QUEREMOS VER JESUS

ATRAVÉS DOS OLHOS DOS AMIGOS E DAS AMIGAS

QUE O CONHECERAM DE PERTO

Leitura do Evangelho de São João:

“Entre os que tinham vindo à festa para adorar a Deus, havia alguns gregos. Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: “Queremos ver Jesus!” Filipe foi falar com André; e os dois juntos foram falar com Jesus” (João 12,20-22).

Também nós queremos ver Jesus. Os gregos tiveram a ajuda de Filipe e de André. O nosso Filipe ou André é a partilha que faremos nestes Círculos Bíblicos.

Frei Carlos Mesters, O. Carm.

Queremos ver Jesus!

Na Igreja Católica, nestes anos de 2004 a 2006, o lema pastoral é: “Queremos ver Jesus!” Queremos aprofundar o significado de Jesus para a nossa vida. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14,6). Sem caminho não ando, sem verdade me perco, sem vida estou morto.

Uma pessoa tão importante como Jesus pode ser vista e apreciada de muitas maneiras. Já no tempo dele era assim. Certa vez, Jesus fez um levantamento das opiniões do povo e perguntou: “Quem dizem que eu sou?” Os discípulos deram várias respostas: “Elias, Jeremias, algum dos profetas” (Mc 8,28; Mt 16,14). Aí Jesus perguntou: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o messias!” Resposta certa! Jesus elogiou Pedro: “Feliz você, Pedro!” (Mt 16,17) Mas quando comunicou a Pedro que o Messias devia passar pela cruz, Pedro recuou e não quis saber (Mt 16,22-23). Para Pedro, ser “Messias” era um título de honra. Para Jesus, era uma prática, um modo de ser e de agir. Pedro imaginava um messias vencedor glorioso, e se enganou redondamente. Como Pedro, muita gente queria um Messias glorioso: Doutor, Juiz, Sumo Sacerdote, Rei ou General.

Hoje acontece a mesma coisa. Nem todos olhamos para Jesus do mesmo jeito. Depende muito da igreja a que pertencemos. E mesmo sendo da mesma igreja nem todos pensamos do mesmo jeito. Uns usam mais a Bíblia, outros se orientam pelo catecismo, outros, pelas imagens ou pinturas que encontram nas igrejas, outros ainda, pelo que lêem nas revistas ou pelo que vêem e ouvem nos filmes ou na TV.

Muitas pessoas de religiões não cristãs aceitam a Jesus como um profeta ou como alguém que veio da parte de Deus. Por exemplo, os espíritas, os muçulmanos, os da religião afro-brasileira ou os judeus que pertencem à mesma raça de Jesus. Quase todos eles reconhecem em Jesus um enviado de Deus. Hoje em dia, a maioria das pessoas do mundo inteiro já ouviu falar de Jesus. Mesmo não sendo cristãos, muitos usam frases de Jesus para defender os valores em que acreditam.

Por isso, se houvesse entre as religiões um diálogo sincero sem preconceito, poderíamos aprender muito, uns dos outros, para conhecer e praticar melhor a mensagem que Jesus nos trouxe. Jesus até poderia ser um traço de união entre todas estas religiões e uma fonte de ecumenismo em defesa da vida.

Como olhar para Jesus

Da mesma pessoa você pode fazer várias fotografias. A fotografia fixa o rosto de uma pessoa e, uma vez fixado, o rosto não muda mais. Mas a pessoa fotografada vai mudando ao longo dos anos. Muitas famílias colecionam as fotografias dos filhos e das filhas e fazem um álbum. Nele você percebe o traçado da história de cada um, desde o berço até à idade adulta. 

Os quatro evangelhos são como quatro coleções de fotografias do mesmo Jesus. Marcos descreve Jesus de um jeito, Lucas o faz de outro jeito. Mateus o apresenta como o Mestre que ensina. Para João, Jesus é a revelação do Pai. O Novo Testamento é o primeiro álbum de fotografias que conserva a imagem com que os amigos e as amigas de Jesus olhavam para ele.

Dizemos “primeiro álbum”, porque, depois, vieram muitos outros álbuns: o álbum do catecismo, o álbum do dogma, o álbum da arte e das pinturas, o álbum da música, o álbum dos filmes. Por exemplo, a música da ópera Jesus Cristo Super Star, ou Jesus Alegria dos homens  de Bach, Jesus Cristo, eu estou aqui, de Roberto Carlos, Jesus Cristo me deixou inquieto do Padre Zezinho. Ou os filmes sobre Jesus: Gibson, Zefirelli, Pasolini, e outros. Alguns destes álbuns são bonitos, outros são fruto de fantasia; alguns são muito olhados e admirados; outros, quase desconhecidos; alguns contêm fotografias reais e verdadeiras, outros apresentam fotografias falsificadas ou mistificadas.

Nestes dez círculos vamos olhar dez fotografias do primeiro álbum, feitas pelos amigos e amigas de Jesus que comeram e beberam com ele (At 10,41). Não dá para olhar todas as fotos que eles juntaram no Novo Testamento. São muitas! Mais de cem! Selecionamos apenas dez, uma para cada círculo deste livrinho.

As dez fotografias mais antigas de Jesus

A convivência de três anos com Jesus e a experiência da sua morte e ressurreição foram algo tão extraordinário e tão fora de todos os esquemas tradicionais, que os primeiros cristãos não tinham palavras para expressá-lo. Por isso, a primeira coisa que fizeram foi ler a Bíblia, o Antigo Testamento, à procura de imagens, títulos e símbolos que, de alguma maneira, pudessem expressar e comunicar sua nova experiência de Deus em Jesus pois para eles, todo o Antigo Testamento era uma lenta preparação para a vinda do Messias. Qualquer um dos seus textos que pudesse ser aplicado a Jesus, era usado para mostrar que Jesus veio realizar as promessas.

Uma outra coisa que fizeram foi aquilo que todos nós fazemos quando as palavras não bastam para comunicar o que vivemos, a saber, recorreram à poesia e ao canto. Esses cânticos e poesias, até hoje, estão espalhados pelas páginas do Novo Testamento.

É desta experiência tão profunda e tão bonita dos primeiros cristãos, que tiramos as seguintes dez fotografias de Jesus:

Cinco Títulos tirados do Antigo Testamento

Os cinco nomes ou títulos mais antigos para expressar o que Jesus significava para os primeiros cristãos foram tirados do Antigo Testamento. O próprio Jesus usou três deles numa única frase quando disse: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para muitos” (Mc 10,45). Os três Títulos são: (1) Filho do Homem, (2) Servo de Javé e (3) Redentor (resgatador) ou Irmão mais velho. Os outros dois são Messias e Senhor, também do Antigo Testamento. Alguns destes cinco nomes vêm do próprio Jesus, outros refletem mais o pensamento e a gratidão das comunidades.

Três poesias ou cânticos das comunidades

As cartas de Paulo conservaram várias poesias que eram usadas pelas catequistas das primeiras comunidades cristãs da Grécia. Uma delas descreve como faziam para ter em si os mesmos sentimentos de Jesus (Fil 2,5-11). Uma outra descreve em que consiste o amor que Jesus pede dos seus seguidores e seguidoras (1Cor 13,1-13). Da mesma maneira, Lucas teve o cuidado de inserir no seu evangelho a letra de vários cânticos das comunidades da Palestina e da Grécia. Eles mostram como os primeiros cristãos olhavam para Jesus e o que esperavam dele. Um destes cânticos, o mais conhecido de todos, é o Cântico de Maria, a mãe de Jesus.

Uma característica descoberta à luz da fé na ressurreição

A fé na ressurreição de Jesus abriu os olhos dos primeiros cristãos para entender melhor o plano de Deus, anunciado no Antigo Testamento e realizado no Novo Testamento. Por exemplo, o profeta Isaías dizia: “Neste mundo tudo passa, só a Palavra de Deus permanece eternamente!” (Is 40,8) e o Livro de Sabedoria dizia que esta Palavra desceu do alto do céu para a terra (Sab 18,14-15) Os cristãos, iluminados pela fé na ressurreição, diziam: “Esta Palavra de Deus é Jesus. Ela se fez carne e começou a viver no meio de nós” (Jo 1,14).

Um resumo de todos os títulos e nomes

Todos estes e muitos outros títulos, nomes e imagens são como pedrinhas de cores e tamanhos diferentes que, aos poucos, foram se agrupando, formando um bonito mosaico que resume tudo o que eles viviam, sentiam e acreditavam a respeito do Jesus e que, até hoje, é a afirmação central da nossa fé: “Jesus é o Filho de Deus”.

 

Temos assim os seguintes retratos:

01. Jesus, o Filho do homem

02. Jesus, o Servo de Deus

03. Jesus, nosso Irmão mais velho

04. Jesus, o Messias

05. Jesus, nosso Senhor

06. Jesus, no cântico de Maria, sua mãe

07. Jesus, força na fraqueza

08. Jesus, revelação do amor maior

09. Jesus, a Palavra de Deus

10. Jesus, o Filho de Deus

 

A seqüência dos doze Encontros: Doze Retratos de Jesus”

 

  Retrato: Filho do Homem

        Jesus se apresenta como Filho do Homem

        “Tão humano como só Deus pode ser humano!”

        Lucas 19,1-10

 

  Retrato: Servo

        Jesus se apresenta como servidor do povo

        Lavando os pés dos amigos deu-lhes a extrema prova do seu amor

        João 13,1-17

 

  Retrato: Irmão mais velho

        Jesus se apresenta como o irmão mais velho

        O irmão mais velho representa e defende os irmãos e as irmãs menores

        Lucas 4,14-21

 

  Retrato: Messias

        Jesus é o Messias esperado que realiza as esperanças do povo

        A aclamação solene de Jesus em Jerusalém

        Mateus 21,1-11

 

  Retrato: Nosso Senhor

        Jesus é Nosso Senhor

        O Pai lhe deu um nome que está acima de todo nome

        Atos 2,32-36 e Filipenses 2,9-11

 

  Retrato: Transmitido  pela Mãe

        Em Jesus, Deus se mostrou fiel às promessas feitas aos pobres

        No Cântico da Mãe de Jesus, os pobres se alegram e agradecem

        Lucas 1,46-56

 

  Retrato: Força dos fracos

        Jesus é a força de Deus que se revela na fraqueza dos pequenos

        A poesia sobre Jesus na carta aos Filipenses

        Filipenses 2,6-11

 

  Retrato: Revelação do amor maior

        Jesus é a revelação do amor maior

        A poesia sobre o Amor na Carta aos Coríntos

        1Coríntios 13,1-13

 

09º  Retrato: Palavra de Deus

        Jesus é a Palavra de Deus

        Deus criou o mundo pela sua Palavra e o recria em Jesus

        João 1,1-18

 

10º  Retrato: Filho de Deus

        Jesus é reconhecido como Filho de Deus

        Tão humano que foi reconhecido como Filho de Deus

        Marcos 1,1 e 15,33-39

 

Primeiro Retrato de Jesus

Jesus se apresenta como Filho do Homem

“Tão humano como só Deus pode ser humano!”

Ser humano, humanizar a vida

Marcos 8,27-38

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

Jesus recebeu muitos nomes e títulos, tanto da parte dos amigos como dos inimigos. Cada um colocava no nome aquilo que enxergava em Jesus. Os inimigos, por exemplo, o chamavam de “louco”, “samaritano”, “ateu”, “possesso” e outros nomes feios. É que Jesus os incomodava, e eles, para se vingarem, procuravam desacreditá-lo junto do povo. Os amigos e as amigas de Jesus, ao contrário, souberam encontrar ou lembrar nomes que diziam o contrário. Um destes títulos é Filho do Homem. Vinha do Antigo Testamento. Era o nome que Jesus gostava de usar para si e que os primeiros cristãos conservaram com muito carinho, pois este nome acentuava a sua missão de anunciar o Reino de Deus como um Reino humano que promove a vida e humaniza as pessoas. As autoridades religiosas, fariseus, escribas e sacerdotes, ao contrário, impunham normas ao povo que não eram humanas. Por isso, uma das coisas que os primeiros discípulos mais apreciavam em Jesus é que ele era bem humano. Eles diziam: “Ele foi provado como nós em todas as coisas, menos no pecado” (Hb 4,15). Vamos conversar sobre isto:

1. Qual a imagem de Jesus que você carrega no seu coração e de onde vem esta imagem?

2. Por que será que é tão difícil a gente imaginar Jesus bem humano, igual a nós em tudo?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

“Filho do Homem” era o título que Jesus usava para si e que mais ficou gravado na memória dos primeiros cristãos. Vamos escutar um dos muitos episódios, em que Jesus se apresenta como Filho do Homem. É quando Jesus, numa atitude acolhedora, aceita o convite de jantar na casa do velho Zaqueu e é criticado pelos fariseus por ter tido esta atitude tão humana. Durante a leitura, vamos ficar com a seguinte pergunta na cabeça: “De que maneira, neste texto transparece a atitude bem humana de Jesus”?

Leitura do texto: Lucas 19,1-10

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome “Filho do Homem”:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. A partir desta atitude de Jesus, como entender o título Filho do Homem?

3. Se você tivesse que lembrar uma atitude bem humana de Jesus, qual seria?

4. De que maneira este texto me convida a mudar o meu modo de pensar sobre Jesus?

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar o salmo 34: A experiência da bondade de Deus levou o salmista a mais ser humano

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, o “Filho do Homem”

Às vezes, a gente escuta o povo dizer: “Jesus era Deus! Nós não podemos comparar-nos com ele!” Eles colocam Jesus tão alto no céu e tão longe de nós, que já nem parece o Jesus de que os primeiros cristãos diziam: “Ele foi provado como nós em todas as coisas, menos no pecado” (Hb 4,15). Como será que Jesus quer ser visto por nós? Vamos ver se conseguimos encontrar uma resposta.

O nome que Jesus mais gostava de usar para si mesmo era “Filho do Homem”. Este nome aparece com grande freqüência nos evangelhos. Só no evangelho de Marcos quinze vezes (Mc 2,10.28; 8,31.38; 9,9.12.31; 10,33.45; 13,26; 14,21.21.41.62).

O título “Filho do Homem” vem do AT. No livro de Ezequiel, ele indica a condição bem humana do profeta (Ez 3,1.4.10.17; 4,1 etc. inúmeras vezes). A Bíblia Pastoral o traduz por “criatura humana”.

No livro de Daniel, o título “Filho do Homem” aparece numa grandiosa visão, que descreve os impérios mundiais dos Babilônios, dos Medos, dos Persas e dos Gregos (Dn 7,1-28). Na visão do profeta, estes quatro impérios têm a aparência de “animais monstruosos” (cf. Dn 7,3-8), pois são reinos animalescos, brutais, desumanos, que perseguem, desumanizam e matam (Dn 7,21.25). Na mesma visão, depois dos quatro reinos anti-humanos, aparece o Reino de Deus que é descrito da seguinte maneira: “Entre as nuvens do céu vinha alguém como um Filho de homem. Foi lhe dado Poder, Glória e Reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram (Dn 7,13.14). O Reino de Deus tem a aparência, não de um animal, mas sim de um “Filho de Homem”, isto é, de uma figura humana. O Reino de Deus é um reino com aparência de gente. Não é animalesco, mas sim humano. Promove a vida. Humaniza as pessoas.

Na visão do profeta Daniel, esta figura do Filho do Homem representa, não um indivíduo, mas sim, como ele mesmo diz, o “povo dos Santos do Altíssimo” (Dn 7,27; cf Dn 7,18). É o povo de Deus que não se deixa desumanizar nem enganar ou manipular pelo jeito de pensar dos impérios animalescos. A missão do Filho do Homem, isto é, do povo de Deus, consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano. Reino que não persegue a vida, mas sim a promove! Um Reino que humaniza as pessoas.

Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume como sua esta missão humanizadora do Povo de Deus. É como se dissesse a eles e a todos nós: “Venham comigo! Esta missão não é só minha, mas é de todos! É do Povo de Deus! Vamos juntos realizar esse Reino humano que Deus Pai sonhou para todos! Esta é a nossa missão”. Foi o que Jesus fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos últimos três anos. Dizia o Papa Leão Magno: “Jesus foi tão humano, mas tão humano, como só Deus pode ser humano”. Quanto mais humano, tanto mais divino. Quanto mais “filho do homem” e tanto mais “filho de Deus!” Tudo que desumaniza afasta de Deus. Tudo que humaniza aproxima de Deus. Jesus colocou o bem da pessoa humana como prioridade acima das leis, acima do sábado (Mc 2,27). Só há uma única maneira de a pessoa se divinizar: sendo profundamente humana!

Veja na vida de Jesus alguns episódios em que ele se mostrou profundamente humana e nos ensina como ser humano e humana:

*  A moça do perfume

*  Ele come e bebe

*  Acolhe o velho Zaqueu

*  Acolhe as mães e as crianças

*  É severo com aqueles que machucam os pobres

Na hora de ser condenado pelo tribunal religioso, Jesus assumiu este título. O Sumo Sacerdote perguntou: “És tu o Messias, o Filho do Deus bendito?” Jesus respondeu: “Eu sou. E vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Todo-poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). Perguntado se era o “filho do Deus” (Mc 14,61), ele responde que é o “filho do Homem”. Por causa desta sua afirmação ele foi declarado réu de morte pelas autoridades. Jesus sabia disso pois tinha dito: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para muitos” (Mc 10,45).

 

Segundo Retrato de Jesus

Jesus se apresenta como servidor do povo

Lavando os pés das pessoas deu-lhes a extrema prova do seu amor

Veio para servir e não para ser servido

João 13,1-17

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

O povo repete até hoje: “Quem não vive para servir, não serve para viver!” Este era também o lema de Jesus. Ele dizia: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). Quando os discípulos brigavam pelo primeiro lugar ou quando alguns deles queriam ser mais importantes que os outros, ele chamava a atenção e dizia: “Quem quiser ser o primeiro deve ser o servidor de todos” (Mc 9,35). Não é fácil servir! Judas ia trair Jesus. Mesmo assim, Jesus lavou os pés de Judas. Ele mesmo, quando o povo queria fazer dele um rei, fugiu para a montanha e não quis saber (Jo 6,14). Foi o que São Paulo lembrou quando dizia que Jesus podia gloriar-se do seu título de filho de Deus, mas em vez disso se fez servidor de todos (Fil 2,6-7). Nós temos a festa de Cristo Rei, mas não temos a festa de Cristo servidor. É pena! Vamos refletir sobre isto:

1. Por que é tão difícil servir aos outros? Conta algo da sua experiência.

2. Temos uma festa de Cristo Rei e não temos uma festa de Jesus Servidor. Como entender isso?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

No tempo de Jesus, as autoridades religiosas ensinavam ao povo que o Messias devia ser glorioso e vencedor. Elas não se lembravam da profecia de Isaías que falava de um Messias Servidor (Is 42,1-9). Vamos ouvir um texto em que Jesus se apresenta não como glorioso vencedor mas como o servidor de todos. Durante a leitura, vamos ficar com esta pergunta na cabeça: “Em que consiste exatamente o serviço que Jesus quer prestar ao povo?”

Leitura do texto: João 13,1-17

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome “Servo”:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Conforme as palavras do texto, em que consiste exatamente o serviço que Jesus quer prestar ao povo?

3. Como entender a reação de Pedro e a resposta dura de Jesus?

4. O que deve mudar no meu modo de pensar sobre Jesus?

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar o canto do Servo de Deus: Isaías 49,1-9

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio:  Jesus, o Servo de Javé

Naquele tempo, havia entre os judeus uma grande variedade de expectativas messiânicas. De acordo com as diferentes interpretações das profecias, havia gente que esperava um Messias Rei (Mc 15,9.32), um Messias Santo ou Sumo Sacerdote (Mc 1,24), um Messias Guerrilheiro subversivo (Lc 23,5; Mc 15,6; 13,6-8), um Messias Doutor (Jo 4,25; Mc 1,22.27), um Messias Juiz (Lc 3,5-9; Mc 1,8) ou um Messias Profeta (Mc 6,4; 14,65). Cada um, conforme os seus próprios interesses ou classe social, encaixava o messias nos seus próprios desejos e expectativas. Mas por mais diferentes que fossem aquelas expectativas, todas elas concordavam numa coisa: o messias seria forte, glorioso e vencedor.

Ao que tudo indica, ninguém se lembrava do Messias Servidor tal como tinha sido anunciado pelo profeta Isaías. Somente os pobres souberam valorizar a esperança messiânica como um serviço do povo de Deus à humanidade. Maria, a pobre de Javé, disse ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor!” Foi de Maria, sua mãe, que Jesus aprendeu o caminho do serviço. Nas três vezes em que ele anunciou sua paixão, morte e ressurreição, Jesus se orientou pela profecia do Servo de Javé, tal como transparece nos quatro cânticos do livro de Isaías, e a aplicou a si mesmo (Mc 8,31; 9,31; 10,33).

A origem daqueles quatro cânticos do Servo de Javé (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13 a 53,12) remonta ao grupo dos discípulos e discípulas de Isaías que viviam no cativeiro da Babilônia em torno de 550 antes de Cristo. No livro de Isaías, a figura do Servo de Javé indica não um indivíduo, mas sim o povo do cativeiro (Is 41,8-9; 42,18-20; 43,10; 44,1-2; 44,21; 45,4; 48,20; 54,17), descrito pelo profeta como um povo “oprimido, sofredor, desfigurado, sem aparência de gente e sem um mínimo de condição humana, povo explorado, maltratado e silenciado, sem graça nem beleza, cheio de sofrimento, evitado pelos outros como se fosse um leproso, condenado como um criminoso, sem julgamento nem defesa” (cf. Is 53,2-8). Retrato perfeito de uma grande parte da humanidade, até hoje!

Deste povo-servo se dizia: “Ele não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fumaça” (Is 42,2). Ou seja, perseguido, não perseguia; oprimido, não oprimia; machucado, não machucava. Nele o vírus da violência opressora do império da Babilônia não conseguiu penetrar. Pelo contrário, ele promovia o direito e a justiça (Is 42,3.6). Esta atitude resistente do povo-servo é a semente da justiça que Deus quer ver implantada no mundo todo. Por isso, Deus chama esse povo para ser o seu Servo com a missão de irradiar a justiça de Deus e ser a “Luz do Mundo” (Is 42,2.6; 49,6). 

Os quatro cânticos do Servo são uma espécie de cartilha para ajudar o povo oprimido, tanto de ontem como de hoje, a descobrir e assumir sua missão. Jesus conhecia estes cânticos e por eles se orientou. O primeiro cântico (Is 42,1-9) descreve como Deus chama o povo a ser o seu Servo e realizar a justiça no mundo inteiro. O segundo cântico (Is 49,1-6) descreve como foi difícil para aquele povo exilado e marginalizado acreditar na sua vocação de Servo. No terceiro cântico (Is 50,4-9), o Servo conta como ele, apesar do sofrimento, está realizando a sua missão. O quarto cântico (Is 52,13 a 53,12) descreve o futuro deste Servo: fiel a sua missão, ele vai entregar sua vida pelos outros e Deus vai confirmá-lo como seu servo. Morte e ressurreição!

Jesus percorreu o caminho dos quatro passos do serviço, indicados por Isaías. Na hora do batismo no rio Jordão, o Pai o apresentou como o seu servo e o enviou para a missão (Mc 1,11). Na sinagoga de Nazaré, ao expor seu programa ao povo da sua terra, Jesus assumiu esta missão publicamente (Lc 4,16-21). A partir daquele momento, ele começou a andar pela Galiléia para ajudar o povo a descobrir e assumir, junto com ele, a missão de Servo de Deus. No fim da sua vida, durante a última ceia, Jesus lavou os pés dos seus discípulos. Até o fim, perseverou na atitude de Servo de Deus. Eis alguns episódios em que transparece mais forte esta atitude de serviço em Jesus:

*  Lava-pés

*  Cura dos doentes

*  Alimenta o povo faminto

*  Conversa com o povo e consola os tristes

*  Acolhe os excluídos e dá um lugar para eles

*  Ensina o povo as coisas do Reino de Deus

*  Defende os pequenos quando são criticados

*  Faz o povo participar

Através desta sua atitude de serviço, Jesus nos revela a face de Deus que nos atrai e nos indica o caminho de volta para a casa do Pai. A sua vida é o melhor comentário dos quatro cânticos de Isaías.

 

Terceiro Retrato de Jesus

Jesus se apresenta como o irmão mais velho

O irmão mais velho defende e protege os irmãos e as irmãs menores

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

No tempo de Jesus, por causa da situação política-social e por causa da visão errada de Deus que a religião comunicava ao povo, a vida em comunidade tinha muitas falhas. Não havia mais aquela fraternidade que Deus deseja para todos. Havia muita gente que, em nome de Deus, era proibida de participar plenamente da comunidade: os doentes, os deficientes físicos, os estrangeiros, as mulheres, as crianças, os publicanos. Por isso, aquilo que o povo mais esperava do futuro Messias era ele resgatar os excluídos e reintegra-los, novamente, na comunidade ou, como diziam naquele tempo, “reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais” (Mal 3,23; Eclo 48,10). Na língua deles diziam: “O messias vai ser o nosso Goêl!” A Bíblia costuma traduzir esta palavra por Resgatador, Redentor, Salvador, Parente próximo ou irmão mais velho. Foi o que Jesus fez. Em nome da sua fé em Deus como Pai, procurava acolher e resgatar as pessoas excluídas, ser o irmão de todos. A sua pregação e o seu testemunho fizeram com que, nos povoados da Galiléia, as pessoas excluídas fossem novamente acolhidas e incluídas nas comunidades. Por isso, chamaram Jesus de “primogênito” (Col 1,18; Apc 1,5), nosso irmão mais velho, nosso redentor, libertador, defensor.

1. Vivemos numa sociedade violenta e excludente. Onde as pessoas encontram segurança? Como você faz para se defender?

2. Quem são hoje as pessoas mais indefesas e mais inseguras? Quem as protege?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

Vamos ouvir o texto em que Jesus se apresenta à comunidade como o Redentor, cuja missão consiste em anunciar a Boa Nova de Deus aos pobres, acolher os excluídos e, assim, restaurar a vida em comunidade. Durante a leitura, vamos ficar com esta pergunta na cabeça: “Em que consiste exatamente a missão que Jesus se propõe a realizar?”

Leitura do texto: Lucas 4,14-21

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome “Redentor” ou “Irmão mais velho”:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Conforme as palavras de Lucas, em que consiste a missão de Jesus?

3. Você consegue imaginar Jesus como um irmão mais velho que intervém para melhorar a vida em família?

4. O que deve mudar no meu modo de pensar sobre Jesus?

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo (147)

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, nosso irmão mais velho

No Antigo Testamento, caso alguém, por motivo de pobreza ou de dívidas, perdesse sua terra ou fosse vendido como escravo, o parente mais próximo ou o irmão mais velho, chamado goêl na língua deles, devia entregar tudo de si para resgatar o irmão mais novo (Lev 25 e Dt 15). Assim, ele evitava que a convivência comunitária fosse quebrada. Era isto que o povo esperava do retorno do profeta Elias: “reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais” (Ml 3,23-24; Eclo 48,10), ou seja, restaurar a vida em família, em comunidade. Era este um dos títulos mais antigos, que os primeiros cristãos tiraram do Antigo Testamento para expressar o significado de Jesus para as suas vidas: Jesus é o Goêl, o redentor, o salvador, o “primogênito” o irmão mais velho (Col 1,18; Apc 1,5), o paráclito ou consolador.

O termo hebraico goêl é tão rico que não tem tradução perfeita na nossa língua. No Novo Testamento ocorrem os termos como libertador, redentor, salvador, consolador, advogado, paráclito, defensor, parente próximo, irmão mais velho, primogênito. Todos estes termos, quando usados para designar Jesus, referem-se, de uma ou de outra maneira, a este costume antigo de Goêl, aplicado a Jesus, nosso irmão mais velho.

Para os primeiros cristãos, Jesus era o parente próximo, o goêl, o irmão mais velho, que entregou tudo de si para resgatar seus irmãos e suas irmãs, vítimas da escravidão da lei, do racismo, da ideologia do império e da religião opressora, para que, novamente, pudessem viver em fraternidade. Foi assim que Jesus entendeu a sua missão como messias.

No tempo de Jesus, em nome de uma interpretação errada da Lei de Deus, muita gente era excluída da vida em comunidade. Jesus, a partir da sua experiência de Deus como Pai, denunciava esta situação que escondia o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como “parente próximo” ou “irmão mais velho” (goêl), ele oferecia um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolhia os que não eram acolhidos e, na sua nova família (Mc 3,34), recebia como irmão e irmã aqueles que a religião e o governo desprezavam e excluíam:

os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11);

os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42);

os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26);

os marginalizados: mulheres, crianças e doentes(Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s);

os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10);

os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,20.24; Mt 11,25-26).

Todas estas pessoas tiveram a experiência concreta de terem sido resgatados por Jesus, o irmão mais velho, que cumpriu o seu dever de goêl para com elas. Paulo chegou a dizer: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Jesus se fez escravo, esvaziou-se, para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9), para que nós pudéssemos recuperar a liberdade e retomar a vida em comunidade.

Apresentando-se como o goêl  dos irmãos e irmãs excluídas da convivência comunitária, Jesus nos revela a face de Deus como Pai, como Mãe, que acolhe a todos e vai atrás dos abandonados e excluídos.

 

Quarto Retrato de Jesus

Jesus é o Messias esperado

A entrada solene em Jerusalém

Jesus fala ao coração do povo e realiza a sua esperança

Mateus 21,1-11

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

“João, por que você deixou de ir à missa nos domingos? Antigamente, você ia e até obrigava os filhos. O que é que houve com você?” E João respondia: “Sei lá, mulher. Do jeito que vai nossa igreja não é o que eu desejo. Acho que Deus quer outra coisa”.   –“Como é que você pode falar assim? Você nunca falou com Deus para saber o que Ele quer!” E João calava, ficava sem resposta. Um dia, na rua, encontrou um rapaz carregando um menino gravemente ferido. Ele se aproximou e disse: “Posso ajudar?”   –“Pode, sim! Ajuda-me a levar esse menino ao posto de saúde”.  –“Pois não!” Enquanto os dois iam carregando o menino ferido, o rapaz foi explicando: “É que faço parte de um grupo de ajuda aos meninos de rua. Fazendo reunião de Bíblia, lendo o evangelho, nós descobrimos que Deus quer isto de nós!” João ficou calado. No dia seguinte, procurou o rapaz e disse: “Quero ser membro do grupo de vocês. Era isto que eu esperava. É o que Deus quer mesmo de mim. Já falei com a mulher e ela concordou comigo!” 

1. Alguma vez aconteceu com você um fato que te ajudou a descobrir o que Deus quer de você? Conte como foi.

2. O que será que o povo espera mesmo da Igreja ou da comunidade?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

O texto deste círculo descreve a entrada solene de Jesus na cidade de Jerusalém. Ele é aclamado pelo povo como Messias. Durante a leitura vamos prestar atenção no seguinte: “Quais as pessoas que aparecem no texto? O que elas pensam a respeito de Jesus e o que esperam dele?”

Leitura do texto: Mateus 21,1-11

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do título Messias:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Quais as pessoas ou grupos que aparecem neste texto? O que elas pensam de Jesus?

3. Por que será que Jesus faz questão de entrar em Jerusalém sentado num jumentinho?

4. O que devo mudar no meu jeito de pensar sobre Jesus?

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo: Salmo 72

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, o Messias esperado pelo povo

Messias é uma palavra hebraica que significa “ungido”. Cristo é uma palavra grega e também significa “ungido”. Naquele tempo, quando alguém recebia uma função importante, ele era ungido com óleo passado na cabeça. Reis e sacerdotes eram “ungidos”, (cristos, messias). Às vezes, chegavam a designar todo o povo como o ungido (cristo) de Deus (Sl 105,15). Para dizer que a unção era muito boa diziam que o óleo usado para ungir derramava pela barba até na roupa da pessoa (Sl 133,2).

As pessoas “ungidas”, reis e sacerdotes, nem sempre eram fiéis à missão para a qual foram ungidas. Esta frustração com os falsos “ungidos” fez com que o povo começasse a esperar por um verdadeiro “ungido”, um verdadeiro “messias” ou “cristo”, que fosse fiel a Deus e ao povo. Assim nasceu a esperança messiânica do povo de Deus. O salmo 72(71) é um exemplo daquilo que esperavam do futuro messias ou rei: “Que ele governe teu povo com justiça e teus pobres conforme o direito. Que os montes tragam a paz e as colinas a justiça. Que ele defenda os pobres do povo e salve os filhos do indigente e esmague os seus opressores. Que ele dure como o sol e a lua, de geração em geração! (Sl 72,1-4). O texto que descreve a entrada solene de Jesus em Jerusalém mostra como Jesus era o messias esperado pelo povo. Vejamos:

1. Mateus 21,1-3: A chegada em Jerusalém.

    Romeiro entre os romeiros, Jesus vem caminhando! O ponto final da caminhada é o Templo, onde mora Deus! Bétfage era um povoado pobre fora da cidade, do outro lado do Monte das Oliveiras. De lá, Jesus organiza a sua entrada na cidade. Manda os discípulos buscar um jumentinho, um jegue, animal de carga, para poder realizar um gesto simbólico.

2. Mateus 21,4-5: A realização das promessas e profecias em Jesus.

    O Evangelho de Mateus tem a preocupação de mostrar que em Jesus se realizam as profecias. Zacarias anunciava a vinda do messias dizendo: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações” (Zac 9,9-10). O messias vem montado num jumentinho e não num cavalo. Cavalo, animal majestoso, era símbolo do rei que manda. Jumento, animal de carga, era símbolo do empregado que quer servir. Era símbolo também dos antigos Juizes que todos eles montavam em jumentos ou jegues (       ).

3. Mateus 21,6-7: A ajuda dos discípulos e das discípulas.

    Os discípulos fizeram como Jesus tinha mandado, e tudo acontece conforme o previsto. Eles encontram o jumentinho e o levam até Jesus. Colocam mantos em cima do animal e Jesus monta para iniciar a entrada solene na cidade.

4. Mateus 21,8-9: A procissão se põe em marcha.

    Jesus entra na cidade, aclamado pelos discípulos e peregrinos: "Hosana ao Filho de Davi. Bendito aquele que vem em nome do Senhor”. Na imaginação deles está a idéia do messias glorioso, filho de Davi. Jesus aceita a homenagem, mas com reserva. Aceita ser o messias, mas não o messias glorioso que os discípulos imaginavam. Montado no jumentinho, ele evoca a profecia de Zacarias que dizia: “Teu rei vem a ti, pobre, montado num jumento” (Zc 9,9). Jesus se mantém no caminho do serviço, simbolizado no jumentinho, animal de carga. Jesus ensina agindo. Os discípulos e as discípulas que aclamam Jesus como rei glorioso, devem entender o gesto de Jesus. Devem mudar de idéia e se converter (cf. Mc 1,15)!

4. Mateus 21,10-11: A . entrada solene na Cidade Santa.

    Jesus entra em Jerusalém, capital do seu povo. A cidade fica agitada e se pergunta: “Quem é ele?” Os discípulos, as discípulas e o povo romeiro, vindos da Galiléia, respondem: “É o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia!” Para o povo, Jesus é um profeta, alguém que fala em nome de Deus. Durante toda a manifestação nenhuma autoridade apareceu, nem para acolher, nem para criticar. Ausência que faz prever sombras e tempestades!

 

Quinto Retrato de Jesus

Jesus é Nosso Senhor

“Ele recebe um nome que está acima de todo nome!”

Atos 2,32-36 e Filipenses 2,9-11

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

Para nós, o título mais conhecido de Jesus é “Nosso Senhor”. Quando alguém diz “Nosso Senhor”, todo mundo já sabe que ele está falando de Jesus. Virou nome próprio. A gente usa tanto esse nome que nem pensa mais no seu significado. É como a imagem da cruz. Ela aparece em todo canto, até no Parlamento e na sala do Juiz. Aparece tanto, que a gente nem se lembra mais de que se trata de um homem torturado, condenado à morte por uma sentença injusta e criminosa.

1. Brasil é o país mais católico do mundo e é também o país com a maior injustiça social. Será que Jesus é realmente o Nosso Senhor?

2. O que vem na sua cabeça quando você escuta, ou canta o nome de Nosso Senhor?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

Vamos ouvir dois pequenos trechos da Bíblia, em que se diz que Jesus recebeu de Deus o nome de Senhor! Os dois foram escritos numa época em que o Imperador de Roma era apresentado pela propaganda oficial como o SENHOR do mundo. O texto dos Atos dos Apóstolos traz a conclusão final do primeiro discurso de Pedro no dia de Pentecostes, logo depois da descida do Espírito Santo (At 2,32-36). O outro texto é o final do cântico das comunidades, conservado por Paulo na sua carta à comunidade de Filipos (Filp 2,9-11). Durante a leitura, vamos prestar atenção no que há de comum nos dois textos a respeito de Jesus.

Leitura do texto: Atos 2,32-36  e  Filipenses 2,9-11

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome “Nosso Senhor”:

1. O que mais chamou a sua atenção nos dois textos ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Qual o ponto em comum que os dois textos afirmam a respeito de Jesus?

3. Qual a experiência das Comunidades daquele tempo que está por de trás do título SENHOR dado a Jesus?

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar salmo 146: O verdadeiro retrato de Deus, confirmado por Jesus

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: “Nosso Senhor” é o novo Nome de Jesus

Jesus vivia muito unido a Deus. Em tudo que ele fazia procurava fazer a vontade do Pai. Ele chegou a dizer: Eu a cada momento faço aquilo que meu Pai me mostra o que é para fazer. E dizia: Todos aqueles que como eu fazem a vontade do Pai são meus irmãos e minhas irmãs. Deus é o centro da vida de Jesus. Um Deus acolhedor, amante dos pobres e excluídos. Por isso, o povo gostava de estar perto de Jesus e de escuta-lo. Ele fala de Deus e do Reino. Jesus era a revelação do rosto de Deus. Quem me vê, vê o Pai. Em Jesus, Deus aparece em forma humana, bem perto de nós. Se quiser conhecer a Deus, olhe para Jesus, Jesus de Nazaré. Por isso, os primeiros cristãos deram a Jesus o nome mais querido de Deus que era SENHOR, que era outra maneira de chamar o nome próprio de Deus JAVÉ. Vejamos:

O nome próprio de Deus é Javé ou JHWH. O significado deste nome é descrito no livro de Êxodo (Ex 3,7-15). Deus diz a Moisés: “Vai libertar o meu povo!” (Ex 3,10) Moisés tem medo, finge humildade e diz: “Quem sou eu!” (Gn 3,11). Deus o ajuda a vencer o medo e responde: “Vai! Estou com você! (Ex 3,12). Mas Moisés continua com medo e arruma outro pretexto: ”O povo vai perguntar pelo teu nome. O que é que eu vou responder?” Deus responde repetindo com força o que tinha dito antes: “Estou que Estou!” É como se dissesse a Moisés: “Certissimamente estou com você, disto você não pode duvidar!” Este é o significado que o Nome Javé que comunicar: Deus está conosco! E Deus termina dizendo: “Este é meu nome para sempre e assim quero ser invocado de geração em geração” (Ex 3,14-15). Ao assumir este Nome, Deus afirma que Ele quer ser presença amiga e libertadora no meio do seu povo para sempre.

Aqui se exprime a convicção mais profunda da fé: Deus está no meio de nós. Ele é Emanuel. Deus conosco! Tudo isto se resume nas quatro letras JHWH do Nome que nós pronunciamos como Javé. A Bíblia permite ter dúvida de tudo, menos de uma coisa: do Nome de Deus, isto é, da certeza absoluta da presença de Deus no nosso meio! Ele está no meio de nós! Só no Antigo Testamento o Nome Javé aparece mais de 7000 vezes!

O trágico aconteceu depois do cativeiro da Babilônia. Nos últimos séculos antes de Cristo, o fundamentalismo nascido do medo foi criando uma distância entre Deus e o povo. O nome Javé já não podia ser pronunciado. Em vez disso, diziam Adonai, o que significa Nosso Senhor. Por isso, até hoje, algumas Bíblias traduzem Javé por Senhor. Estes dois nomes, tanto Javé, como Senhor, são, por assim dizer, uma janela aberta, através da qual Deus nos revela o seu rosto e nos atrai para si. O fundamentalismo fechou a janela com uma cortina, impedindo o povo de sentir mais de perto a presença amiga, libertadora e consoladora de Deus. Mas na hora da morte de Jesus, rasgou-se a cortina que separava o Santos dos Santos do resto do templo (Mc 15,38). Jesus abriu de novo a janela e nos revelou o rosto de Deus que nos atrai para si.

Em Jesus Deus nos faz saber que ele é e continua sendo Javé, Nosso Senhor, presença amiga e libertadora no meio do seu povo. No dia de Pentecostes, Pedro revelou a grande descoberta: “Que todo o povo o saiba: Deus fez de Jesus Cristo o Senhor!” O Evangelho de Mateus o diz claramente: Jesus é Emanuel, Deus-conosco! (Mt 1,23) E o cântico citado por Paulo o repete: “Jesus recebeu o Nome que está acima de qualquer outro nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor!” (Fl 2,9-11). Jesus é a prova concreta de que Deus é e continua sendo Javé, presença amiga no meio de nós. Ele é nosso Senhor.

Na segunda metade do primeiro século, os imperadores romanos queriam que todos os adorassem como “Deus e Senhor” (Deus et Dominus). Os primeiros cristãos denunciavam a pretensão imperial e diziam: “O Nosso Senhor é Jesus!” Muitos pagaram com a vida.

 

Sexto Encontro

O Cântico de Maria, a Mãe de Jesus

Em Jesus Deus se mostra fiel às suas promessas aos pobres

Os pobres se alegram e agradecem

Lucas 1,46-56

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

 

Alguém disse uma vez: “Os cânticos são o termômetro das comunidades. Pelos cânticos que as comunidades cantam espontaneamente, você avalia quem elas são e qual a visão que elas têm da igreja, de Deus, de Jesus e da sua missão na sociedade”. Isto vale tanto para as nossas comunidades de hoje como para as comunidades dos primeiros cristãos. Um dos cânticos das primeiras Comunidades é o cântico de Maria, a Mãe de Jesus. Cântico muito antigo, cantado até hoje. Muita gente o conhece de memória. Ele é o termômetro do ambiente de vida das primeiras comunidades cristãs lá da Galiléia, a terra de Maria, e revela qual a visão que elas tinham de Deus, de Jesus e da sua missão. Hoje também surgem muitos cânticos novos que revelam nossa maneira de ser e nossa maneira de conceber nossa missão como cristãos no mundo de hoje. Vamos ver isto mais de perto.

1. Na sua comunidade, quais os cânticos que vocês mais gostam de cantar?

2. Qual a imagem de Jesus que se reflete nos nossos cânticos de hoje? Dê alguns exemplos.

 

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

No Evangelho de Lucas, o Cântico de Maria aparece por ocasião da visita que ela fêz à sua prima Isabel. Depois que as duas mães se saudaram, tiveram uma experiência muito viva das maravilhas que Deus estava realizando em suas vidas. Espontaneamente, Maria canta: “O Senhor fez em mim maravilhas”. O cântico de Maria tornou-se conhecido e era cantado nas Comunidades para ensinar ao povo o benefício que Jesus lhes trouxe. Durante a leitura, vamos prestar atenção no seguinte: “O que este cântico de Maria nos informa sobre Jesus?”

Leitura do texto: Lucas 1,46-55

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o que o Cântico de Maria nos revela sobre o seu filho Jesus:

1. O que mais chamou a sua atenção no cântico de Maria ou de que mais gostou? Por quê?

2. O que este cântico informa sobre Jesus, o filho de Maria?

3. O canto é o termômetro da consciência da comunidade: qual o nível de consciência que transparece neste cântico de Maria?

4. Qual a mensagem que este cântico traz para você sobre Jesus?

 

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar o Cântico de Ana (1Samuel 2,1-10)

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, o filho, no cântico de Maria, sua mãe

O Evangelho de Lucas gosta de imitar o jeito do Antigo Testamento. O Cântico de Maria é uma retomada do cântico de Ana, mãe do profeta Samuel (1Sm 2,1-10). Maria, a mãe de Jesus, representa o povo do Antigo Testamento que reconhece em Jesus a chegada do Novo e, por isso, canta a sua gratidão. Jesus é o Novo que chega; ele realiza a promessa do Antigo que se despede. 

Lucas 1,46-47: Minha alma proclama a grandeza do Senhor

Para entender bem todo o significado do Cântico de Maria, é importante lembrar que Lucas, quando fala de Maria, ele pensa nas comunidades. No Antigo Testamento, o povo de Deus era simbolizado como sendo a Filha de Sião. Maria é a nova Filha de Sião. Ela representa o novo povo de Deus que nasce ao redor e a partir de Jesus. Quando Maria começa a cantar, não é só ela que canta, mas nela e com ela cantam as pequenas comunidades cristãs, cantamos todos nós. Como Maria, as comunidades proclamam a grandeza do Senhor e se alegram em Deus, pois em Jesus e por Jesus, Deus veio realizar as promessas de salvação que animaram a esperança do povo durante séculos. Jesus é o “sim” de Deus a todas promessas do passado (2Cor 1,19-20).

Lucas 1,48: Todas as gerações me proclamam bem-aventurada

Maria proclama a mudança que aconteceu na sua própria vida, “porque Deus olhou para a humilhação da sua serva”. Ela e, depois dela, as comunidades têm consciência das coisas grandes que Deus operou nelas em favor de toda a humanidade: “todas as nações vão proclamar-me bem-aventurada”. Isto acontece assim, não por mérito de Maria nem dos pobres, mas por iniciativa da misericórdia de Deus.

Lucas 1,49-50: O todo poderoso fez grandes coisas em mim

Deus realizou maravilhas em Maria e nas Comunidades. Para vir ao mundo, Deus não pediu licença ao imperador romano, o dono do mundo, mas foi falar com uma moça pobre e humilde, lá em Nazaré, para ela dar o seu consentimento. Ela deu o seu consentimento e, por isso, a Palavra de Deus se fez carne e começou a viver no meio de nós. Os pobres deram o seu consentimento e, por isso, Deus pôde chegar perto e encarnar-se na vida deles, para que eles se tornassem, como diz a profecia de Isaías, a “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6). É esta experiência tão bonita do amor de Deus, que é celebrada no cântico de Maria e das Comunidades.

Lucas 1,51-53: Derruba os poderosos e eleva os humildes

Em seguida, Maria canta a fidelidade de Deus para com seu povo e proclama a salvação que Ele estava realizando. A expressão "braço de Deus" evoca a libertação do Êxodo e indica a força salvadora de Deus. Finalmente, depois de tantos séculos de espera ansiosa, a esperança dos pobres se realizou. Com a vinda de Jesus aconteceu a mudança que tanto esperavam: “dispersou os soberbos de coração, derrubou os poderosos dos seus tronos, elevou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias”. Isto não significa que a mudança fosse apenas uma virada da mesa: os de cima para baixo e os de baixo para cima. Não! Nas comunidades dos pobres as causas das desigualdades e das injustiças começam a ser eliminadas e agora todos e todas poderão conviver na fraternidade, na justiça e na paz.

 

 

Lucas 1,54-55: Em favor de Abraão e sua descendência para sempre

No fim, Maria lembra que tudo isto é expressão da misericórdia de Deus para com o seu povo e da sua fidelidade. Em Jesus se realiza a esperança, suscitada nos pobres pela promessa feita por Deus a Abraão e a seus filhos para sempre. A Boa Nova de Deus veio, não como recompensa pela observância da Lei, mas como expressão da bondade e da fidelidade de Deus às suas promessas.

 

Sétimo Encontro

A poesia sobre Jesus da carta aos Filipenses

Jesus é a força de Deus que se revela na fraqueza dos pequenos

Ter os mesmos sentimentos que animaram Jesus

Filipenses 2,5-11

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

Tem momentos na vida que a gente se sente sem forças. Tudo parece sem sentido. São as horas do desânimo que acontecem na vida de todos nós. São horas meio perigosas, porque a gente corre perigo de, em poucas horas, estragar uma coisa que custou muitos anos de luta e de esforço. Numa hora assim, o que salva a gente é a presença amiga de alguém que nos ajuda a atravessar a noite escura do desânimo. Sobretudo, quando o amigo ou a amiga já passou pelo mesmo problema e soube vence-lo. É o que o apóstolo Paulo fez com o pessoal da comunidade de Filipos, na Grécia. Ele mesmo já tinha passado por muito sofrimento e noites escuras e venceu. Mas desta vez, para animar a comunidade baseou-se não na sua própria experiência, mas no testemunho de Jesus, tal como estava descrito num dos cânticos da comunidade que ele relata na sua carta e que vamos meditar neste encontro. Jesus passou pela noite da morte e venceu. Vamos conversar sobre isto:

1. Você já teve momentos assim de desânimo na sua vida? Como conseguiu sair e vencer? Quem te ajudou?

2. Jesus é para você uma força que te ajuda nos momentos de desânimo? Conte.

 

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

Vamos ouvir um dos cânticos mais antigos  das primeiras comunidades cristãs. Para ajudar seus leitores e leitoras a captar todo o significado do cântico, Paulo lhes oferece uma chave de leitura. Ele diz: “Procurem ter em vocês os mesmos sentimentos que animavam a Jesus!” Vamos ouvir a leitura do cântico e durante a leitura prestemos atenção no seguinte: “Qual o sentimento mais forte de Jesus que se expressa neste cântico?”

Leitura do texto: Filipenses 2,5-11

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome “Filho do Homem”:

1. O que mais chamou a sua atenção na letra deste cântico? Por quê?

2. Qual o ponto central deste cântico? Qual o sentimento mais forte de Jesus que nele se expressa?

3. O que significa “obediente até à morte”?

4. O que este cântico nos informa sobre o significado de Jesus para a vida das comunidades?

 

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, força na fraqueza

Na carta dirigida à comunidade de Filipos Paulo transcreveu a letra de um cântico que todos conheciam de memória (Fl 2,6-11). Ele fez isso para orientar os cristãos como deviam fazer para ter em si os mesmos sentimentos de Jesus (Fl 2,5) e, assim, vencer o desânimo e ser um testemunho vivo de fraternidade.

Quando hoje uma pessoa estudada, um doutor ou doutora, convive com os pobres e se faz igual a eles, o povo comenta: “Ela podia ter uma vida mais distinta, melhor do que esta nossa vida de pobre, mas ela chegou aqui e ficou com a gente o tempo todo. Chegou a entrar na cozinha para lavar a louça!” Certa vez, num encontro sobre saúde, uma senhora comentou: “Aquele doutor chegou a limpar a privada, coisa que até a gente tem dificuldade de fazer para os outros!”

Os primeiros cristãos tiveram uma reação semelhante frente a Jesus. Jesus tinha ressuscitado e estava agora com Deus. Voltou para a casa do Pai, de onde tinha vindo para poder conviver conosco durante 33 anos. A partir desta experiência de Jesus ressuscitado os primeiros cristãos começavam a recordar a vida que ele tinha vivido no meio deles durante aqueles poucos anos lá na Palestina. Jesus era de condição divina. Podia ter levado uma vida diferente. Mas não quis. Ele se fez igual a nós, assumiu a condição de empregado como todos nós. Viveu conosco e, como dizia Pedro, nós pudemos comer e beber com ele. E não só! Ele foi obediente ao Pai em tudo até à morte, e morte de Cruz! Morte de Cruz era morte de marginal, a morte mais desprezada que se podia imaginar. Muito mais do que limpar o banheiro! Por isso, Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome! 

Alguém conseguiu transformar esta experiência a respeito de Jesus em forma de um cântico que Paulo transcreveu na sua carta à comunidade de Filipos. Nesse cântico há alguns pontos que merecem um breve comentário:

Filipenses 2,6: Condição divina, igualdade com Deus

Jesus, igual a nós em tudo, menos no pecado, deixou Deus entrar na sua vida e foi obediente ao Pai, a ponto de poder dizer: “Quem vê a mim, vê o Pai”. Graças à sua obediência tornou-se uma coisa só com Deus.

Filipenses 2,7: Esvaziou-se, tornou-s escravo

Mesmo sendo igual a Deus, Jesus não se prevaleceu disso. Nunca se impôs nem foi prepotente, mas se manteve igual a nós em tudo. Ou melhor, se fez servidor de todos nós. Chegou a dizer: “Não vim para ser servido, mas para servir!”

Filipenses 2,8: Obediente até à morte e morte de cruz

Alguns explicam dizendo que Jesus foi obediente ao Pai que queria a morte do filho como pagamento pela ofensa dos nossos peados. Esta interpretação não é boa. O Pai não quer a morte do Filho. O que o Pai quer é que a gente seja fiel a ele amando os outros filhos dele como nossos irmãos. E isto Jesus fez. E quando os líderes religiosos ficaram incomodados com esta atitude fraterna de Jesus e o perseguiram. Jesus continuo obediente e pagou o preço. Foi morto.

Filipenses 2,9ª : Deus o exaltou grandemente

O melhor comentário desta frase do cântico está na carta aos Hebreus (Hb 5,7-9) onde se diz: “Durante a sua vida terrena, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em alta voz e com lágrimas, ao Deus que podia salvá-lo da morte. E Deus o escutou, porque ele foi submisso. Embora sendo filho de Deus, aprendeu a ser obediente através de seus sofrimentos. E depois de perfeito, tornou-se fonte de salvação eterna para todos aqueles que lhe obedecem”.

Filipenses 2,9b-11: Deus deu-lhe um Nome acima de todo Nome: Jesus é o Senhor

É nesta frase final que se expressa o centro da fé: em Jesus e através de Jesus, Deus chegou novamente perto de nós, revelou a sua vontade de estar no meio de nós. E diz: “Para que ao Nome de Jesus todo o joelho se dobre no céu e na terra e todos confessem que Jesus é o Senhor”. Num círculo anterior já vimos todo o alcance da expressão Senhor. O domínio de Jesus não é dominação a modo dos grandes deste mundo que oprimem e obrigam os outros à submissão. O domínio de Jesus se realiza através do testemunho do amor.

A comunidade fez uma letra e botou música. Até hoje só temos a letra. Pena que não pudemos conservar a música, pois às vezes a música é o melhor comentário da letra. Esta letra, Paulo a usou para orientar a comunidade de Filipos como deviam fazer para ter em si os sentimentos que animaram a Jesus e como ser fraternidade, ser revelação de Deus.

 

Oitavo Encontro

A poesia sobre o Amor na Carta aos Coríntios

Jesus, revelação do amor maior

Prova de amor maior não há...

1Coríntios 13,1-13

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

A Música Popular Brasileira (MPB) tem cânticos muito bonitos com letras de significado profundo que cantam os problemas e as grandezas da vida do povo. Por exemplo, a letra dos cânticos de Gonzaguinha: “É bonita!”, ou de Chico Buarque “A Banda”, ou de Geraldo Vandré: “Disparada” ou “Para não dizer que falei de flores”, e tanto outros. A música popular canta tudo que acontece na vida, mas sobretudo, canta o amor, de mil maneiras! De tato ouvir e cantar , os jovens conhecem a letra de cor e salteado! As primeiras comunidades no tempo do apóstolo Paulo também faziam cânticos que todos cantavam e sabiam de memória. A letra de um deles sobre o amor, cantado nas reuniões, foi conservado na carta de Paulo aos Coríntios. Vamos conversar sobre isto.

1. Você conhece algum canto de hoje que descreve e canto o amor?

2. Estes nossos cânticos te ajudam a aprofundar o amor, a vida e a fé? De que maneira?

 

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

Durante a leitura deste texto, feche os olhos, desligue de tudo e pense em você, na sua comunidade, na sua vida, na sua família e no amor que está em você para com Deus, para com as pessoas da sua família, para com os membros da sua comunidade, para com os pobres. Durante a leitura, deixe que a letra, lida bem devagar, penetre em você, te ilumine e te ajude a fazer um exame de consciência a respeito do amor que te anime por dentro. Se necessário, repita a leitura mais uma vez:

Leitura do texto: a Coríntios 13,1-13

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o que a poesia sobre o amor revela sobre Jesus:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Qual o ponto do texto que te bateu e te fez descobrir alguma falha em você?

3. Qual destes pontos está realizado perfeitamente em Jesus?

4. O que deve mudar no meu modo de pensar sobre Jesus?

 

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus, a revelação do Amor Maior

O testemunho de fraternidade dos primeiros cristãos era o ponto que mais chamava a atenção do povo que chegava a dizer: “Veja como eles se amam!” Os primeiros cristãos viviam em comunidade, tinham tudo em comum, não havia necessitado entre eles. Havia pessoas que se desfaziam de suas coisas para ajudar os outros. Chegaram a fazer uma coleta na Grécia para ajudar os irmãos pobres da Palestina, uma espécie de Campanha de Fraternidade.

A origem desta vivência do amor era fruto da nova experiência do amor de Deus que se esparramou nos corações de cada um. “Se Deus é por nós, quem será contra nós!” Até hoje, esta frase de Paulo impressiona e aparece nos pára-choques de caminhão. Deus se revelou como Pai como Mãe. Portanto, se somos filhos e filhas, temos que viver como irmãos e irmãs. Assim nasce a comunidade, a fraternidade. Para Paulo a experiência do amor de Deus era o poço mais profundo, de onde ele tirava a água para animar sua luta e matar sua sede de amor ao próximo.

Esta experiência de amor é descrita e cantada de muitas maneiras nas cartas de Paulo. Um dos cânticos mais bonitos é aquele conservado na primeira carta aos Coríntios. O que é o amor para Paulo? Aqui, a cabeça não consegue expressar o que o coração sente e vive! Paulo tenta dize-lo com a ajuda da letra daquele cântico da seguinte maneira:

1. 1Coríntios 13,1-3: Se eu na tiver o amor nada sou

*   "Posso falar todas as línguas" (1 Cor 13,1), isto é, posso ter grande poder de comunicação e fazer o anúncio correto da Boa Nova; mas sem o amor, nada sou!

*   "Posso ter o dom da profecia" (1 Cor 13,2), isto é, posso fazer grandes denúncias e animar o povo; mas sem o amor, nada sou!

*   "Posso ter o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência" (1 Cor 13,2), i. é, ser um grande teólogo e ter muita consciência; mas sem o amor, nada sou!

*   "Posso ter toda a fé a ponto de transportar montanhas" (1 Cor 13,2), isto é, posso ter a doutrina certa e uma fé milagrosa; mas sem o amor, nada sou!

*   "Posso distribuir os meus bens aos famintos" (1 Cor 13,3), isto é, posso fazer op-ção pelos pobres e dar tudo a eles; mas sem o amor, nada sou!

*   "Posso até entregar o meu corpo às chamas"(1 Cor 13,3), isto é, posso ser preso e torturado; mas sem o amor, "isto nada me adiantaria"(1 Cor 13,3).

      Todas estas coisas, tão importantes para a vida de uma pessoa ou de uma comunidade, expressam e revelam o amor, mas não o esgotam nem conseguem defini-lo. O amor é um dom que está na raiz de tudo isto mas o ultrapassa! Então, o que é o amor?

      Paulo não responde, mas continua citando a letra do cântico da comunidade que descreve a ação do amor no quotidiano da vida. Nesta letra ele oferece uma chave para cada um avaliar se na sua vida existe ou não este amor. Eis a letra, cuja luz ajuda a andar no escuro, e cuja melodia torna sonoro o silêncio de Deus:

2. 1Coríntios 13,1-3: O amor é um poço sem fundo que não se define

O amor é paciente

o amor é prestativo

não é invejoso

não se ostenta

não se incha de orgulho

não faz nada faz de inconveniente

não procura seu próprio interesse

não se irrita

não guarda rancor

não se alegra com a injustiça

mas se regozija com a verdade

tudo desculpa

tudo crê

tudo espera

tudo suporta

o amor jamais passará”. (1 Cor 13,4-8)

      Foi a redescoberta deste amor gratuito de Deus que revolucionou a vida de Paulo. Antes, ele procurava aproximar-se de Deus e sentir a sua presença, apoiando-se no esforço que ele mesmo fazia para observar a Lei de Moisés. Mas teve que confessar sua incapacidade (Rm 7,14-23). Angustiado, ele se perguntava: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte?” (Rm 7,24). Foi a experiência do amor de Deus que o libertou: “Graças sejam dadas a Deus por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 7,24). Libertado da angústia, ele pôde aproximar-se de Deus e experimentar a sua presença, não por ter observado a lei, mas sim porque Deus, na sua bondade, se aproximou de Paulo e o atraiu. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5,5). Paulo experimentou o que Oséias anunciava: “Eu te atraí com laços de bondade, com cordas de amor” (Os 11,4).  Esta experiência invadiu a vida de Paulo em todos os níveis: cabeça, coração, vontade, espírito, mente, mãos, pés. Invadiu tudo! E ele começou a olhar tudo a partir desta nova experiência: a vida, a história, a Lei, as pessoas, o trabalho, a grande luta, o dia-a-dia da caminhada, a missão, o próprio Deus. A experiência do amor de Deus está na raiz de tudo. “Se Deus é por nós quem será contra nós?”(Rm 8,31)

 

Nono Encontro

Jesus é a Palavra de Deus

Deus criou o mundo pela sua Palavra

Recria o mundo em Cristo e por Cristo

João 1,1-18

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

Tem gente que fala tanto e fala sem pensar: palavras, palavras e mais palavras, sem sentido, sem profundidade, palavras vazias, como folhas secas levadas pelo vento. A Bíblia ensina que Deus criou o mundo falando, dizendo uma palavra. Ele gritou LUZ e a luz começou a existir. Assim, tudo que existe: a natureza, a vida, as pessoas, os acontecimentos, tudo é a expressão de uma Palavra de Deus. A palavra de Deus não é uma palavra vazia! Cada um de nós é uma palavra ambulante de Deus. Deus nos fala através da vida. Mas pelo pecado, a letras do livro da vida se atrapalharam e a gente não consegue mais descobrir a mensagem que Deus nos fala pela vida. Aí, para nós ajudar a entender de novo a vida e os fatos como manifestação de Deus, a Palavra de Deus chegou mais perto em Jesus e se fez gente, igual a nós em tudo, menos no pecado. A Palavra se fez carne e habitou entre nós. Literalmente, se diz: :A Palavra de fez carne e montou seu barraco entre nós”.  Vamos conversar sobre isto:

1. Você já se deu conta de que você é uma palavra de Deus para você e para os outros?

2. Você já se deu conta de que os outros (teus filhos, tua esposa, teu esposo, teus amigos e parentes) são todos e todas uma palavra de Deus para você? Já escutou alguma vez essa Palavra? Como foi?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

O Evangelho de João é diferente dos outros três evangelhos. Mateus, Marcos e Lucas tiram fotografia. João tira raio-X. Ele ajuda a gente a ler nas entrelinhas e a descobrir coisas que a olho nu não se vêem, mas que só a fé enxerga. E o instrumento que ele nos dá para poder fazer essa leitura da vida de Jesus está no prólogo que vamos ler e escutar. Durante a leitura, fiquemos atentos ao seguinte: Qual a ligação entre a Palavra de Deus que criou o Mundo e a Palavra que se fez carne em Jesus.

Leitura do texto: João 1,1-18

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido de Jesus como Palavra de Deus:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Como a Palavra de Deus está presente em todas as coisas criadas?

3. O que significa dizer que Jesus é a Palavra de Deus que se fé carne e morou entre nós?

4. O que deve mudar no meu modo de pensar sobre Jesus?

 

3.

Rezar a Deus em nome de Jesus

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus é a Palavra de Deus

De todos os livros da Bíblia, os capítulos 40 a 66 do livro de Isaías são os que mais falam da ação criadora de Deus. O verbo criar, bará, aparece mais de vinte vezes! Isto revela uma nova compreensão da ação criadora de Deus. O verbo BARÁ (criar) indica uma ação poderosa, que não depende de condições prévias, nem pode ser impedida ou frustrada por qualquer outra força deste mundo, mas age a partir do poder do próprio Deus. O verbo é usado não só para indicar a criação do universo, mas também para indicar a qualidade da ação com que Deus acompanha e cuida do seu povo. Deus cria o universo e a terra; cria também o povo e o Êxodo (Is 43,15). Tudo que existe é fruto da ação criadora através da Palavra de Deus. Por que faziam isto?

No século VI antes de Cristo, o povo de Deus foi levado para o cativeiro e perdeu todos os apoios da sua fé: o templo, o rei, os profetas, o culto, os sacrifícios, os sacerdotes, a posse da terra, tudo. Muita gente dizia: Deus nos abandonou! Não adianta mais crer nele. Perderam a esperança. Mas o grupo pequeno dos discípulos e discípulas de Isaías continuou fiel. Eles reuniam o povo e o ajudavam a redescobrir a presença da palavra de Deus nos fatos da vida no meio daquele caos do cativeiro.

Eles apontavam a natureza e diziam que tudo é fruto da ação da Palavra. Tudo que existe é uma palavra de Deus. Diziam: “Deus fala e as coisas acontecem!” Foi o que o cego disse a Jesus: “Basta o senhor dizer e eu fico curado”. E o que disse o centurião: “Diga só uma palavra e meu filho estará curado!”

A palavra de Deus tem duas dimensões. Ela acende uma Luz, comunica uma idéia. Ela gera uma Força, anima as pessoas. A Luz contribui para clarear nossas idéias, desmascarar os ídolos e quebrar o encanto das falsas ideologias, dando-nos uma visão mais crítica da realidade e uma consciência maior da nossa missão. A Força da Palavra de Deus estimula e anima a criar fraternidade. Sentindo-se acolhidas por Deus, as pessoas acolhem-se mutuamente. É uma experiência que acontece gratuitamente, quase por acréscimo, como o cheiro gostoso que acompanha o perfume quando se abre o frasco.

Quando um artista tem uma inspiração, ele procura expressá-la numa obra de arte. A poesia ou a imagem que daí resulta carrega dentro de si essa inspiração. A inspiração é uma força invisível que corre pelas letras da poesia ou pelas formas da imagem para acender em nós uma luz igual àquela que brilhou dentro do artista. Por isso, as obras de arte atraem e mexem tanto com as pessoas. O mesmo acontece quando lemos e meditamos a Bíblia. O mesmo Espírito ou Inspiração divina que conduziu o povo a escrever o texto, continua presente dentro do fio das letras da Bíblia. Através da leitura atenta da letra, esse Espírito entra em ação e começa a atuar em nós para revelar ou acender em nós a mesma imagem de Deus expressa no texto. Por isso, na descrição da Criação se diz que o espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus fala a palavra LUZ, o espírito entra na Palavra e faz a luz acontecer.

O mundo, as coisas, cada pessoa é uma palavra de Deus. Jesus é a Palavra que Deus pronuncia. Nele Deus nos fala e nele voltamos para Deus. Por isso, Moisés e Elias, os dois representantes do Antigo Testamento resumem tudo dizendo aos discípulos: “Ouvi-o!” E Maria como representante do Antigo Testamento, diz: “Fazei tudo o que ele vos disser!”

Esta palavra de Deus, expressa no mundo e em todas as coisas, finalmente chegou mais perto de nós e se encarnou tomando forma de gente e montou o seu barraco entre nós na pessoa de Jesus.

 

Décimo Encontro

Jesus é reconhecido como Filho de Deus

Tão humano que foi reconhecido como Filho de Deus

Ser humano, acolher e divinizar

Marcos 1,1 e 15,33-39

 

1.

Abrir os olhos para ver Jesus

No tempo de Jesus, chamar alguém de “Filho de Deus” era muito comum. Certa vez, os judeus acusaram Jesus por ele se declarar Filho de Deus. Jesus respondeu: “E o que é que tem? A Bíblia não chama todo mundo de Filho de Deus?” De fato, todo ser humano é filho ou filha de Deus. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Somos o retrato dele no mundo. Muitas vezes, porém, nossa vida não deixa transparecer que a nossa origem está em Deus. E foi exatamente isto que chamou a atenção dos primeiros cristãos em Jesus. Jesus vivia totalmente de acordo com a sua condição de criatura e filho de Deus. Pela sua fidelidade e obediência, Jesus, tornou-se transparente e deixou Deus transparecer na sua vida. “Quem vê a mim, vê o Pai!” Ele deixou Deus reinar em sua vida. Ele era a manifestação plena de Deus. Era isto que os primeiros cristãos queriam indicar quando chamavam Jesus de Filho de Deus.

1. Quando você vê alguém abraçar uma criança e chamá-la “Filha de Deus”, o que vem na sua cabeça? Alguém já te chamou alguma vez “filho de Deus”?

2. Quando você ouve dizer: “Jesus, Filho de Deus”, os olhos da gente espontaneamente vão para cima ou para baixo? Olham para a terra ou para o céu?

2.

Escutar o testemunho dos amigos de Jesus

Chave de leitura.

O Evangelho de Marcos chama Jesus de Filho de Deus duas vezes: uma, bem no começo, na abertura (Mc 1,1) e outra bem no fim, logo depois da morte na cruz (Mc 15,33-39). Vamos ouvir estes dois textos. Durante a leitura, fiquemos com esta pergunta na cabeça: O que o evangelho de Marcos nos quer dizer quando apresenta Jesus como Filho de Deus?

Leitura do texto: Marcos 1,1 e 15,33-39

Momento de silêncio

Perguntas para descobrir o sentido do nome filho de Deus:

1. O que mais chamou a sua atenção no texto ou de que você mais gostou? Por quê?

2. Quem, nas duas vezes, chama Jesus de Filho de Deus? Qual dos dois tinha ais condições de conhecer Jesus?

3. Qual o significado da exclamação do Centurião que era um pagão?

4. O que deve mudar no meu modo de pensar sobre Jesus?

3.

Rezar a Deus em Nome de Jesus

 

* Preces: O que o texto nos faz dizer a Deus?.

* Rezar ou cantar um salmo

* Terminar com um Pai-nosso e um hino apropriado

Subsídio: Jesus é Filho de Deus

Estamos no última Círculo Bíblico para meditar sobre o título Jesus, Filho de Deus. Até agora meditamos os seguintes nomes e títulos: Filho do homem, Servo de Deus, Irmão mais velho, Messias, Nosso Senhor, Sabedoria de Deus, Palavra de Deus, Caminho, Verdade e Vida.

Foi através da janela de todos estes nomes, títulos, poemas e imagens, que os primeiros cristãos olhavam para Jesus e que transmitiam para os outros o significado de Jesus para as suas vidas:

o nome Filho do Homem se caracteriza pela humanidade;

o título Servo de Deus, pelo serviço;

o apelido Irmão mais velho, pela acolhida aos excluídos.

o título Messias afirma que Jesus é o sim do Pai a tudo que foi vivido no AT

o nome Senhor revela o Reino presente em Jesus e a presença certa e absoluta de Deus

o Cântico de Maria afirma a realização das promessas em Jesus.

a Poesia dos Filipenses acentua a total entrega de Jesus no serviço aos irmãos

a Poesia dos Coríntios mostra a força transformadora do amor revelado em Jesus

a expressão Sabedoria de Deus afirma que Jesus está presente em tudo desde a criação

a afirmação Palavra de Deus expressa a certeza de que em Jesus Deus nos fala.

Estes nomes, títulos, imagens e qualificações são os traços principais por onde Deus nos revela o seu rosto em Jesus e nos atrai para si. Eles indicam o caminho mais antigo para nós voltarmos para Deus e vivermos o essencial da Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe. Todos juntos, eles nos ajudam a entender que Jesus é o Filho de Deus.

Marcos começa e termina o seu evangelho dizendo que Jesus é o Filho de Deus!  Ao ouvir este título no início do evangelho (Mc 1,1), o leitor, instintivamente, olha para o alto, para o céu, onde mora Deus. Mas durante a leitura do evangelho de Marcos, acompanhando Jesus, desde a beleza do lago na Galiléia até à tristeza do Calvário em Jerusalém, o leitor, a leitora, pouco a pouco, vai baixando a cabeça para olhar o chão. E no fim, na hora da morte, morrem as idéias e os critérios com que tentava entender e enquadrar a imagem do Filho de Deus.

No Calvário, estamos diante de um ser humano torturado, excluído da sociedade, condenado como herético e subversivo por três tribunais: religioso, civil e militar. Ao pé da cruz, pela última vez, as autoridades religiosas confirmam a sentença: trata-se realmente de um rebelde fracassado, e o renegam publicamente (Mc 15,31-32). Pendurado na cruz, privado de tudo, Jesus grita “Eli, Eli!”. O soldado pensava: “Ele está chamando por Elias!” (Mc 15,35) Os soldados eram todos estrangeiros, mercenários. Não entendiam a língua dos judeus. O homem pensava que Eli fosse o mesmo que Elias. Assim, pendurado na cruz, Jesus está num isolamento total. Mesmo que quisesse falar com alguém, não teria sido possível. Ninguém o entenderia. Seria o mesmo que falar português para quem só entende inglês. Ele ficou totalmente só: Judas o traiu, Pedro o negou, os discípulos fugiram, as autoridades zombam dele, os transeuntes caçoam, e nem a língua que ele fala serve mais para se comunicar. As mulheres amigas tinham que ficar de longe, observando, sem poder fazer nada (Mc 15,40). Isolado, sem qualquer possibilidade de comunicação humana, Jesus se sente abandonado até pelo Pai: “Meu Deus! Meus Deus! Por que me abandonaste?” (Mc 15, 34). E soltando um grito, ele morre!

É assim que morre o Messias Servo! Foi este o preço que Jesus pagou pela sua fidelidade à opção de seguir sempre pelo caminho do serviço para resgatar seus irmãos e suas irmãs, para que, de novo, pudessem recuperar o contato com Deus e viver na fraternidade. Mas foi exatamente nesta hora da morte, a hora em que tudo desmoronava, que um novo sentido renasceu das cinzas. A morte de Jesus foi uma vitória! Aquela sua obediência radical até à morte, a morte de cruz, no total abandono de uma Noite Escura sem igual, fez explodir as amarras que escondiam a sua identidade. A cortina do templo, símbolo do poder que condenou Jesus, rasgou de alto a baixo. O sistema que isolava Deus no Templo, longe da vida do povo, estava encerrado. O centurião, um pagão, que fazia a guarda, faz uma solene profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era filho de Deus!” (Mc 15,39) Ele descobre e aceita o que os discípulos não foram capazes de descobrir e de aceitar, a saber, reconhecer a presença do Filho de Deus num ser humano crucificado

Quem quer encontrar, verdadeiramente, o Filho de Deus, não deve procurá-lo no alto, num céu distante, mas deve olhar ao seu lado, para o ser humano excluído, torturado, desfigurado, sem beleza, e para aqueles e aquelas que, como Jesus, doam sua vida pelos irmãos. É lá que o Deus de Jesus se esconde, se revela e nos atrai, e é lá que ele pode ser encontrado. É lá que está a imagem desfigurada do Filho de Deus, dos filhos e filhas de Deus. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!”