam: “Deus se esqueceu de nós” (Is
40,27). Abandonaram Javé e começaram a crer nos deuses do império da Babilônia
que lhes pareciam mais fortes!.
E no entanto, foi a esse povo desanimado e sem
futuro que Deus estava chamando para ser Luz das nações (Is 42,6; 49,6). Sua
vocação era anunciar a justiça (Is 42,6), libertar os oprimidos (Is 61,1), unir
as tribos de Jacó (Is 49,5-6), levar a mensagem de Deus até os confins da terra
(Is 49,6). Difícil crer num chamado assim!
–“Quem somos nós para realizar uma vocação assim!” De fato, a maioria
nem lhe dava atenção. Dava risada.
Mas um grupo pequeno, discípulos e discípulas de
Isaías, começou a lembrar e aprofundar a história de Abraão e Sara. Em vez de
desanimar, diziam o contrário: “É agora que nós temos que ser Abraão e Sara!
Esta é a nossa vocação!” E repetiam ao povo:
“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus.
Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram
extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que os deu à luz! Quando os
chamei, eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is
51,1-2)
Lembrando a história antiga de Abraão e Sara, em
cuja terra estavam exilados, em vez de desanimar, os discípulos de Isaías se
enchiam de esperança: “Nossos pais Abraão e Sara conseguiram! Nós também vamos
conseguir!” Hoje acontece o mesmo. Muitos se acomodam, mas outros dizem o
contrário: “É agora que nós temos que ser Zumbi! Tiradentes! Santos Dias! Oscar
Romero! Padre Josimo! Irmã Doroty! Esta é a nossa vocação!”
Para ajudar o povo do cativeiro a
descobrir e assumir esta sua vocação, os discípulos de Isaías começaram a
contar novamente a história de Abraão e Sara, mas a contavam de tal maneira que
o povo pudesse descobrir nela sua própria vocação e a maneira de como
realizá-la. As narrações sobre Abraão e Sara, conservadas no livro de Gênesis, refletem
não só a história do casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas também,
como num espelho, a situação difícil e sem horizonte do povo no cativeiro da
Babilônia. A maneira dramática como é narrada a história de Abraão e Sara deixa
transparecer como era difícil para o povo do cativeiro crer na vocação que lhe
vinha de Deus e sugere, ao mesmo tempo, como ele devia fazer para crer na
vocação e assumi-la. Estas narrações também são espelho para nós hoje
refletirmos sobre a nossa vocação, sobre o nosso chamado.
2. O chamado
Eis como começa o chamado para sermos Abraão e Sara,
para refazermos a história:
Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do
meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe
mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o
seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e
amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra
serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com
ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo
sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que
haviam adquirido
A promessa de ser pai de um povo e fonte de bênção
para toda a humanidade é uma vocação bonita que atrai. Vocação importante de
grande alcance. Mas a condição para poder ser pai de um povo é ter ao menos um
filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril e avançada
3. As propostas
alternativas
Foram três as propostas alternativas que os dois elaboraram.
Mas também foram três as pancadas que levaram, três os impasses que
enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o
caminho. Tem gente que leva dez pancadas, outros caem vinte vezes até aprender.
Outros não levam pancada nenhuma nem caem, porque já estão deitados no chão,
são humildes. Vejamos as propostas alternativas de Abraão e Sara:
A primeira proposta alternativa à
promessa de Deus: Eliezer
Humanamente falando, a vocação de Deus ultrapassava
as possibilidades reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter
nenê. A primeira proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar
Eliezer, seu empregado, como substituto de um (im)possível filho (Gn 15,1-6).
Conforme as leis da época, Abraão poderia adotá-lo como filho. O filho de
Eliezer seria neto de Abraão, e a promessa de ser pai de um povo estaria
garantida, a vocação estaria realizada. No fundo, Abraão não acreditava na
promessa. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser filho seu!” (cf. Gn
15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!
A segunda proposta alternativa à
promessa de Deus: Ismael
Para poder crer na sua vocação, Abraão devia crer
em Sara, e Sara devia crer
A terceira proposta alternativa à promessa
de Deus: Isaque
Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os
recebeu com muita hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter
nenê no ano seguinte. Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17).
Todos rimos, porque não acreditamos em nós mesmos, nem na vocação. Só
acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no que Deus é capaz de fazer
por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara, e nasce o filho que
recebe o nome de Isaque, o que
significa Risada (Gn 21,1-7). De Deus
não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque clareou o
horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a vocação estava realizada. A
bênção prometida ia poder irradiar para todas as nações da terra. Mas aqui
acontece uma coisa muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão
tem um fundamento concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o
fundamento da esperança passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido
por Deus. E aí a palavra de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te mostrar!” (Gn
22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou para antes do
começo.
A resposta final à promessa de
Deus: a entrega total
Desta vez, Abraão não discute, não diz nada. Ele é
obediência muda. Apenas age (Gn 22,3-10). Não se fica sabendo o que ele pensa. O
texto não informa. Cada um de nós, lendo o texto e confrontando sua atitude com
a de Abraão, deve preencher a informação que falta no texto. No último momento,
Deus manda Abraão parar. Não pode sacrificar o filho (Gn 22,11-19). Basta a
obediência, interpretada pela carta aos hebreus da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar
vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso
é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). “Abraão acreditou em Deus e isto lhe
foi imputado como Justiça, e ele foi
chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6).
“Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,19). Símbolo,
modelo, arquétipo! De que maneira? Poderíamos continuar o comentário da carta
aos hebreus dizendo: Todos nós, casados ou solteiros, todos e todas temos um
Isaque, do qual não abrimos mão, que consideramos o fundamento da nossa vida, e
sem o qual não poderíamos imaginar nossa vida. Chegará o dia
Responder à vocação, comprometer-se de fato, é um
processo, que ocupa a vida inteira. É fruto de lenta e dolorosa purificação. É
como descascar uma cebola. Você tira uma casca, e terá outra casca para tirar.
Você grita: “Pare! É o miolo!” E não é o miolo, é casca. Cebola não tem miolo.
Só tem casca. E enquanto descasca a cebola você chora. Até descobrir que não
temos miolo. Só temos casca, pois não fomos feitos para nós mesmos, mas para
Deus e para os outros.
2. O chamado de
Moisés
1. Situando o chamado
Grande parte dos livros de Gênesis e Êxodo foi escrita na época do
cativeiro ou logo depois. As longas histórias dos patriarcas e matriarcas, do
êxodo e dos quarenta anos no deserto eram narradas e foram escritas para ajudar
o povo do cativeiro a redescobrir sua missão
como povo de Deus. É com esta finalidade que o livro do Êxodo narra a
história da vocação de Moisés.
O diálogo do chamado entre Deus e Moisés se prolonga por vários
capítulos. É o diálogo do povo do cativeiro com Deus, é o diálogo de todos nós.
Nele aparecem as resistências, os medos, os pretextos reais ou imaginários que
inventamos para poder escapar da vocação. O diálogo entre Deus e Moisés é um espelho
do diálogo que nós travamos com a realidade que nos desafia, com a consciência
que nos incomoda, com Deus que nos chama.
Quando as coisas acontecem, a gente nem sempre percebe logo todo o
seu significado. Não percebe nem entende logo o apelo ou a vocação de Deus que
existe dentro dos fatos, e pode até dar uma resposta errada. Jeremias, por
exemplo, ficava devendo a resposta diante da situação de injustiça que se
alastrava no país e que o deixava perplexo (Jr 12,1-3). Moisés sentiu um
chamado diante do maltrato do seu povo, mas não deu a resposta certa. Sem
refletir, matou um egípcio e teve que fugir (Ex 2,11-15). Demorou quarenta anos
(cf. At 7,23.30; Ex 7,7) até ele sentir de novo o chamado vindo do povo (Ex
3,7-10). O claro e o escuro convivem na pessoa chamada. A Palavra que chama é,
ao mesmo tempo, fonte de alegria e de angústia (Jer 15,15-16; 20,7-18).
A raiz desta contradição aparente está não só nas contradições da
vida e da situação social, mas também na natureza do chamado que vem de Deus. A
certeza que a experiência de Deus nos transmite é aceita na fé e nem sempre se
traduz em certeza humana de nível psicológico. A certeza que Deus comunica é
uma só: "Va! Estou com você!"
(Jr 1,8; Ex 3,12). Ela não faz a pessoa chamada ficar mais inteligente ou mais
perspicaz, não muda o seu caráter, nem aumenta o grau do seu conhecimento. Ela
é como a luz do sol que de repente ilumina tudo, transformando tudo, sem mudar
nada. Ela ajuda o chamado a relativizar tudo em função do único absoluto que é
Deus e a vida do povo, ambos fonte da sua vocação e missão.
2. O chamado
É no contexto deste diálogo, que a Bíblia, em seis versículos (Ex
3,10-15), explica o significado do nome JAVÉ
como sendo o fundamento último da nossa vocação. Estes seis versos têm uma
densidade teológica muito grande. Refletem a nova experiência de Deus que o
povo foi adquirindo naqueles anos difíceis do cativeiro. Explicam a importância
do nome JAVÉ para a aceitação e
realização da vocação que recebemos. Em hebraico, o nome JAVÉ é escrito com estas quatro letras JHWH. Eis em gráfico esquemático o texto abreviado
de Êxodo 3,10-15:
Eu te envio a Faraó para fazer sair meu
povo (Ex 3,10) ||
Quem
sou eu para ir ao faraó? (Ex 3,11) ||
Va! Estou com você! (Ex 3,12) ||
O
povo vai perguntar: Qual o seu nome? (Ex 3,13) ||
Estou
que estou! (Ex 3,14) || Reafirma a expressão anterior: Estou
com você
Assim dirás: Estou me mandou. (Ex 3,14) || Estou repete e abrevia Estou que Estou
Assim dirás: Está me mandou. (Ex 3,15). || Está em hebraico se escreve JHWH ou JHJH
Este é o meu nome para sempre (Ex 3,15) || O nome é JHWH, o que significa Estou com você
Assim serei invocado de geração em
geração. (Ex 3,15) ||
O texto utiliza um jogo de palavras para comunicar o significado
profundo do nome Javé, JHWH. Este nome é muito antigo de origem desconhecida,
mas no diálogo de Deus com Moisés o nome antigo é associado com a promessa
divina Estou com você. Moisés não crê nesta promessa. Por isso, repetindo
o mesmo verbo Deus reafirma a promessa e diz: Estou que Estou. Ou seja:
“Certissimamente estou com você, Moisés! Disso você não pode duvidar”. Em
seguida, Deus abrevia a mesma expressão para sua forma reduzida e diz Estou.
No fim, o texto passa da primeira pessoa singular do verbo (Estou)
para a terceira pessoa do mesmo verbo e diz Está. Em hebraico, a terceira pessoa singular do verbo estar se escreve JHJH ou, às vezes, JHWH,
o que é igual ao nome de Deus. Assim, o nome JHWH é explicada aqui como sendo a afirmação categórica da parte de
Deus de que Ele está sempre conosco: Estou com você. E termina dizendo
que é sob este nome JHWH que Ele quer ser invocado, de geração
3. As resistências
O diálogo entre Deus e Moisés (de Ex
Primeiro pretexto: humildade: “Quem
sou eu?”
Moisés apresenta humildade para esconder o medo: Quem sou eu para ir ao faraó? Deus poderia ter
respondido: “Não, Moisés! Você é capaz. Você se formou na escola do faraó.
Você tem diploma! Tem capacidade, poder e formação suficientes!” (cf. Ex 11,3;
At 7,22). Mas Deus não responde ao pretexto. Ele vai direto ao motivo
verdadeiro que era o medo, e diz: “Estou com você!” Aqui, nestas três
palavras Moisés recebe a confirmação básica da
sua vocação. Deus não oferece dinheiro nem armas, nem diploma. Apenas diz: “Va! Estou com você!” Nada mais. Não existe uma garantia mágica
que me dê certeza sensível de que Deus está comigo. O único acesso a Deus é a
entrega total na fé. É crer que ele está conosco, comigo! Se eu tiver a coragem
de me entregar e de deixar Deus ser Deus na minha vida, poderei ter a certeza
absoluta da presença libertadora de Deus na minha vida.
Segundo pretexto: ignorância: “Qual
o nome?”
Moisés não se dá por vencido, e busca um outro pretexto. Ele
imagina que o povo vai perguntar pelo nome de Deus. Este segundo motivo é real,
tem fundamento. Pois eles já estavam 400 anos no Egito e Deus nunca tinha
mostrado a sua presença. Deixou que sofressem por quatro séculos! E agora de
repente aparece Moisés dizendo que Deus o enviou para libertar o povo. Para o
povo Deus já não tinha nome, já não existia, não representava mais nada. A
pergunta pelo nome também revela o desejo de poder manipular a divindade
através do uso mágico do nome.
Na realidade, o problema não era o nome de Deus, mas era o próprio
Moisés que não conseguia crer na promessa divina Estou com você! Novamente, a resposta de Deus não se
dirige ao pretexto do nome inventado por Moisés, pois Deus não responde: “Meu
nome é Javé”. Ele se dirige ao pretexto, à falta de fé e de confiança de
Moisés. Dizendo Estou que Estou, Deus
simplesmente está repetindo o que já havia dito anteriormente: “Estou
com você!” Tô que Tô! Ou seja,
ele reafirma de maneira categórica: ”Certissimamente estou com você!” Em
seguida, abreviando a mesma expressão, ele diz: “Estou me mandou”.
Quando Deus fala de si mesmo ele usa a primeira pessoa singular e diz “Estou”.
Quando nós falamos a respeito de Deus, usamos a terceira pessoa singular e
dizemos: “Está”. Em hebraico a palavra Está se escreve JHJH ou JHWH. O nome antigo recebe aqui um
significado novo de grande alcança. A certeza de fé que o nome Javé comunica à toda
pessoa chamada é esta: “Certissimamente estou com você!” Esta é a certeza maior,
o centro da nossa fé, o eixo da Bíblia. Só no Antigo Testamento o nome Javé
aparece mais de 7000 vezes. Cantado e contado, em prosa e verso, de mil
maneiras , em todas as tonalidades e formas literárias.
Terceiro pretexto: a falta de fé
dos outros: “Não vão crer em mim!”
Mas Moisés (o povo do cativeiro, todos nós) não está convencido e
vem com outra dificuldade: “E se não acreditarem em mim, o que é que vou
fazer?” (cf. Ex 4,1). Moisés esconde o medo e a falta de fé atrás da pretensa
falta de fé do povo: “O povo não vai acreditar em mim!” Na realidade, quem não
acreditava, não era o povo, mas sim o próprio Moisés. Em resposta, Deus o faz
realizar três sinais milagrosos: mudar o bastão em serpente (Ex 4,2-5), fazer a
mão ficar cheia de lepra (Ex 4,6-8) e mudar a água do rio em sangue (Ex 4,9). Trata-se
de histórias bem populares para mostrar a Moisés que ele não podia ter esse
pretexto para escapar da vocação. Era para ajudá-lo a crer no chamado.
Quarto pretexto: incapacidade
física: “Sou gago, não sei falar”.
Moisés inventa outra dificuldade: “Meu Senhor, eu não tenho
facilidade para falar!” (Ex 4,10; 6,30). Deus desfaz o argumento, pois ele é o
criador da boca dos homens (Ex 4,11-12). Não tem cabimento inventar este
pretexto do defeito no falar junto ao Criador da boca dos homens!
Motivo verdadeiro: “Não quero,
mande um outro!”
Moisés insiste: “Não, meu Senhor, mande a quem quiser!” (Ex 4,13).
Ou seja, mande a quem quiser, mas não a mim. Aqui Moisés falou claro. Deixou de
esconder-se atrás de pretextos e refúgios e, finalmente, disse aquilo que
estava no fundo da sua alma: “Não quero! Mande um outro!” E Deus também falou
claro expressando novamente a sua vontade com relação à missão de Moisés: E
você vai! Pode levar Aarão com você, que tem língua boa para falar! (Ex 4,14-17;
7,1-2).
A resposta final de Moisés: aceitou
a vocação
Moisés aceitou a vontade de Deus, foi para casa e disse ao sogro:
“Vou voltar para o Egito para ver se meus irmãos ainda vivem”. O sogro
respondeu: “Vai em paz!” (Ex 4,18).
O que teria acontecido se Moisés não tivesse ido? Talvez tivesse
sido um bom executivo do faraó, um devoto fiel do Deus Rá, divindade suprema do
sistema piramidal do Egito. Talvez tivesse recebido, depois da sua morte, uma
pequena pirâmide como sepultura, e os arqueólogos do século XXI talvez o
descobrissem, mas nós não estaríamos aqui para participar deste curso do CESEP.
A história teria tomado um outro rumo.
3. O chamado de
Elias
1. Situando o chamado
Século VI antes
de Cristo. O povo está no cativeiro da Babilônia e tenta reler as grandes figuras do passado para encontrar nelas
algumas luz para clarear a escuridão em que se encontravam. Uma luz foi
encontrada na releitura da história do profeta Elias, que viveu no século IX
antes de Cristo no tempo do rei Acab e da rainha Jezabel (cf. 1Rs
“Elias sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a
morte, dizendo: "Chega, Javé! Tira a minha vida, porque não sou melhor que
meus pais". Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e
lhe disse: "Levante-se e coma". Elias abriu os olhos e viu bem perto
da cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu
e deitou-se outra vez”. (1Rs 19,2-6)
Elias só quer
comer, beber e dormir. Como muitos dos exilados na Babilônia, Elias tinha
perdido o sentido da vida. O anjo voltou uma segunda vez e, finalmente, Elias
desperta, reencontra a força e caminha, quarenta dias e quarenta noites, até
chegar no Monte Horeb (1Rs 19,4-8), onde, séculos antes, naquele mesmo lugar,
havia nascido o povo de Deus (Ex 19,1-8). Elias volta às raízes! Era esta a
caminhada que o povo do cativeiro devia fazer: voltar às raízes para poder
redescobrir e reabastecer a vocação! Hoje existem muitos anjos e anjas a bater
na porta do nosso coração para nos acordar e fazer assumir a vocação.
No Monte Horeb,
Deus o interpela:
“Elias, que fazes aqui?” Ele responde: “Eu me consumo de zelo pela causa do Senhor,
pois os filhos de Israel abandonaram a aliança, derrubaram os altares e mataram
os profetas. Fiquei só eu e até a mim eles querem matar!” (1Rs 19,10.14).
Existe uma
contradição entre o discurso e a prática. Conforme o discurso Elias é o único
que sobrou; mas na prática havia sete mil que não tinham dobrado o joelho
diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso Elias está cheio de zelo; mas a
prática mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3). Conforme o discurso ele
sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não sabe analisar o seu
próprio fracasso, pois nem percebe a presença do anjo.
2. O chamado
O olhar de Elias
estava perturbado por algum defeito que o impedia de avaliar a situação com
objetividade e de perceber a vocação de Deus. Não é que ele tivesse perdido a
fé, mas já não sabia como enfrentar a realidade nova com a fé antiga. Havia
algo de comum entre Elias e seus perseguidores: ambos matavam em nome de Deus!
Foi em nome de deus (Javé) que Elias matou os 450 profetas de Baal (1Rs 18,40).
Foi em nome de deus (Baal) que Jezabel matou os profetas de Javé. Havia algo de
errado na imagem de Deus que animava Elias na sua luta contra Baal. Por isso,
seu olhar estava perturbado, incapaz de avaliar a situação com objetividade.
Como descobrir
os enganos que nos impedem de perceber a vocação, o chamado de Deus? Qual a
imagem de Deus que deveria estar hoje em nós? Esta era e continua sendo a pergunta fundamental. A resposta é
dada em seguida na história da Brisa Leve.
Descobrir os enganos, os caminhos
errados
Elias recebe a
ordem: “Saia e fique no alto da montanha,
diante de Javé, pois Javé vai passar!” (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se
prepara para o encontro com Deus. Momento solene! No passado, naquela mesma
Montanha, Deus manifestara sua presença no furacão, no terremoto e no fogo (Ex
19,16). Estes sinais tradicionais da presença de Deus eram os critérios que
orientavam Elias na sua busca. Mas acontece o inesperado: Deus já não está no
furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que, pouco antes, lá no Monte
Carmelo, havia sido o grande sinal da presença divina a queimar o sacrifício
diante de todo o povo (1Rs 18,38). Parece até um refrão que chama a atenção:
“Javé não estava no furacão!” – “Javé não estava no terremoto!” – “Javé não
estava no fogo!” (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais da presença de Deus eram
lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! Elias
vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos outros no cativeiro
o imaginavam e desejavam.
É a desintegração do mundo de Elias: espelho da desintegração da
vida do povo no cativeiro depois que Nabucodonosor mandara destruir os sinais
tradicionais da presença de Deus: o templo, o rei, a posse da terra. Caiu tudo!
A imagem que Elias (o povo do cativeiro) tinha de Deus quebrou em mil pedaços.
É o silêncio de Deus! Na língua hebraica, este silêncio, é expresso com as
seguintes palavras: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções
costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” Mas a palavra hebraica, usada
para indicar a calmaria, vem da raiz DMH,
que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa
suave”, que veio depois do furacão, terremoto e fogo, indica uma
experiência, que, como um golpe suave e inesperado, faz a pessoa ficar calada,
cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. É puxão de orelha, tapa na
cara! Mesmo dado com suavidade, não deixa de ser tapa! Tapa que desperta,
quebra a ilusão irreal e faz a pessoa colocar o pé no chão. Na realidade, a brisa suave, o tapa na cara, era o
próprio exílio que tinha destruído tudo e obrigava o povo a uma conversão
radical.
A resposta final de Elias
Elias cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha descoberto
a presença do apelo de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou!
Aprendeu a lição! A situação de derrota, de morte e de secularização em que se
encontrava o povo no cativeiro é percebida por ele como sendo o momento e o
lugar onde Deus o atinge. A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou
mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de
todas as representações e imagens! Escuridão luminosa! Não é a luz no fim do
túnel, mas sim a luz que já existia na escuridão do próprio túnel e que Elias
não enxergava. É uma luz diferente.
A experiência de
Deus na Brisa Leve dá olhos novos e
produz uma mudança radical. Elias descobre que não é ele, Elias, que defende a
Deus, mas é Deus quem defende a Elias. É
a sua conversão e libertação! Reencontrando-se
com Deus, encontrou-se consigo mesmo e com a sua missão. Descobriu sua vocação lá, onde pensava que Deus não
tivesse nada a dizer-lhe! Imediatamente, ele parte para cumprir as ordens de
Deus. Uma delas é ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Renasce a
profecia! A luta pela justiça renasce da experiência da gratuidade.
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção
na vocação de Sara e Abraão, de Moisés e de Elias? Por que?
2. O que mais atrapalha a você na
realização da sua vocação:
* a falta de fé ou de confiança? (Abraão e
Sara)
* o medo? (Moisés)
* idéia errada da vocação e de Deus? (Elias)
3 Qual o tapa na cara de que hoje
estamos precisando ou que já estamos recebendo e ainda não percebemos?
4. Quais as idéias erradas sobre
Deus que hoje nos desviam do caminho e nos impedem de descobrir nossa vocação?
III
IMAGEM DE DEUS E DESCOBERTA DA
VOCAÇÃO
Na parábola do
bom samaritano, a mesma situação do homem assaltado e meio morto à beira da
estrada fez um apelo a três pessoas diferentes: sacerdote, levita e samaritano.
A resposta não foi a mesma. Imagine um membro do MST e um arauto de Cristo,
confrontados com o mesmo fato: uma invasão de terra que resultou em duas mortes
e quatro feridos. Responderão do mesmo jeito? Não responderão. Por que? Dependendo da posição social e da imagem que as pessoas se fazem de
Deus, elas reagem diferentemente diante dos apelos ou da vocação que vêm dos
fatos da vida.
Vamos ver como
as pessoas e os grupos reagiram diante da vocação que lhes vinha da situação de
fracasso do cativeiro. É para que nós, quando confrontados com os fracassos e
problemas, tanto da nossa história pessoal, como da história da Brasil, da
Igreja, da família, da comunidade, possa discernir a vocação certa e dar a
resposta acertada.
1. O fracasso do cativeiro
fazendo apelo à consciência do povo
O cativeiro destruiu o quadro das referências que tinham orientado
o povo até àquele momento. Os três grandes sinais ou “sacramentos” que tinham
sido a garantia visível da presença de Deus no meio deles, foram destruídos! O Templo,
morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16),
já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido
garantida para sempre (Gen 13,15),
passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).
Perdido e sem rumo, provocado pelo fracassos, o povo procurava uma
saída que lhe desse segurança e esperança. O que mais pesava era o sentimento do abandono, misturado com um complexo de culpa (Is
40,27; 49,14; Lm 1,8.14). Eles pensavam que, por causa da sua infidelidade,
Deus tivesse mudado de atitude e os tivesse rejeitado para sempre (Sl 77,8-11;
79,5). Ele já não estaria escutando o grito do povo (Lam 3,8; Sl 22,2-3). Beco
sem saída! Eis o lamento do porta-voz do povo:
"Eu sou o homem que conheceu a dor
de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas
trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo.
Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou
um cerco de veneno e amargura, e me fez morar nas trevas como os defuntos,
enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me
prendeu. Clamar ou gritar não adianta, ele está surdo à minha súplica. ....
Fugiu a paz do meu espírito, já não sei mais o que é ser feliz. Eu digo:
"Acabaram-se minhas forças e minha esperança que vinham de Javé" (Lam
3,1-8.17-18).
A imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a
de um carrasco que só quer vingar e machucar. Trágica experiência! Fonte de
desespero! Uma experiência de Deus assim não pode ser fonte de vocação para
ninguém. Fecha qualquer saída e joga todos no desespero. Como sair desta
situação? Como e onde reencontrar Deus? Eram estas as perguntas que agitavam as
consciências e as conversas de muita gente. Era este o apelo, a vocação, que os
provocava. Qual a resposta acertada?
2. As várias respostas ao apelo
de Deus
Apareceram várias respostas.
Inicialmente, não eram respostas distintas, separadas umas das outras, mas sim
tendências diferentes, misturadas entre si, sem muita clareza, num ambiente de
busca e desencontro. Exatamente como hoje!
A maioria dos exilados se acomodou e começou a freqüentar a religião do império da Babilônia. Adotaram os
ídolos e o jeito de viver dos grandes. Era a maioria
silenciosa! Hoje também, a maioria silenciosa busca o caminho mais cômodo do
consumismo, a nova religião do império neoliberal com seus templos grandiosos.
2. Zorobabel e Josué queriam
reeditar o passado, mas não conseguiram
Para eles, o
fato de estar fora da própria terra era o mesmo que estar longe de Deus! A
época dos Reis era o modelo a ser imitado. Queriam reconstruir o passado: o
templo, a monarquia e a independência política (Esd 1,2-4; 2,1-2). Deste grupo
eram Zorobabel, Josué, o profeta Ageu e outros. Eles voltaram para Palestina em
3. Neemias e Esdras:
adaptaram o modelo antigo à nova situação
É o grupo das
pessoas que conseguiram bons empregos e posições vantajosas na nova pátria,
como transparece nas entrelinhas de vários livros (Ne 2,1-9; Esd 7,11-26; Tb
1,12; Es 2,16; 6,10-11; Dn 3,97). Eles achavam que deviam aceitar o domínio do
rei estrangeiro e colaborar com ele (Jer 27,6-8.12.17; 42,10-11). Ao mesmo
tempo, queriam continuar a ser o povo eleito de Deus. Por isso, insistiam na
observância da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça
que proibia o contato com os outros povos (Esd 9,1-2). Eles atuavam a partir de
uma posição de privilégio e de um certo poder frente às outras instituições da
convivência humana. O projeto deles tornou-se hegemônico a partir de
4. Discípulos e discípulas de
Isaías: movimento de base que encontrou uma saída
Um outro grupo achava que a solução não era voltar ao
passado nem acomodar-se no presente, nem adaptar-se às exigências do império,
mas sim aprender a ler com outros olhos a nova situação em que se encontravam.
Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos quer ensinar e o que ele pede de
nós, através desta situação tão trágica do cativeiro? Qual agora a nossa
vocação” Eles procuravam voltar às origens do povo e reliam as
histórias do passado para encontrar nelas uma luz que
os ajudasse a redescobrir o chamado de Deus naquela terrível ausência. Foi no meio deste grupo dos discípulos de Isaías que
brotou uma nova experiência de Deus, registrada sobretudo nos capítulos
São quatro maneiras diferentes de responder ao mesmo desafio do
momento histórico. Vamos olhar de perto a resposta que foi dada pelos
discípulos e discípulas de Isaías, pois é ela que inspirou e animou a Jesus.
A nova imagem de Deus
Como tantos exilados e migrantes de hoje, o único espaço de uma
certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles lá no cativeiro da
Babilônia era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, um irmão ou
irmã, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte
da vida já não existia: a organização mais ampla da tribo, a posse da terra, o
templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia.
Nada disse tinha sobrado. Ora, foi exatamente nesse espaço reduzido e
enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que eles reencontraram a
presença de Deus.
As imagens que eles usavam para expressar e transmitir a nova
experiência da presença de Deus na vida refletem bem este ambiente familiar da
casa. Deus é apresentada por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe
(Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como
parente próximo (goêl ou irmão
mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao
Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à Monarquia, agora está
perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem
futuro, mas Casa, e não Templo.
Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da
vida familiar e comunitária de cada dia. Eles humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram
a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do reencontro com Deus.
“Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is
45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário
familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído (Is 57,15)!
Dá para entender que a elite dos chefes e dos sacerdotes não gostava
muito desta maneira de interpretar e comunicar a presença de Deus. No entanto,
aqui está a fonte que suscitou tantas e tantas vocações ao longo daqueles quatro
séculos até à chegada do Novo Testamento, e que orientou a Jesus na sua missão
junto ao povo!
A resposta à vocação: um novo
jeito de trabalhar com o povo
Esta nova experiência de Deus fez com que os discípulos e
discípulas de Isaías redescobrissem sua vocação e missão, não mais como um povo
eleito, privilegiado, separado dos outros, mas sim como povo eleito por Deus para
servir a humanidade (Is 42,1-6;
49,1-6; 50,4-9). E lá mesmo no cativeiro, eles começaram a colocar em prática
esta sua vocação ou missão de serviço.
A resposta à vocação se traduz numa nova maneira de trabalhar com o povo, numa
nova pastoral. Eis três características desta nova pastoral:
Acolher
o povo com muita ternura
Para um povo que vive machucado e triste, na solidão do cativeiro,
não bastam a imposição de preceitos e as ameaças da lei, não basta nem mesmo a
denúncia profética, para que ele levante a cabeça e comece a enxergar a
situação com esperança renovada. É necessário, antes de tudo, cuidar das
feridas do coração, acolhendo-o com muita ternura e bondade, para que não morra
nele a esperança. Os discípulos e as discípulas de Isaías têm uma conversa
atenciosa, cheia de ternura e consolo, de acolhimento e encorajamento. As primeiras
palavras: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is 40,1) ressoam pelas páginas do
livro inteiro, do começo ao fim (Is 49,13; 51,12). “Eles não gritam nem apagam
a vela que ainda solta um pouco de fumaça” (Is 42,2-3). Ou seja, machucados,
não machucam. Oprimidos pela situação em que se encontram, não oprimem, mas
tratam e acolhem o povo com muito respeito e carinho. Usam uma linguagem
simples, concreta e direta, numa atitude de ternura nunca vista antes, que
funcionava como bálsamo, e dispunha as pessoas para olhar a realidade com mais
objetividade. Eis alguns exemplos: Is 54,7-8; 41,9-10; 41,13-14; 40,1-2; 43,1-5; 46,3-4; 49,14-16; etc. Era a maneira de os jovens
discípulos e discípulas de Isaías assumirem sua vocação.
Ensinar
dialogando em pé de igualdade
Nas entrelinhas dos capítulos
Fazer
reunião semanal para rezar, meditar e se ajudar
É no período do cativeiro ou logo depois que se começa a insistir novamente
na observância do sábado (Is 56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf. Gn 2,2-3). Era para
que o povo exilado tivesse ao menos um dia por semana para se encontrar,
partilhar sua fé, louvar a Deus e, assim, refazer as forças e animar-se
mutuamente. É nestas reuniões semanais que eles refrescam a memória (Is 43,26;
46,9), contam as histórias de Noé (Is 54,9-10), de Abraão e Sara (Is 51,1-2),
da Criação (Is 45,18-19; 51,12-13), lembram o Êxodo (Is 43,16-17), apontam os
fatos da política e perguntam: “Quem é que faz tudo isto?" (Is 41,2).
Fazem reunião de noite, fora de casa, e perguntam: “Levantem os olhos para o
céu e observem: Quem criou tudo isso?” (Is 40,26). A resposta é sempre a mesma:
"É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!".
Assim, aos poucos, a natureza
deixa de ser o santuário dos falsos deuses; a história já não é mais decidida pelos opressores do povo; o mundo
da política já não é mais o domínio
de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de
Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se
aliados dos pobres na sua caminhada como Servo
de Deus e “Luz das Nações” (Is 42,6;
49,6). Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na
história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo:
"Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão vendo?"
(Is 43,19).
Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé
renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus
reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa Notícia, desperta (Is 51,9.17;
52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar (Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10;
63,7) e a resistir (Is 48,20).
Hoje vivemos uma situação semelhante. Grande parte da humanidade
vive num terrível cativeiro, desacreditou da fé que recebeu dos pais e adotou a
religião do império que é o consumismo. Surgem muitos grupos para reagir em
contrário e reafirmar a fé. Mas nem todos pensam e agem na mesma direção. Quais
as direções em que as pessoas e os grupos procuram responder ao apelo que lhes
vem desta situação? Com qual das tendências você se identifica mais e em qual
delas você procura viver e assumir sua vocação?
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção
nesta reflexão sobre a imagem de Deus e a descoberta da vocação? Por que?
2. Qual das quatro respostas
predomina hoje na Igreja? Por que?
3. Com qual das quatro respostas
você mais se identifica?
* com a
maioria silenciosa que se acomoda e adota os costumes do império?
* com os que
querem voltar ao passado? (Zorobabel e Josué)
* com os que
procuram unir os favores e privilégios do império com as exigências da missão
do povo de Deus? (Esdras e Neemias)
* com os que querem
descobrir os apelos de Deus na realidade de hoje à luz do que Deus fez no
passado? (Discípulos e discípulas de Isaías)
IV
JUVENTUDE E VOCAÇÃO
1. Oséias e Gomer: dois jovens descobrem e
assumem sua vocação
1. O contexto do chamado
Século VIII antes de Cristo, Reino de Judá. Naquele tempo, os reis
se apresentavam como filhos de Deus, intermediários entre Deus e o povo. Para o
povo poder estar bem com Deus devia estar bem com o rei. Os reis exibiam luxo e
riqueza como sinal do poder e da grandeza do seu deus (1Rs 5,1-3.6; 9,26-28;
10,1-29). Para obter e manter essa grandeza e poder, eles precisavam de muitos
escravos e de muito dinheiro (cf. 1 Sm 8,10-18). E é aqui que entra a
manipulação da religião da fertilidade, cuja divindade principal era Baal, nome
que significava patrão, dono.
Na opinião do povo, Baal manifestava o seu poder de fertilidade na produção dos alimentos e na reprodução da vida. Era Baal, assim eles
pensavam, que fertilizava a terra por meio das chuvas e em nome de Baal se promovia
o culto da prostituição sagrada nos pequenos santuários dos “lugares altos”.
Era lá que o povo buscava uma intimidade maior com o deus da fertilidade
através do contato com prostitutas e prostitutos sagrados. Esta prática
religiosa era muito divulgada na Palestina. Existia muito antes da chegada dos
israelitas. As ofertas e donativos do povo ao deus Baal eram para o rei. Os
filhos e filhas que assim nasciam das prostitutas sagradas aumentavam o número
de escravos e escravas do rei. Esta religião infiltrou-se na vivência diária do
povo de Deus, foi assumida pelos reis de Israel e acabou sendo norma comum para
todos
Neste contexto, viviam os jovens Oséias e sua namorada Gomer. Como
todo mundo, os dois cresceram dentro daquele sistema enganador da monarquia de
Israel. Foram educados para ver na pessoa do rei o filho preferido de Deus,
porta-voz da vontade divina. Como a maioria das moças da época, Gomer, chegando
à idade de casar, foi levada para os “lugares altos” da prostituição sagrada,
onde foi prostituída, para que gerasse filhos e filhas para o rei. Tornou-se
mãe solteira (cf Os 1,2). Em troca recebia comida e roupa para sustentar a
família. Da mesma maneira, como a maioria dos rapazes, Oséias freqüentava os
“lugares altos”. Chegando à idade de casar, procurou uma moça que pudesse ser
sua esposa, e a encontrou entre as moças prostituídas.
Foi nesta situação ambígua que os dois se conheceram, se gostaram,
casaram e começaram a conviver como marido e mulher. Ao mesmo tempo, Gomer
continuava prestando o seu serviço no
“lugar alto” da prostituição sagrada, e Oséias continuava freqüentando o culto
de fertilidade. Gomer não era uma prostituta nem uma mulher adúltera ou infiel
no sentido que nós damos hoje a estas palavras. Ela era, isto sim, uma moça
prostituída, uma das muitas vítimas daquele sistema opressor dos reis que
pervertia o sentido da vida, do casamento, da família e da religião.
Esta era a prática comum, aceita por todos como sendo o caminho
normal, pois não havia outro jeito nem outro horizonte. Era como a situação de
muitas moças de hoje que vivem na prostituição. Elas o fazem não porque gostam
ou querem, mas por ser este o único meio que lhes sobrou para ajudar em casa e
não morrer de fome. Tanto ontem como hoje, cria-se todo um jeito de pensar e de
viver que impede as pessoas de tomarem consciência crítica, e elas acabam
achando normal aquilo que, na realidade, é anormal, contrário à vida.
Esta situação geral em que se encontrava o povo já vinha de longe e
parecia sem saída (Os 5,4). Mas com Oséias e Gomer aconteceu algo novo que
mudou o rumo da história e fez nascer uma nova esperança. Foi a experiência do
amor sincero entre os dois que os ajudou a perceber a contradição a que eram
obrigados a submeter-se.
O drama do casal
Era em nome de Deus que a sociedade os obrigava a praticar a
prostituição. Mas, aos poucos, os dois foram se dando conta de que, para eles,
já não era possível combinar o serviço ao rei com este amor sincero que os unia
e que lhes parecia igualmente um grande dom de Deus. De fato, o amor verdadeiro
não consegue conviver com falsidade, mesmo quando esta é manipulada e
apresentada como expressão da vontade de Deus. Pois como saber se o filho que
nasce era deles mesmos, fruto do seu amor, ou de algum outro visitante do
“lugar alto” a quem Gomer devia entregar-se em nome da sua obediência ao Rei e
da sua dependência do sistema. Esta era a contradição que os amargurava.
O casal vive este drama. Por ora, os dois não vêem saída, nem vêem
claras as coisas. A cabeça, instruída pelo catecismo do rei, dizia uma coisa; o
coração, desejoso de viver o amor, dizia outra. Muitos outros casais devem ter experimentado a
mesma contradição, sem verem uma saída concreta. Sentiam-se ameaçados no mais
profundo da sua vida. Viviam um drama que ameaçava na raiz, tanto o amor que os
unia entre si, como o amor que tinham a Deus e ao povo. Como dirá mais tarde o
livro de Oséias, tudo parecia contaminado por um “espírito de prostituição” (Os
4,12; 5,4).
Os dois descobrem a mão de Deus
no amor que os une
Na mesma medida em que a vivência do amor fazia crescer neles a
consciência crítica frente ao sistema do rei e frente à prática da prostituição
sagrada, nesta mesma medida Gomer e Oséias foram descobrindo que este amor era
uma expressão da presença bondosa e providente de Javé em suas vidas. Refletindo
sobre o amor que os unia, os dois descobriram: “Era Javé que nos chamava para o
casamento!” Ou como diz o livro de Oseias: “Javé me disse: vai e toma para ti
uma mulher da prostituição e filhos da prostituição!” (Os 1,2).
Os dois começam a desconfiar do sistema da religião oficial. O que
Deus pedia não eram esses sacrifícios e donativos que se ofereciam nos “lugares
altos”, mas sim o amor e o respeito às pessoas: “Quero amor e não sacrifícios;
conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). Assim começa a nascer
lentamente a vocação, sem muita clareza, no meio das contradições da vida. Mas
até chegar a total clareza da vocação, muita água teve que passar baixo da
ponte. A vocação profética nasce devagar.
O amor os leva a desconfiar do
sistema machista da religião de Baal
Cada vez que Gomer voltava do “lugar alto”, trazendo pão, água,
roupa e comida para sustentar a família, e que se encontrava com Oséias, os
dois devem ter-se olhado e devem ter sentido que, por mais que o rei dissesse
que isto era a expressão da vontade de Deus, eles sentiam que Deus não podia
estar de acordo com essa prática. A monarquia apresentava Deus como um Baal, como um patrão, igual ao rei, que
se impunha ao povo como dono e proprietário das pessoas, dominando as
consciências. Em muitas famílias, o próprio marido começava a comportar-se como
um baal, como um patrão, dono e
proprietário da mulher. Mandava nela e a mandava ir ao “lugar alto” buscar as
coisas para viver e sobreviver com os filhos.
Gomer olhando para Oséias e experimentando o seu amor, se dava
conta de que ele não era um baal, um
patrão, mas sim um marido, um companheiro. Sentia e experimentava o seu amor e,
por isso mesmo, sentia-se valorizada e não dominada nem condenada. Oséias
olhando para Gomer e convivendo com ela no dia-a-dia da vida, sentia e
experimentava que ela não era nem nunca poderia ser sua propriedade, mas era,
isto sim, a sua esposa amada, companheira amiga, igual a ele. Sentia que, mesmo
tendo que ir ao “lugar alto”, Gomer não era uma prostituta. Por isso, ele não
podia nem queria abandoná-la, mas continuava a amá-la, pois só mesmo o amor
seria capaz de devolver a ela e a ele mesmo a consciência da sua dignidade como
gente e como filho e filha de Deus.
A experiência da força do amor
humano leva à descoberta do amor de Deus
A experiência do amor levou os dois a descobrir não só os enganos
da propaganda da monarquia, mas também algo muito simples e, ao mesmo tempo,
muito profundo dentro de si mesmos, a saber, a força do amor! O amor os fez
renascer. Promovia neles a consciência de gente e de filho e filha de Deus. Em
vez de abandonados e prostituídos, sentem-se amados e promovidos. Descobrem que
a força do amor pode regenerar uma pessoa a ponto de ela sentir-se como que
renascida, apagando nela por completo a consciência anterior de gente dominada,
manipulada e prostituída.
E aí nasceu o clarão maior: assim como o amor os ajudava a
aceitar-se mutuamente e a renovar o casamento de uma maneira nova, diferente do
sistema dos reis, assim era o amor de Deus para como seu povo (Os 3,1). Javé
não é um baal, um patrão que oprime e
escraviza. Ele ama o seu povo com amor gratuito que ultrapassa tudo. Esta
descoberta do amor de Deus é a raiz da vocação profética do casal, ou melhor, é
a sua manifestação. A raiz foi a experiência humana do amor entre os dois que
levou à descoberta do amor de Deus. O clarão maior do amor de Deus iluminou
tudo e os ajudou a reler a história da sua própria vida e da vida do povo. As
palavras tão bonitas com que Gomer e Oséias renovaram o seu casamento, são as
mesmas que Deus dirige ao seu povo:
“Agora, sou eu que vou seduzi-la, vou levá-la ao
deserto e conquistar seu coração. Eu me casarei com você para sempre, me
casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu me casarei
com você na fidelidade e você conhecerá Javé” (Os 2,16.21-22)
Nasce a vocação profética: com
Deus na contramão
Oséias e Gomer criam coragem e rompem com o sistema dos reis. De
comum acordo, decidem não freqüentar mais o “lugar alto” de prostituição: ”Por um bom tempo você ficará em sua casa
para mim, sem se prostituir, sem relação com homem nenhum, e eu farei a mesma
coisa por você” (Os 3,3). Eles tomam distância do sistema dos reis para
poder refazer a Casa. Mudam o regime familiar para não se prostituir. Pois a
Casa, a família, é mais importante que o templo e o “lugar alto”. Começam a
viver na contramão da sociedade. Iniciam a ação profética de denúncia contra o sistema enganador
dos reis e contra o “espírito de prostituição” que pervertia o sentido da vida
do povo.
O povo tinha se afastado de Deus (Os 1,2; 4,12) e o “espírito de
prostituição” impedia-o de conhecer a
Javé (Os 5,4). O vinho e o licor lhe tiravam a razão (Os 4,11) e ele já não
percebia que Javé o dirigia nos caminhos tortuosos da sua vida (Os 2,10; 11,3).
Com a boca diziam a Deus: “Nós te conhecemos” (Os 8,2), mas a desintegração de
sua vida mostrava que eles rejeitavam o conhecimento
(Os 4,6).
Um novo horizonte se abre Gomer e Oséias. O conhecimento de Deus,
fruto do aprofundamento do amor humano no amor de Deus, ajudou-os a encontrar
saídas para refazer a solidariedade rompida entre as famílias e reconstruir a
sociedade de maneira nova, diferente da maneira desastrosa da monarquia que
vinha desintegrando o povo. “Nesse dia, - oráculo de Javé - eu responderei ao
céu e o céu responderá à terra, a terra responderá ao trigo, ao vinho e ao
azeite, e eles responderão a Jezrael. Eu a semearei na terra, terei compaixão
da Não-Compadecida e direi ao Não-Meu-Povo: Você é meu povo! E ele responderá: Meu
Deus!” (Os 2,23-24).
No momento em que ficou claro para eles o que
Deus queria, nasceu neles a coragem para denunciar o sistema e convocar o povo
a mudar de vida e de pensamento. O povo deve
esforçar-se para conhecer a Javé,
então Ele virá tão certo como a luz da aurora (Os 6,3). É hora de voltar para
Javé (Os 10,12). Não deve ter sido
fácil, pois a denúncia ia contra os interesses da monarquia. Oséias e Gomer são
perseguidos (Os 9,8), mas a força que lhes vem da nova experiência de Deus é
maior que a ameaça que vem de fora.
2. Jó: porta-voz das aspirações da juventude;
1. O contexto do chamado
Século V antes
de Cristo. Naquele tempo, o ensino oficial dizia e repetia: “Sofrimento e
pobreza são castigo de Deus. Riqueza e bem-estar, sinais de recompensa divina!”
Esta era a imagem da justiça divina que era colocada na cabeça das
pessoas, desde pequeno. Esta falsa maneira de representar o relacionamento entre Deus e o
ser humano beneficiava os ricos e dava aos pobres e sofredores um complexo de
culpa e de inferioridade. Era esta a imagem de Deus que Jó
tinha na cabeça, mas não no coração! No coração ele tinha a intuição de que
Deus não age assim.
Um teatro
O livro de Jó é
uma espécie de teatro, no qual se verbaliza a tensão que, naquela época, estava
nascendo entre o ensino oficial da elite e a incipiente consciência rebelde dos
sofredores. A sala está cheia de gente. O pano ainda está fechado. Um narrador
entra e coloca o público a par do assunto que vai ser debatido no teatro. Ele
diz: “Era uma vez, lá longe na terra de Hus, um homem chamado Jó...”(Jó 1,1).
Ele conta que Jó era justo e correto, mas por uma intriga de Satan (promotor de
acusação) Deus permitiu que Jó caísse na miséria e tivesse todos os sofrimentos
possíveis e imagináveis (cf Jó
Jó, os três
amigos e o jovem vão debater o porquê de tanto sofrimento no mundo. O público
já sabe que, no caso de Jó, a causa não é o pecado. Os que estão no palco ainda
não sabem, mas vão tentar descobri-lo. Assim, o público tem em mãos um critério
para verificar exatidão das respostas que vão ser dadas no teatro.
Quem rompe o
silêncio é Jó. Um grito horrível: “Maldito o dia em que eu nasci!” (Jó 3,1-3) O
povo na sala deve ter levado um susto e, ao mesmo tempo, deve ter sentido um
grande alívio. Jó verbaliza o que os sofredores já estavam sentindo, mas ainda
não tiveram a coragem de expressar.
O debate
Começa o debate
com seus altos e baixos. Jó representa a geração nova, cuja consciência estava
começando a se rebelar. Os três amigos representam a visão tradicional, que
eles defendem com unhas e dentes. Vão se alternando as intervenções e as
réplicas. Dentro de Jó existe um conflito entre a
cabeça e o coração, entre a tradição e a consciência. A cabeça de Jó,
formada pelo catecismo oficial, dizia: “Você sofre e é pobre, porque cometeu pecado!
Deus está te castigando!” Mas o coração lhe dizia: “Deus é injusto comigo, pois
não pequei!”. A consciência, mandava rebelar-se contra
as injustiças que se cometiam em nome desta falsa imagem de Deus. A cabeça, a
tradição, mandavam ficar calado e obedecer, ficar bem quieto e não se rebelar,
pois seria desobediência a Deus. O mesmo conflito agitava as pessoas na sala
que assistiam ao teatro. Agita a todos nós, até hoje!
Jó não concorda com a imagem de Deus que a tradição comunicava ao
povo. Em vez de libertar as pessoas, esta imagem contribuía para manter a
situação de opressão em que o povo se encontrava. Ela fazia com que os pobres
ficassem com o sentimento de que Deus já não ouvia o seu clamor e de que tinham
sido excluídos da sua presença amiga (Jó 24,12). E este é o pior roubo que se
pode fazer! Além de roubar deles os bens, roubavam também a presença amiga de
Deus! Os pobres ficavam sem nada, sem ninguém neste mundo! (Jó 24,1-12)
No debate, Jó é fiel ao coração e não à cabeça! É fiel à sua
vocação! Ele segue a consciência e não a falsa tradição! Acusa e critica
os três amigos, que identificam a presença de Deus com o nível econômico das
pessoas: “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!”
(Jó 7,27). Mas nem tudo que Jó diz está certo, pois ele
não consegue ver claro. No desespero as pessoas, às vezes, dizem coisas
disparates. Desejam até a morte. Veja, por exemplo, o texto de Jó 3,3-26. Leia
devagar e pense no sofrimento que está por de trás destas palavras. Você se
reconhece neste Jó? Ele existe hoje? Onde e como?
Os três amigos defendem a imagem da justiça de Deus que a Tradição
ensinava desde séculos. E a defendem contra os gritos desesperados de Jó.
Defendem uma imagem de Deus que eles mesmos receberam dos antepassados: Deus, sendo
justo, castiga o mal e recompensa o bem. Por isso, nem tudo que os amigos dizem
está errado. Tem muita coisa bonita nas palavras deles, mas nem toda roupa
bonita na vitrina da loja serve para o tamanho do meu corpo. Palavra bonita não
serve como curativo para ferida aberta. Os três amigos falam bonito a partir da
teoria que eles têm na cabeça. Eles não escutam o que Jó tem a dizer. Será que
estes amigos ainda existem? Como se manifestam? Às vezes, parece que Jó e os
três amigos existem também dentro da gente. O debate do livro de Jó se faz na
sociedade, na comunidade e até dentro da gente!
Ao longo do debate com os três amigos, Jó descobre que o problema
de fundo não são os três amigos. Estes são meros charlatães, “manipuladores de
mentiras” (Jó 13,4). Eles querem “defender a Deus usando mentiras e injustiças”
(Jó 13,7). O problema de fundo é a imagem de Deus que a tradição comunica ao
povo. Jó quer saber se esta imagem é verdadeira, ou falsa. Se é mesmo o rosto
de Deus, ou se é apenas uma máscara que os ricos e os doutores colocaram no
rosto de Deus para poder manipular a religião em seu próprio proveito. Jó quer
encontrar-se com Deus para saber por experiência direta como Ele é. Quer saber
se Deus é conforme aquilo que a “cabeça” e a “tradição” ensinam, ou se é
conforme o que o “coração” e a “consciência” sentem e adivinham. Jó quer
“discutir com o próprio Deus” (Jó 13,3). Quer que um tribunal de justiça decida
entre ele e Deus para saber se ele é ou não é culpado como os três amigos andam
dizendo (Jó 23,1-9; 13,13-24). Jó tem
muita coragem!
Jó arrisca tudo (Jó 13,14) e vai gritar que é justo e inocente (Jó
6,29). Esta atitude não é orgulho nem falta de humildade. Mas é o sentimento de
um homem sincero que quer denunciar a falsidade e a mentira do sistema que usa
Deus e a religião para manter uma situação de injustiça.
Depois da longa discussão com os três amigos, entra em cena um
jovem, chamado Eliu (Jó 32,1-2). Ele assistiu ao debate e diz que os três
amigos não foram capazes de refutar os argumentos de Jó (Jó 32,12). Sendo
jovem, deixou os anciãos falar (Jó 32,7-9). Agora, ele vai refutar a Jó, mas a
sua longa e monótona argumentação (Jó
Desesperadamente, Jó refuta os argumentos dos amigos, um depois do
outro. Mas não basta refutar os argumentos, não basta rasgar a fotografia
antiga que já não presta nem corresponde à realidade. É preciso tirar uma nova
fotografia para poder orientar o povo. E para tirar uma nova fotografia, é
necessário ter a presença da pessoa. Pouco a pouco, ao longo do penoso debate, uma
nova imagem de Deus vai chegando mais perto, anunciando a sua presença amiga na
vida de Jó. Através dos nove discursos com seus altos e baixos, a gente percebe
que Jó progride na descoberta.
O que o ajudou foi a reflexão sobre a Sabedoria Divina que se manifesta na natureza e na vida (Jó
28,1-28; 38,1 até 41,26). Refletindo sobre os grandes mistérios da vida e da
natureza, Jó experimenta Deus de perto e descobre que Deus é maior do que a
doutrina dos três amigos, maior que o falso deus dos ricos, maior também que as
idéias do próprio Jó a respeito de Deus. Existe algo de trágico em toda esta
discussão de Jó com os três amigos. É a vocação que lhe vem do “coração” e da
“consciência” que o empurram a rebelar-se e a gritar. Mas é a “cabeça” e a
“tradição” que lhe inspiram as palavras. Ele não tem outras. Por isso, ele
grita contra Deus o tempo todo. Na realidade, se ele grita contra Deus, não é
contra o Deus que sobe de dentro do seu coração, mas é contra o Deus que os
três amigos defendem. Jó briga é com esta falsa imagem de Deus e é isto que ele
expressa no fim do debate. A frase final é a chave de ouro que explica tudo.
Jó se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas
agora meus olhas te viram. Por
isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42,4-6).
Jó teve uma nova
experiência de Deus e descobriu que a sua rebelião e luta não eram contra Deus,
mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava a consciência das pessoas,
destruía a convivência e estava atrapalhando a ele em
tudo (Jó 10,1-7; 16,7-14). Jó renasceu! Ao descobrir
que o verdadeiro Deus não era nada daquilo que os amigos ensinavam, Jó cai em
si e diz: “Por isso eu me retrato e me
arrependo, sobre pó e cinza” (Jó 42,6).
Neste momento, o pano fecha, o teatro termina e entra novamente o
narrador para dar, em nome de Deus, a sentença final. Ele diz a Elifaz: "Estou irritado contra você e seus dois
companheiros, porque vocês não falaram corretamente de mim como falou o meu
servo Jó” (Jó 42,7). Esta sentença final traz uma surpresa trágica e
esperançosa: os três amigos que defenderam a Deus o tempo todo, falaram mal de
Deus; Jó que atacou a Deus o tempo todo, falou bem de Deus! Assim, nem sempre
os que se apresentam como defensores da verdadeira doutrina falam corretamente
do Deus verdadeiro. Nem sempre os que são desaprovados por criticarem a maneira
tradicional de apresentar a imagem de Deus e de Jesus, são desaprovados por
Deus.
No fim, o livro de Jó deixa uma pergunta em todos nós: “O que será que
Jó descobriu a respeito de Deus? Qual foi a nova experiência?” O texto não
responde, mas sugere: “Se você quiser saber o que Jó descobriu, percorra o
mesmo caminho que ele percorreu!” Esta é a maneira típica dos sábios de
orientar as pessoas no discernimento da sua vocação. Não fazem saber, mas fazem
descobrir. Não dão tudo trocado em miúdo, mas apontam um caminho. Qual a imagem de
Deus que a igreja comunicou ao povo ao longo dos séculos e que agora está sendo
questionada pelo Jó de hoje?
____________________________________________________________
Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção
na vocação dos jovens Oséias e Gomer? Por que?
2. Conhece algum casal profético
hoje? Onde e como?
3. O que mais chamou a sua
atenção na atitude de Jó? Por que?
4. Jó existe hoje? Aonde e como?
Dentro de você existe um Jó?
V
CHAMADO POR DEUS, JESUS É FIEL À SUA VOCAÇÃO
1. Jesus deixou a vocação de Deus
entrar dentro de si e tomar conta de tudo
A experiência de Deus como Pai
é a raiz da consciência que Jesus tinha de si mesmo, da sua missão e do anúncio
que fazia do Reino. Jesus chegou a identificar-se em tudo com a vontade de Deus: “Eu
faço sempre o que o Pai me manda fazer” (Jo 12,50). “O meu alimento é fazer a
vontade do Pai” (Jo 4,34). Por isso, Jesus é a revelação do Pai: “Quem vê a mim
vê o Pai!” (Jo 14,9).
Jesus
foi fiel ao Pai e aos pobres da sua terra. Ele nasceu pobre e escolheu ficar do
lado dos pobres. Nascer pobre é algo que a pessoa não escolhe. Escolher ficar
do lado dos pobres é opção pessoal, resposta à vocação. Com a capacidade e a
inteligência que tinha, Jesus não teria tido dificuldade para sair da pobreza.
Mas nunca tentou uma saída individual, só para si. Continuou solidário com os
pobres. Conheceu a pobreza pelo lado de dentro. Esvaziou-se e foi esvaziado
(Fil 2,7). Experimentou a fraqueza na hora da agonia, e o abandono na hora da
morte (Mc 15,34). O abandono ao qual eram condenados os pobres! Morreu soltando
o grito dos pobres (Mc 15,37), certo de ser ouvido pelo Pai que escuta o clamor
do pobre (Ex 2,24; 3,7). Por isso, Deus o exaltou (Fl 2,9)!
A
encarnação de Jesus foi um longo processo de aprendizado e de formação. Começou
com o Sim de Maria (Lc 1,38) e
terminou com o último Sim de Jesus na hora da morte. Fazer
a vontade do Pai e cumprir a missão era o eixo da vida de Jesus, o seu alimento
diário (Jo 4,34). "Ao entrar no mundo ele afirmou: “Eis me aqui! Eu vim, ó
Deus, para fazer a tua vontade!" (Hb 10,5.7). Ao deixar o mundo, ele faz
revisão e diz: "Tudo está realizado!" (Jo 19,30). Jesus se deixou
moldar pelo Pai a cada momento da sua vida. Não foi fácil. Jesus lutou para ser
fiel ao Pai, à vocação. "Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a obediência
através de seus sofrimentos" (Hb 5,8). Teve que rezar muito para poder
vencer (Hb 5,7; Lc 22,41-46). Mas venceu!
A
comunhão entre Jesus e o Pai não era automática, mas sim fruto de uma luta que
Jesus travava dentro de si para obedecer ao Pai em tudo e estar sempre unido a
Ele. Jesus dizia: "Por mim mesmo nada posso fazer: eu julgo segundo o que ouço"
(Jo 5,30). "O Filho por si mesmo nada pode fazer, mas só aquilo que vê o
Pai fazer" (Jo 5,19)". Ele teve momentos difíceis, em que gritou:
“Afasta de mim este cálice!” (Mc 14,36). Teve que pedir a ajuda dos amigos (Mt
26,38.40). Mas venceu por meio da oração (Lc 22,41-44). Como diz a carta aos
Hebreus: “Durante a sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em
alta voz e com lágrimas, ao Deus que podia salvá-lo da morte. E Deus o escutou,
porque ele foi submisso. Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente
através de seus sofrimentos. E, depois de perfeito, tornou-se a fonte da
salvação eterna para todos aqueles que lhe obedecem”. (Hb 5,7-9) Jesus tornou-se para nós revelação e manifestação
de Deus.
A obediência de
Jesus não é disciplinar, mas profética,
reveladora do Pai. Ela deu a ele olhos novos para perceber a presença do Reino
no meio do povo. O Reino já estava aí, mas ninguém o percebia (Lc 17,20-21).
Jesus o percebia e o revelava (Mt 16,1-3). Ele via o tempo maduro, o campo
branco para a colheita (Jo 4,35).
A Boa Nova do
Reino era como um fertilizante que fazia a semente da vida brotar e crescer. O
Reino que estava escondido apareceu em Jesus e o povo se alegrou. Pelo seu
jeito de ser e de ensinar, Jesus despertava no povo a força adormecida do Reino
que o próprio povo não conhecia ou tinha esquecido. Jesus desobstruiu o acesso
à fonte dentro das pessoas, e a água começou a jorrar de dentro (Jo 4,14).
Assim, muitas pessoas, através da fé em Jesus, despertavam para uma vida nova. Mas
em Nazaré, por causa da incredulidade do povo, Jesus não pôde fazer nenhum
milagre! (Mc 6,5-6)
Inspirando-se nos escritos dos discípulos de Isaías, Jesus entendia sua missão como um serviço: “Não vim para ser
servido mas para servir” (Mc 10,45). Para apresentar seu programa ao povo usou
uma frase do Servo de Deus, anunciado
por Isaías (Lc 4,17-18; Is 61,1-2). Como os discípulos de Isaías, Jesus não só falava
sobre Deus, mas também o revelava. Comunicava algo do que ele mesmo
experimentava e vivia.
O que mais chama a atenção é a bondade com que Jesus acolhia o povo
(Mc 6,34; 8,2; 10,14; Mt 11,28-29). Deus se fazia presente nesta atitude de
ternura acolhedora. Jesus valorizava as pessoas e as estimulava a se firmar e
ter confiança
Sua atitude livre e libertadora contaminava os discípulos e
levava-os a transgredirem normas caducas. Por exemplo, quando estavam com fome,
eles colhiam espigas, mesmo em dia de sábado (Mt 12,1); não lavavam as mãos
antes de comer (Mc 7,5); entravam nas casas dos pecadores e comiam com eles (Mc
2,15-17); não faziam jejum como era costume entre os judeus (Mc 2,18).
Como os discípulos de Isaías, Jesus tinha um jeito próprio de
ensinar. Ele não era do clero, não era da tribo de Levi. Era leigo. Não tinha
estudado na escola dos doutores
3. Irradia sua vocação:
reconstrói a comunidade, imagem do rosto de Deus
O ponto
No tempo de Jesus havia vários movimentos que
procuravam uma nova maneira de viver e conviver: essênios, fariseus e, mais
tarde, os zelotes. Muitos deles formavam comunidades de discípulos e tinham
seus missionários (Mt 23,15). Quando estes iam em missão, iam prevenidos.
Levavam sacola e dinheiro para cuidar da sua própria comida, pois não podiam
confiar na comida do povo que nem sempre era ritualmente “pura”. As normas da
pureza dificultavam a acolhida, a partilha, a comunhão de mesa e a hospitalidade, as quatro colunas ou pilares
da vida comunitária.
Ao contrário dos outros missionários, os discípulos
e as discípulas de Jesus, quando vão em missão, não podem levar nada, nem
bolsa, nem sacola, nem ouro nem prata, nem cobre, nem dinheiro, nem bastão, nem
cajado, nem sandálias, nem sequer duas túnicas (Mt 10,9-10; Mc 6,8; Lc 10,4). A
única coisa que podem levar é a paz (Lc 10,5). O missionário vai sem nada,
porque deve acreditar que vai ser recebido. Sua atitude provoca no povo o gesto
evangélico da hospitalidade (Lc 9,4; 10,5-6). Eles devem ficar hospedados na
primeira casa em que forem acolhidos. Não podem andar de casa em casa, mas
devem conviver de maneira estável e, em troca, recebem sustento, “pois o
operário merece o seu salário” (Lc 10,7). Ou seja, devem integrar-se na vida e
no trabalho da comunidade local, no clã, e confiar na partilha. Não podem levar
sua própria comida, mas devem comer o que o povo lhes oferece (Lc 10,8). Isto
é, devem aceitar a comunhão de mesa, e não podem ter medo de perder a pureza no
contato com o povo. A convivência fraterna é um valor evangélico que prevalece
sobre a observância das normas rituais. Como tarefa especial devem praticar a acolhida
e cuidar dos excluídos: doentes, possessos, leprosos (Lc 10,9; Mt
10,8). Isto é, devem exercer a função do Go´êl
: acolher os excluídos para dentro da comunidade e refazer a vida comunitária
do clã.
Caso todas estas exigências forem preenchidas,
poderão gritar aos quatro ventos: “O Reino chegou!” (cf. Lc 10,1-12; 9,1-6; Mc
6,7-13; Mt 10,6-16). Pois o Reino não é uma doutrina ou uma lista de normas
morais, nem um catecismo ou um direito canônico, mas sim uma nova maneira de
viver e conviver, nascida da Boa Nova que Jesus nos trouxe de que Deus é Pai e
todos somos irmãos e irmãs uns dos outros. Devem recriar e reforçar a
comunidade local, o clã, a “casa”, para que possa ser novamente uma expressão
da Aliança, do Reino, do amor de Deus como Pai que faz de todos irmãos e
irmãs.
4. Vocação como fonte de
consciência e de resistência
A simpatia do povo por Jesus ia crescendo a ponto de provocar medo
nos líderes (Mc 11,18. 32; 12,12; 14,2). O povo, antes tão submisso, crescia em
consciência, escapava do controle da “grande disciplina” e criava dentro de si
maior consciência e liberdade frente ao poder religioso que o oprimia. Graças à
Boa Nova de Jesus, o povo começava a ser ele mesmo! Incomodados, os líderes se
organizaram para eliminar o perigo e começaram a perseguir Jesus. Como o Servo
de Isaías, Jesus, não voltou atrás, não recuou. Continuou fiel ao Pai e ao povo
marginalizado até à morte e morte de cruz. Eis o auto-retrato de Jesus:
4 O Senhor
me concedeu o dom de falar como seu discípulo,
para eu
saber dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado.
Cada
manhã, ele me desperta, para que eu o escute,
de
ouvidos abertos, como o fazem os discípulos.
5 O Senhor
me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.
6 Oferecei
minhas costas aos que me batiam
e o
queixo aos que me arrancavam a barba.
Não
escondi o rosto para evitar insultos e escarros.
7 O Senhor é
a minha ajuda!
Por
isso, estas ofensas não me desmoralizam.
Faço cara
dura como pedra, sabendo que não vou ser um fracassado.
8 Perto de
mim está quem me faz justiça.
Quem
tem coragem de depor conta mim?
Vamos
comparecer juntos no tribunal!
Quem
tem algo contra mim? Que se apresente e faça a denúncia!
9 O Senhor é
a minha ajuda! Quem tem coragem de condenar-me?
Todos
eles vão cair aos pedaços, como roupa velha comida pela traça! (Isaías 50,4-9)
Eles chegaram a
matar Jesus. Diz o quarto Cântico do Servo:
8 Sem defesa
e sem julgamento, foi levado embora. Não havia ninguém para defende-lo.
Sim, ele
foi arrancado do mundo dos vivos, foi ferido por causa dos crimes do seu povo.
9 Foi
enterrado junto com os criminosos, recebeu sepultura entre os malfeitores,
ele que
nunca cometeu crime algum e que nunca disse uma só mentira! (Is 53,8-9)
E o cântico
continua com esta prece:
10 Oh!
Senhor, que o teu Servo, quebrado pelo sofrimento, possa agradar-te!
Aceita a
sua vida como sacrifício de expiação!
Que ele
possa ver os seus descendentes, ter longa vida,
e que o
Teu Projeto se realize por meio dele!” (Is 53,10)
Esta
foi a maneira de Jesus viver e realizar a sua vocação. Ele deixou que a vocação
entrasse dentro dele, e ela tomou conta da vida dele inteira, a ponto de o
apóstolo dizer que em Jesus habita “a plenitude da divindade” (Col 2,9). Jesus
é para nós o Filho de Deus que nos revela o Pai. “Da sua plenitude todos nós
recebemos” (Jo 1,16). Deus ressuscitou Jesus, confirmando assim que o caminho da
vocação de Jesus é o caminho do agrado do Pai.
____________________________________________________________
Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. Como Jesus vive em você?
2. O que você faz, para que a vida
de Jesus em você possa crescer e irradiar?
VI
JESUS
CHAMA OUTRAS PESSOAS
PARA
ESTAR COM ELE E IR EM MISSÃO
1. As pessoas
chamadas por Jesus
Os
doze apóstolos e as outras pessoas, homens e mulheres, rapazes e moças, que
seguiam a Jesus, eram pessoas comuns. Tinham suas virtudes e seus defeitos. Os
evangelhos informam muito pouco sobre o jeito e o caráter de cada um e cada
uma. Mas o pouco que informam é motivo de consolo para nós. Eis o que se pode
afirmar a respeito de algumas destas pessoas chamadas por Jesus:
* Pedro: Pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt
14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o seu coração encolhia e voltava
atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Jesus rezou por ele (Lc 22,31).
* Tiago e João: Dois irmãos. Estavam dispostos a sofrer com
Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos (Lc 9,54). Jesus os chamou filhos do trovão (Mc 3,17). João pensava
ter o monopólio de Jesus. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40
* Filipe: Tinha jeito para colocar os outros em contato
com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo
6,5-7; 12,20-22). Parecia um pouco ingênuo. Jesus chegou a perder a paciência
com ele: “Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e você ainda não me
conhece?” (Jo 14,8-9)
* André: Pessoa prática. Foi ele que encontrou o menino
com cinco pães e dois peixes (Jo 6,8-9). É a ele que Filipe se dirige para
resolver o caso dos gregos que queriam ver a Jesus (Jo 12,20-22), e é André que
chama Pedro para encontrar-se com Jesus (Jo 1,40-43).
* Tomé: Com
teimosia sustentou sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de
todos os outros (Jo 20,24-25). É que o Jesus ressuscitado
* Natanael: Era bairrista e não podia admitir que algo de
bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46). Mas quando Jesus o esclarece, ele se
entrega (Jo 1,49). Este Natanael aparece só no evangelho de João. Alguns o
identificam com o Bartolomeu que aparece na lista do evangelho de Marcos (Mc
3,18).
* Mateus: Era um
publicano, pessoa excluída pela religião dos judeus (Mt 9,9). Sabemos muito pouco
da vida dele. No evangelho de Marcos e de Lucas ele é chamado Levi (Mc 2,14; Lc 5,27). O nome Mateus significa Dom de Deus. Os excluídos são "mateus" (dom de Deus),
para a comunidade.
* Simão: Era um zelote (Mc 3,18). Dele só sabemos o
nome e o apelido. Nada mais. Ele era zelote,
isto é, fazia parte do movimento popular que na época se opunha à dominação
romana.
* Judas: Guardava
o dinheiro do grupo (Jo 12,6; 13,29). Tornou-se o traidor de Jesus (Jo
13,26-27). Setenta anos depois da traição, no fim do primeiro século, o autor
do quarto evangelho ainda tem raiva dele e o chama de "ladrão" (Jo
12,4-6).
* Nicodemos: Era
membro do Sinédrio, o Supremo Tribunal da época. Homem importante. Ele aceita a
mensagem de Jesus, mas não tem coragem de manifestá-lo publicamente (Jo 3,1). Junto
com José de Arimatéia cuidou da sepultura de Jesus (Jo 19,39)
* Joana e Susana: Joana
era a esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galiléia. As duas
faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus, o serviam com seus bens
e subiam com ele até Jerusalém (Mc 15,40-41; Lc 8,2-3).
* Maria Madalena: era
nascida da cidade de Magdala. Daí o nome Maria Ma(g)dalena. Jesus a curou de uma doença (Lc 8,2). Ela o seguiu até
ao pé da Cruz (Mc 15,40). Depois da páscoa, foi ela que recebeu de Jesus a
ordenação de anunciar aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt
28,10).
A
maior parte dos que seguem Jesus para
formar comunidade com ele eram pessoas simples, sem muita instrução (At 4,13;
Jo 7,15). Entre eles havia homens e mulheres, pais e mães de família (Lc 8,2-3;
Mc 15,40s). Alguns eram pescadores (Mc 1,16.19). Outros, artesãos e
agricultores. Mateus era publicano (Mt 9,9). Simão, do movimento popular zelote (Mc 3,18). É possível que alguns
tenham sido do grupo dos revoltosos,
pois carregavam armas e tinham atitudes violentas (Mt 26,51; Lc 9,54;
22,49-51). Outros ainda tinham sido curados por Jesus de doenças (Lc 8,2).
Havia
também alguns mais ricos: Joana (Lc 8,3), Nicodemos (Jo 3,1-2), José de
Arimatéia (Jo 19,38), Zaqueu (Lc 19,5-10) e outros. Estes sentiram na carne o
que quer dizer romper com o sistema e aderir a Jesus. Nicodemos, ao defender
Jesus no tribunal, foi vaiado (Jo 7,50-52). José de Arimatéia, ao pedir o corpo
de Jesus, correu o risco de ser acusado como inimigo dos romanos e dos judeus
(Mc 15,42-45; Lc 23,50-52). Zaqueu devolveu quatro vezes o que roubou e deu a
metade de seus bens aos pobres (Lc 19,8). Todos eles, tanto os pobres como os
poucos ricos, podiam dizer com Pedro: "Nós deixamos tudo e te
seguimos!" (Mt 19,27). Todos eles tiveram que fazer a "mudança de
vida", a "conversão" que Jesus pedia (Mc 1,15).
Jesus
passou uma noite inteira em oração antes de fazer a escolha definitiva dos doze
apóstolos (Lc 6,12-16). Rezou para saber a quem escolher. E escolheu as pessoas
cujos retratos, conservados nos evangelhos, acabamos de olhar. É com este grupo
que Jesus começou a maior revolução da história do Ocidente! Não escolheu a
elite, não escolheu gente formada e estudada, de altas qualidades. Escolheu
pessoas comuns que se sentiam atraídas pela mensagem de vida que ele trazia. Um
consolo para nós! Muito obrigado!
2. O chamado
(vocação) e o seu duplo objetivo
O chamado: “Vem
e segue-me!”
A
vocação não é coisa de um só momento, mas é feita de repetidos chamados e
convites, de avanços e recuos. Começa à
beira do lago (Mc 1,16), e só termina depois da ressurreição (Mt 28,18-20; Jo
20, 21). Começa na Galiléia (Mc 1,14-17) e, no fim, após um longo processo,
recomeça na mesma Galiléia (Mc 14,28; 16,7), também à beira do lago (Jo
21,4-17). Recomeça sempre! Na prática, o chamado coincide com a convivência dos
três anos com Jesus, desde o batismo de João até o momento
A
maneira de Jesus chamar as pessoas é simples e bem variada. Às vezes, é o
próprio Jesus que toma a iniciativa. Ele passa, olha e chama (Mc 1,16-20).
Outras vezes, são os discípulos que convidam parentes e amigos (Jo
1,40-42.45-46) ou é João Batista que o aponta como o “Cordeiro de Deus” (Jo
1,35-39). Outras vezes ainda, é a própria pessoa que se apresenta e pede para
segui-lo (Lc 9,57-58.61-62). A maior parte dos que são chamados já conhece a
Jesus. Eles já tiveram alguma convivência com ele. Tiveram a oportunidade de
vê-lo ajudar as pessoas ou de escutá-lo na sinagoga da comunidade (Jo 1,39; Lc
5,1-11). Sabem como Jesus vive e o que ele pensa.
O
chamado é gratuito; não custa. Mas acolher a vocação exige decisão e
compromisso. Jesus não esconde as exigências. Quem quer segui-lo deve saber o
que está fazendo: deve mudar de vida e crer na Boa Nova (Mc 1,15); deve estar
disposto a abandonar tudo e assumir com ele uma vida pobre e itinerante. Quem
não estiver disposto a fazer tudo isto, "não pode ser meu discípulo"
(Lc 14,33). O peso, porém, não está na renúncia, mas sim no amor que dá sentido
à renúncia (Jo 21,15-17). É por amor a Jesus (Lc 9,24) e ao Evangelho (Mc 8,35)
que o discípulo ou a discípula renuncia a si mesmo e carrega sua cruz, todos os
dias, para seguí-lo (Mt 10,37-39; 16,24-26; 19,27-29).
O
chamado é como um novo começo! É como nascer de novo (Jo 3,3-8). Quem aceita o
chamado, deve “deixar que os mortos enterrem seus mortos”(Lc 9,60). Deve seguir
em frente e não olhar para trás (Lc 9,62). O chamado é um tesouro escondido,
uma pedra preciosa. Por causa dele, a pessoa abandona tudo, segue Jesus (Mt
13,44-46) e entra na nova família, na nova comunidade (Mc 3,31-35).
O duplo
objetivo da vocação: comunidade e missão
Desde
o começo, o objetivo é duplo. Seguir Jesus significa: (1) estar com ele, formar
comunidade com ele (Mc 1,17; 10,21); (2) ir em missão, ser pescador de
homens" (Mc 1,17; Lc 5,10).
Depois
de um tempo de convivência, Jesus renova o chamado. Marcos diz: "Jesus subiu a montanha e chamou a si
os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu os Doze para que ficassem
com ele e para enviá-los a pregar e terem autoridade para expulsar os demônios"
(Mc 3,13-15). Este novo chamado continua tendo o mesmo duplo objetivo: (1)
"ficar com ele", isto é, formar uma comunidade estável ao redor dele;
(2) “ir pregar e expulsar os demônios", isto é, andar em missão de um
lugar para outro. Os dois objetivos fazem parte da mesma vocação, do mesmo
chamado. Um não exclui o outro. Eles se completam. Um sem o outro, não se
realiza.
"Seguir" era o termo que
se usava naquele tempo para indicar o relacionamento entre o discípulo e seu mestre.
O discípulo "segue" o mestre e se forma na convivência com ele. Como
os rabinos (mestres) da época, Jesus reúne discípulos para formar comunidade
com eles. O relacionamento Mestre x Discípulo é diferente do relacionamento
Professor x Aluno. O aluno assiste às aulas do professor sobre uma determinada
matéria, mas não convive com ele. O discípulo convive com o mestre, vinte e
quatro horas por dia. Ser mestre, como Jesus, já aos 30 anos de idade é sinal
de muita maturidade e equilíbrio. Ter sempre doze pessoas perto! Sempre! De vez
em quando, Jesus não agüenta mais e perde a paciência (Mc 9,19) ou sai para
ficar a sós (Mc 6,46).
Seguir Jesus significava:
* Imitar o exemplo do Mestre: Jesus era o
modelo a ser recriado na vida do discípulo ou da discípula (Jo 13,13-15). A
convivência diária permitia um confronto constante. Nesta "Escola de
Jesus" só se ensinava uma única matéria: o Reino! E este Reino se
reconhecia na vida e na prática de Jesus
* Participar
do destino do Mestre: Quem seguia
Jesus devia comprometer-se com ele e "estar com ele nas tentações"
(Lc 22,28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25). Devia estar
disposto a carregar a cruz e a morrer com ele (Mc 8,34-35; Jo 11,16).
* Ter a
vida de Jesus dentro de si: Depois da Páscoa, acrescentou-se uma terceira
dimensão: identificar-se com Jesus, vivo na comunidade. Os primeiros cristãos
procuravam refazer a mesma caminhada de Jesus que tinha morrido em defesa da
vida e foi ressuscitado pelo poder de Deus (Fl 3,10-11). Trata-se da dimensão
mística do seguimento de Jesus, fruto da ação do Espírito: "Vivo, mas já
não sou eu, é Cristo que vive em mim"(Gl 2,20).
A
convivência comunitária: viveiro da vocação
Todos
eles "seguem Jesus",
formando grupos concêntricos em torno a ele. Um núcleo menor de doze (Mc 3,14),
como as doze tribos de Israel (Mt 19,28). Uma comunidade mais ampla de homens e
mulheres (Lc 8,1-3). Um grupo maior de setenta e dois (Lc 10,1). As multidões
que se reúnem ao redor de Jesus para ouvir a sua mensagem. Dentro do núcleo dos
doze, de acordo com a finalidade do momento, Jesus forma grupos menores. Por
exemplo, chama Pedro, Tiago e João para momentos de oração (Mt 26,37s; Lc
9,28).
Como
todos os grupos de discípulos daquela época, assim também o grupo que
"segue Jesus" tinha o seu ritmo de vida: diário, semanal, anual:
1. O ritmo diário na família, na comunidade:
O povo rezava três vezes ao dia: de manhã, ao meio dia e à noite. Eram os três
momentos em que se oferecia o sacrifício no Templo. Assim, a nação inteira se
unia diante de Deus. Eram orações tiradas da Bíblia ou inspiradas pela Bíblia
que marcavam o ritmo diário da vida de Jesus e da sua comunidade ao longo dos
três anos da formação.
2. O ritmo semanal na sinagoga: Um escrito antigo da Tradição Judaica, chamado Pirquê Abot (palavras dos pais), dizia:
“O mundo repousa sobre três colunas: a Lei,
o Culto e o Amor”. Era o que eles faziam todos os Sábados. Mesmo durante as
viagens missionárias, Jesus e os discípulos tinham o "costume" de,
aos sábados, se reunirem com o povo na sinagoga para ouvir as leituras da
Bíblia (Lei), para rezar e louvar a
Deus (Culto), e para discutir as
coisas da vida da comunidade e descobrir como ajudar as pessoas necessitadas (Amor) (Lc 4,16.44; Mc 1,39).
3. O ritmo anual no Templo: Era baseado no ano
litúrgico com suas festas. Cada ano, o povo tinha que fazer três romarias a
Jerusalém para visitar a Deus no seu Templo (Ex 23,14-17). Jesus e os
discípulos participavam das romarias e visitavam o Templo de Jerusalém nas
grandes festas (Jo 2,13; 5,1; 7,14; 10,22; 11,55).
Criava-se
assim um ambiente familiar e comunitário, impregnado pela leitura orante da
Palavra de Deus,
A missão: manifestação
da vocação, amostra grátis do Reino
A
missão não é uma tarefa que a comunidade pode executar, terminar e, depois,
ficar livre dela. A missão é a natureza mesma da comunidade. A comunidade
cristã ou é missionária ou não é comunidade cristã.
A raiz da Missão é a nova experiência de Deus como Abba, Pai. Se Deus é Pai e Mãe, então todos devemos conviver como
irmãos e irmãs. Mas a situação em que se encontrava o povo no tempo de Jesus
era o contrário da fraternidade que Deus sonhou para todos! Diante desta
situação, Jesus não se manteve neutro. Pelo contrário! Motivado pela sua
experiência de Deus, tomou posição em defesa da vida do povo e definiu sua
missão e vocação da seguinte maneira:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me
ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, enviou-me para proclamar a
libertação aos presos, a recuperação da vista aos cegos, restituir a liberdade
aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
A
missão que a comunidade dos discípulos e discípulas recebe de Jesus é a mesma
que ele recebeu do Pai: "Como o Pai me enviou assim envio vocês" (Jo
20,21). Jesus é o eixo, o centro, o modelo, a referencia da comunidade. Ele é o
"caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6). Pelas suas atitudes, ele é
uma amostra do Reino: encarna e revela o amor de Deus (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc
15,11-32). A plataforma de onde se parte para a Missão é a comunidade, que vive
a nova fraternidade. A Comunidade deve ser como o rosto de Deus, transformado
O
que significa isto no concreto? Toda nova experiência de Deus, quando verdadeira, traz mudanças profundas na convivência humana. Eis algumas das
mudanças que foram aparecendo na comunidade que se formou ao redor de Jesus e
que caracterizam a formação recebida pelos discípulos e pelas discípulas ao
longo dos três anos de convivência:
1. Todos irmãos: Ninguém deve
aceitar o título de mestre, nem de pai, nem de guia, pois "um só é o
mestre de vocês e todos vocês são irmãos" (Mt 23,8-10). A base da
comunidade cristã não é o saber, nem o poder, nem a hierarquia, mas sim a
igualdade de todos como irmãos. É a irmandade de todos ao redor do mesmo
ideal.
2. Igualdade homem e mulher: Jesus
muda o relacionamento homem-mulher, pois tira o privilégio do homem frente à
mulher (Mt 19,7-12). Não só os homens, também as mulheres “seguem” Jesus, desde
a Galiléia (Mc 15,41; Lc 23,49; 8,1-3). Ele revela os seus segredos tanto aos
homens como às mulheres. À Samaritana revelou que é o Messias (Jo 4,26). À Madalena
apareceu por primeiro depois de ressuscitado e lhe deu a ordenação de anunciar
a Boa Nova aos apóstolos (Mc 16,9-10; Jo 20,17).
3. Partilha dos bens: Na comunidade
que se formou ao redor de Jesus, ninguém tinha nada de próprio (Mc 10,28).
Jesus não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Havia uma caixa comum que era
partilhada também com os pobres (Jo 13,29). Nas viagens o missionário confia no
povo que o acolhe e depende da partilha que recebe (Lc 10,7). Jesus elogia a
viúva que sabe doar até do necessário (Mc 12, 41-44).
4. Amigos e não empregados: A partilha tem uma base econômica, mas
deve crescer e atingir a alma e o coração das pessoas (At 1,14; 4,32). A
comunhão deve chegar ao ponto de não haver mais segredo entre eles: “Já não os
chamo de empregados, mas sim de amigos. Pois tudo que ouvi do meu Pai contei
para vocês” (Jo 15,15).
5. Poder é serviço: "Os
reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados benfeitores.
Entre vocês não seja assim" (Lc 22,25-26). “Quem quiser ser o primeiro
seja o último!” (Mc 10,44). Jesus deu o exemplo (Jo 13,15). "Não veio para
ser servido, mas para servir e doar a vida" (Mt 20,28). É o ponto
6. Poder de perdoar e reconciliar: O poder
de perdoar não é privilégio de alguns. Foi dado à comunidade (Mt 18,18), aos
apóstolos (Jo 20,23) e também a Pedro (Mt 16,19). O perdão de Deus passa pela
comunidade, que deve ser um lugar de perdão e de reconciliação, e não de
condenação mútua.
7. Oração em comum: Eles iam juntos em romaria ao Templo (Jo
2,13; 7,14; 10,22-23), rezavam antes das refeições (Mc 6,41; Lc 24,30),
freqüentavam as sinagogas (Lc 4,16). E em grupos menores Jesus se retirava com
eles para rezar (Lc 9,28; Mt 26,36-37).
8. Alegria: Jesus diz aos
discípulos: "Felizes são vocês!", porque seus nomes estão escritos no
céu (Lc 10,20), seus olhos vêem a realização da promessa (Lc 10,23-24), o Reino
é de vocês! (Lc 6,20). É alegria que convive com dor e perseguição (Mt 5,11).
Ninguém consegue roubá-la (Jo 16,20-22).
Estas
são algumas das características da comunidade que nasce ao redor de Jesus e na
qual se guarda e se cultiva a vocação. Ela é o modelo para a comunidade dos
primeiros cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47; 4,32-35). A
convivência numa comunidade assim é necessariamente formadora. Ela consolida e
faz crescer a vocação. Sem convivência comunitária é muito difícil nascer,
crescer e desabrochar uma autêntica vocação segundo o rumo da Boa Nova que
Jesus nos trouxe, pois a comunidade é a amostra grátis da Boa Nova do Reino.
4. Jesus é atento ao processo e ao cultivo da
vocação nos discípulos
Jesus é o
amigo que forma os discípulos para a missão
Para
manter-se sempre na missão e não se acomodar na mentalidade de “tarefa
cumprida”, é necessário um processo contínuo de formação e de atenção à
realidade do povo. Jesus aparece nos evangelhos como o amigo que forma seus
discípulos com um acompanhamento e presença permanentes. Ele é uma "pessoa
significativa" para eles, que vai marcá-los para o resto da vida.
Ao
longo daqueles três anos, Jesus acompanha os discípulos e as discípulas.
Convive com eles, come com eles, anda com eles, alegra-se com eles, sofre com
eles. É através desta convivência que eles, quase todos jovens, se formam na
vocação e no compromisso. Desde o primeiro momento do chamado, Jesus os envolve
na missão (Lc 9,1-2; 10,1). Dois a dois, devem anunciar a chegada do Reino (Mt
10,7; Lc 10,1.9). Devem curar os doentes (Lc 9,2), expulsar os demônios (Mc 3,
15), anunciar a paz (Lc 10,5; Mt 10,13), rezar pela continuidade da missão (Lc
10,2). A participação efetiva no anúncio do Reino faz parte do processo
formador, pois a missão é a razão de ser da vida comunitária ao redor de Jesus.
Muitos
pequenos gestos refletem o testemunho de vida com que Jesus marcava presença na
vida dos discípulos e das discípulas. Era a sua maneira de dar forma humana à
experiência que ele mesmo tinha de Deus como Pai. Neste seu jeito de ser e de
conviver, de se relacionar com as pessoas, de lidar com o povo e de atender aos
que vinham falar com ele, Jesus aparece:
* como uma
pessoa de paz, que inspira paz e reconciliação: "A Paz esteja com
vocês!".(Jn 20,19; Mt 10,26-33; Mt 18,22; Jn 20,23; Mt 16,19; Mt 18,18).
* como uma
pessoa livre e liberta, que desperta liberdade e promove a libertação: "O
ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado para o ser humano!"
(Mc2,27; 2,18.23)
* como uma
pessoa de oração, que aparece rezando em todos os momentos importantes de sua
vida e desperta nos outros vontade de rezar: "Senhor, ensina-nos a
rezar!" (Lc 11,1-4; Lc 4,1-13; 6,12-13; Jn 11,41-42; Mt 11,25; Jn 17,1-26;
Lc 23,46; Mc 15,34)
* como uma
pessoa carinhosa, que provoca respostas fortes de amor: na moça do perfume (Lc
7,37-38), em Madalena (João 21,15-17), em Pedro (Mt 18,21; 19,27) e em tantos
outros (cf. Mc 14,3-9; Jo 13,1).
* como uma
pessoa acolhedora, que está sempre presente na vida dos discípulos e os acolhe
quando voltam da missão fazendo revisão com eles (Lc 10,17-20)
* como uma
pessoa misericordiosa, mansa e humilde, que convida os pobres: "Venham
todos a mim" (Mt 11,28)
* como uma
pessoa realista e observadora, que chama a atenção dos discípulos para as
coisas da vida através do ensino das Parábolas (Lc 8,4-8)
* como uma
pessoa atenciosa, preocupada com a alimentação dos discípulos (Jo 21,9), que
cuida até do descanso deles e quer estar a sós com eles para que possam
descansar (Mc 6,31).
* como uma
pessoa preocupada com a situação do povo, que esquece o próprio cansaço quando se
encontra com o povo que o procura (Mt 9,36-38).
* como uma
pessoa amiga, que comparte tudo, até mesmo o segredo do Pai (Jn 15,15).
* como uma
pessoa compreensiva, que aceita os discípulos do jeito que são, até mesmo a
fuga, a negação e a traição, sem romper com eles (Mc 14,27-28; Jn 6,67).
* como uma
pessoa comprometida, que defende os amigos quando são criticados pelos
adversários (Mc 2,18-19; 7,5-13),
* como uma
pessoa sábia que conhece a fragilidade do ser humano, sabe o que se passa no
seu coração e, por isso, insiste na vigilância e ensina-os a rezar (Lc 11,1-13;
Mt 6,5-15).
* Numa palavra,
Jesus aparece como uma pessoa humana, muito humana, tão humana como só Deus
pode ser humano!
Jesus é o
formador que aponta o perigo do fermento dos fariseus e herodianos
Não
é pelo fato de uma pessoa andar com Jesus e de conviver com ele na mesma
comunidade que ela já era santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de
novo, a mentalidade antiga levantava a cabeça e ameaçava a vocação, pois o
“fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15), a ideologia dominante, tinha
raízes profundas. A conversão que Jesus pede e a formação que ele dá querem
atingir a raiz e erradicar o “fermento”.
Como
no tempo de Jesus, também hoje, a mentalidade antiga do sistema neoliberal
renasce e reaparece na vida das nossas comunidades. Também hoje, o fermento dos fariseus tem raízes
profundas na vida e exige uma vigilância constante. Jesus ajudava os discípulos
a viverem em processo permanente de formação. Eis alguns casos desta vigilância
com que Jesus os acompanhava. É a ajuda fraterna com que ele, atento ao
processo da vocação em cada discípulo, intervém para ajudá-lo a dar um passo e
criar nova consciência:
1.
Mentalidade de grupo fechado: Certo dia, alguém que não era da
comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os demônios. João viu e
proibiu: “Impedimos, porque ele não anda conosco” (Mc 9,38). Em nome da
comunidade João impediu uma ação boa! Ele pensava ser dono de Jesus e queria
proibir que outros usassem o nome dele para realizar o bem. João queria uma
comunidade fechada sobre si mesma. Era a mentalidade antiga de "Povo
eleito, Povo separado!". Jesus responde: "Não impeçam! Quem não é contra é a favor!" (Lc
9,39-40). Para Jesus, o que importa não é se a pessoa faz ou não faz parte da
comunidade, mas sim se ela faz ou não o bem que a comunidade anuncia em nome
de Deus.
2.
Mentalidade de grupo que se considera
superior aos outros: Certa vez, os
samaritanos não queriam dar hospedagem a Jesus. Reação dos discípulos: “Que um
fogo do céu acabe com esse povo!” (Lc 9,54). Queriam imitar o profeta Elias
(2Rs 1,10.12). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam
acolhê-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defendê-los. Era a mentalidade
antiga de “Povo eleito, Povo privilegiado!”. Jesus os repreende: "Vocês
não sabem de que espírito estão sendo animados" (Lc 9,55)
3.
Mentalidade de competição e de prestígio: Os discípulos brigavam entre si pelo
primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era a mentalidade de classe e de competição, que
caracterizava a sociedade do Império Romano. Ela já se infiltrava na pequena
comunidade que estava apenas começando! Jesus reage e manda ter a mentalidade de
serviço: "O primeiro seja o último" (Mc 9, 35). É o ponto em que ele
mais insistiu e em que mais deu o próprio testemunho: “Não vim para ser
servido, mas para servir” (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).
4.
Mentalidade de quem marginaliza o pequeno: Os discípulos afastavam as crianças. Era
a mentalidade da cultura da época em que criança não contava e devia ser
disciplinada pelos adultos. Jesus os repreende: ”Deixem vir a mim as crianças!”
(Mc 10,14). Ele coloca criança como professora de adulto: “Quem não receber o
Reino como uma criança, não pode entrar nele” (Lc 18,17).
5.
Mentalidade de quem segue a opinião da
ideologia dominante: Certo dia, vendo um cego, Pedro pergunta: "Quem
pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9,2). Como hoje, o
poder da opinião pública era muito forte. Fazia todo mundo pensar de acordo com
a ideologia dominante. Enquanto se pensa assim não é possível perceber todo o
alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma visão mais crítica: “Nem
ele, nem os pais dele” (Jo 9,3). A resposta de Jesus supõe uma leitura diferente
da realidade.
O resultado da vocação de Jesus na
vida dos discípulos
Foi
um processo lento e difícil, pois não é fácil fazer nascer nos outros uma nova
visão de Deus, da vida, do próximo, da história, do Reino, do Messias, do povo
de Deus. Jesus nem sempre era compreendido e, olhando os resultados imediatos,
nem sempre teve sucesso. Muitas vezes, os discípulos não entendiam o que ele
queria dizer (Mc 4,13; 6,52; 7,18; 8,15-21; Lc 18,34); eles procuravam promover-se a si mesmos (Mc
10,35-37); no fim dos três anos, na hora do sofrimento, Pedro o negou, Judas o
traiu, todos fugiram (Jn 18,5.17-26; Mc 14,50); depois da ressurreição, todos
eles duvidam (Mt 28,17), não aceitam o testemunho das mulheres (Lc 24,22-24),
Tomé não crê (Jn 20,24-29); na hora da ascensão, todos perguntam: "É agora
que o senhor vai instaurar o Reino?" (At 1,6). A pergunta revela que eles
não tinham entendido muita coisa! Só as mulheres continuaram fiéis até o fim e
são apresentadas como modelo (Lc 8,1-3; 21,2-4; Mc 14,6-9; 15,40-41).
Apesar
de todo este aspecto negativo, há algo novo e muito positivo que cresceu na
vida daquelas pessoas. Aos poucos, através da convivência, Jesus foi se
tornando o eixo da vida deles. Após dois ou três anos na comunidade com Jesus, a
vocação se consolidou e eles já não podem imaginar a vida sem Jesus. Pedro
declara que, fora de Jesus, não tem para onde ir: "Onde podemos ir? O
Senhor tem palavras de vida eterna!" (Jn 6,68). Os dois irmãos João e
Tiago, filhos de Zebedeu, chegam a dizer que estão dispostos a sofrer por amor
a Jesus: "Podemos!" (Mc 10,39). E Tomé, quando percebeu que Jesus,
voltando para a Judéia corria o perigo de ser morto, diz para os companheiros:
"Vamos nós também morrer com Ele (Jo 11,16).
Jesus
veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Numa
sociedade, porém, onde muitos são excluídos, sem condições de ter vida de
gente, esta mensagem só se faz presente na contramão.
Pois Deus não se coloca do lado dos que crucificam, mas sim do lado dos
crucificados. Jesus anunciava o Reino para todos! Não excluía ninguém, mas ele
o anunciava a partir dos excluídos. Jesus oferecia um lugar aos que não tinham
lugar na convivência humana. Acolhia os que não eram acolhidos. Recebia como
irmão e irmã aos que a religião e o governo desprezavam e excluíam:
*
os imorais: prostitutas e pecadores
(Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11),
* os hereges: pagãos e samaritanos (Lc
7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42),
* os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4;
Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26),
* os marginalizados: mulheres,crianças e
doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s),
* os colaboradores: publicanos e soldados (Lc
18,9-14;19,1-10);
* os pobres: o povo da terra e os pobres sem
poder (Mt 5,3; Lc 6,20.24; Mt 11,25-26).
Jesus
lutava para recuperar a bênção da vida (Gn 1,27-28; 12,3), perdida por causa do
pecado (Gn 3,15-19). Onde podia, ele defendia a vida contra os males que a
ameaçavam ou matavam. E aos que queriam segui-lo,
ele dava o poder de curar as doenças e de expulsar os maus espíritos (Mc 3,15;
6,7). Ou seja, os discípulos e as discípulas deviam assumir o mesmo combate em
defesa da vida.
Assim,
através da sua ação e pregação, Jesus combatia: a fome (Mc 6,35-44), a doença (Mc
1,32-34), a tristeza (Lc 7,13), a ignorância (Mc 1,22; 6,2), o abandono (Mt 9,36), a solidão (Mt 11,28; Mc 1,40-41), a letra que mata (Mc 2,23-28; 3,4), a discriminação (Mc 9,38-40; Jo 4,9-10),
as leis opressoras (Mt 23,13-15; Mc
7,8-13), a injustiça (Mt 5,20; Lc
22,25-26), o medo (Mc 6,50; Mt
28,10), males da natureza (Mt 8,26),
o sofrimento (Mt 8,17), o pecado (Mc 2,5), a morte (Mc 5,41-42; Lc 7,11-17), o demônio (Mc 1,25.34; Lc 4,13),...
Havia
divisões injustas, legitimadas pela religião oficial, que marginalizavam muita
gente. Jesus, com palavras e gestos bem concretos, ignorou estas divisões e as
denunciou com força:
* próximo e não-próximo (Lc 10,29-37);
* judeu e estrangeiro (Mt 15,21-28);
* santo e pecador (Lc 19,1-10; Mc 2,15-17);
* puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7, 8-23;
Mc 7,19);
* obras santas e profanas (Mt 6,1-18);
* tempo sagrado e profano (sábado) (Mc
2,27; Jo 7,23);
* lugar sagrado e profano (templo) (Jo
4,21-24; 2,19; Mc 13,2);
* rico e pobre (Lc 16,13; Lc 9,58)
Combatendo
estes males e denunciando estas divisões injustas, Jesus convida as pessoas a
se definirem frente aos novos valores do amor e da justiça. Alguns o aceitam,
outros o rejeitam. Por isso, ele cria novas divisões (Mt 10,34-36) e se torna
“sinal de contradição” (Lc 2,34). E aos que querem segui-lo, adverte que se preparem. Irão sofrer a mesma contradição
(Mt 10,25).
6. Seguir
Jesus na contramão, obediente a Deus e aos pobres até à morte de Cruz
A
Boa Nova fez surgir uma nova divisão. Não a divisão causada por crenças e
ritos, mas sim a divisão que tinha a ver com a prática da justiça e da verdade.
A opção de Jesus é clara, seu apelo também: não é possível ser amigo de Jesus e
continuar apoiando um sistema que marginaliza tanta gente. E aos que querem seguí-lo ele manda escolher: "Ou
Deus, ou o dinheiro! Servir aos dois não dá!" (Mt 6,24) "Vai, vende
tudo que tens, dá aos pobres. Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21). Numa
sociedade assim, Seguir Jesus
significa assumir com ele a mesma luta em defesa da vida, "estar com ele
nas tentações" (Lc 22, 28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt
10,24-25), carregar a cruz e segui-lo até na morte (Jo 11,16).
Entre
os males combatidos por Jesus estavam as falsas lideranças. Jesus percebeu a
mentalidade opressora das autoridades da época e a denunciou. Não teve medo de
denunciar a hipocrisia de muitos líderes religiosos da época: sacerdotes,
escribas e fariseus (Mt 23,1-36; Lc 11,37-52; 12,1; Mc 11,15-18). Condenou a
pretensão dos ricos (Lc 6,24; 12,13-21; Mt 6,24; Mc 10,25). Não acreditava
muito na sua conversão (Lc 16,29-31), embora admitisse que fosse possível pelo
poder de Deus (Mt 19,26). Diante das ameaças do poder político, tanto dos
judeus como dos romanos, Jesus não se intimidava. Mantinha uma atitude de
grande liberdade (Lc 13,32;23,9; Jo 19,11;18,23).
Por
meio destes gestos de denúncia, Jesus fazia estremecer as pilastras da religião
oficial, incomodava os que estavam bem instalados, e atraía sobre si o ódio dos
líderes religiosos e civis da época. Mas Jesus não voltou atrás. Continuou fiel
à sua vocação que ele mesmo definiu como "anunciar a Boa Notícia aos
pobres; proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista;
libertar os oprimidos" (Lc 4,18). Era a maneira de encarnar o amor de Deus
para o povo da sua terra. Quem anuncia o amor numa sociedade organizada a partir
dos critérios do egoísmo e dos interesses de grupos morre crucificado. Foi o
que aconteceu. Bastaram só três anos e ele foi acusado, preso, condenado e
morto na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando assim que o caminho da
vocação de Jesus é o caminho do agrado do Pai.
Esta
mensagem, os primeiros cristãos souberam expressá-la na letra de um cântico que
foi retomada por Paulo numa das suas cartas. Pena que só temos a letra e não a
melodia, pois quando a letra casa bem com a melodia, a filha que nasce é a
animação da comunidade e o crescimento das pessoas na sua vocação. Transcrevo
aqui a letra como palavra final destas reflexões sobre: “Juventude: Vocação e Compromisso à luz da Palavra de Deus”:
Tenham em vocês os mesmos sentimentos
que havia
Ele tinha a
condição divina,
mas não se apegou
à sua igualdade com Deus.
Pelo contrário,
esvaziou-se a si mesmo,
assumiu a condição
de empregado
e tornou-se ser
humano, igual a nós.
E vivendo como
simples homem,
humilhou-se a si
mesmo,
tornou-se
obediente até à morte,
e morte de cruz
Por isso, Deus o
exaltou,
e lhe deu o Nome
que está acima de
todo nome;
para que, ao nome
de Jesus,
se dobre todo o
joelho
no céu, na terra e
debaixo da terra;
e toda língua
confesse
que Jesus Cristo é
o Senhor,
para a glória de
Deus Pai. (Flp 2,5-11)
____________________________________________________________
Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou a sua
atenção nas atitudes que Jesus tomava para chamar as pessoas? Por que?
2. Faça a você a seguinte
pergunta: Quem é Jesus para mim? Quem sou eu para Jesus?
VII
A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO DA
HUMANIDADE
1. O
fracasso da observância da Lei de Deus destruiu a raiz da fé
No êxodo foi concluída a aliança entre Deus e o
povo. Deus tinha libertado o povo do Egito e disse:
“Vocês
viram o que eu fiz aos egípcios e como carreguei vocês sobre asas de águia e os
trouxe até mim. Portanto, se me obedecerem e observarem a minha aliança, vocês
serão minha propriedade especial entre todos os povos, porque a terra toda
pertence a mim. Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação
santa" (Ex 19,4-6). E o povo respondeu "Faremos tudo o que Javé
mandou" (Ex 19,8).
Eles se comprometeram a observar em tudo a lei de
Deus (Ex 24,3-8). Esta era a vocação que receberam e assumiram solenemente. A
observância das cláusulas da Aliança era a condição para o povo poder continuar
a ser o povo de Deus. Não observando os mandamentos, eles se condenariam a si
mesmos à escravidão. Mas a experiência foi muito dolorosa. Enganado pela
ideologia da monarquia e desviado pela própria fraqueza, o povo não deu conta
de observar os Mandamentos da Lei de Deus. Diz o salmo: “Por quarenta anos
aquela geração me desgostou. Então eu disse: É um povo de coração transviado
que não reconhece os meus caminhos” (Sl 95,10). A transgressão da Lei de Deus
trouxe consigo a quebra da aliança e a desarticulação da convivência, tanto
familiar como social.
No século VII aC, época do rei Josias, tentaram uma
reforma para levar o povo de volta à sua vocação como Povo de Deus e, assim,
evitar a desintegração total. Esta reforma, chamada Deuteronomista, colocava o povo diante da escolha: bênção ou
maldição, vida ou morte. É como se dissesse: “Agora vai depender só de vocês!
Se observarem a Lei, terão a bênção. Se não observarem terão a maldição” (cf.
Dt 28,1-3. 15-16).
A reforma não adiantou. Os Mandamentos não foram
observadas. As terríveis ameaças de maldição e de exclusão, descritas nos
livros do Deuteronômio (Dt 28,15-44) e do Levítico (Lv 26,14-38), se
realizaram. Tudo foi destruído pelo exército do rei da Babilônia. O povo se
sentia como amaldiçoado e excluído pelo próprio Deus (Is 49,14). Para a
maioria, o cativeiro era a prova trágica de que tinham escolhido a morte e não
a vida. Fracassou a Aliança! Copo quebrado em mil pedaços não tem conserto!
Dentro do povo estava destruída a raiz da fé. Deus desapareceu da vida do povo.
A maioria largou tudo e adotou a religião do império.
Uma reforma que só insiste na observância da Lei, nasce de uma raiz falsa, pois desconhece a
misericórdia de Deus. Na hora do fracasso da aliança (que de fato ocorreu), ela
não oferece nenhuma esperança de se poder refazer a amizade com Deus. Em vez de
levar à justiça, leva ao desespero. O tiro saiu pela culatra.
Ainda em Jerusalém, diante daquele
desespero generalizado causado pela iminente destruição do Templo e da cidade
por Nabucodonosor, Jeremias dizia: “Temos muito motivo de esperança!” -“Qual?”
- “O sol vai nascer amanhã!” (cf. Jr 31,35-36). Jeremias redescobre a
presença de Deus não na história, mas na natureza. A certeza do
nascer do sol não depende da observância da lei, mas está impressa na lógica da
criação. É pura gratuidade, expressão do bem-querer do Deus Criador. É certeza
que não falha. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato
aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da seqüência
dos dias e das noites, ele nos fala ao coração e diz: “Como é certo que eu
criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é certo
que não rejeitarei a descendência de Jacó e de meu servo Davi. Quando essas
leis falharem diante de mim - oráculo de Javé - então o povo de Israel também
deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jr 33,25-26; cf.
31,36).
Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os
olhos e abriu um novo horizonte. “Deus nos amou primeiro!”, dirá São João mais
tarde (1Jo 4,19). A certeza da presença amorosa de Deus para além do fracasso
da observância provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza que
nos envolve e da qual depende toda a nossa vida: as chuvas, as plantas, as
fases da lua, o sol, as estações do ano, as sementes, etc. Tudo tornou-se sinal
da presença gratuita de Deus.
Aos poucos, Javé, o Deus libertador que no êxodo
entregou a Lei ao povo e concluiu com ele uma aliança, começa a ser
experimentado como o Deus Criador do Universo; e o Deus Criador do Universo vai
tomando o rosto de Javé, o Deus libertador e familiar do êxodo. História e
Criação se aproximam. Nos dois transparecem os traços do rosto de Javé, o Deus
do povo, Deus libertador e criador, Deus Pai,
Mãe, Marido e Irmão mais velho.
Assim, ao lado da atenção dada às Dez Palavras (Dez
Mandamentos) que estão na origem da Aliança, o povo começa a dar maior atenção
às palavras divinas que estão na origem das criaturas, e descobre que lá também
existem dez palavras. São as Dez Palavras ou os Dez Mandamentos da Criação. O
autor que fez a redação final da narrativa da Criação (Gn 1,1-2,4ª) teve a
preocupação em descrever toda a ação criadora de Deus por meio de exatamente
Dez Palavras. Na narrativa aparece dez vezes a expressão “e Deus disse”:
|
1. Gn 1,3 E
Deus disse: haja luz 2. Gn 1,6 E
Deus disse: haja firmamento 3. Gn 1,9 E
Deus disse: as águas se juntem e apareça o continente 4. Gn 1,11 E
Deus disse: a terra produz verde 5. Gn 1,14 E
Deus disse: haja luzeiros 6. Gn 1,20 E Deus
disse: as águas produzam seres vivos 7. Gn 1,24 E
Deus disse: que a terra produz seres vivos 8. Gn 1,26 E
Deus disse: façamos o ser humano 9. Gn 1,28 E
Deus disse: sejam fecundos 10. Gn 1,29 E
Deus disse: dou as ervas para vocês comer. |
E Deus disse ~yhiªl{a/ rm,aYOæw: |
A Lei de Deus entregue ao povo no Monte Sinai tem no seu centro as
dez palavras divinas da aliança. Da mesma maneira, a narrativa da Criação tem
no seu centro dez palavras divinas. Assim como fez para o seu povo, Deus fez
para as criaturas todas: fixou para elas
“uma lei que jamais passará” (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou e dez vezes
as coisas começaram a existir. Falou: Luz!,
e a luz começou a existir. Falou: Terra!,
e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas começaram o seu
percurso no firmamento. “Ele diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se
afirma” (Sl 33,9). A harmonia do cosmo que vence a ameaça do caos é fruto da
obediência das criaturas aos Dez Mandamentos da Criação.
O povo não observou a Lei da Aliança. Por isso veio
a desordem do cativeiro. As criaturas, ao contrário, sempre observam a Lei da
Criação. Por isso existe a Ordem do cosmo. No Pai-Nosso Jesus dirá: “Seja
feita a vossa vontade na terra assim como é feita no céu”. Jesus pede que
nós possamos observar a Lei da Aliança com a mesma perfeição com que o sol e as
estrelas do céu observam a Lei da Criação. Na ordem do universo descobrimos
como realizar nossa vocação.
Temos dois decálogos: o decálogo da criação e o
decálogo da aliança. O decálogo da criação descreve a ação de Deus, o decálogo
da aliança descreve a resposta do ser humano. O decálogo da criação já existia
muito antes do decálogo da aliança. Existia desde a criação do mundo e era
visível na ordem do cosmo, mas a sua existência só foi descoberta, quando a
observância do decálogo da aliança entrou em colapso e criou o impasse do
cativeiro.
A descoberta do decálogo da criação foi o resultado
da teimosia da fé dos pequenos, de homens e mulheres como Oséias e Gomer, Jeremias,
os discípulos e discípulas de Isaías e tantos outros, pais e mães de família,
que continuavam na busca do Deus criador, cuja promessa de vida ultrapassa a
nossa observância.
A total gratuidade da presença universal de Deus
criador enche de esperança os seres humanos no meio da sua fraqueza. A bondade
imensa de Deus, expressa na criação e que faz chover sobre bons e maus (Mt
5,45), deu coragem ao povo do cativeiro para recomeçar com garra a observância
da lei de Deus. Agora, eles observam a lei da aliança, não mais para poder merecer a salvação, e sim para poder agradecer e retribuir a imensa bondade
com que Deus os amou primeiro e cujo amor não depende da observância da lei.
Eles sabem que nada nem mesmo o fracasso pode separá-los do amor de Deus (Is 40,1-2ª; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8;
etc.)
A fé no Deus Criador abriu um horizonte, cujo
alcance para a vida só se compara com o horizonte que a ressurreição de Jesus
abriu para os discípulos confrontados com a barreira intransponível da morte. A
descoberta do decálogo da Criação é como se fosse um fundamento novo colocado
debaixo de um prédio que ameaçava cair por falta de observância da parte dos
engenheiros e operários. Você não vê o fundamento novo, pois está debaixo do chão,
mas você sabe que ele existe, pois o prédio pode até balançar, mas não cai. A
fé na gratuidade da presença universal de Deus torna-se a infra-estrutura da
observância dos mandamentos.
5. Homem
e mulher: imagem e semelhança de Deus
Chegando o momento da criação do ser humano, a narrativa da criação
faz uma parada e muda o modo de falar. Até agora, ele informava sobre a ação
criadora de Deus. Agora, com uma certa solenidade, ele apresenta o próprio Deus
falando:
"Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine
os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos
os répteis que rastejam sobre a terra". E Deus criou o homem à sua imagem;
à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençoou e
lhes disse: "Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra;
dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam
sobre a terra". (Gn 1,26-28)
Por este modo diferente de falar, o autor está sugerindo que está
chegando ao ponto alto da ação criadora. Nesta sua maneira de falar, ele
acentua os seguintes aspectos:
(1) Afirma a dignidade do ser humano, pois nele existe algo de
divino. Ele é feito à imagem e semelhança
de Deus. Não são os animais, nem o rei Nabucodonosor, nem os poderosos que
são a imagem de Deus. Mas sim o ser humano, enquanto
humano, é a imagem de Deus, o representante de Deus no meio da criação.
(2) Afirma a igualdade entre homem e mulher, ambos são imagem de
Deus. Ou melhor, não é só o homem, nem só a mulher, mas ambos juntos convivendo
em harmonia são imagem de Deus. O livro do Eclesiástico faz o seguinte
comentário: “Todas as coisas existem aos pares, uma diante da outra, e Ele não
fez nada incompleto. Uma coisa completa a bondade da outra, e ninguém se cansa
de contemplar a glória de Deus”. (Eclo 42,24-25).
(3) Afirma a superioridade do ser humano frente às outras
criaturas, pois ele pode dominar
sobre todas elas. Este domínio não significa que ele recebe carta branca para fazer o que quiser nem se trata de uma dominação
que usa a terra como mercadoria ou como objeto mudo e sem vida. Mas significa que
ele deve imitar a maneira como Deus exerce o seu domínio sobre a criação. Deus domina o universo coordenando tudo numa harmonia admirável, preservando a
ordem que favorece a vida e mantendo afastado o caos que ameaça tudo de morte:
o caos do assassinato, da vingança, da corrupção, da exploração. O domínio que o ser humano recebe deve promover o crescimento da
ordem e contribuir para o louvor universal ao Criador.
Em seguida, aparece a bênção da vida. Todas as coisas
são criadas, mas só a vida recebe uma bênção. Abençoar é desejar o bem para alguém. É o contrário de amaldiçoar. A vida recebeu de Deus uma
bênção, uma bem-dição. Esta palavra
criadora desejando o bem à vida é
mais forte do que a morte que deseja o mal. É nesta
bênção ou bem-dição que está a
raiz da nossa fé na Vida como dom de Deus, fé que foi crescendo lentamente na
alma do povo de Deus, ao longo dos séculos, até desabrochar plenamente na
ressurreição de Jesus. Esta fé é a expressão da convicção de que a vida plena, que vem de Deus e que os
exilados estavam buscando, não pode acabar nunca. Esta esperança já se
expressava na oração do salmo bem antes da ressurreição de Jesus: “Não me
abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura. Tu me ensinarás
o caminho da vida, cheio de alegria em tua presença, e de delícias à tua
direita, para sempre” (Sl 16,10-11).
____________________________________________________________
Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. Qual o ponto que mais chamou a
sua atenção nesta reflexão sobre a vocação de todos nós como seres humanos? Por
que?
2. Depois do fracasso da
observância da Aliança, o povo de Deus começou a observar a natureza com outros
olhos. Hoje, diante do fracasso evidente do sistema neoliberal que só quer
explorar os recursos da natureza e que ameaça a sobrevivência da vida, qual
deveria ser nossa nova maneira de olhar a natureza e os recursos da natureza? Por
que?
APÊNDICE
OLHANDO O ALBUM DA FAMÍLIA DE DEUS
A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
A Bíblia é como um álbum de fotografias em que a gente encontra uma
variedade imensa de vocações que trazem luz para iluminar a vocação que
sentimos dentro de nós. A maneira de Deus chamar as pessoas é muito variada.
Nenhuma vocação se repete. Chama Abraão e Sara de um jeito e a Maria Madalena
de outro jeito. Também a maneira de perceber a vocação é diferente, e
diferentes são as respostas que são dadas. Uns oferecem resistências, outros
aceitam logo. Uns, como Jeremias, têm problema e dúvidas, lutam com a vocação
até o fim da sua vida. Outros, como Amós, não têm problemas nem dúvidas e
aceitam o chamado que se torna o eixo de suas vidas. Uns são chamados desde a juventude,
e outros só depois de velhos. Uns são chamados para uma tarefa bem limitada e
outros para uma missão que envolve a vida inteira.
A Palavra que chama, às vezes, se impõe com força irresistível como
fogo dentro dos ossos (Jr 20,9) ou como martelo que rebenta as rochas (Jr
23,29). Outras vezes, como convite que deixa total liberdade (Is 6,8). Outras
vezes, deixa a pessoa na revolta e no sofrimento (Jr 20,7-18), outras vezes na
alegria (Jr 15,16). Para uns, o chamado de Deus vem com muita clareza, para
outros não há clareza nenhuma, nem percebem nada de Deus. Sentem apenas uma
necessidade humana que não pode ficar sem resposta. E quando no julgamento
final Deus os elogia (Mt 25,34-35), eles dizem: “Quando foi que vi o senhor com
fome e sede, sem roupa e na prisão, doente? Não estou lembrado!” (Mt 25,37-39)
E Deus responderá: “Foi quando você ajudou aquela pessoa pobre. Era eu!” (Mt
25,40).
Umas pessoas são chamadas para libertar o povo (Is 61,1; Ex 3,10);
outras, para organizá-lo, para presidir suas assembléias, organizar o culto,
cantar, profetizar, denunciar, animar, anunciar, aconselhar, guiar, reprimir,
governar (Rm 12,4-8; 1Cor 12,4-11). Vocação para missões grandes e missões pequenas,
importantes e menos importantes, ligadas ao povo todo e ligadas a um pequeno
grupo. Missões que valem para muitas gerações, outras que valem para pouco
tempo ou só para a pessoa que a recebe.
Para chamar as pessoas Deus usa os mais variados meios de
comunicação: sorteio, aclamação, indicação da comunidade, percepção das
necessidades do povo, ação de bravura, perigo de guerra, chamado interior,
aparição de anjo, sonhos, chamado de um companheiro, etc. etc. ... Nenhuma vocação se repete!
O chamado de Deus não tira a liberdade das pessoas, pois elas
reagem: "Quem sou eu?" Cada um reage do seu jeito diante da missão
que recebe. Cada um trava duas lutas dentro de si: a grande luta da
transformação do mundo e a pequena luta da conversão pessoal. Ambas são
igualmente importantes.
A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
Tudo isto, você pode verificá-lo em quase cada página da Bíblia.
Para ajudá-lo a fazer esta pesquisa, vamos dar uma olhada rápida no grande
álbum da Família de Deus. Vamos percorrer as páginas da Bíblia, olhando de
perto o chamado de algumas das pessoas mais conhecidas e dando para cada uma
delas uma breve chave de leitura. Assim você poderá perceber a variedade, tanto
no chamado como na resposta. Você poderá completar o quadro olhando a vocação
das muitas outras pessoas que não foram lembradas neste elenco. Poderá ainda
aprofundar tanto cada uma das vocações como o conjunto delas, orientando-se
pelas perguntas que colocamos no fim deste elenco.
Este elenco foi feito seguindo o critério da ordem cronológica,
desde o início do tempo dos patriarcas do século XVIII antes de Cristo até o
fim da época das primeiras comunidades cristã do fim do primeiro século
depois de Cristo. Outros critérios de divisão e seleção são possíveis. Por
exemplo: origem da vocação; função ou missão da vocação no conjunto do Povo de
Deus; problemas enfrentados pela pessoa chamada na execução da sua vocação;
mulheres ou homens, jovens ou velhos; recursos para realizar a vocação; etc.
Tratando-se de um apêndice independente, repetimos nesta lista o
chamado dos apóstolos e algumas outras pessoas, homens e mulheres, já
assinaladas no capítulo “Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão”
Um elenco das pessoas chamadas desde Abraão até o Novo
Testamento
1. Época dos Patriarcas e
Matriarcas: de
Abraão
Chamado para ser pai de um povo, não consegue acreditar na promessa
de Deus. Inicialmente, só consegue crer nos projetos que ele mesmo propõe como
alternativa. Mas após três tentativas frustradas consegue crer e se entrega (Gn
12,1-3;15,1-6;17,15-22;22,1-18)
Sara
Quando chamada, deu risada (Gn 18,12) como seu marido Abraão (Gn
17,17). Risada de incredulidade. Não conseguiu crer no chamado. Pois não
conseguiu crer em si mesma e
Agar
Chamada através de uma ordem de Sara, sua patroa, é por ela
desprezada e excluída; mas Deus continua fiel e a sustenta. A fidelidade de
Agar recebe uma recompensa: ela chega a ter uma experiência profunda do próprio
Deus (Gn 16,1-16; 21,8-21).
Jacó
Chamado para ser Israel, lutou com o anjo (o próprio Deus) a noite
toda, até que fosse abençoado (Gn 32,23-33). Passagem misteriosa que recebeu
muitas interpretações ao longo dos séculos. É um espelho para significar as
lutas que as pessoas travam com Deus e com sua vocação ao longo de suas vidas.
Oferece esperança de vitória.
2. Época do Êxodo:
Moisés
Primeiro sentiu o chamado diante da opressão do seu povo e chegou a
matar um egípcio. Teve medo e fugiu (Ex 2,12-15). Mais amadurecido, é chamado
novamente para libertar o povo. Novamente tem medo e arruma várias desculpas,
mas no fim a vocação é mais forte que a resistência medrosa, e ele acaba
aceitando (Ex 3,11.13; 4,1.10.13).
Miriam
Chamada pelo seu próprio talento e pela necessidade do momento,
convoca as mulheres para celebrar a vitória depois da travessia do mar vermelho
(Ex 15,20). O Cântico de Miriam é um dos textos mais antigos da Bíblia, ao
redor do qual foi se juntando o resto como cera ao redor do pavio (Ex 15,21).
Aarão
Chamado por intermédio de Moisés, seu irmão, para ser porta-voz (Ex
4,14-15; 7,1-2). É da tribo de Levi, tribo sacerdotal. O clã de Aarão consegue
impor-se aos outros clãs da tribo de Levi e obtém a função central no Templo.
Os outros clãs se tornam seus ajudantes (Núm 18,2-3).
Os Setenta
O chamado deles nasce das necessidades concretas da coordenação do
povo. Diante da impossibilidade de assumir sozinho a coordenação da vida do
povo, aconselhado pelo bom senso do seu sogro Jetro, Moisés descentraliza o
poder e chama setenta pessoas para participar na coordenação. O chamado se faz
de acordo com certos critérios para poder servir ao povo (Ex 18,21-22; Núm
11,16).
Josué
Foi o que mais ajudava Moisés. Foi fiel nos momentos difíceis e nas
crises. É desta sua condição de companheiro fiel que nasce o chamado para suceder
a Moisés. Moisés mesmo o apresenta ao povo como seu sucessor e dá a ele, várias
vezes, a ordem: "Sê forte e corajoso!" (Jos 1,6-9).
3. Época dos Juizes:
Debora
A pessoa chamada foi um tal de Baraq, que não teve coragem nem
condições para realizar a vocação e chamou Débora para libertar o povo num
momento difícil da sua história. Débora, juíza e mulher forte, chama outras pessoas
para ajudá-la na tarefa e obtém a vitória (Jz 4,1-10).
Gedeão
Um lavrador bem simples, oprimido pela dominação, sente o chamado,
mas não consegue acreditar nele e pede uma dupla confirmação. Se não fosse a
simplicidade da fé de Gedeão, seria até uma provocação da bondade de Deus. (Jz
6,11-40).
Ana
Uma senhora casada que não pode ter nenê, pois é estéril. No
momento de tristeza, em que derramava sua alma na presença do Senhor, recebe através
de Eli o chamado para ser mãe. Ela responde ao chamado criando o menino e
dedicando-o à missão da vida dele (1 S 1,9-18).
Samuel
Chamado por Deus, não percebe a vocação e precisa da ajuda de uma
pessoa mais velha para orientá-lo. O velho Eli orienta o menino e o ajuda a
percebê-la: "Fala, Senhor, teu servo escuta!" Esta ajuda mútua fez
nascer uma vocação muito importante (1 Sm 3,1-18).
4. Época dos Reis e Profetas:
Saul
Mesmo chamado por aclamação (1S 11,12-15), por unção (1S 10, 1-8) e
por sorteio (1S 10,17-24), não soube manter-se na fidelidade. Devorado pela
inveja e pela vingança persegue Davi e quer matá-lo (1Sm 18,6-9; 19,8-17)
Davi
Chamado por unção (1S 16,1-13) e a convite do povo para ser rei de
Judá (2S 2,1-4) e de Israel (2S 5,1-5). É exaltado na Bíblia como rei fiel. Na
realidade, dentro dos nossos conceitos, não parece ter sido tão fiel. O poder
do rei era absoluto e naquele tempo muitos não percebiam os limites deste poder
(cf. 1Sm 8,10-18).
Salomão
Indicado para ser rei por ser filho de Davi e por conspiração
palaciana (1R 1,28-53). Foi pessoa sábia (1Rs 5,9-14), mas o poder e o luxo da
riqueza o corromperam (1Rs 11,1-13).
Elias
Obedece a um chamado da Palavra de Deus e do povo (1R 21, 17ss) e é
conhecido como o homem sempre disponível para a ação do Espírito (1R 18,12; Ecl
18,1-11).
Eliseu
Recebe o chamado de Elias, pede licença para se despedir dos pais e
vai atrás de Elias, largando tudo (1Rs 19,19-21). As muitas histórias de Eliseu
estão no segundo livro dos Reis.
Jeú
Chamado por Elias (1Rs 19,16) e Eliseu (2Rs 9,1-10) para enfrentar
os abusos do rei Acab, foi mais abusado que o próprio rei e matou sem critério
todos os possíveis concorrentes (2Rs 9,22-37; 10,1-27). Foi condenado pelo
profeta Oséias.
Amós
Percebe o chamado como algo irresistível, que sobe da situação de
opressão e exploração do povo (Am 3,3-8; 7,15).
Ezequias
A conjuntura política internacional favorável levou Ezequias a
promover uma reforma profunda para evitar o desastre sofrida pelo Estado de
Israel (2Rs 18,1-8)
Josias
É chamado a servir o povo como rei através de circunstâncias
políticas particulares que levaram ao assassinato do rei Amon (2R 21,23-24;
22,1). O rei Josias promoveu a reforma que foi chamada a reforma deuteronomista
(2Rs 23,1-27).
Oséias e Gomer
Um drama familiar e uma experiência forte de amor levaram os dois à
descoberta da sua missão no meio do povo (Os 1,1-3,5).
Isaías
Tem uma profunda experiência de Deus, descobre a sua incapacidade,
mas se oferece: "Eis-me aqui!" (Is 6,1-13).
Jeremias
Na hora de perceber o chamado, fica meio gago e se desculpa:
"Sou apenas uma criança!", mas assumiu a vocação (Jer 1,4-10). Sofreu
a vida inteira por causa da vocação assumida (Jr 20,7-18).
Ezequiel
Quando recebe o chamado de ser a sentinela do povo, fica mudo por
vários dias (Ez 3,25-27).
5. Época do exílio e pós exílio:
Neemias
O chamado vem através das exigências da situação do povo e de um
convite do rei da Pérsia. Exerce a sua vocação como funcionário do rei da
Pérsia (Ne 2,1-8).
Esdras
Vê um chamado de Deus na missão que ele recebe do rei da Pérsia para
organizar o povo (Esd 7,11-26).
Rute
Percebe e assume o chamado através da sua solidariedade com Noemi
que ficou viúva sem futuro (Rute 1,15-18).
Jonas
É o profeta que não tem coragem de assumir o chamado, e foge. A
imagem estreita que Jonas tinha de Deus o impediu de perceber sua vocação (Jon
1,3).
Jó
Descobre o chamado na contradição provocada pelo ideologia da época
que dizia: Todo sofrimento é castigo pelo pecado. A consciência dele dizia: “Não
pequei para merecer tanto sofrimento!” Lutou e foi fiel à vocação criticando
uma idéia falsa de Deus até morrer.
Ester
Era uma criança órfã, adotada pelo tio Mardoqueu. Por um destino
não previsto acabou sendo rainha por causa da sua beleza (Est 2,15-17). Chamada
a ser a libertadora do seu povo assume o chamado com risco da própria vida.
(Est 4,12-17).
Judite
Chamada para libertar o povo num momento de extrema angústia (Jt
8,1-36), confia no Deus que é o "Deus dos humildes, socorro dos oprimidos,
protetor dos fracos, abrigo dos abandonados, salvador dos desesperados"
(Jt 9,11).
Sunamitis, a jovem dos Cantares
Envolvida numa intriga e constantemente vigiada pelos irmãos
maiores, ela grita por independência e segue o seu próprio caminho para poder
realizar o ideal do amor (Ct 8,1-14)
Matatias
Percebe e assume o chamado no momento de ser confrontado com a
opressão e a perseguição do povo (1M2,1-28).
Judas Macabeu
É chamado para liderar as batalhas por ser o filho mais corajoso de
Matatias (1Mac 2,66).
6. Época de Jesus:
Zacarias
Não foi capaz de crer no chamado e ficou mudo (Lc 1,11-22).
Isabel
Era estéril, mas acreditou no chamado, concebeu e tornou-se capaz
de reconhecer a presença de Deus em Maria (Lc 1,23-25.41-45).
João Batista
Chamado desde o seio materno (Lc 1,11-17), assume a missão com
coragem (Mc 6,17-29). É o primeiro profeta depois de muitos séculos de silêncio
(Lc 1,59-66; Mt 11,7-15).
José
Chamado a ser o esposo de Maria, rompe com as normas do machismo da
época, e não manda Maria embora (Mt 1,18-25).
Maria
Acostumada a ruminar os fatos (Lc 2,19.51), percebe e acolhe a
Palavra, trazida pelo anjo Gabriel, a ponto de encarná-la em seu seio, em sua
própria vida (Lc 1,26-38).
Apóstolos
Foram chamados para estar com Jesus, para anunciar a palavra e para
combater o poder do mal (Mc 3,13-19). O chamado de cada um dos doze e de
algumas discípulas encontra-se no capítulo VI: “Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão”.
Pedro
Pessoa generosa
e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o
seu coração encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Jesus rezou por
ele (Lc 22,31).
Tiago e João
Dois irmãos. Estavam
dispostos a sofrer com Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos (Lc 9,54). Jesus os
chamou filhos do trovão (Mc 3,17). João
pensava ter o monopólio de Jesus. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40
Filipe
Tinha jeito para
colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático
em resolver os problemas (Jo 6,5-7; 12,20-22). Parecia um pouco ingênuo. Jesus
chegou a perder a paciência com ele: “Filipe, tanto tempo que estou com vocês,
e você ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)
André
Pessoa prática.
Foi ele que encontrou o menino com cinco pães e dois peixes (Jo 6,8-9). É a ele
que Filipe se dirige para resolver o caso dos gregos que queriam ver a Jesus
(Jo 12,20-22), e é André que chama Pedro para encontrar-se com Jesus (Jo
1,40-43).
Tomé
Com teimosia sustentou
sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo
20,24-25). É que o Jesus ressuscitado
Natanael
Era bairrista e
não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46). Mas quando
Jesus o explica, ele se entrega (Jo 1,49). Este Natanael aparece só no
evangelho de João. Alguns o identificam com o Bartolomeu que aparece na lista
do evangelho de Marcos (Mc 3,18).
Mateus
Era um
publicano, pessoa excluída pela religião dos judeus (Mt 9,9). Sabemos pouco da
vida dele. No evangelho de Marcos e de Lucas ele é chamado Levi (Mc 2,14; Lc
5,27). O nome Mateus significa Dom de Deus. Os excluídos são
"mateus" (dom de Deus), para a comunidade.
Simão
Era um zelote
(Mc 3,18). Dele só sabemos o nome e o apelido. Nada mais. Ele era zelote, isto é, fazia parte do movimento
popular que na época se opunha à dominação romana.
Judas
Guardava o
dinheiro do grupo (Jo 12,6; 13,29). Tornou-se o traidor de Jesus (Jo 13,26-27).
Setenta anos depois da traição, no fim do primeiro século, o autor do quarto
evangelho ainda tem raiva dele e o chama de "ladrão" (Jo 12,4-6).
Samaritana
Teve dificuldade em perceber o chamado (Jo 4,7-30), mas tornou-se
uma grande apóstola no meio do seu povo (Jo 4,39-42)
A
moça do perfume
Teve a coragem de quebrar as normas da época e entrou na casa do
fariseu, onde Jesus estava. Banhou os pés dele com lágrimas, enxugou com seus
cabelos e os ungiu com perfume (Lc 7,36-50)
A
mulher Cananeia
Gritou atrás de Jesus pela saúde de sua filha doente e, chamada de
cachorrinho por Jesus, teve a coragem de exigir os seus direitos como
cachorrinho, que era receber as migalhas que caem da mesa dos filhos (Mt
15,21-28).
O jovem rico
Observava todos os mandamentos desde criança, mas chamado para
abandonar tudo que tinha e dá-lo aos pobres afim de poder seguir Jesus de
perto, não teve coragem e voltou atrás (Mc 10,17-31).
Nicodemos
Era membro do
Sinédrio, o Supremo Tribunal da época. Homem importante. Ele aceita a mensagem
de Jesus, mas não tem coragem de manifestá-lo publicamente (Jo 3,1). Junto com
José de Arimatéia cuidou da sepultura de Jesus (Jo 19,39)
Joana e Susana
Joana era a
esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galiléia. As duas faziam
parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus, o serviam com seus bens e
subiam com ele até Jerusalém (Mc 15,40-41; Lc 8,2-3).
Maria Madalena
Era nascida da
cidade de Magdala. Daí o nome Maria Ma(g)dalena.
Jesus a curou de uma doença (Lc 8,2). Ela o seguiu até ao pé da Cruz (Mc
15,40). Depois da páscoa, foi ela que recebeu de Jesus a ordenação de anunciar
aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt 28,10).
7. Época das comunidades dos Primeiros Cristãos:
Matias
Chamado a ser apóstolo por sorteio, após uma reunião dos outros
onze apóstolos (At 1,15-26).
Barnabé
O primeiro a partilhar os seus bens (At 4,36s), É chamado a
enfrentar missões difíceis (At 9,26-27; 11,22.25; 13,2).
Paulo
Foi chamado num momento em que tudo indicava o contrário, pois era
perseguidor (At 9,1-19). O chamado o derruba na estrada (At 9,4); ele fica cego
(At 9,3).
Lídia
Sente o chamado ao ouvir a pregação de Paulo; torna-se a primeira
coordenadora das Comunidades na Europa (At16,14s).
Andrônico e Júnia
São chamados por Paulo de “parentes e companheiros de prisão,
apóstolos importantes que se converteram a Cristo antes de mim” (Rm 16,7)
Febe
Chamada a ser diaconisa, torna-se "irmã" de Paulo e
presta seu serviço a muita gente (Rom 16,1-2)
Timóteo
Preparado pela formação recebida em casa (2Tim 1,5; 3,14), é
chamado a ser companheiro de Paulo (At 16,1-3).
Prisca e Aquila,
Casal amigo de Paulo. Os dois respondem ao chamado combinando as
exigências das comunidades com as possibilidades da sua profissão (At 18,2-3;
Rm 16,3-5)
Uma sugestão para aprofundar
a vocação na Bíblia
Você pode completar a longa lista das pessoas chamadas que ocorrem
na Bíblia, pois no álbum da Família de Deus existem muito mais fotografias. Em
seguida, vale a pena aprofundar o assunto através das seguintes perguntas:
1. Qual a origem da vocação e qual o objetivo, que ela
quer atingir na vida da pessoa chamada?
2. Qual a missão que a pessoa chamada recebe dentro do conjunto do
povo de Deus?
3. Quais os critérios de escolha que Deus usou para chamar a
pessoa?
4. Quais os recursos para realizar a missão?
5. Quais as resistências que a pessoa chamada oferece e por que?
6. Quais os problemas que a pessoa chamada encontra na execução da sua
vocação e como os enfrenta?
7. Vocação pessoal e situação do povo: como estas duas realidades estão
relacionadas entre si na vida da pessoa chamada?
8. Quais as vocações que as mulheres recebem dentro do conjunto do
povo de Deus?
9. Quais os traços do rosto de Deus que transparecem em cada
chamado?
10. Com qual de todas estas vocação você mais se identifica e com
quais menos se identifica? Por que?