LER GÊNESIS
Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino
Esta
parte terá a seguinte seqüência: Primeiro, vamos ler a narrativa da criação, o Manifesto de Resistência, que aponta a
fonte de esperança do povo no cativeiro, a missão de todo ser humano e o
destino último da nossa vida (Gênesis
Em
seguida, vamos ver a História das Cinco
Quedas, que faz o diagnóstico do péssimo estado de saúde da humanidade,
descrevendo a degradação progressiva dos relacionamentos que sustentam a vida
humana, e tem como objetivo levar o povo a fazer um exame de consciência e
descobrir a causa dos males que afligem a vida humana (Gênesis 2,4b a 11,32).
Finalmente,
em terceiro lugar, veremos O Caminho da
Esperança, a história da vocação da Abraão e Sara, que oferece o remédio e
inicia o tratamento; indica como superar o impasse criado pela crise do
cativeiro e mostra a saída para recuperar a benção da vida (Gênesis 12 em
diante).
I
Gênesis
A NARRATIVA DA CRIAÇÃO
Um Manifesto de Resistência
Informações sobre o contexto do povo no cativeiro
A grandiosa celebração do Ano Novo.
Na Babilônia, todos os anos, no mês de Nisã,
começo da primavera, celebravam o mito da criação. A festa durava doze dias.
Para celebrar este evento, fazia-se uma grande procissão em que tomavam parte
todos os habitantes da cidade. A estátua de ouro do deus protetor Marduc ia na
frente, conduzida pelo rei, considerado filho de Marduc. A procissão dirigia-se
ao rio Eufrates onde a estátua era lavada. Em seguida, o próprio rei banhava-se
no rio, pronunciando uma oração diante da estátua do deus Marduc. Na tarde
deste mesmo dia, diante da estátua já colocada de volta em seu templo, lia-se
todo o poema descrevendo a Criação, chamado Enuma
Elish (Quando lá no alto...). O
poema contava o nascimento de Marduc, o nascimento dos outros deuses e o
surgimento dos seres humanos. Neste poema, Marduc aparece como o defensor dos
deuses contra a fera dos Abismos, chamada Tiamat.
Num forte combate, Marduc mata e esquarteja Tiamat. Com seus pedaços ele cria
os astros do céu, as estações do ano, e os seres vivos. Uma parte deste poema
era representada numa encenação pública.
Segundo a tradição dos babilônios, “no
princípio da criação”, Marduc tinha descido nas águas agitadas do abismo para enfrentar
o caos. Estando nas águas, lutou e venceu subjugando o poder inimigo e criando
o mundo. Por isso, todo ano, o rei da Babilônia, filho do deus Marduc, imitava
a ação do pai Marduc. Chegando perto do rio, ele entrava nas águas agitadas e,
assim, diante do povo em festa reunido junto às margens do rio, ele era a
expressão viva da luta vitoriosa da divindade contra o caos ameaçador. Todos o
aclamavam: “Nosso Deus! Nosso Criador!”
No dia seguinte, o rei dirigia as preces de
súplica ao deus Marduc, pedindo perdão, em nome do povo, de todas as faltas
cometidas ao longo do ano que passou. Para fazer este pedido, o rei
despojava-se de todas as insígnias de seu poder, era batido na face e tinha
suas orelhas puxadas pelo sumo-sacerdote, simbolizando o castigo pelas faltas
cometidas. Em seguida fazia-se o sacrifício de um touro branco.
No sétimo dia da festa fazia-se uma grande
procissão comandada pelo rei acompanhado pela estátua de Marduc. Neste dia
todas as pessoas eram aspergidas com água para terem um ano bom e próspero. A
procissão era na principal avenida de Babilônia. Imagens dos monstros vencidos
por Marduc eram arrastadas atrás da estátua do deus. Depois da procissão, as
pessoas saiam cantando e dançando pelas ruas da cidade, celebrando a vitória de
Marduc sobre todas as forças do mal. Os outros deuses também saiam pela cidade,
em carros adornados com seus sacerdotes paramentados. Naquele dia Marduc
recriava o mundo, perdoando os pecados do povo e restabelecendo o curso dos
astros. Neste dia, segundo o poema da Criação, Marduc fazia triunfar a justiça
e protegia o direito do povo. Com sua vitória, Marduc era o deus da justiça.
Nabucodonosor era o instrumento de Marduc para manter a paz e a justiça durante
todo o ano que começava.
O povo exilado diante do esplendor de Marduc.
Os pobres exilados do povo
de Deus assistiam de longe a esta grandiosa celebração do mito da criação que
se repetia todos os anos no dia marcado. Extasiados diante daquele esplendor,
muitos diziam: “Javé nos abandonou!” (Is 49,14; 40,27) Marduc é mais forte!
Deixavam Javé de lado, abandonavam a religião dos pais, assumiam a religião do
império e começavam a venerar Marduc e Ishtar (Vênus), a rainha do céu, uma das
divindades dos seus opressores. Eles justificavam sua atitude dizendo: “Quando
paramos de queimar incenso para a rainha do céu e de derramar vinho em sua
honra, começou a faltar tudo, e nós morremos pela espada e pela fome" (Jr
44,18).
Mas um grupo pequeno,
animado pela nova experiência de Deus Criador, dizia o contrário: “Por que
vocês andam dizendo ‘Javé desconhece o meu caminho e o meu Deus ignora a minha
causa? Javé me abandonou, o Senhor me esqueceu!´ Pode a mãe esquecer do seu
nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? E mesmo que ela
se esqueça, eu não me esquecerei de você. Veja! Eu tatuei você na palma da
minha mão!” (Is 40,2749,15-16).
Foi a partir deste grupo
pequeno que nasceu a narrativa da criação de Gênesis 1 como manifesto de
resistência contra a sedução do mito de Marduc, o deus do império. Em vez de
recitar o poema dos opressores, cujas palavras iniciais era Enuma Elish (“Quando lá no alto...”), eles contavam a história da criação de
outro jeito e diziam: “No Princípio, Deus criou o céu e a terra....”
Eis um resumo da narrativa
da criação que eles contavam para o povo exilado:
Gênesis 1,1: Título do manifesto: No
princípio Deus criou o céu e a terra
Gênesis
1,2: Caos anterior à criação: Três imagens de morte: trevas, águas, deserto
Gênesis
1,3-13: 1ª Fase da Ação Criadora: Deus
cria a infra-estrutura da Casa do Povo:
Gênesis 1,3-5: 1º Dia: Criação da LUZ. Deus
vence as trevas e as submete
Gênesis 1,6-8: 2º Dia: Criação do FIRMAMENTO Deus
vence as águas e as submete
Gênesis
1,9-13: 3º Dia: Criação da
TERRA e do VERDE Deus vence o deserto e o submete
Gênesis 1,14-25: 2ª Fase da Ação Criadora: Deus
cria o acabamento da Casa do Povo
Gênesis
1,14-19: 4º Dia: Criação das
LÂMPADAS : sol, lua e estrelas, para
iluminar e guiar
Gênesis 1,20-23: 5º Dia: Criação dos PÁSSAROS no ar e dos PEIXES no
mar. Deus os abençoou
Gênesis
1,24-25: 6º Dia: Criação dos
ANIMAIS que se movem sobre a terra.
Gênesis 1,26-31: 3ª Fase
da Ação Criadora: Deus cria o ser humano, o morador da
Casa
Gênesis
1,26: Deus
delibera: “Vamos criar o SER HUMANO à nossa imagem e semelhança”.
Gênesis
1,27: Criação
do SER HUMANO: HOMEM e MULHER, à imagem de Deus
Gênesis
1,28-31: Deus abençoa o HOMEM e a MULHER e dá licença para comer
ervas
Gênesis 2,1-4ª: Término
da ação criadora: Deus termina a criação descansando
7º Dia: Deus descansou: abençoou e santificou o 7º dia
Para sentir toda a força
do texto que vamos ler e meditar, procure colocar-se na pele do pessoal que
estava lá no cativeiro, na Babilônia, capital do grande império. Eles se
sentiam como hoje se sentiria o camponês do interior de Minas, levado à força
para viver como varredor de rua no centro de Nova York: outro mundo, outra
terra, outra língua, outra religião, outro jeito de viver, outros valores!
“No princípio, Deus criou o céu e a terra”
Leitura do texto, parte por parte
Gênesis 1,1-2: O caos anterior à ação criadora
A primeira frase “No princípio, Deus criou o
céu e a terra” é o
título do manifesto. Traz o resumo do que vai ser escrito. Deixa bem claro que
tudo que existe, tanto no céu como na terra, tudo é criação de Javé, o Deus do
povo.
Três imagens de morte descrevem a situação do caos. A primeira
imagem, a terra era sem forma e vazia,
sugere um deserto, lugar onde a vida
não é possível. A segunda imagem, as
trevas cobriam o abismo, sugere um oceano escuro e ameaçador coberto de trevas, onde não há luz e onde, por
isso mesmo, a vida não pode emergir. A terceira imagem, o vento de Deus soprava
sobre as águas, sugere uma inundação violenta de águas que cobriam e matavam tudo. (Na língua hebraico se usa a
mesma palavra para vento e espírito.
Para dizer que uma coisa é imensa e forte se dizia: “é uma coisa de Deus”. Por
isso se pode traduzir também: “um vento impetuoso” ou “um terrível vendaval”).
Evocação da situação do cativeiro. As três imagens do caos evocavam a situação
desesperadora do povo no cativeiro. Deserto:
Isaías dizia que o povo exilado era como um tronco ressequido enterrado num
chão deserto (Is 11,1). Trevas: na
terceira lamentação, o povo exilado dizia: “Deus me fez morar nas trevas como
um defunto enterrado há muito tempo!” (Lam 3,2.6). Águas: a mesma lamentação dizia: “As águas me
subiram até a cabeça e eu gritei: ‘Estou perdido!’” (Lm 5,54). Situação de
morte sem saída: assim era para eles o cativeiro. Em cima deste caos do
cativeiro, que parecia condenado a nunca mais receber construção alguma, Deus
vai construir a casa do povo. Lendo o narrativa da criação, você vai assistir
como, lentamente, ao longo de seis dias, surge a nova moradia, nasce um novo
futuro, não só para o povo exilado, mas para a humanidade inteira.
Gênesis 1,3-5: O 1º dia da criação: Deus
vence as trevas e cria a luz
Ação criadora sem luta. Logo no início, aparece a grande e fundamental
diferença entre Javé e Marduc. Marduc cria entrando na água, lutando contra o
caos e despedaçando a fera do abismo. No texto da Bíblia, não há luta nem
enfrentamento. Há apenas uma palavra, animada pelo “Espírito de Deus”, que diz:
"Que exista a luz!" E a luz começa a existir. A palavra de Deus vence as trevas e as
submete. Não há luta. Apenas vitória! Lá onde antes só havia morte e caos, a Palavra de Deus cria a ordem que
gera vida.
Deus separa a luz das trevas. O poder criador de Javé é tão grande, que transforma as trevas da morte
em instrumento de vida. Pois Deus não elimina as
trevas, mas as controla. Reduz a sua extensão e o seu poder. As trevas que
antes ocupavam todo o espaço e todo o tempo, ameaçando a vida, agora servem à
vida e recebem o nome de noite. A noite faz um bem muito
grande, pois permite o descanso. Favorece a recomposição das forças.
A força da Palavra
Criadora de Deus. A Palavra que Deus usou para vencer as trevas e
transformar o caos em cosmo, continua presente na vida dos exilados (Is 40,8).
É a mesma Palavra que eles meditam nas suas reuniões nos sábados e ainda é a
mesma que nós hoje meditamos nos Círculos Bíblicos. Nas nossas reuniões
continuamos o mesmo trabalho criador: transformar o caos em cosmo, a morte em
vida.
Houve uma tarde e uma
manhã: foi o primeiro dia. Este refrão se repete no fim de cada um dos
seis dias da ação criadora (Gn 1,5.8.13.19.23.31). Hoje, nós diríamos: “Houve uma manhã e uma tarde”, porque para nós o dia inicia quando
começa a clarear de manhã cedo. Para eles era o contrário. O dia começava no
fim da tarde, quando aparecia a primeira estrela e começava a escurecer. Por
isso diziam: Houve uma tarde e uma manhã.
Eles seguiam a lógica da criação: primeiro, as trevas; depois, a luz! Por isso,
até hoje, fazemos vigília, ou seja, nas trevas da noite celebramos a esperança
da chegada da luz.
Gênesis 1,6-8: O 2º dia da criação: Deus
vence as águas e cria o universo
A seqüência da ação criadora. A maneira de imaginar as várias etapas da
ação criadora, uma depois da outra, vem da observação diária dos fenômenos da
natureza. Por exemplo, de manhã cedo, antes do sol aparecer no horizonte, já
começa a clarear. A luz parece não depender do sol. Outro exemplo: cavando bem
fundo, você encontra água e, em muitos lugares, a água brota do chão em
nascentes e rios. Andando sempre em frente, em qualquer direção, perto ou
longe, você vai encontrar água. De vez em quando, a água vem até de cima em
forma de chuva. A impressão que se tem é que existe água em baixo, ao redor e
em cima de nós. Tendo presente estes dados da observação diária, entende-se
melhor a seqüência das etapas na descrição da criação. Por exemplo, no primeiro
dia, Deus criou a luz, enquanto o sol só foi criado no quarto dia. A separação
das águas no segundo dia explica como existe água em cima e em baixo de nós. A
separação do seco e do molhado no terceiro dia explica como existe água ao
redor de nós. Este era o jeito de pensar de todos os povos daquele tempo. Eles
não tinham telescópios nem microscópios. O texto de Gênesis usa a cultura comum
da época para comunicar uma verdade muito simples e muito profunda, que vale
até hoje: o mundo é uma manifestação da bondade e da fidelidade de Deus; ele
reflete o poder e o carinho com que Deus protege e acompanha o seu povo
exilado.
O firmamento que separa as águas. No mito da criação da
Babilônia, Marduc enfrenta Tiamat, o abismo ameaçador das águas. Ele luta para
poder estraçalhá-lo e vencê-lo. No texto de Gênesis, uma simples palavra divina
vence as águas ameaçadoras do abismo, criando o firmamento azul que
contemplamos em dia claro de sol. Eles imaginavam o firmamento como um mar de
vidro (Ap 4,6) que, por ordem da Palavra de Deus, foi colocado no meio daquelas
águas do abismo, separando-as em duas partes: as águas de cima e as de baixo. O
firmamento é o teto da casa do povo, onde, no quarto dia, vão ser penduradas as
lâmpadas e as estrelas. É também o espaço aberto para o vôo dos pássaros que
vão ser criados no quinto dia.
E assim se fez. Esta frase é outro refrão (Gn 1,7.9.11.15.24)
para dizer que as coisas são do jeito que Deus as quis. Ninguém, nem Marduc,
nem Nabucodonosor, conseguem impedir a ação criadora da Palavra de Deus. Javé é
mais forte. A mesma convicção de fé se repete em outros lugares da Bíblia (Sl
33(32),6-12). As criaturas são o que Deus quer (cf. Eclo 39,16-18; 43,16-26).
Gênesis 1,9-13: O 3º dia da criação: Deus
vence o deserto e cria o verde
A terra cheia de verde. Depois que Deus juntou as águas debaixo do céu
num único lugar, apareceu o chão seco que ele chamou terra. Ao conjunto das água chamou mar. Em seguida, Deus disse (literalmente): “Que a terra se torne verde de verdura!” E assim se fez! A palavra de Deus venceu o
deserto que gera morte. É a terra verde que vai fornecer o alimento para todos
os seres vivos. Por isso a terra é nossa mãe, pois com o alimenta que produz
gera vida para todos nós.
Bíblia e Ciência. A Bíblia diz que Deus juntou as águas e fez
aparecer o seco, a terra. A ciência dá informações completamente diferentes sobre
a formação da terra e dos mares. Quem tem razão? A ciência tem razão, e a
Bíblia também tem razão, mas cada uma no seu campo. A Bíblia não quer competir
com a ciência. Nem quer dar uma aula de física ou de cosmologia, mas sim
comunicar esperança ao povo oprimido. Não quer ensinar como foi criado o mundo,
mas sim como o mundo criado deve ser visto à luz da fé. É um manifesto de
resistência para o povo encher-se de coragem na realização da sua missão.
Deus viu que era bom. Esta pequena frase é mais um refrão (Gn
1,10.12.18.21.25.31). Todas as coisas são boas, porque são fruto da palavra de
Deus que só faz coisas boas. Elas correspondem ao projeto de Deus e contribuem
para a harmonia do universo.
Gênesis 1,14-19: O 4º dia da Criação: Deus
cria as lâmpadas no céu
Criaturas e não divindades. Os exilados encontram-se na Babilônia, onde o
culto ao Sol e à Lua ocupava um lugar central na vida do
povo. Os astrólogos da Babilônia interpretavam a vontade dos deuses através do
estudo dos astros. Eles atribuíam um valor mágico e divino aos sinais das
estrelas. O planeta Vênus era chamado Rainha do céu (Jr 7,18). Foram eles que
inventaram o horóscopo. Por isso, o texto deixa bem claro que os astros são
criaturas. Não são divindades. São luzeiros no firmamento para separar o dia da
noite. São lâmpadas a serviço do ser humano, nada mais. Ajudam a marcar as
festas, as estações do ano, os dias, as semanas, as noites.
Contra a divinização do sol e da lua. O texto torna a repetir que Deus fez duas
lâmpadas grandes, mas não menciona os nomes destas lâmpadas. É que se tratava
de palavras contaminadas pela religião da Babilônia. Bastava alguém pronunciar
os nomes Sol ou Lua, e o povo já inclinava a cabeça
Gênesis 1,20-23: O 5º dia da criação: Deus cria e abençoa os pássaros e os peixes
Contra a divinização dos animais. O povo de Deus vivia num mundo em que muitos
animais eram considerados sagrados ou divinos. Fabricavam-se estátuas de ídolos
misturando figuras humanas com figuras de animais. Na entrada principal de
Babilônia, havia esculturas imensas de Karibús (Querubins), que eram uma
combinação de leão, touro, águia e ser humano. Isto fazia parte da cultura
religiosa da época. O próprio povo de Deus, no tempo do deserto, teve a
experiência desastrosa do bezerro de ouro, fabricado por iniciativa de Aarão
(Ex 32,4). A tendência de transformar os animais em divindades era freqüente no
antigo Médio Oriente. Por isso, o texto insiste em dizer que, como o sol e a
lua, também os bichos todos são criaturas, dependem de Deus em tudo.
A bênção da vida. Todas as coisas são criadas, mas só a vida
recebe uma bênção. Abençoar é desejar
o bem
para alguém. É o contrário de amaldiçoar.
A vida recebeu de Deus uma bênção, uma bem-dição.
Esta palavra criadora desejando o bem
à vida é mais forte do que a morte que deseja o mal.
Gênesis 1,24-31: O 6º dia da criação: Deus
cria os animais e o ser humano
Criação dos animais. No 5º dia, Deus criou os pássaros e os peixes.
Aqui no 6º dia, ele cria os animais que vivem na terra. Inclui todos os
animais, tantos os domésticos como as feras do campo, tantos os pequenos como
os grandes. Tudo é criatura de Deus. Uma descrição bonita desta riqueza do
mundo animal a revelar a sabedoria divina encontra-se no Salmo 104(103),10-30.
Com a criação dos animais ficou pronta a casa do povo.
Façamos o ser humano à nossa imagem e
semelhança! Chegando o momento da
criação do ser humano, o narrador faz uma parada e muda o modo de falar. Até
agora, ele informava sobre a ação criadora de Deus. Agora, com uma certa
solenidade, ele apresenta o próprio Deus falando: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança! Por este modo
diferente de falar, ele está sugerindo que estamos chegando ao ponto alto da
criação. E nesta sua maneira de falar, ele acentua os seguintes aspectos:
(1)
Afirma a dignidade do ser humano, pois nele existe algo de divino. Ele é feito à imagem e semelhança de Deus. Não são
os animais, nem o rei Nabucodonosor, nem os poderosos que são a imagem de Deus.
Mas sim o ser humano, enquanto humano,
é a imagem de Deus, o representante de Deus no meio da criação.
(2)
Afirma a igualdade entre homem e mulher, ambos são imagem de Deus. Ou melhor,
não é só o homem, nem só a mulher, mas ambos juntos convivendo em harmonia são
imagem de Deus. O livro do Eclesiástico faz o seguinte comentário: “Todas as
coisas existem aos pares, uma diante da outra, e Ele não fez nada incompleto.
Uma coisa completa a bondade da outra, e ninguém se cansa de contemplar a
glória de Deus”. (Eclo 42,24-25).
(3)
Afirma a superioridade do ser humano frente às outras criaturas, pois ele pode dominar sobre todas elas. Este domínio
não significa que ele recebe carta branca para fazer o
que quiser nem se trata de uma dominação que usa a terra como mercadoria ou
como objeto mudo e sem vida. Mas significa que ele deve imitar a maneira como Deus exerce o seu domínio
sobre a criação. Deus domina o universo coordenando tudo numa
harmonia admirável, preservando
a ordem que favorece a vida e mantendo afastado o caos que ameaça tudo de
morte: o caos do assassinato, da vingança, da corrupção, da exploração. O domínio que o ser humano recebe deve promover o crescimento da ordem e
contribuir para o louvor universal ao Criador.
A bênção da vida. Pela segunda vez, aparece
a bênção da vida. É nesta bênção ou bem-dição que está a raiz
da nossa fé na Vida como dom de Deus, fé que foi crescendo lentamente na alma
do povo de Deus, ao longo dos séculos, até desabrochar plenamente na
ressurreição de Jesus. Esta fé é a expressão da convicção de que a vida plena, que vem de Deus e que os
exilados estavam buscando, não pode acabar nunca. Esta esperança já se expressava
na oração do salmo bem antes da ressurreição de Jesus: “Não me abandonarás no
túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura. Tu me ensinarás o caminho da
vida, cheio de alegria em tua presença, e de delícias à tua direita, para
sempre” (Sl 16,10-11).
A relva como alimento. Deus entrega ao ser humano a “relva como
alimento”. Esta licença curiosa deve ser interpretada no contexto violento
daquela época. As matanças de povos inteiros eram feitas em nome das divindades
protetoras das monarquias. O povo que estava no cativeiro carregava na
lembrança o trauma das mortes dos habitantes de Jerusalém por ocasião da sua
destruição por Nabucodonosor, feita em nome da divindade da Babilônia (Lm 2,20;
Jr 39,6-8; 52,9-11). Para Javé, o ideal da vida humana não é a violência, mas
sim a ausência total de derramamento de sangue, como já tinha sido sugerido
pelo profeta Isaías (Is 11,5-9; 65,25). Assim deveria ser a vida na intenção do
Criador. O ser humano foi criado para conviver em paz com os outros seres humanos
e com os animais, as plantas e todo o universo. Este é o objetivo e o ideal do
domínio que recebemos de Deus. Por isso, o ser humano não recebe licença para
comer carne, mas só a relva do campo. A desobediência e a degradação
progressiva da vida fizeram com que a violência entrasse e provocasse o
dilúvio. É só depois do dilúvio, que Deus permite que o ser humana se alimente
também da carne dos animais (Gn 9,13).
Deus viu que tudo era muito bom Terminada
toda a obra da criação, vem a confirmação: “Deus
viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom”. O autor usa um
superlativo para dizer que as coisas são como Deus as tinha imaginado: “Muito
bom!” Nestas palavras está implícito um convite a todos nós: “Por favor! Façam
o possível, para que a criação continue sendo muito boa e não permitam
que a obra do Criador seja degradada pela ignorância, ganância e violência do
ser humano”. Finalizando tudo, o autor afirma: “Houve uma tarde e uma manhã:
foi o sexto dia! Assim foram concluídos o céu e a terra com todo o seu
exército”. Tudo está terminado e concluído.
Tudo era muito bom, sim, mas não perfeito. A Criação foi feito em seis
dias. Na Bíblia, a perfeição é sete. Por
isso, mesmo sendo muito boa, a criação ainda não é perfeita. Existem as
imperfeições que todos conhecemos: desastres naturais, terremotos, tsunamis,
secas, etc. É criatura! Falta o sétimo dia. Somos convocados a colaborar com
Deus para completar a parte que falta.
Gênesis 2,1-4: O 7º dia da criação: Deus
descansou, abençoou e santificou o sétimo dia
Deus descansou no
sétimo dia.
Por duas vezes a narrativa
afirma que, no 7º dia, Deus descansou de todo o seu trabalho como Criador. Esta
insistência no descanso divino sugere que o descanso faz parte da ação
criadora. É no descanso que se alcança o objetivo do trabalho. A finalidade
última da vida humana não é o trabalho, a produção, o resultado ou o lucro, mas
sim o descanso com a consciência tranqüilo de que o trabalho foi bem realizado.
Trabalhamos para viver, e não vivemos para trabalhar.
Criar em seis dias. Por que seis dias de trabalho e um dia de
descanso? No cativeiro, o povo exilado era explorado pelo trabalho escravo. Não
lhes davam descanso. Deviam trabalhar de sol a sol, sem possibilidade de
refletir e de se encontrar, sete dias
Oito obras da criação em seis dias. A insistência na observância do sábado transparece
também na organização das oito obras da criação em seis dias. As oito
obras devem ser realizadas em seis dias, pois o sétimo dia é dia
de descanso, no qual não pode haver mais nenhuma obra. Por isso, tanto no 1º e
no 2º dia, como no 4º e no 5º dia da criação há apenas uma única obra. No 3º e
no 6º dia Deus realiza duas obras. Esta preocupação em terminar a ação criadora
em seis dias é um convite a mais para o povo do cativeiro dedicar o sétimo dia
ao descanso e ao louvor a Deus. Se até Deus descansou no sétimo dia, o povo do
cativeiro também deve descansar um dia por semana.
Deus abençoou e
santificou o sétimo dia. (1) Abençoou: O sétimo dia
recebeu uma bem-dição de Deus. Ele
será fonte de bênção se nele nos lembrarmos de Deus e nos reunirmos para pensar
nas coisas de Deus e celebrar a sua presença no meio de nós. (2) Santificou: Deus não só abençoou o sétimo dia, mas também o santificou. A santidade pertence a Deus
e ela é irradiada nos que dele se aproximam. Quanto mais perto de Deus, mais
santas se tornam as coisas e as pessoas. O sétimo dia é santificado porque fica
mais perto de Deus, pois Deus está no sétimo dia. Ele continua no descanso, na
festa sem fim.
O 7º dia ainda não terminou. No sétimo dia não se repete o refrão dos
outros seis dias: “Houve uma tarde e uma manhã”, porque o sétimo dia ainda não
terminou, nem vai terminar. É o dia do descanso divino que dura eternamente,
até hoje. Também nós, um dia, esperamos entrar neste descanso divino (Hb
4,4.11).
Como entrar no descanso de Deus? No fim, a narrativa da criação deixa uma
pergunta e um desejo no nosso coração: O que devemos fazer e como devemos viver
para que, um dia, possamos entrar também nós neste descanso divino? A resposta
vai ser dada na História das Cinco Quedas
e no Caminho da Esperança de Abraão e
Sara.
II
Gênesis
A HISTÓRIA DAS CINCO QUEDAS
A degradação progressiva da vida
Informações sobre o contexto
1. Linguagem simbólica
A linguagem da História das Cinco
Quedas é simples e popular. É linguagem simbólica de grande profundidade
que provoca e faz pensar. Diante da história do paraíso ou de Caim e Abel não
devo perguntar: “Existiu ou não existiu? É verdade ou mentira?” Estas perguntas
não são boas para se chegar a captar o cerne da mensagem. Quando você se olha
no espelho, você não pergunta: “Aquilo que estou vendo no espelho será que
existe ou não existe? É verdade ou mentira?” Olhando no espelho destas
histórias devo perguntar a mim mesmo: “Será que estou transgredindo a Lei de
Deus como Adão e Eva? Será que estou sendo violento como Caim e Lamec?”
2. Época e lugar de origem
Difícil
saber exatamente em que época e lugar surgiram as histórias tão variadas das
cinco quedas. Trata-se de textos muito antigos, alguns deles bem mais antigos
que a narrativa da criação (Gn
3. Resposta para os problemas e as perguntas do
povo
A maior
parte das informações dadas pela história das cinco quedas (Adão e Eva, Caim e
Abel, Lamec, Dilúvio e Torre de Babel) vem da observação diária da vida de cada
dia. Na sua origem estão as perguntas que o povo se fazia ou que as crianças
colocavam para seus pais: “Pai, se Deus é bom e se nós procuramos ser bons, por
que Deus nos maltrata com tanto sofrimento? Se Deus é o criador de tudo, por
que permite tanta inimizade entre os animais e nós seres humanos: leão,
serpente, lobo, mosquito? Por que uns bichos são perigosos e outros não? Por
que o terreno da nossa roça é tão ruim? Só dá carrapicho e tiririca! Pai, você
se mata trabalhando o ano todo e seu trabalho rende tão pouco! Por que? Por que
Deus não manda a chuva no tempo certo? Se Deus existe, por que ele não aparece?
Se Deus é pai, por que os homens se matam entre si? Por que os outros povos vem
nos explorar e escravizar? Pai, por que depois das chuvas aparece aquele arco
colorido no céu? O que significa?” Para
responder a estas e tantas outras perguntas a respeito dos mistérios da vida,
havia as histórias que se transmitiam nas celebrações e nas reuniões, nos
centros de romaria e nas conversas com o levita e o sacerdote, ou em casa
ouvindo os pais contar para as crianças. Uma delas é a história das cinco
quedas que estragam a vida humana.
Gênesis
Uma comparação () como chave de leitura
Era uma
vez um arquiteto famoso que resolveu construir um grande conjunto de casas para
o povo morar. Por ser uma iniciativa totalmente nova e muito importante para a
vida do povo daquele lugar, mandou fazer uma maquete. Aconteceu que, durante o
longo processo da execução da obra, os engenheiros e os operários não seguiram
em tudo as instruções da maquete. Por isso, na medida em que iam ser
construídas, as casas apresentavam muitos defeitos. Não ficaram como o
arquiteto queria. Para chamar a atenção do povo, ele colocou a maquete na
entrada principal do conjunto habitacional. Assim, todos podiam comparar o
ideal com a situação real e descobrir por que a construção tinha tantos
defeitos. Saberiam como deveria ser e como de fato ficou. O arquiteto queria
que os moradores caíssem em si e resolvessem recomeçar a construção de acordo
com a maquete.
O texto de Gênesis
A história das cinco
quedas é um espelho, onde, de um lado, contemplamos o sonho de Deus para a
humanidade e, de outro lado, as falhas nossas que estão impedindo a realização
do sonho. É um Raio-X que ilumina o sentido da vida. Revela quem somos e qual a
nossa missão. Mostra como e o que devemos fazer para consertar e recriar a vida
de acordo com as instruções do Criador. Eis o resumo da seqüência:
A maquete O
Paraíso Gn 2,4-25 Assim deveria ter ficado, mas não
ficou.
1ª Queda Adão e Eva Gn
2ª Queda Caim e Abel Gn 4,1-16 Ruptura
da fraternidade
3ª Queda Lamec Gn 4,17-24 Vingança e violência
Gn
4ª Queda Dilúvio Gn
Gn
10,1-32 Genealogias:
5ª Queda Torre de Babel Gn 11,1-9 Dominação
e exploração
Gn 11,10-32 Genealogias:
O PARAÍSO
Maquete da vida humana
Gênesis 2,4-25
Gênesis 2,4-7: Deus cria o ser humano
Deus oleiro. Deus cria o ser humano imitando o oleiro que trabalha o barro. O autor
materializou um provérbio popular que dizia: “Como o barro na mão do oleiro, assim é o ser humano na mão de Deus”
(Jr 18,6; Eclo 33,13). Mensagem profunda: nossa vida depende em tudo de Deus,
pois não é o barro que manda no oleiro. É o oleiro que manda no barro e lhe dá
a forma que ele, o oleiro, quer (cf. Rom 9,20-21; Qo 12,7; Is 64,7; Sl
104,29-30). Somos terrenos, feitos de
terra, de barro. Somos filhos e
filhas da terra, nossa mãe. Não somos donos.
Sopro de vida. Deus soprou no barro e o ser humano se tornou um ser vivente. O sopro
divino é fonte de vida. É por ele que, na visão do profeta Ezequiel, os ossos
secos retomam vida (Ez 37,1-14). O salmo 104 diz: “Envias o teu espírito e tudo
é recriado”. Tudo que de vivo existe no mundo é fruto do sopro divino (cf Gn
2,19).
Gênesis 2,8-14: O jardim de Deus
Deus fez um jardim no Éden. Jardim com muito verde e árvores de todas as espécies. Uma delícia
para um povo que vivia cercado de deserto, e um alerta para nós que ameaçamos
transformar o verde em deserto pela poluição do meio ambiente. A imagem deste
jardim faz parte do sonho, da maquete, da utopia. Éden é um lugar imaginário, ideal, no Oriente, como a Terra sem Males dos mitos dos nossos
índios.
As duas árvores no meio do jardim de Deus: a árvore da vida e a
árvore do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida simboliza a Sabedoria que vem de Deus (cf. Prov 3,18; 11,30; 13,12;15,3),
cuja expressão mais perfeita é a lei de Deus, fonte do verdadeiro conhecimento
do bem e do mal. A outra árvore indica a sabedoria que vem dos homens e que tem
a pretensão de oferecer ao povo um outro conhecimento do bem e do mal.
Os quatro rios. O jardim é um oásis bonito de muita água. Um rio sai de Éden (Oriente),
irriga o jardim e em seguida se divide em quatro rios: Fison, Geon, Tigre e
Eufrates. Trata-se dos quatro maiores rios do mundo daquele tempo. Se fosse
hoje, diria: “Daquela nascente nascem quatro rios: Amazonas, Nilo, Mississipi e
Yang-Tse”. Com outras palavras, no jardim que Deus plantou nunca vai faltar
água. É difícil você imaginar uma Boa Notícia mais bonita para aquele povo de
agricultores que vivia na dependência incerta das chuvas e para nós hoje, em
que milhões de pessoas já não têm mais acesso à água potável nas várias partes
do mundo.
Gênesis 2,15-17: A missão do ser humano
Cultivar e guardar o jardim. Criado fora, o ser humano foi
colocado dentro do jardim (Gn 2,8.15)
com a missão de cultivá-lo e guardá-lo. (1) Cultivar e guardar um jardim com
tanta água e tanto verde é missão leve e agradável, pois onde há tanta água
tudo cresce por si. Este era o grande sonho do povo agricultor da Palestina que
devia trabalhar duro para arrancar da terra a sua sobrevivência. (2) O jardim é
de Deus. O ser humano não é o dono do jardim. Ele deve tomar conta e prestar
conta. (3) O Paraíso guardado e cultivado pelo ser humano é a junção da ação
criadora de Deus e do trabalho humano. O ser humano é colaborador de Deus na
obra da criação, na construção e na manutenção do Paraíso.
A proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. A ordem divina tem dois
aspectos: (1) poder comer de tudo, inclusive da árvore da vida; (2) não poder
comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Trata-se das duas alternativas
da mesma ordem divina. A proibição mostra o limite do ser humano. Ele é
criatura e não criador. O ser humano deve escolher a árvore da vida, pois o
verdadeiro conhecimento do bem e do mal que conduz à vida vem da árvore da vida, vem da observância da
lei de Deus. Mas ele é livre. Mesmo proibido, ele pode escolher um outro
caminho para obter o conhecimento do bem e do mal. Depende dele, da sua escolha
entre a sabedoria de Deus e a sabedoria humana, entre a verdade e a mentira,
entre a árvore da vida (Ap 2,7; 22,2) e a árvore do conhecimento do bem e do
mal, entre a vida e a morte.
Comparando o Paraíso com os mitos dos outros povos. Quase todos os povos têm mitos que apresentam
o início da história da humanidade como um tempo ideal de paz e de harmonia, no
qual o povo vê realizados os desejos mais profundos do seu coração. E em todos
eles, de uma ou de outra maneira, algo de errado acontece para atrapalhar o projeto
inicial e fazer a vida na terra ficar cheio de defeitos e males. Como a
história do Paraíso, os mitos também falam de alguma lei ou ordem que o homem
deve observar sob pena de estragar a obra de Deus. Fazem isso não para provocar
fatalismo, mas para despertar a responsabilidade das pessoas e convocá-las a
lutar para que o mundo seja novamente como Deus tinha imaginado. No mito do
Tucumã, por exemplo, os três homens são proibidos de abrir o coco, pois dentro
dele existiam não só a noite, necessária para o descanso, como também todos os
males do mundo. Abrindo sem critério o coco, correriam o risco de trazer os
males para o mundo. Eles não souberam dominar sua curiosidade e, assim,
estragaram a vida.
O MITO DO TUCUMÃ DOS
ÍNDIOS DA REGIÃO AMAZÔNICA PERTO DE ITACOATIARA, AM
Quando Deus criou o mundo, ainda não havia noite. Só havia o dia. Um dia
vinha logo depois do outro. Os homens viviam e trabalhavam o tempo todo, pois
não havia noite para descansar. Aí foram se queixar com o pajé: “Queremos ter
um tempo de descanso”. O pajé respondeu: "Vocês devem subir o rio até à
cabeceira e descer para falar com a Mãe-dágua. Ela dirá o que deve ser
feito". Três homens foram de barco, remaram três dias e chegaram à
cabeceira. Desceram e falaram com a Mãe-dágua. Ela deu a eles um coco tucumã e
disse: "Carreguem com cuidado. Não abram! Não abram! Quando chegarem na
aldeia, entreguem o coco ao pajé e ele saberá o que fazer! Cuidado para não
abrir o coco no caminho!" Eles voltaram remando. No fim do primeiro dia,
ouviram um barulho que vinha de dentro do coco tucumã que estava no fundo do
barco. Pegaram o coco na mão, sacudiram, mas não abriram. No fim do segundo
dia, o barulho era bem maior. A curiosidade também! Mas eles não abriram. No
fim do terceiro dia, o barulho era tão grande que nem podiam conversar. Aí, um
disse: "Vamos abrir!" Os outros resistiram. Mas no fim, o barulho
sendo tanto, acharam que deviam abrir. Bateram com o coco numa pedra, mas o
coco não abriu. Bateram, bateram, mas não adiantava. O coco não queria abrir.
No fim, colocaram o coco em cima de uma grande rocha. Os três carregaram uma
pedra pesada e jogaram
(Narrado por Dom Jorge, bispo de Itacoatiara
AM, num curso do CEBI em Cachoeira do Campo MG, 1992)
Gênesis 2,18-25: Deus transforma o ser humano em Homem e Mulher
Não é bom que o ser humano esteja só. Nós, seres humanos, fomos criados para viver em
comunidade, e não para viver só. Por isso, Deus disse: Vamos fazer para ele um auxiliar que lhe seja semelhante. Assim,
primeiro, criou os animais, pensando que pudessem quebrar a solidão do ser
humano. Mas animal não tira a solidão de gente. A solidão só será quebrada
quando Adão encontrar um outro ser humano, semelhante a ele ou, como diz
literalmente, alguém que possa ficar na
frente dele, igual a ele. Assim, um será auxílio para o outro. Os animais
têm vida e são auxiliares, mas não são seres humanos que possam ficar na frente dele, iguais a ele. O
ser humano é superior aos animais.
Esta sim é osso dos meus ossos, carne da minha carne. Então, Deus faz cair um
torpor sobre o ser humano, tirou dele um osso para construir a mulher. Isto significa
que de um único ser humano Deus fez dois: o Homem
e a Mulher. Deus conduziu a mulher
até o homem e este disse: “Esta sim é
osso dos meus ossos, carne da minha carne”. Naquele tempo, na cerimônia do
casamento, o homem, ao aceitar sua noiva como esposa, devia dizer a seguinte
frase que fazia parte do cerimonial: “Esta
é osso dos meus ossos, carne da minha carne”. Assim, ao ouvir a história do
Paraíso, o povo tirava a conclusão: “É o primeiro casamento! Foi Deus que o
quis assim!” Esta história explica a
misteriosa atração entre os sexos que é mais forte do que a atração entre pais
e filhos: “Por isso, o homem deixa seu
pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornam uma só carne”.
Estavam nus e não se envergonhavam. Nesta afirmação se reflete a experiência de todo ser humano. Chegando
à idade da adolescência, a cultura da época fazia com que tanto o rapaz como a
moça, percebessem a sua nudez e se cobrissem com roupa. Na passagem da infância
para a idade adulta havia uma cerimônia de iniciação que marcava o momento em
que os jovens e as jovens deviam começar a observar todas as normas da vida da
tribo ou da comunidade. Em Israel, era nessa cerimônia que eles recebiam a Lei
de Deus como norma definitiva da sua vida. A partir deste momento começavam a
se alimentar da árvore da vida. Era
também a partir deste mesmo momento que nascia neles o inexplicável desejo de
transgredir a lei e de comer do fruto proibido. Dizendo “estavam nus e não se envergonhavam”, o autor sugere que neles
ainda não havia surgido o desejo de transgredir a Lei de Deus.
Esta alusão à nudez suscita nos leitores a seguinte pergunta: “Será que
os dois vão manter a vida dentro do projeto do Criador? Será que vão seguir as
instruções da maquete?” A resposta a estas indagações vai ser dada na história
das cinco quedas, na qual os leitores vão descobrir suas próprias faltas.
A 1ª Queda
Ruptura com Deus
O início da degradação da vida humana
Gênesis 3,1-24
Gênesis 3,1-7: A provocação da serpente e a queda do ser humano
A serpente era um animal muito astuto Naquele tempo, eles viviam cercados pelos povos
cananeus. A imagem da serpente simbolizava a atração que a religião da
fertilidade destes povos exercia sobre o povo de Deus. Ela atraía tanto os
rapazes como as moças para envolvê-los na prostituição sagrada. Levava o povo
de Deus a abandonar a árvore da vida
para comer da árvore da religião dos cananeus que transformava a fé em magia e
mudava as normas do bem e do mal. Chegava a mandar matar as crianças para
honrar os deuses (1Rs 16,34; 2Rs 16,3; 21,6). A serpente era realmente um animal muito astuto, pois em determinados
momentos da história, levou o povo inteiro a romper a aliança e a abandonar a
Lei de Deus (1Rs 19,10.14).
A tentação mentirosa da serpente. A pergunta da serpente é capciosa: “É
verdade que Deus disse que vocês não podem comer de nenhuma árvore do jardim?” Deus
não tinha falado nada disso. Ele disse que eles podiam comer de todas as
árvores, inclusive da árvore da vida. Só não podiam comer da árvore do
conhecimento do bem e do mal. A tentação sempre exagera a proibição para
despertar com mais força o desejo. A resposta da mulher repete a ordem de Deus
e ela também exagera: “Nós podemos comer
dos frutos das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim,
Deus disse: 'Vocês não comerão dele, nem
o tocarão, do contrário vocês vão morrer'". Nesta resposta se
reflete o ensinamento dos profetas que denunciavam a maldade do sistema dos
reis (1Rs 18,18).
Vocês vão ficar como deuses. A serpente responde: "Morte coisa nenhuma! Mas é que Deus sabe que, no dia em que vocês
comerem o fruto, os olhos de vocês vão se abrir, e vocês se tornarão como
deuses, conhecedores do bem e do mal". Nestas palavras da serpente
transparece a resposta da monarquia às críticas dos profetas. Os reis se
apresentavam ao povo como seres divinos, como filhos de Deus. A palavra do rei
era a fonte do direito e ditava as normas do bem e do mal. Além disso, a
participação na religião da fertilidade através da prostituição sagrada dava às
pessoas a sensação agradável e enganadora de participação na vida divina.
Despertava no ser humano o desejo inato de não aceitar sua condição de criatura
e de criar para si sua própria lei. Queriam ser como deuses.
A queda, o pecado. “Então a mulher viu que a árvore tentava o apetite, era uma delícia para
os olhos e desejável para adquirir discernimento. Pegou o fruto e o comeu;
depois o deu também ao marido que estava com ela, e também ele comeu”. Aqui, todos e todas se reconhecem. Colocados
entre as exigências da Lei de Deus e a tentação sedutora do caminho oposto,
permitimos muitas vezes que a tentação leve vantagem e nos desvie do bom
caminho. São Paulo diz: “Eu não teria conhecido o pecado se não existisse a
lei, nem teria conhecido a cobiça, se a lei não tivesse dito: “Não
cobice!” (Rm 7,7).
A pergunta mais importante. Naquela época, a mentira que afastava o povo
da Lei de Deus e o levava a comer da árvore proibida do conhecimento do bem e
mal era a participação na religião atraente de fertilidade dos cananeus. Qual é
hoje a mentira que nos seduz e nos afasta da Lei de Deus, da árvore da vida?
A percepção da nudez. “Então abriram-se os olhos
dos dois, e eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e
fizeram tangas”. Por
causa desta afirmação sobre a percepção da nudez, alguns estudiosos dizem que a
transgressão dos dois deva ser entendida como pecado de sexo. Mas o significado
é outro. ( ). Mesmo instruídos pela Lei de Deus, os seres humanos não a
observaram e se deixaram levar pela tentação da religião da serpente. Por isso,
chegando no limiar da idade adulta, a nudez perdia sua naturalidade e as
pessoas se cobriam com roupa. Assim, na hora em que a pessoa se confronta
consigo mesma e reconhece a sua transgressão, percebe a sua nudez diante de
Deus e se envergonha. Na hora em que recusa a observar a Lei de Deus, se produz
nela uma mudança no relacionamento consigo mesma, com o próximo e com Deus.
Queria ser como deus, e o que descobre é a sua total e radical dependência do
criador. Percebe que está nu! Percebe que errou.
Gênesis 3,8-13: Mudança no relacionamento com Deus: medo em vez da amizade
Onde está você? O primeiro efeito da transgressão é a mudança no relacionamento da
humanidade com Deus. Antes da transgressão, Deus passeava no jardim à hora da
brisa da tarde, e os dois costumavam aproximar-se dele. Agora, a presença de
Deus lhes causa medo e vergonha, e eles se escondem. Deus sente a falta da
presença do ser humano, quer tê-los perto de si e chama: “Onde está você?”. O homem responde "Ouvi teus passos no
jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi" E Deus pergunta: "E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da
árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?" Na hora de receber a lei com a obrigação de
observá-la, nasce o desejo de transgredi-la e o ser humano começa a ter a
consciência pesada diante de Deus.
A serpente está na origem
dos males da vida do povo. O homem reconhece que
comeu o fruto proibido, mas não assume a culpa. Transfere a responsabilidade
para a mulher. Indiretamente, está dando a culpa ao próprio Deus que lhe tinha
dado a mulher como companheira. Como o homem, também a mulher não assume a
culpa e transfere a responsabilidade para a serpente. A causa última que,
naquele tempo, estava levando o povo a abandonar a Lei de Deus, era a serpente,
a religião do sistema dos reis que desintegrava a vida familiar e tribal. Esta
maneira de investigar e revelar a causa dos males servia como meio para o povo
tomar consciência da perversidade da religião do sistema dos reis que o
afastava de Deus e do projeto de Deus. “Até quando vocês vão mancar das duas
pernas!” (1Rs 18,21).
Gênesis 3,14-19: A sentença
Investigada a culpa, segue
a sentença: primeiro, para a serpente
(Gn 3,14-15); depois, para mulher (Gn 3,16) e, no fim, para o homem (Gn
3,17-19). A situação que vai ser criada pela sentença divina é a situação real
que o povo estava vivendo.
A sentença para a
Serpente: (1) Ela será maldita. Deus disse para a serpente: "Por ter feito isso, você será maldita entre todos os animais
domésticos e entre todas as feras. Você se arrastará sobre o ventre e comerá pó
todos os dias de sua vida” (Gn 3,14). A serpente é um animal
traiçoeiro que rasteja pelo chão. Você não vê nem ouve. Ele se enterra e você,
sem perceber, pisa nela e ela dá o bote para atingi-lo no calcanhar. Veneno de
cobra é mortal. Mordido por ela você não escapa. Morte certa! Esta imagem da
cobra era um símbolo do que estava acontecendo na Palestina: a serpente
traiçoeira da religião da fertilidade estava enterrada o caminho do povo
tentando dar o bote mortal. Por isso, a serpente será maldita por Deus. É a primeira vez que aparece a maldição que vai
querer (
) quebrar a bênção que vinha desde o paraíso.
A sentença para a
Serpente: (2) A mulher lhe esmagará a cabeça. Deus disse: “Eu porei inimizade entre você e a mulher,
entre a descendência de você e os descendentes dela. Estes vão lhe esmagar a
cabeça, e você ferirá o calcanhar deles". (Gn 3,15). Apesar de enganada pela serpente maldita
, a mulher, o povo, tem dentro de si um desejo forte de viver e de fazer viver.
Tem dentro de si a bênção recebida do
Criador que resistirá contra a maldição e a sedução da serpente. A vontade de
observar a Lei de Deus, escrita na maquete da natureza, acabará sendo mais
forte do que a atração exercida pela religião do sistema político da monarquia
e vencerá. Esta sentença divina contra a serpente é fonte de esperança. Na hora
em que a serpente quer dar o bote mortal no calcanhar, o povo renascido lhe
esmagará a cabeça. Será a luta entre a bênção e a maldição, entre a vida e a
morte. A vitória será da bênção da vida. Esta vitória anunciada está descrita
no livro do Apocalipse (Apc 12,1-6).
A sentença para a Mulher. Deus disse: "Multiplicarei
as dores de tuas gravidezes. Na dor darás à luz filhos. Teu desejo te impelirá
ao teu marido, e ele te dominará". A sentença divina descreve a
situação real da mulher naquela cultura. Dominada pelo machismo do marido, a
condição da mulher é esta: perpetuar a raça humana através de repetidas
gravidezes que transformará sua vida numa contínua dor de parto. Dizendo que
esta condição real da mulher é sentença de Deus como castigo pelo pecado, o
autor está afirmando que esta não é a situação ideal que Deus quer para a
mulher. Na maquete do futuro Paraíso, onde a humanidade inteira terá acesso
livre à árvore da vida, não haverá mais morte e, portanto, não haverá mais
necessidade de gravidez nem de dor de parto. Aí todos viverão eternamente.
Permanecerá o amor, mas não haverá mais necessidade de perpetuar a raça através
da procriação. Este é o ideal, o sonho a ser construído. Jesus o confirma (Mt
22,30) e o Apocalipse o descreve como a realização perfeita do casamento entre
noivo e noiva, entre Deus e a humanidade (Ap 21,2.9), onde “não haverá mais
morte, nem luto, nem grito nem dor, nem maldição. E no meio da praça de um lado
e do outro do rio, há árvores da vida que frutificam doze vezes , dando fruto a
cada mês; e suas folhas servem para curar as nações” (Ap 21,4; 22,4.3).
A sentença para o Homem. Deus disse: "Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto
eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você
viver, você dela se alimentará com fadiga. A terra produzirá para você espinhos
e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. Você comerá seu pão com o
suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó,
e ao pó voltará". Aqui também a sentença divina descreve a situação real que o povo
estava vivendo: trabalho duro numa terra seca que só produz espinhos e
carrapichos. Trabalhar a vida inteira com o suor do rosto e no fim morrer.
“Você é pó e ao pó voltará!” E aqui novamente, pelo fato de dizer que esta
situação real é castigo pelo pecado, o texto está dizendo que esta não é a
situação que Deus quer para nós. O ideal é o jardim cheio de água e de árvores
para guardar e tomar conta. Era uma maneira para lembrar ao ser humano a sua
responsabilidade pela realização do Paraíso e para ele não aceitar sua atual
condição com o fatalismo de “Deus quer assim”, mas de lutar para que um dia
haja vida plena para todos. A situação em que hoje se encontra o planeta Terra
deveria suscitar em nós o mesmo senso de responsabilidade.
Gênesis 3,20-24: A proteção de Deus, fonte da esperança
Adão e Eva, Homem e Mulher O homem é chamado Adão, e ele dá à sua mulher o nome de Eva. As palavras
Adão e Eva não são nomes próprios como João e Maria, mas significam homem e mulher. Ou melhor, os dois caracterizam a raça humana. Adão significa terreno,(..) tirado da terra,. Eva
significa a mãe de todos os viventes.
Eles são um espelho do que acontece com todos nós.
Deus castiga mas não
abandona. “Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu”. O homem e a mulher são
expulsos do paraíso. Perdem a possibilidade de viver sempre, pois não têm mais
acesso à árvore da vida. Mas Deus não os abandona. Ele continua cuidando, pois
faz roupa para eles. A misericórdia prevalece sobre o castigo. Há esperança!
O Paraíso continua
existir: Deus disse: "O homem se tornou como um de nós,
conhecedor do bem e do mal. Que ele, agora, não estenda a mão e colha também da
árvore da vida, e coma, e viva para sempre". Então Javé Deus expulsou o
homem do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele expulsou
o homem e colocou diante do jardim de Éden os querubins e a espada chamejante,
para guardar o caminho da árvore da vida”. Nesta palavra final da história do Paraíso
transparece a seguinte mensagem:
1) Deus não destruiu o paraíso. Criado fora do jardim, o homem tinha
sido colocado dentro dele para poder ter acesso à árvore da vida. Mas em vez de
escolher a vida que nasce da observância da Lei de Deus, escolheu seguir a
sabedoria humana da religião da serpente. Por isso perdeu o acesso à árvore da
vida. Ele mesmo se colocou fora. A árvore da vida continua existindo, mas o ser
humano já não tem acesso. A árvore da vida continua aí a despertar a esperança
e a provocar a conversão.
2) Um querubim com espada de fogo na mão fecha a entrada e impede o
acesso. Por si mesmo, o ser humano não conseguirá conquistar a vida para
sempre. Jamais conseguiria pagar o preço do resgate (Sl 49,8). Só mesmo Deus,
ele mesmo, poderá abrir o caminho.
3) Sabendo que não pode viver sempre, o ser humano mantém o desejo de
superar a morte e de viver sempre através da procriação. É depois que foi
expulso do Paraíso e que não tem mais acesso à árvore da vida, que nasce o
primeiro filho (Gn 4,1) e que seguem as genealogias.
4) Na hora de morrer Jesus abriu o acesso à árvore da vida, pois disse
ao ladrão: “Hoje mesmo você estará comigo no paraíso” (Lc 23,43). A morte de
Jesus abriu o acesso à vida através da lei do amor a Deus e ao próximo.
A 2ª Queda
Caim e Abel
A violência que destrói a fraternidade
Gênesis 4,1-16
Os nomes (Gn 4,1-2):
O nome Caim soa forte. A
palavra vem de uma raiz que significa metal, barulho, arma. Muitos traduzem seu
nome por “ferreiro”. Também significa “lança”, uma arma mortal e poderosa. Caim
simboliza o primeiro filho, o primogênito de toda uma família poderosa. Sua
mãe, Eva, faz um discurso quando ele nasce, dizendo que “adquiriu” um filho com
a ajuda de Javé. Temos assim um jogo de palavras entre o nome do filho e o
verbo adquirir. É como associar Caim a conquistador, aquele que adquire, que
consegue. Tudo nele simboliza força e poder. Por isso ele tem o trabalho pesado
na agricultura, tirando do solo o alimento e a vida.
O nome Abel soa fraco. A
palavra significa nuvem, névoas passageiras, o nada, o vazio. Quando Abel nasce
ninguém fala nada. A mãe não faz discurso quando ele nasce, nem faz jogo de
palavras com seu nome. Ele mesmo é identificado como “irmão de Caim”. O irmão
mais fraco vive em função do mais forte. Seu trabalho é leve. Ele vai cuidar de
rebanhos.
No contraste entre o nome
e a origem dos dois irmãos temos uma densa simbologia: o conflito entre Caim e
Abel é o confronto entre o fraco e o forte. Sabemos que a corda sempre rompe do
lado mais fraco
O sacrifício (Gn 4,3-5):
Os dois dirigem ao mesmo
Deus suas preces, orações e sacrifícios. Então, inesperadamente, Deus se agrada
do sacrifício do mais fraco. O texto é claro nesta surpresa: Deus não gostou da
oferta de Caim. Mas gostou da oferta de Abel. A razão o texto não diz, apenas
lembra que Deus faz uma escolha. Deus escolhe e valoriza a oferta do mais
fraco. Para entendermos a mensagem do texto, basta lembrar a atitude de Jesus
valorizando a oferta da viúva no templo de Jerusalém (cf. Mc 12,41-44). Esta
escolha surpreendente de Deus torna Caim enfurecido. Contra Deus e contra seu irmão
Abel. O forte não gosta de ser rejeitado e desprezado. Sua reação é sempre
violenta. A opção de Deus pelos pobres sempre provoca a raiva nos poderosos.
O alerta (Gn 4,6-9):
Mas Deus dirige sua
palavra a Caim. Deus faz um alerta. A atitude de Caim, fechado na sua
interpretação do acontecimento, que fugiu de seu controle, pode desencadear um
gesto violento. Aqui, pela primeira vez na Bíblia, aparece a palavra “pecado”
(4,7). Este “pecado” é o ódio que Caim sente por Abel. É como se o texto
lembrasse que podemos transgredir os mandamentos de Deus, como fizeram o homem
e a mulher no Paraíso. Mas pecado
sempre será uma ação violenta contra o próximo. O alerta de Deus é para que
Caim consiga controlar este ódio. Será que a fúria e o desejo de eliminar Abel ainda
podem ser controlados por Caim? Será que Caim quer controlar sua violência? Não
parece. Ele convida seu irmão Abel para passear no campo e lá o mata. O alerta
de Deus caiu no vazio. A raiva de Caím foi mais forte.
Diante da ausência de
Abel, Javé faz então a Caim a pergunta fundamental e que faz a qualquer um de
nós até hoje: “Onde está o teu irmão?”. Caim responde com uma mentira: “Não
sei!” Tal como aconteceu no paraíso, Caim não assume as responsabilidades de
seu gesto violento.
As conseqüências (Gn 4,10-16):
A palavra que Deus dirige
a Caim deixa claro que o sangue derramado amaldiçoa a terra. Sangue derramado
se junta a sangue derramado lembra o profeta Oséias (Os 4,2). A corrupção e o
abandono dos mandamentos geram este sangue derramado. O castigo dado a Adão se
agrava agora com o castigo dado a Caim.
No seu processo de
arrependimento, Caim se dá conta que seu gesto violento pode se voltar contra
ele próprio. Ele demonstra então que tem medo de que aconteça com ele o mesmo
que ele fez a Abel: “Se eu matei, alguém agora pode me matar”. É como se Caim
só agora se deu conta de que abriu um caminho para resolver as disputas entre
os seres humanos: a violência, o assassinato, o homicídio. Desta forma, ele
teme que alguém faça contra ele a mesma violência que ele dirigiu a Abel. O
forte se sente fraco. A violência se volta contra o violento. Caim agora teme
pela própria vida: o primeiro que me encontrar me matará! (Gn 4,14) O recado do
texto parece ser: o violento perecerá pela violência que ele mesmo causou.
No fim se diz que Caim saiu da presença de Javé, e habitou na terra de Nod, a leste de
Éden (Gn 4,16). Ele foge da presença de Deus. O
matador foi viver afastado de Deus e foi morar longe do Paraíso, isto é, longe
da possibilidade de poder recuperar a vida.
A partir deste texto
podemos entender o ensinamento de Jesus no Sermão do Monte (cf. Mt 5,21-26).
Jesus lembra que uma pessoa não se torna assassina só no momento em que acaba
de matar alguém. O gesto de matar é o fim de um processo que começa quando o
ódio se instala em nosso coração. Começamos a agredir com palavras e com
gestos. Matamos quando eliminamos pessoas de nossas vidas, rompendo
relacionamentos e convivência. Tirar a vida de alguém é apenas o final de um
processo que se instala com a raiva, a frustração, o ódio.
No fim, mais um sinal de
esperança. Deus colocou um sinal protetor em Caim para ele não ser morto por
quem o encontrasse (Gn 4,15). Como no caso da expulsão do paraíso, Deus
continua cuidando. Deus protege o assassino. Pena de morte não resolve.
A 3ª Queda
Lamec
O espiral da violência ameaça a todos
Gênesis 4,17-24
O sentimento de vingança aumenta a violência
A descendência de Caim é
marcada pela violência. Ele é o fundador da primeira cidade. Para o povo da
Bíblia, a cidade sempre é violenta (Cf. Sl 55,10-11). A descendência de Caim se
detém em Lamec e em sua família. O nome Lamec tem um sentido incerto. Alguns
interpretam este nome como “jovem forte”. E Lamec se mostra realmente forte e
orgulhoso. Ele é o primeiro a tomar duas mulheres, criando a poligamia,
contrariando o que Deus disse na Criação: que o homem se unirá à sua mulher e
serão os dois uma só carne. É, portanto, um novo gesto de poder, rompendo as
relações estabelecidas por Deus no paraíso. Os filhos de Lamec simbolizam os
que trabalham com metais, os músicos e os pastores nômades.
Lamec entoa um cântico em
que louva sua própria força. Ele dirige este cântico às suas duas mulheres Ada
e Sela (Gn 4,23-24). Lamec se gaba dizendo que não tolerará qualquer afronta:
por um arranhão que sofra, ele matará o agressor. Se receber uma ferida que
deixar uma cicatriz ele matará o agressor. Lamec não leva desaforo para casa.
Ele se vangloria de sua força e de sua macheza. Não precisa da proteção de
ninguém. Nem de Deus. Ele é o fortão cuja vingança valerá setenta vezes sete a
vingança que Caim poderia ter sofrido. Com Lamec não tem conversa. Tem briga!
A violência gerada por
Caim encontra seu resultado
Sem dúvida Jesus conhece
esta passagem quando lembra a Pedro que devemos ser o contrário de Lamec:
perdoar não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete (cf. Mt 18,21-22).
Genealogias desde Adão até Noé
Gênesis
Genealogias são listas de
nomes de pessoas de uma mesma família, de geração
Estas listas foram
elaboradas durante o Exílio na Babilônia. Era para mostrar aos opressores que
Israel tinha uma história tão antiga quanto a dos orgulhosos babilônicos que
consideravam sua cidade como o centro do mundo e podiam contar histórias de
antepassados com mais de 4000 anos. Para mostrar esta antiguidade, o texto
bíblico estabelece uma vida bastante longa para uma série de nomes que eles
conheciam. Nesta primeira lista, a vida mais curta dura 777 anos (Gn 5,31). A
maioria chega a mais de 900 anos. O mais velho da lista, Matusalém, viveu 969
anos. A perfeição aparece com a figura de Enoc. Ele viveu exatos 365 anos, ou
seja o tempo que dura um ano contando os dias. Durante sua vida ele andou com
Deus (Gn 5,24). Depois ele foi arrebatado e desapareceu. Por ter acontecido
isto com ele, Enoc acabou sendo uma figura importante nos livros apocalípticos.
No final destas sucessivas
gerações surge a figura de Noé (Gn 5,32). Noé encontrou graça diante de Deus
(Gn 6,8) e viveu uma vida íntegra diante de toda a corrupção em que estava
mergulhada a descendência de Adão. Por isso mesmo, Noé acabou se tornando o
herói que vai salvar a humanidade. Ele aparece como um novo Adão.
A 4ª Queda
O Dilúvio
A corrupção humana desintegra a ordem da
Criação
Gênesis
Pelo tamanho do texto
percebemos a importância da narrativa do dilúvio dentro de Gn
A figura de Noé aparece
como herói no livro do profeta Ezequiel (Ez 14,14). É uma figura que não
pertence unicamente ao povo de Deus mas fazia parte de narrativas dos povos
vizinhos que também contavam sobre a grande enchente onde apenas uma família se
salvou por ter construído um grande barco. Vamos ver a narrativa por partes:
Gn 6,1-8: A corrupção generalizada
Os seres humanos se
multiplicam sobre a terra. O texto fala de uma estranha mistura entre os filhos
de Deus, isto é, os exilados, membros do povo de Deus, e as filhas dos homens,
mulheres da Babilônia. Sinal de que a mistura de exilados com gente da
Babilônia está acontecendo. O povo corre o risco de ser tragado pela grande
cidade e desaparecer. Javé estabelece então um limite para a vida humana em
cento e vinte anos (10 x 12) (Gn 6,3).
Assim como cresce a
população, cresce também a maldade. Os projetos do coração humano sempre trazem
a marca da maldade. O texto diz então que Deus se arrependeu de ter criado o
ser humano. O ser humano não pensa em Deus ou no seu projeto de justiça. Busca
realizar apenas seus projetos pessoais de maldade. Mas no meio desta humanidade
corrompida, alguém consegue manter a fidelidade ao projeto de Deus. Esta pessoa
é Noé. Por levar uma vida justa, Noé encontrou graça aos olhos de Deus.
Gn
Começa então a narrativa
sobre Noé. Ele é apresentado como um homem bom e justo, íntegro e que andava
com Deus. Fala de sua família e de seus filhos preservando a justiça diante de
uma terra totalmente corrompida. Querendo acabar com a humanidade mas preservar
a vida desta família justa, Deus fala a Noé para construir um grande barco com
espaço bastante para salvar não apenas a família de Noé, mas também os animais.
Por que Deus salva os animais e não os seres humanos? O recado do texto parece
claro: ao salvar os animais Deus procura salvar a harmonia global da criação.
Existe uma interdependência entre todos os seres vivos, homens e animais.
Deus preserva Noé porque
quer estabelecer com a família dele uma aliança (Gn 6,18). É a primeira vez que
surge esta afirmação: Deus quer
estabelecer aliança com pessoas que se preservam da corrupção e vivem os
mandamentos. Não apenas com um único povo, mas com a Humanidade toda,
simbolizada aqui na família de Noé.
Quando a narrativa parece
acabar em Gn 6,22, surge uma cicatriz. O que está em Gn 7,1-5 é um acréscimo
feito pelos sacerdotes da época do Exílio, mandando preservar não apenas um
casal de animais, mas sete pares de animais puros e um casal de animais
impuros.
Gn 7,6-24: O retorno ao caos primitivo
Depois que Noé obedeceu a
todas as instruções que Deus lhe deu, começou a chover forte. Abriram-se as
comportas do céu e as águas superiores caem sobre a terra, enchendo tudo.
Choveu durante quarenta dias e quarenta noites. As águas subiram e a arca de
Noé começa a navegar no oceano formado pela chuva torrencial. Como a chuva não
parava, mesmo as montanhas mais altas ficaram cobertas de água. Desta forma, pereceram
todos os seres vivos sobre a face da terra. Apenas Noé, sua família e os
animais dentro do barco se salvaram.
Mesmo quando parou de
chover, as águas cobriram a terra por mais cento e cinqüenta dias (Gn 7,24).
Foi o fim da primeira criação! A primeira criação acaba por causa da corrupção
e da maldade humana. A corrupção humana coloca em perigo a criação de Deus (Os
4,1-3).
Gn
Todas as comportas do céu
se fecham e a chuva para. Dentro da arca, Noé espera um sinal de que as águas
baixaram para ele poder sair do barco. Sopra novamente um sopro de Deus e as
águas baixam. O barco encalha então no topo de uma alta montanha.
Para ter a garantia de que
as águas baixaram, Noé solta um corvo que volta por não encontrar pouso (Gn
8,6). Depois de um tempo, ele solta uma pomba que volta sem nada. Mais um tempo
depois, ele solta novamente a pomba, que volta com um ramo verde de oliveira no
bico. É o sinal que Noé estava esperando. O verde voltou. Agora, seres humanos
e animais podem viver. As águas tinham baixado e a vida voltava sobre a terra.
Ele saiu do barco com sua família e os animais. Noé então recebe a mesma bênção
que Adão e Eva tinham recebido de Deus: encham a terra, sejam fecundos e se
multipliquem (cf. Gn 1,28) A Criação começa novamente.
O relacionamento novo
entre Deus e a Humanidade se concretiza numa aliança (Gn 8,20-22). Desta vez
Noé toma a iniciativa e faz um altar para Deus. Ao fazer um sacrifício, este
ato de fé é bem recebido por Deus que decide nunca mais amaldiçoar a terra por
causa da maldade humana e de seus projetos arrogantes. Deus estabelece então o
ritmo da Natureza que nunca mais acabará. Sempre haverá semeadura e colheita,
frio e calor, inverno e verão, dia e noite. E este ritmo vale para todos, bons
e maus, justos e injustos. E o ser humano nunca conseguirá alterar, por mais
que queira ser igual a Deus (cf. Jr 31,35-37; 33,19-21; 33.25-26).
Para tentar coibir a
violência humana, Deus permite que o ser humano coma carne, entregando a ele o
domínio sobre os animais assim como já havia feito com os vegetais na primeira
criação. O ser humano apenas não pode comer o sangue dos animais já que o
sangue é a vida, e a vida de qualquer animal pertence a Deus. E mais uma vez
Deus tenta controlar a violência do ser humano proibindo o derramamento de
sangue.
Gn 9,8-17: O sinal da Aliança com a humanidade
Deus estabelece uma
aliança com a humanidade, fazendo um pacto com Noé e sua família. Mas esta
aliança é também com todos os animais que se salvaram do desastre: tudo o que
existe nunca mais será destruído pelas águas de um dilúvio. Ou seja, quem
controla as águas é o próprio Deus e ele nunca permitirá que estas águas
descontroladas devastem a terra novamente. Para o povo do cativeiro esta
promessa de Deus tinha um significado todo especial. Veja como Deus se dirige
ao povo exilado: “Como no tempo de Noé, agora faço a mesma
coisa: jurei que as águas do dilúvio nunca mais iriam cobrir a terra; da mesma
forma, agora eu juro que não deixarei minha ira se inflamar contra você e que
nunca mais vou castigá-la. Mesmo que os montes se retirem e as colinas vacilem,
meu amor nunca vai se afastar de você, minha aliança de paz não vacilará, diz
Javé, que se compadece de você” (Is 54,9-10).
O sinal desta aliança
entre Deus e a Humanidade é o arco-íris. Desta forma, cada vez que vier uma
tempestade e surgir o arco-íris, pois Deus vai se lembrar de sua aliança com
Noé e, por isso, o povo pode ficar tranqüilo, pois não haverá nenhuma
devastação por um dilúvio. Esta aliança é com todos os seres vivos. Deus não se
preocupa unicamente com os seres humanos, mas com toda forma de vida que existe
sobre a terra. O ser humano deve se integrar na obra maior de Deus que é a
Criação toda! Fica assim um alerta contra a transgressão desta aliança entre
Deus, a Humanidade e a Natureza. Como não cansa de recordar o profeta Oséias, é
a maldade humana que causa a degradação do ambiente, colocando em risco toda a
Criação de Deus, atingindo os animais que são inocentes (cf. Os 4,1-3).
Gn 9,18-29: O ser humano é ruim mesmo!
Mas a família de Noé não
consegue viver esta aliança na nova criação. Dentre os filhos de Noé, Cam não
consegue manter a integridade pedida por Deus. Ele ridiculariza seu pai que
tinha bebido demais e ficou nu dentro da tenda. Os outros dois irmãos souberam
manter e respeitar a dignidade de Noé. Desta forma, Noé abençoa seus dois
filhos íntegros e amaldiçoa seu filho
zombador e desrespeitoso. Novamente surge a maldição
sobre a terra. Vai começar tudo de novo! Parece que o ser humano não consegue
viver na comunhão com Deus e que a maldade humana não pode ser controlada pelo
próprio ser humano. Cresce a maldição que se espalha na humanidade tentando
neutralizar e aniquilar a bênção que a vida recebeu no dia da sua criação.
Genealogias desde dilúvio até a torre de Babel.
As diferentes famílias dos povos
Gênesis 10,1-32
Esta lista genealógica
busca dar uma visão geral da geografia da época. Por trás de cada nome de
pessoa temos na verdade um povo vizinho de Israel. Todos os povos, diz a
Bíblia, descendem de um dos três filhos de Noé. Já vimos que a descendência de
Cam não foi abençoada. Por isso mesmo, todos os descendentes de Cam são
mostrados como inimigos do povo de Israel.
Vemos também que não se
fala mais da idade destes personagens. É que os povos que eles representam
continuam existindo! As informações dentro do texto querem mostrar como os
povos foram se espalhando, todos ainda meio aparentados e falando a mesma
língua.
Numa visão geral, podemos
dizer que os descendentes de Jafé são os que habitam as atuais ilhas gregas, na
Europa. Os descendentes de Cam são Etiópia, Egito e os povos cananeus que
habitavam a Palestina antes da chegada dos israelitas. Existem mais detalhes
nesta lista, já que são povos mais conhecidos, com informações comuns como a
lembrança de Nemrod, o valente caçador. Nesta lista é importante notar os povos
inimigos: Babel (Babilônia) é apresentada como descendente do amaldiçoado Cam.
O mesmo vale para Assur, pátria dos violentos assírios e Cáftor, pátria dos rivais
filisteus. As cidades amaldiçoadas de Sodoma e Gomorra também estão nesta lista
dos descendentes de Cam.
Os descendentes de Sem são
os israelitas e seus parentes mais próximos. A descendência de Sem começa nesta
lista de maneira muito resumida, mas será ampliada depois do episódio da torre
de Babel.
A 5ª Queda
A Torre de Babel
Deus põe um limite à arrogância humana
Gênesis 11,1-9
Durante
muito tempo, a maior cidade da Antiguidade foi Babel ou Babilônia. Babel
significa “Portal dos deuses”. A cidade tinha construções imponentes. Seus
jardins suspensos eram considerados uma das maravilhas do mundo antigo. A maior
construção em Babilônia era uma torre construída no centro da cidade, sobre um
templo muito antigo. Na época do Exílio da Babilônia, os exilados contemplavam
esta torre, chamada de Etemenanki,
nome que significa “O alicerce do céu e da terra”. O rei Nabucodonosor levou 43
anos para construir, num cubo perfeito de
Olhando a grandeza desta
torre, entendemos o texto sobre a Torre de Babel em Gn
Então Deus decide descer
para ver a cidade e a torre que os homens estão construindo. Parece que não
aprenderam nada com o dilúvio. Voltaram a ser os seres humanos de antes.
Lançam-se em empreendimentos imperiais, querendo dominar e conquistar.
Continuam querendo chegar ao céu, o lugar de Deus. A grande tentação de ser
igual a Deus sempre volta nos empreendimentos humanos. Começou em nível pessoal
com a pretensão de Adão e Eva e aqui alcança o nível de dominação universal.
Todos os que se lançam na construção da torre “falam a mesma língua”, ou seja,
todos estão unidos no mesmo projeto de conquista e de dominação.
Javé então resolve
confundir as línguas para que um não entenda a língua do outro. Diferentes
línguas, diferentes projetos. Agora os seres humanos não se entendem mais. Com
esta confusão, os humanos se espalham pela terra, cada qual vivendo com os de
sua língua, unidos em seus projetos menores. Mas volta e meia algum destes
povos cai na tentação de dominar, conquistar e destruir os outros, lançando-se
na construção de uma torre que os torne famosos.
Genealogias desde a torre de Babel até Abraão e
Sara
As origens do povo de Israel
Gênesis 11,10-32
Temos aqui a lista
detalhada dos descendentes de Sem. Esta lista mostra uma série de nomes dos
antepassados do povo de Israel. Percebemos que a idade destes personagens vai
diminuindo gradativamente. A vida vai de 600 anos até 148 anos. Já não se vive
mais como antigamente. Aos poucos, a idade humana vai se adaptando à vida
normal de uma pessoa. Sinal de que estão chegando no tempo presente.
O importante nesta lista é
situar o povo de Israel na história da humanidade. Depois de apresentar a
descendência de Adão e a descendência de Noé, a lista apresenta agora os
antepassados diretos de Abraão. As figuras de Nacor e de Taré simbolizam as
origens históricas do povo de Deus. Apresentam os detalhes sobre estes
personagens, vivendo em “Ur dos caldeus”. Esta informação permite dizer que
esta genealogia foi feita na época dos exilados na Babilônia, habitada então
pelos povos caldeus cujo rei era Nabucodonosor. Sinal de que os exilados se
identificam com o drama de Tare e de seus familiares, prontos para saírem de Ur
em direção à futura terra prometida. Vemos também que Abrão casa com Sarai
ainda em Ur dos caldeus. Foi Taré, o pai de Abraão, quem tomou a decisão de
tirar sua família de Ur dos caldeus e levá-los em direção à terra de Canaã (Gn
11,31). Eles chegam até Harã, terra dos antepassados do povo de Israel. Na
profissão de fé lembrada no livro do Deuteronômio, o povo ainda se identifica
com Harã. Por isso se apresentam diante de Deus dizendo: “Meu pai era um arameu
errante” (Dt 26,5). Taré, o pai de Abraão, morre em Harã, longe da terra
prometida, mas não mais em Ur dos exilados. Tudo está preparado para Abraão
assumir sua missão de recuperar a bênção da vida em favor da Humanidade.
Sinais de Esperança
Chegando ao fim da História das Cinco Quedas, surge uma
nova pergunta: “Qual o futuro da humanidade? Existe futuro?” Nas quedas
anteriores houve castigo da parte de Deus, mas a misericórdia era mais forte e
se manifestava de várias maneiras: fez roupa para o homem e a mulher expulsos
do paraíso (Gn 3,21);, fez um sinal protetor em Caim, para que não fosse morto
por motivo de vingança (Gn 4,15); salvou Noé e sua família das águas, para que
a humanidade pudesse continuar e ter um futuro (Gn 6,8.18). De que maneira se
manifestará agora a misericórdia divina, pois a humanidade inteira está
dividida e dispersa? A misericórdia se manifesta no chamado de Abraão e Sara.
Será através deles que todas as famílias da terra serão abençoadas (Gn 12,3).
Na história se Abraão e Sara se abre para toda a humanidade o Caminho da Esperança em direção à recuperação da bênção da vida.
III
Gênesis 12,1ss
ABRAÃO E SARA
O Caminho da Esperança
Gênesis
Para o povo do cativeiro foi muito importante o processo de releitura
das histórias do passado para poder redescobrir os apelos de Deus na realidade
dolorosa do exílio. Uma das histórias que voltou com força durante o cativeiro
foi a de Abraão e Sara. Foi na história deste casal que o povo exilado
encontrou a chave para desbloquear o impasse criado pelo cativeiro. O caminho
da saída que eles encontraram está expressa neste convite dos discípulos e
discípulas de Isaías para o povo do cativeiro:
“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus! Olhem
para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de onde foram
extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, sua mãe. Quando os chamei
eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)
Este convite traz o modelo que vai orientar a caminhada do povo de Deus
daqui para a frente. Ele se dirige a pessoas que procuravam a saída do impasse
através da busca simultânea de Deus
e da Justiça: “Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus!”
A busca da justiça tem a ver com a observância da Lei de Deus, cujo
resultado é a convivência humana mais justa. A procura de Deus tem a ver com o
contato permanente com Deus e com a promessa que ele fez de estar sempre
conosco (Is 49,14-16; Ex 3,12). As duas buscas, tanto da justiça como de Deus,
são como os dois lados da mesma medalha. Buscar Deus sem buscar a justiça leva
a encontrar um ídolo, e não ao Deus vivo que tirou o povo do Egito. Buscar a
justiça ou a observância da Lei sem levar
Como realizar esta dupla busca de Deus e da justiça? O convite dos discípulos de Isaías responde apontando para o exemplo de Abraão e Sara. Os dois ensinam como fazer a busca simultânea de Deus e da justiça, pois sendo poucos e fracos como o próprio povo no cativeiro, eles conseguiram a bênção de Deus e se multiplicaram.
Como foi que os discípulos e as discípulas de Isaías chegaram a
descobrir esta resposta? Como descobriram este remédio para poder recuperar a
bênção da vida? Foi através do longo e doloroso aprendizado vivido no
cativeiro. Na primeira parte, já vimos alguns aspectos deste aprendizado. Agora
vamos ver de perto como descobriram na história de Abraão e Sara o Caminho da Esperança e em que consiste
este Caminho da Esperança.
O impasse criado pelo cativeiro: a dolorosa
experiência dos limites da observância
No êxodo foi concluída a aliança entre Deus e o povo (Ex
A experiência foi muito dolorosa. Enganado pela ideologia da monarquia e
desviado pela própria fraqueza, o povo não deu conta de observar os
Mandamentos. Diz o salmo: “Por quarenta anos aquela geração me desgostou. Então
eu disse: É um povo de coração transviado que não reconhece os meus caminhos”
(Sl 95,10). A transgressão da Lei de Deus trouxe consigo a quebra da aliança, a
perda da liberdade e a desarticulação progressiva da convivência, tanto
familiar como social.
No século VII aC, época do rei Josias, ainda tentaram uma reforma num último
esforço para levar o povo de volta à observância da lei e, assim, evitar a
desintegração total. Esta reforma, chamada deuteronomista, colocava o povo
diante da escolha: bênção ou maldição, vida ou morte. É como se dissesse:
“Agora vai depender só de vocês! Se observarem a Lei, terão a bênção, prometida
por Deus a Abraão e Sara. Se não observarem,
terão a maldição” (cf. Dt 28,1-3. 15-16), pois “os que Ele abençoar possuirão a
terra, e os que Ele amaldiçoar serão excluídos” (Sl 37,22).
O apelo da reforma não adiantou. Os Mandamentos não foram observadas, o
cupim da falsa imagem de Deus esvaziou a fé por dentro, e a maldição anunciada
caiu sobre o povo. Tudo foi destruído pelo exército do rei da Babilônia. As
terríveis ameaças de maldição e de exclusão, descritas nos livros do
Deuteronômio (Dt 28,15-46) e do Levítico (Lv 26,14-40), se realizaram. Para a
maioria, o cativeiro era o resultado evidente e fatal da não observância da lei
(Lm 1,8.14.18; 3,42; 4,13; 5,7). Era a prova trágica de que eles tinham escolhido
a morte e não a vida. O povo se sentia como amaldiçoado e excluído pelo próprio
Deus. “Javé nos abandonou!” (Is 49,14) A morte venceu a vida. “Acabou-se minha
esperança que vinha de Javé” (Lm 3,18). Fracassou a Aliança! Copo quebrado em
mil pedaços não tem conserto! A maioria largou tudo e adotou a religião do
império, cujo deus Marduc parecia mais forte.
Uma reforma que só insiste na observância da Lei, na busca da justiça,
nasce de uma raiz falsa, pois desconhece a misericórdia de Deus, a busca de
Deus. Na hora do fracasso da aliança (que de fato ocorreu), tal reforma não
oferece nenhuma esperança de se poder refazer a amizade com Deus. Em vez de
levar à justiça, leva ao desespero. Assim, a lei que, no êxodo, tinha sido dada
para ajudar o povo a conquistar a liberdade e a justiça, tornou-se na realidade
o instrumento da sua condenação. O tiro saiu pela culatra. Este era o impasse.
Qual a saída?
A redescoberta da promessa, da gratuidade, da
esperança
Existe saída? Jeremias responde: “Existe sim!” Apesar do desespero geral
do cativeiro, ele dizia: “Temos motivo de esperança, pois o sol vai nascer
amanhã!” A certeza do nascer do sol não depende da observância da lei, mas está
impressa na lógica da criação. É pura gratuidade, expressão do bem-querer do Deus
Criador. É promessa de proteção que não falha. Nossa fraqueza pode levar-nos a
romper com Deus, mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da
seqüência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração e diz: “Como é certo
que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é
certo que não rejeitarei a descendência de Javé e de meu servo Davi. Quando
essas leis falharem diante de mim - oráculo de Javé - então o povo de Israel
também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jr 33,25-26;
31,36).
Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os olhos e abriu um novo
horizonte. “Deus nos amou primeiro!”, dirá São João mais tarde (1Jo 4,19). A
certeza da presença amorosa de Deus para além do fracasso da observância
provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza que nos envolve e da
qual depende toda a nossa vida: as chuvas, as plantas, as fases da lua, o sol,
as estações do ano, as sementes, etc. Tudo tornou-se sinal da presença gratuita
de Deus.
Assim, a partir do impasse do cativeiro a busca simultânea de Deus e da
justiça, da gratuidade e da observância, tomou um rumo mais profundo, menos
dependente dos sinais (sacramentos) tradicionais do Templo, da monarquia, da
posse da terra, e mais ligado aos sinais (sacramentos) de Deus na natureza.
Criou-se uma interferência mútua: de um lado, Javé, o Deus libertador que no
êxodo entregou a Lei ao povo e concluiu com ele uma aliança, começa a ser
experimentado como o Deus Criador do Universo; de outro lado, o Deus Criador do
Universo vai tomando o rosto de Javé, o Deus libertador e familiar do êxodo.
História e Criação se aproximam. Nos dois transparecem os traços do rosto de
Javé, o Deus do povo, Deus libertador e criador, Deus Pai, Mãe, Marido e Irmão mais velho. Esta simbiose de Deus criador
e Deus libertador está na raiz da busca simultânea de Deus e da Justiça.
Assim, aos poucos, ao lado da atenção dada às dez palavras divinas que
estão na origem da Aliança, o povo começa a dar maior atenção às palavras divinas
que estão na origem das criaturas. Ele descobre que lá também existem dez
palavras. São as Dez Palavras ou os Dez Mandamentos da Criação. O autor que fez
a redação final da narrativa da Criação (Gn 1,1-2,4ª) teve a preocupação em
descrever toda a ação criadora de Deus por meio de exatamente Dez Palavras. Na
narrativa aparece dez vezes a expressão “e Deus disse”:
|
1. Gn 1,3 E Deus disse: haja
luz 2. Gn 1,6 E Deus disse: haja
um firmamento 3. Gn 1,9 E Deus disse: as
águas se juntem e apareça o continente 4. Gn 1,11 E Deus disse: a terra
se torne verde de verdura 5. Gn 1,14 E Deus disse: haja
luzeiros 6. Gn 1,20 E Deus disse: as
águas produzam seres vivos 7. Gn 1,24 E Deus disse: que a
terra produza seres vivos 8. Gn 1,26 E Deus disse: façamos
o ser humano 9. Gn 1,28 E Deus disse: sejam
fecundos 10. Gn 1,29 E
Deus disse: dou as ervas para vocês comer. |
E
Deus disse ~yhiªl{a/ rm,aYOæw: |
A Lei de Deus entregue ao
povo no Monte Sinai tem no seu centro as dez palavras divinas da aliança. Da
mesma maneira, a narrativa da Criação tem no seu centro dez palavras divinas
(Gn 1,3.6.9.11.14.20.24.26.28.29). Assim como fez para o seu povo, Deus fez
para as suas criaturas: fixou para elas
“uma lei que jamais passará” (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou, e dez vezes as
coisas começaram a existir. Falou: Luz!, e
a luz começou a existir. Falou: Terra!,
e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas começaram o seu
percurso no firmamento. “Ele diz e a
coisa acontece, ele ordena e ela se afirma” (Sl 33,9). A harmonia do cosmo
que vence a ameaça do caos é fruto da obediência das criaturas ao Decálogo da
Criação.
O povo não observou a Lei da Aliança. Por isso veio a desordem do
cativeiro. As criaturas, ao contrário, sempre observam a Lei da Criação. Por
isso existe a ordem do cosmo. No Pai-Nosso
Jesus dirá: “Seja feita a vossa vontade na terra assim como é feita no céu”.
Jesus pede que nós possamos observar a Lei da Aliança com a mesma perfeição com
que o sol e as estrelas do céu observam a Lei da Criação.
Os dois decálogos: o decálogo da Aliança e o
decálogo da Criação
Temos dois decálogos: o decálogo da Criação e o decálogo da Aliança. O
decálogo da criação descreve a ação de Deus, o decálogo da aliança descreve a
resposta do homem. O decálogo da criação já existia muito antes do decálogo da
aliança. Existia desde a criação do mundo e era visível na ordem do cosmo, mas
a sua existência só foi descoberta, quando a observância do decálogo da aliança
entrou em colapso e criou o impasse do cativeiro.
Esta descoberta do decálogo da criação foi o resultado da teimosia da fé
dos pequenos, de homens e mulheres como Oséias e Gomer, Jeremias, os discípulos
e discípulas de Isaías e tantos outros, pais e mães de família, que continuavam
na busca do Deus criador, cuja promessa de vida ultrapassa a nossa observância.
A total gratuidade da presença universal de Deus criador enche de esperança os
seres humanos no meio da sua fraqueza. A bondade imensa de Deus, expressa na
criação e que faz chover sobre bons e maus (Mt 5,45), deu coragem ao povo do
cativeiro para recomeçar com garra a busca da justiça, a observância da lei de
Deus. Agora, eles observam a lei da aliança, não mais para poder merecer a salvação, e sim para poder agradecer e retribuir a imensa bondade
com que Deus os amou primeiro e cujo amor não depende da observância da lei.
Eles sabem que nada nem mesmo o fracasso pode separá-los do amor de Deus (Is 40,1-2ª; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8; etc.)
( ) Existe uma ligação entre os dois decálogos, entre a ordem da
natureza e a ordem da convivência humana, entre a busca de Deus e a busca da
Justiça. A ordem da natureza não depende da observância dos mandamentos, pois o
sol nasce independentemente do fato de eu observar sim ou não a Lei de Deus.
Mas a transgressão dos mandamentos ( ) gera ganância e corrupção, produz
violência e derramamento de sangue e faz o cosmo virar caos a ponto de colocar
em perigo a sobrevivência da vida humana e de pôr em risco a ordem do planeta
Terra, nossa Mãe. Cabe ao ser humano de zelar pela ordem da Criação e pela
conservação do meio ambiente através da prática da justiça, expressa nos Dez
Mandamentos da aliança.
A fé no Deus Criador abriu um horizonte, cujo alcance para a vida só se
compara com o horizonte que a ressurreição de Jesus abriu para os discípulos
confrontados com a barreira intransponível da morte. A descoberta do decálogo
da Criação é como se fosse um fundamento novo colocado debaixo de um prédio que
ameaçava cair por falta de observância da parte dos engenheiros e operários.
Você não vê o fundamento novo, pois está debaixo do chão, mas você sabe que ele
existe, pois o prédio pode até balançar, mas não cai. A fé na gratuidade da
presença universal de Deus torna-se a infra-estrutura da observância dos
mandamentos.
Foi assim que eles conseguiram ultrapassar o impasse do cativeiro e que
nasceu a união das duas buscas de Deus
e da Justiça, tão bem expressa no
salmo:
Amor e Fidelidade se encontram,
Justiça e Paz se abraçam.
A Fidelidade brotará da
terra,
e a Justiça se inclinará
do céu.
Javé nos dará a chuva,
e nossa terra dará o seu
fruto.
A Justiça caminhará à
frente dele,
a salvação seguirá os seus
passos (Sl 85, 11-14)
(colocar o título uma alínea mais para baixo)
O caminho é este: busca de Deus e procura da justiça; gratuidade da
promessa e observância da lei; integridade da criação e justiça na convivência
humana; amor a Deus e amor ao próximo; luta e festa! É este caminho que amarra
por dentro as histórias de Abraão e Sara de Gênesis
O caminho de Abraão e Sara: caminho de todo o
povo
As histórias Abraão e Sara refletem não em primeiro lugar a história do
casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas são modelo, arquétipo,
para o povo do Cativeiro saber como combinar a busca de Deus e a busca da
justiça. Deixam transparecer como foi difícil para o povo unir estas duas
dimensões da caminhada que Deus estava pedindo e que os discípulos estavam
propondo.
Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do
meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe
mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o
seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e
amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra
serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com
ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo
sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que
haviam adquirido
A promessa de ser pai de um povo, fonte de bênção para toda a
humanidade, é bonita e atrai. Mas a condição para ( ) poder ser pai de um povo era ter ao menos
um filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril. A condição
para Abraão crer na promessa de Deus era crer que Sara sua mulher pudesse ter
um filho. Difícil crer nesta promessa! Era mais fácil crer na observância, isto
é, no projeto que os dois iam elaborando como possível alternativa para uma
promessa aparentemente impossível. Assim fizeram Abraão e Sara. Assim fazemos
todos nós. Era muito difícil para eles combinar as duas buscas: de Deus e da
justiça. Eles foram aprendendo a duras penas, ao longo dos anos.
Foram três as propostas alternativas que os dois fizeram para ficar só
com a observância, sem precisar crer na promessa, sem precisar levar a sério a
busca de Deus. Mas foram três as pancadas que levaram, três os impasses que
enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o
caminho. No fim aprenderam! Vejamos as três propostas:
A primeira proposta alternativa de Abraão e
Sara à promessa de Deus: Eliezer
Humanamente falando, a promessa de Deus ultrapassava as possibilidades
reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter nenê. A primeira
proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar Eliezer como
alternativa (Gn 15,1-3). Conforme as leis da época ele poderia adotar Eliezer
como filho. O filho de Eliezer seria neto de Abraão e a promessa de ser pai de
um povo estaria garantida. No fundo, Abraão (o povo do cativeiro, todos nós)
não acreditava na promessa e achava que a realização da mesma ia ter que
depender do esforço dele mesmo. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser
filho seu!” (cf. Gn 15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!
A segunda proposta alternativa de Abraão e Sara
à promessa de Deus: Ismael
Para poder crer na promessa, Abraão devia crer em Sara, e Sara devia
crer
A terceira proposta alternativa de Abraão e
Sara à promessa de Deus: Isaque
Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os recebeu com muita
hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter nenê no ano seguinte.
Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17). Todos rimos, porque não
acreditamos na promessa. Só acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no
que Deus é capaz de fazer por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara
e nasce o filho que recebe o nome de Isaque,
o que significa Risada (Gn 21,1-7).
De Deus não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque
clareou o horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a bênção prometida ia
poder irradiar-se para todas as nações da terra. Mas aqui acontece uma coisa
muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão tem um fundamento
concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o fundamento da esperança
passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido por Deus. E aí a palavra
de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te
mostrar!” (Gn 22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou
para antes do começo.
A resposta final de Abraão e Sara à promessa de
Deus: a entrega total
Desta vez, Abraão não discute, não diz nada, apenas age (Gn 22,3-10).
Ele é obediência muda. Não se fica sabendo o que ele pensa. Cada leitor ou
leitora deve preencher esta parte que falta confrontando sua atitude com a de
Abraão. No último momento, Deus intervém. Não quer a morte do filho (Gn
22,11-19). Basta a obediência! É neste momento que Abraão alcança a justiça e
que a busca de Deus e a busca da justiça se identificam plenamente! “Abraão
acreditou em Deus e isto lhe foi
imputado como Justiça, e ele foi
chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6). A carta aos hebreus
interpreta este episódio da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é
capaz de tirar vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso é um símbolo para
nós” (Hb 11,17-19). Até hoje!
Poderíamos continuar o comentário da carta aos hebreus dizendo: Todos
nós, casados ou solteiros, todos e todas, temos um Isaque, algo do qual não
abrimos mão, pois o consideramos o fundamento único da nossa existência.
Chegará o dia
A resposta definitiva à promessa de Deus: fé de
Jesus na ressurreição
Na hora de morrer, pendurado nu numa cruz, exposto ao ridículo público
como bandido marginal, condenado por dois tribunais como subversivo e ateu,
Jesus está envolvido pela escuridão da natureza (Mc 15,33), pelo desprezo e
sarcasmo dos passantes, pelas injúrias das autoridades, pelos insultos dos
ladrões (Mc 15,29-32), pela solidão que afastou dele os parentes e amigos (Mc
15,40) e pelo abandono do próprio Deus (Mc 15,34). ( ). Humanamente falando, sua vida terminou num
fracasso! Fracasso igual ou pior do que o fracasso da aliança na época do
cativeiro! A morte ia engolir tudo. Seu corpo ia ser jogado em cova rasa ou
ficaria pendurado na cruz até ser comido pelos animais. Pois este era o destino
dos crucificados. Final trágico! ( )
Negação de tudo que tinha ele vivido e ensinado ao povo.
Mas dentro de Jesus, a fé na promessa do amor de Deus Pai é maior que o
abandono que está sentindo. A tortura e os insultos não conseguiram quebrá-lo
por dentro. A mesma certeza que animava os discípulos e as discípulas no
cativeiro, o anima por dentro e exprimem o que ele estava sentindo:
“O Senhor me abriu os
ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.
Oferecei minhas costas aos
que me batiam
e o queixo aos que me
arrancavam a barba.
Não escondi o rosto para
evitar insultos e escarros.
O Senhor é a minha ajuda!
Por isso, estas ofensas não me desmoralizam.
Faço cara dura como pedra,
sabendo que não vou ser um fracassado.
Perto de mim está quem me
faz justiça.
Quem tem coragem de depor
conta mim?
Vamos comparecer juntos no
tribunal!
Quem tem algo contra mim?
Que se apresente e faça a denúncia!
O Senhor é a minha ajuda!
Quem tem coragem de condenar-me?
Todos eles vão cair aos
pedaços, como roupa velha comida pela traça”! (Isaías 50,4-9)
Jesus expressa sua fé na promessa de Deus soltando o grito na hora de
morrer, pois sabe que Deus escuta o clamor dos pobres (Mc 15,37; Ex 2,24;3,7).
A carta aos hebreus comenta: “Durante a
sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em alta voz e com
lágrimas, ao Deus que o podia salvar da morte. E Deus o escutou, porque ele foi
obediente” (Hb 5,7). Deus escutou Jesus ressuscitando-o da morte. Por isso,
Jesus “tornou-se a fonte da salvação eterna para todos aqueles que lhe
obedecem” (Hb 5,9).
A ressurreição de Jesus confirmou o caminho proposto pelos discípulos e
discípulas de Isaías e percorrido por Abraão e Sara; confirmou o novo olhar com
que devemos olhar para a Bíblia e com que devemos orientar nosso relacionamento
com o planeta Terra; confirmou que a busca simultânea de Deus e da Justiça
reverte o processo da degradação do meio ambiente, acelera a conquista da
bênção para todos, e garante a realização da construção do paraíso.
É este o resultado último e definitivo do remédio que começou a ser
aplicado em Gênesis 12 e que visa a construção da vida plena de acordo com o
projeto de Deus, expresso na maquete do Paraíso.
“Vocês que
buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados,
olhem para a pedreira de onde foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e
para Sara, que os deu à luz, Quando os chamei eles eram um só, mas se multiplicaram
por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)